Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Aos escrevinhadores de diários

Carla Romualdo

O leitor mantém um diário? Se não o faz nem nunca o fez, nem sequer numa remota adolescência alfinetada pela compulsão confessional, sugiro-lhe que fique por aqui na sua leitura. Ficaremos amigos, como sempre, e eu não lhe farei perder o tempo que decerto lhe escasseia.
Mas se dedica, ou já o fez, algum do seu curto tempo a um diário, como outros o fazem à aquariofilia ou ao ginásio ou à meditação transcendental, venha daí comigo que eu gostaria de saber que pensa disto.


Se tudo, nos tempos que correm, deve ter uma finalidade, para não dizer uma utilidade, de que serve, diga lá, escrever um diário? Corresponde a uma catarse? Isso recorda-me um conto infantil cujo título já esqueci, no qual alguém aliviava o peso de um segredo abrindo um buraco e confessando o que sabia para o seu interior. Em seguida tapava novamente o buraco mas, como o leitor adivinha, alguém o reabria mais tarde e a voz que havia gritado lá para dentro, ecoava, repetindo o segredo, que assim deixava de sê-lo.

Não, um diário deve ser mais do que isso, não acha? Nas suas entradas, concisas ou barrocas, assim o imponha o estilo do seu autor, o diário descreve a paisagem dos dias e retrata esse autor por instantes despojado das máscaras quotidianas, e em trânsito, a caminho de algo que ainda não sabe o que será, ignorante das voltas que o caminho lhe reserva, mas cada vez mais habilidoso a traçar mapas de percurso, capaz de recordar e reflectir sobre os locais por onde foi passando.

Dizia Miguel de Unamuno que nas suas leituras, e ao contrário do que acontece com a maioria dos leitores, apenas sublinhava as passagens com as quais não estava de acordo por serem essas as que o estimulavam a pensar. Às outras, aquelas com que concordava, de nada valia destacar porque já as conhecia. De certa forma, sublinhar o que era coincidente com as suas opiniões seria um gesto estéril, não traria mais do que o momentâneo conforto de ver reforçada a sua opinião. Quem o conta é Fernando Savater, numa compilação de ensaios recentemente publicada, “La Música de las Letras”.

É certo que nem sempre os sublinhados correspondem às ideias com as quais estamos de acordo. Frequentemente correspondem, isso sim, a ideias que nos surpreendem, a pontos de vista a que não chegaríamos sozinhos e com os quais nos deparamos como iluminações inesperadas. Correspondem a visões do mundo que a intuição nos diz que teríamos sido capazes de alcançar mas que não se haviam maturado o suficiente dentro de nós.

E ocorre-me, caro colega, que os diários são isso mesmo, uma forma de ir fazendo sublinhados na vida, apontando, nessa espécie de grande diário de bordo, o que se resgata dos dias, tanto o que dilacera como o que vivifica, e descrevendo a cada instante dessa experiência como se vai configurando o mundo quando visto pelos nossos olhos.

Cada instantâneo que fazemos ficará aí, disponível para a futura consulta que nos deixará arrepiados ou enternecidos com esse retrato. Um divertimento dos diaristas não é, afinal, confessemos agora que estamos entre iguais, ir recordar quem éramos, que fazíamos, como sintetizávamos o momento presente nesse mesmo dia, de, digamos, 2, 7, 10 anos atrás? 

