Sábado, 25 de Junho de 2011

O custo de nada fazer - por Michael Linden. Estimar os custos decorrentes da situação de pobreza na infância induzida pela recessão

Nota do editor: Um erro a que o Prof Julio Marques Mota é alheio, levou à publicação da segunda parte do texto ontem (ver aqui). Peço desculpa ao autor e aos nossos leitores.

Luis Moreira


1ª parte

 

SÍNTESE

 

Os Estados Unidos estão agora numa situação em que muitos prevêem que será uma recessão muito grave. A turbulência económica deste tipo é susceptível de ter consequências de longo alcance que não estão pois limitadas a um futuro imediato. As recentes estimativas são de que, em resultado da desaceleração económica, cerca de  2,6 a 3,3 milhões de crianças irão cair  numa situação de pobreza. Permitir que estas crianças caiam na situação de pobreza irá levar a que se crie um obstáculo significativo a longo prazo para a economia americana. De facto, um acréscimo de 3 milhões de crianças às fila dos "pobres ", significaria uma perda económica global de pelo menos 1,7 milhões de  milhões de dólares durante a vida dessas crianças. Isso equivale a uma perda anual de cerca de 0,27% do PIB, ou seja de 35 mil milhões de dólares por ano.

 

Esta análise é baseada em estimativas anteriores dos custos agregados da pobreza na infância, incluindo os efeitos da pobreza infantil relativa à redução dos ganhos durante a vida e aos custos em saúde. Especificamente, os estudos sugerem que as crianças que passam  mais da metade de sua infância em situação de pobreza vêm a ganhar, em média, 39% menos que o  rendimento mediano. Além disso, uma criança pobre perde cerca de um quarto de milhão de dólares de "qualidade em custos de saúde" ao longo de sua vida. Ao agregar estes efeitos de longo prazo dos milhões adicionais de novas crianças pobres podemos obter uma estimativa inicial dos custos económicos ao permitir que este volume adicional de crianças se venham a tornar crianças pobres durante esta recessão.

 

Finalmente, por causa das consequências negativas que resultam da pobreza na infância serem   particularmente graves para as crianças que passam um grande número dos  seus primeiros anos em situação de pobreza, é importante investigar se a pobreza induzida pela  recessão  é persistente ou "apenas" temporária. Uma análise dos dados do estudo do painel da dinâmica dos rendimentos revela que  mais de metade das crianças que caem na pobreza durante as recessões tendem a permanecer em situação de pobreza pelo menos durante algum tempo  depois do fim da recessão. Na verdade, cerca de um quarto das crianças que sofrem de pobreza induzida pela recessão vai gastar pelo menos metade do seu tempo de infância restante em situação de pobreza.

 

Porque a pobreza induzida  pela  recessão é, pelo menos, bastante  persistente entre as crianças, e porque sabemos que o alongamento da situação  de  pobreza durante a infância leva a custos económicos no longo prazo, podemos concluir que existe uma material e  comensurável  vantagem  económica  para agir agora , de modo a evitar que dispare a taxa de pobreza infantil. No fundo, se formos capazes de simplesmente manter a actual taxa de pobreza infantil, a economia americana irá beneficiar de pelo menos 1,7 milhão de milhões de dólares durante  as próximas décadas.

INTRODUÇÃO

Recentemente, o National Bureau of Economic Research calculou que a economia americana deixou de crescer e que caiu em recessão no  início em Dezembro de 2007.  Isto significa que vinha a passar  por uma contracção a nível da economia  durante mais de nove meses, mesmo antes do colapso do Lehman Brothers ter provocado uma  crise aguda. Agora, cerca de um ano depois de ter entrado em recessão sem se ver claramente  o  fim do túnel, o governo federal centra a sua atenção na  tentativa de simultaneamente acalmar os mercados financeiros agora nervosos e de impulsionar o conjunto da economia com um amplo pacote de estímulos orçamentais. Grande parte da
discussão em torno de um programa de potenciais gastos do governo americano  para melhorar a economia tem estado concentrada  em investimentos que forneçam  simultaneamente um impulso imediato e preparem  o caminho para que haja mais crescimento económico a  prazo.

