Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

Volatilidade do preço das matérias-primas – por Joahnne Buba, Maxime Liegey - 3

(Continuação)

 

A financeirização destes mercados derivados, o carácter global do aumento dos preços bem como a forma desta evolução de preços (um aumento repentino dos preços seguido de uma brusca e abrupta descida ) relançaram o debate sobre a regulação dos mercados financeiros, supostos em parte responsáveis pela volatilidade dos preços. Em 2008 e 2009, a CFTC por conseguinte lançou uma série de consultas de peritos, conduzindo no final à um  endurecimento das regras nos mercados. Os mercados de produtos derivados na Europa, de menor maturidade, ainda não têm sentiram  o afluxo maciço dos fundos indexados. Mas  a Europa está em atraso sobre a regulação dos seus mercados, em termos de transparência e de acompanhamento das transacções. A possível “ bolha especulativa”, bem como o report de certos  fundos indexados nos mercados a prazo europeus na sequência do endurecimento da  regulação  imposta pela CFTC, fazem da regulação destes mercados uma  verdadeira prioridade.

Os fundamentais permanecem a explicação mais plausível da volatilidade das cotações

Os mercados físicos do petróleo e as matérias-primas  são caracterizadas por uma elasticidade de curto prazo  muito fraca  tanto do lado da oferta como do lado da  procura: a oferta e a procura no mercado  não reagem de maneira significativa  à variação  do preço a não ser quando este varia brutalmente, o que implica que um desequilíbrio momentâneo no  mercado tem tendência a reflectir-se em primeiro lugar sobre os preços e somente depois é  se reflecte sobre as  quantidades uma vez que estas não se ajustam instantaneamente para estabelecer um novo equilíbrio.

1. O mercado do  petróleo tem contudo características próprias ligadas, por um lado,  à duração temporal dos ciclos de investimento e, por  outro lado,  à tendência natural do mercado de concentração oligopolística se  abastecer  durante os períodos excedentários: estes factores concorrem para explicar que “aí há sempre ou  petróleo a mais  ou petróleo a menos”[1] . Assim, embora a evolução de longo prazo da cotação  do petróleo siga  o custo marginal de extracção, aparecem periodicamente fortes flutuações, devido à presença de uma forte  procura que se depara  com uma oferta constrangida e que  dispõe de fracas capacidades de ajustamento.

2. No que respeita aos mercados de produtos agrícolas, a volatilidade é também estruturalmente importante.

A rigidez da procura e as antecipações imperfeitas dos agentes conduzem à existência de um  ponto de equilíbrio instável: uma força de ajustamento  (ligado à aversão ao risco do produtor ou ao constrangimento de liquidez do agricultor)  leva a que  o preço se desloque para um ponto de equilíbrio estável. Observam-se então oscilações caóticas. Assim, os recentes acontecimentos de 2007 e 2008 poderiam explicar-se em parte por um choque de procura  (aumento dos consumos nos países emergentes e da produção de agrocombustíveis no mercado americano) ligado a  um choque de oferta (numerosas secas ou inundações). O efeito destes choques sobre os preços foi acentuado pelo nível diminuto das existências e pelos movimentos  havidos nos mercados derivados. A origem e a amplitude deste aumento repentino das cotações situa-se  igualmente em  diversos factores, como a desvalorização   do dólar e as políticas proteccionistas dos diferentes Estados . O peso relativo destas variáveis explicativas depende das características dos mercados estudados (dimensão do mercado, concentração, interesse geoestratégico do produto alimentar considerado, etc.).

De acordo com certos estudos empíricos[2] e interessando-se mais sobre o caso do petróleo, uma parte do crescimento da volatilidade do preço do petróleo é imputável à diminuição das elasticidades-preço[3] tanto da procura  como da oferta de petróleo desde meados  dos anos 1980.

. do lado da oferta, os países da OPEP seguiram uma estratégia de limitação da expansão das capacidades de produção[4] . Depois do malogro da gestão dos excedentes pela  OPEP que culminaram na quebra abrupta das cotações cursos  e da saída  em 1986 da Arábia Saudita da Organização, os índices mostram que os países produtores, em primeiro lugar a Arábia Saudita, desde os anos 1990,  travaram a expansão das capacidades de produção  reduzindo os investimentos de exploração.

. do lado da procura, o conteúdo em petróleo deslocou-se, nos países da OCDE, para modos  de consumo “cativos” do petróleo, ou seja a oferecerem  poucas possibilidades de substituição para outras energias (transportes).

 

Há autores que  aliás mostraram [5] que o essencial do aumento da cotação do petróleo de 2003 para 2008 pode ser imputável ao ciclo de actividade mundial: o crescimento sustentado da procura , em particular por parte dos países emergentes, foi confrontado com uma oferta estagnante que dispõe de  pouca de margem de operação para se ajustar à procura. De acordo com certos estudos, não se pode excluir, a médio prazo, a retoma económica mundial ira para isso também contribuir, a possibilidade de um novo aumento das cotações  do petróleo [6]

 

Um desenvolvimento dos mercados financeiros que pode aumentar a volatilidade dos preços, mesmo se estes não são a principal  causa

A forte correlação entre o volume das transacções nos mercados derivados e o aumento dos preços de 2007-2008 levou certos observadores a acusar estes mercados de  serem a origem  de uma bolha especulativa. Movimento especulativo nos mercados à prazo? O objectivo  principal de transacções de futuros sobre as matérias primas é facilitar a transferência de risco dos agentes que procuram cobrir-se contra as flutuações de cotações (“hedgers” em inglês, ou ainda os agentes ditos “comerciais”, cuja actividade implica um interesse ligado à compra ou à  venda de quantidades físicas de matéria prima) para agentes prontos a assumir este risco de flutuação, mediante um prémio de risco; estes últimos são designados correntemente pelo termo “especuladores” (“speculators” em inglês, ou ainda agentes ditos “Não comerciais”, ou seja agentes que não têm nenhum interesse na  detenção final dos bem físicos subjacentes nas transacções ).  Estes são indispensáveis ao bom funcionamento do mercado, dado que fornecem a liquidez, condição sine qua non de um mecanismo adequado de formação dos cursos por interacção de uma multidão de agentes que dispõem de certa informação no mercado. Os preços futuros bem como os  preços spot, preços do mercado à vista antecipados, reflectem então as antecipações dos agentes relativas aos fundamentais do mercado [7] (oferta e procura em termos físicos ), ou seja, reflectem  a informação de  que o mercado dispõe relativamente  aos fundamentais.

 

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira em 19/02/2011 às 00:50
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