Essas pequenas efemérides comezinhas, pessoalíssimas, que vão dando um sentido particular à vida de cada um e abrirão caminho ao júbilo que só os escrevedores de diários entendem, o de descobrir o nosso rosto de ontem e de hoje, o rosto que teremos amanhã, e no qual se reflectem as tristezas que se foram esmaecendo , as alegrias que serão eternas porque foram escritas. 
Não foi por isso, afinal, que nos fizemos escrevinhadores de diários?
publicado por CRomualdo às 16:30
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Domingo, 16 de Maio de 2010

Manuel Fernandes Laranjeira



António Sales

O homem só chega à verdade pelo caminho da dúvida, escreveu Manuel Laranjeira no artigo “Mocidade Idealista”. Eis como é diferente a filosofia deste pensador do início do século XX de políticos portugueses do início do século XXI. O neo-liberalismo económico e globalização parecem guardar em si todas as virtudes como se tudo já tivesse sido pensado, dito e experimentado. Essa infalibilidade não tem sido uma característica dos portugueses que viveram (e vivem) na dúvida das suas capacidades e qualidades. Salvo casos de afirmativa personalidade de quem “raramente se engana e nunca [tem] dúvidas” ou, como Salazar afirmou num discurso de posse na Sala do Risco, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, o português é dotado de constantes interrogações sobre a sua energia e firmeza em desafiar o futuro.

Foi este o caso do escritor Manuel Fernandes Laranjeira, idealista marcado pelos choques com a realidade, sobretudo com a realidade triste de Portugal, característica dessa época (mas alguma vez a realidade portuguesa deixou de ser triste?). Indivíduo carregado de dúvidas sobre as quais reflectiu com lucidez e inteligência em muitos dos seus escritos, porque o idealismo não o impediu de ser um ensaísta dotado de lógica analítica. Todavia, sobre muitas dessas dúvidas não chegou à verdade, nem podia já que um século depois ainda persistem. E das verdades a que chegou foram bastantes as cruéis que espalharam a viscosa baba do desencanto.

Manuel Laranjeira é um dos escritores que melhor representa o pessimismo lusitano do início do século XX, cuja correspondência com os amigos é bem mais estimulante de ler do que o Diário Intimo. Por aqui vagueia o tédio epicurista, o seu permanente descontentamento face à vida traduzido na indolência nata de um sentimento próximo da tragédia. Ao “Diário” não escapa, como a Pessoa não escapou muitos anos mais tarde, a sensaboria medíocre do seu romance com Augusta que terá contribuído para o seu estado depressivo até porque com as mulheres tinha tendência para o chinelo.

D. Miguel Unamuno, amigo de Laranjeira e por aquele admirado, encontrou nele um representante do que chamou a “alma trágica” de Portugal representada pelo suicídio de alguns dos nossos intelectuais. Aos 27 anos, já depois de terminado o seu curso de medicina, o autor de “Dor Surda” fala da “angústia suicidária”. Essa angústia não o impede de desenvolver uma dramaturgia social (“Amanhã” e “Às Feras”), todavia dolorosa, e o ensaio em termos de uma lógica analítica capaz de colocar de lado aspectos sentimentais. Vive uma sucessão de amores frustrados e a amargura da solidão profunda e perversa é também potenciada pela componente física de um acumular de doenças fatais, como a sífilis medular e a tuberculose de que morre uma irmã e um irmão. Os acontecimentos da sua vida encaminham a sua personalidade literária e de pensador para um decadentismo romântico que viria a contribuir para a tragédia suicida muitas vezes sugerida na sua correspondência aos amigos. Não foi exclusivamente a angústia da sua indiscutível personalidade psicótica a culpada mas também o desencanto e a dor espiritual e física. Sofreu por si e por quanto ia assistindo à sua volta. A sua alma sensível habitava um corpo solitário minado pelo tédio e pela descrença de um homem que “sente um desânimo infinito”.
No Outono de 1911 agrava-se o estado de saúde do escritor acentuando todo o conjunto de dúvidas verdadeiras e verdades duvidosas que acabam por levá-lo ao suicídio, dando um tiro na cabeça aos 33 anos, nas areias da praia de Espinho, no dia 22 de Fevereiro de 1912. Nascera a 17 de Agosto de 1877 no lugar de Vergada, freguesia de S. Martinho de Moselos, Vila da Feira.


Consulta: “Obras de Manuel de Oliveira” – I e II volumes – Edições Asa (Porto) – Abril 1993
publicado por Carlos Loures às 10:00
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