 

Aqui tem havido pouca discussão, no entanto, sobre o impacto desta crise económica sobre o desenvolvimento a longo prazo do mais importante recurso  de que dispõe a  nossa nação: o seu capital humano.

 

Não há dúvida de que todas as recessões, mesmo as menos severas do que a que  estamos agora a sofrer , têm um impacto comensurável sobre a força de trabalho actual.  Naturalmente, as recessões estão associadas com um aumento significativo nas taxas de desemprego a partir das quais se  leva  geralmente, vários anos a recuperar. O aumento do desemprego significa uma perda de rendimento e mais ainda de perda de experiência.

 

Por exemplo, há indícios de que a economia ainda está a sofrer de uma perda  de rendimentos   devido a que durante a recessão os recém-licenciados  terem vindo recentemente para o mercado de trabalho e terem encontrado  uma mercado muito em baixa relativamente aos níveis de formação de que eram portadores .Os prejuízos, esses podem levar uma década a recuperar  .

 

Mas há um outro aspecto nas  recessões que  é  muitas vezes  ignorado, e que é o impacto a longo prazo sobre o crescimento económico que decorre do aumento da pobreza na infância que sempre acompanha uma prolongada  recessão económica. De acordo com um relatório recente divulgado pelo Center on Budget and Policy Priorities    (CBPP),  as três últimas recessões viram aumentar significativamente a pobreza infantil. Isso não é surpreendente dado que os elementos mais vulneráveis da sociedade são geralmente aqueles que são os mais atingidos e durante muito tempo; e as crianças claramente fazem parte desta categoria. Na recessão do início dos anos 80, por exemplo, três e meio milhões de crianças caíram na situação de  pobreza, levando a taxa de pobreza infantil a alcançar o espantoso valor  de 5,9 pontos percentuais, ou seja um aumento de cerca de 36% sobre o nível precedente. As mais recentes recessões têm trazido com elas, embora de forma  menos grave, o aumento da
situação de  pobreza infantil, com cerca de 2,6 milhões de crianças a caírem em situação de  pobreza durante a recessão do início dos anos 90, e 1,7  milhões durante a recessão que começou em 2001.

 

Usando as estimativas de aumento do desemprego e aplicando a relação entre  as taxas de desemprego e as  taxas de pobreza infantil a partir das três últimas recessões, o Center on Budget and Policy Priorities (CBPP) chega à conclusão de que na  actual conjuntura económica  a recessão vai levar a mais  crianças pobres,  entre 2,6 a 3,3 milhões de novas crianças em situação de  pobreza .

 

O custo económico da pobreza

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

O custo de nada fazer-A persistência da pobreza induzida pela recessão - por Michael Linden, The Cost of Doing Nothing

continuação

 

SAÚDE

De modo a poder estimar os custos com a saúde que resultam da situação de pobreza na infância, Holzer calcula dois custos distintos:  aumento directo das despesas em  saúde resultantes da  situação de  pobreza e diminuição  do  "capital em saúde". Holzer  calcula que os custos da situação de  pobreza na infância para o país são  de cerca de  26 mil milhões  por ano, ou seja,  cerca de 0,2% do PIB, em  despesas adicionais de saúde, assumindo uma taxa de pobreza nas crianças  de apenas 15%. No entanto, analisando estes custos , estes são os que resultam da redução da esperança de vida, de  uma maior incidência de doença grave e geralmente de   uma  menor qualidade da saúde. De acordo com uma  análise da literatura mais importante sobre esta matéria , Holzer et al., concluem  que  estes custos podem aproximar-se  de um quarto de milhão de dólares,  por criança, ao longo da sua vida.                                                                                                                                                

 

Estimando-se que 600 mil crianças nascem na situação de  pobreza todos os anos  (aqui, de novo, assume-se uma taxa de pobreza de 15%), Holzer  calcula que esta diminuição do  capital  de saúde representa  uma perda anual de 149 mil milhões de dólares, ou seja,  cerca de 1,1% do PIB. Para os nossos objectivos, podemos considerar  3 milhões de crianças adicionais vão cair na situação de pobreza durante esta recessão como "recém-nascidos", que vão  agora sofrer ao longo da sua vida, as  consequências de terem vivido numa situação de pobreza durante a sua infância. 

