Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

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Manuela Degerine

Capítulo CXVII

Regresso de Santiago de Compostela

Surpreendo-me no dormitório: os radiadores estão ligados. Não esperava tamanho desvelo nesta instituição. Adormeço. Porém, passada uma hora, sinto-me gelada. Levanto-me, toco no radiador: está frio. Ah... Isto já não me surpreende.

Não consigo voltar a adormecer. Tenho frio. Decido ir, às escuras, tentando não fazer barulho, à mochila, procurar a camisola das fibras tecnológicas e, quase de madrugada, ainda ponho o blusão da D. Graziela por cima do saco-cama. Acabo por dormir.

O movimento no dormitório recomeça por volta das seis horas. Os espanhóis do telemóvel também partem hoje e, como deixaram o carro em Tui, seguimos o mesmo itinerário. Descemos à cave para o primeiro pequeno almoço, encontramos o espaço encerrado com uma cortina de ferro; o que tão-pouco me surpreende.

Abandono a vara de eucalipto num receptáculo de guarda-chuvas onde, antes de mim, muitos peregrinos deixaram as suas, constituindo deste modo um feixe de paus; o pormenor mais humano e comovente deste inóspito seminário. Paus que percorreram tantos quilómetros, sondaram poças, absorveram transpiração, afastaram cães, evitaram quedas, polidos no contacto com as mãos, tortos pelo peso que aguentaram... Comparados com estes paus, o que são os bordões turísticos? (Um acessório para a National Geographic.)

Sérgio quer apanhar o autocarro para Finisterra; regressará caminhando. Seguimos juntos para a rodoviária. Junto-me aos três espanhóis e a duas raparigas encontradas a partir de Padrón, as quais viajavam de bicicleta; estes autocarros transportam os velocípedes. Despeço-me de Sérgio: o meu companheiro de aventuras.

E começamos uma viagem ao contrário. Acelerada: percorremos em minutos vários dias. Por aqui passámos ontem, além é o albergue de Pontevedra, atravessamos a zona industrial do Porrinho... (Uma ou outra vez, avisto caminhantes: quem me dera acompanhá-los.) Chegamos a Tui. Despeço-me dos últimos companheiros.

- Ah, lembrar-nos-emos do episódio cómico do telemóvel!

Adeus episódios cómicos e picarescos. Esta viagem teve um pouco de tudo. Adeus, adeus... caminhantes.

Adeus Caminhos de Santiago.
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publicado por Carlos Loures às 10:00
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Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo LXXXIV

Vigésima primeira etapa: de Valença ao Porrinho (continuação)


A partir de Tui contamos com mais esta facilidade: o caminho é assinalado através de marcos quilométricos que indicam a distância até Santiago de Compostela.

Entramos na cidade, chegamos à catedral. Vemo-nos perante uma estrutura compacta, pormenorizamos a fachada e o portal românico, depois poisamos as bagagens, visitamos o museu, com as demoras que merece, observamos o interior da catedral, subimos ao terraço, espreitamos do miradouro... Avistamos algumas casas em ruínas: sintoma funesto. Na catedral encantam-nos as representações do céu, do inferno, do purgatório e dos limbos... Uma imagem de Santiago lutando com os sarracenos recorda-me: é o santo da reconquista.

Até à crise de 1383-1385, os portugueses invocavam Santiago, porém a partir daí, sobretudo nas lutas com Castela, passaram a invocar S. Jorge: Santiago era o protector dos inimigos. Terá isto contribuído para o esquecimento da peregrinação jacobeia, juntando-se aos factores que, por toda a Europa, causaram tal declínio? Nos textos lidos, a partir do século XVI, encontro com mais frequência a palavra romeiro do que a palavra jacobeu. Romeiro ganhou, a pouco e pouco, o sentido de peregrino, provando ser a peregrinação a Roma mais frequente do que a Santiago.

Descemos umas escadas, passamos pelo Túnel das Clarissas, continuamos na direcção do rio. Saímos de Tui por um caminho agradável, passamos por uma igreja e um cruzeiro e, mais adiante, ao lado de uma ponte medieval... O céu cobre-se de lã cinzenta. Choverá?... Caminhamos à beira de uma estrada, na qual todavia não circulam demasiados carros e, no ponto quilométrico 109.278, alcançamos outra mais estreita e sossegada, que nos conduz enfim a um caminho. Atravessamos uma pequena mata. Almoçamos na clareira de S. Telmo. Cai uma chuva miudinha.

No percurso através de Tui não encontrámos bom pão; resta porém, a cada um de nós, um pouco de fruta e de pão com nozes. Compartilho com o meu companheiro de viagem uma barra de proteínas; ele oferece-me uma dose de mel. A vantagem de comermos os restos é prosseguirmos agora com as mochilas mais leves.

Prolongamos a conversa começada no caminho para Barcelos. Os projectos. As amizades. As leituras. O que observamos. As dificuldades do caminho. A chuva que começa a cair... (Trago dentro da mochila a roupa molhada mas, por enquanto, é evidente, não posso pendurá-la a secar.)

Hoje é o quarto dia que em caminhamos juntos. No que me toca, gosto de caminhar sozinha, de seguir no meu ritmo, de me concentrar na paisagem; indo acompanhada, disperso-me, sem dúvida, mais um pouco. Por outro lado, uma companhia reduz os riscos: ser atacada ou cair e não poder chamar os socorros. Ambas as situações trazem vantagens e inconvenientes. Para além disto, um encontro é uma aventura humana – sempre única – e, para mim, o contacto com habitantes ou caminhantes no Caminho de Santiago não conta menos do que as paisagens, por isso sentia-me muito contente caminhando sozinha porém, tanto com Maria como com Sérgio, aprecio igualmente caminhar acompanhada. (Incomoda-me um pouco que agora, por sermos um homem e uma mulher, os outros caminhantes nos interpretem às vezes como um casal). Em contrapartida, tendo enviado a Maria várias mensagens que não obtiveram resposta, interrogo-me sobre a validade dos encontros neste mundo paralelo; para a vida verdadeira transitarão apenas as experiências fundamentais. Mas que importa?.. A minha vida resulta da interacção de tudo quanto vivo e, por agora, ignoro se é ou não fundamental caminhar, neste instante, na direcção do Porrinho.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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