 

Especificamente, cada uma destas crianças vai perder aproximadamente 250.000 dólares de  capital em saúde, ao longo do decorrer das suas vidas. No total, isso equivale a uma perda total de quase 750 mil milhões. Se, em seguida, repartimos proporcionalmente estes custos ao longo de sessenta anos, o tempo de vida adulta aproximado destas crianças, os prejuízos anuais  ascendem a cerca de 12,5 mil milhões, ou cerca de 0,1% do actual  GDP.
 
CRIME

Comparado com as suas estimativas sobre os rendimentos auferidos  e os  prejuízos de saúde, Holzer e sua equipa, utilizam uma metodologia significativamente  diferente ao estimar o impacto da  situação de pobreza  na infância  sobre os custos do crime. Em vez de começarem por determinar os custos que são atribuíveis a quem individualmente  tenha vivido  na situação de  pobreza e, em seguida  agregarem todas as crianças pobres, neste caso  eles começam com os custos agregados para a sociedade de criminosos  como resultado  da actividade criminosa  e procuram  determinar a quota desse montante que  resulta da situação de  pobreza.                                                                                                   

 

Para os nossos objectivos, esta abordagem é mais complicada pelo facto de se ter que determinar os "custos do crime". Holzer situa-se numa definição relativa de "pobres",  ao invés de uma definição absoluta (para estas duas  categorias,  Holzer parece usar aqui os conceitos habituais). Depois de uma análise sobre os trabalhos relevantes, Holzer calcula  que cerca de  40% de todos os crimes são o resultado da  pobreza. Aplicando esta taxa ao valor anual de cerca de 700  mil milhões  que resultam  dos "crimes  de rua", e depois uma outra taxa de  40% resultante de factores  hereditários e que não são o resultado  do meio social, Holzer  conclui que o "custo do crime" anual resultante da  pobreza é de  170 mil milhões.
 

A via para se chegar a esta conclusão, infelizmente, não nos permite obter uma estimativa credível  sobre os   custos adicionais de crime que venham  a ser o resultado de se  permitir  que  3  milhões de crianças venham adicionalmente a cair numa situação  de pobreza. Holzer identifica uma parte do total dos custos do crime que vem da pobreza, mas não  tenta desvendar como é que essa parte pode mudar se a pobreza aumenta ou diminui. Como resultado, apesar de podermos ter a certeza de que somar 3 milhões mais de crianças ao  conjunto dos pobres  terá, certamente, “custos de crimes” no futuro ,  teremos de deixar para os outros a tentativa   de estimativa mais precisa dos custos acrescidos e  portanto, a nossa estimativa final levará em conta apenas as despesas de saúde e as  perdas de rendimentos.

A persistência da pobreza induzida pela recessão

 Antes de concluirmos, é necessário avaliar se  a pobreza induzida pela recessão deve ser tratada da mesma forma em termos de  custos económicos  de longo prazo tanto quanto  a persistência  da situação de pobreza na infância  existe mesmo em períodos de crescimento. Holzer e sua equipa fizeram  uma distinção,  pelo menos, ao determinarem  o valor da perda de rendimentos  entre as crianças que passaram   pelo menos metade de sua infância em situação de pobreza e aquelas que  viveram  pelo menos um quarto de sua infância em situação de pobreza. Na  verdade, eles não fazem o cálculo para as crianças que só passam um a quatro anos de sua infância em situação de  pobreza. Portanto, a fim de fazer uma estimativa razoável destes custos, é importante  determinar a probabilidade de que  as crianças que caem na pobreza durante esta recessão  poderão aí continuar  durante  uma parte  adicional significativa da sua infância.

Para responder a esta questão, realizamos uma análise dos dados do estudo do Panel Study of Income Dynamics (PSID). O PSID é um estudo longitudinal feito a nível nacional incidindo sobre cerca de 8.000 famílias americanas. Seguindo as mesmas famílias e os indivíduos desde 1968, o PSID recolhe dados sobre a situação económica, a saúde e o comportamento social. Essencialmente, ao seguir as crianças da amostra o programa PSID através dos diferentes altos e baixos económicos ao longo dos anos das suas vidas, pode dar uma melhor noção do que vai acontecer no futuro  às crianças que caem na situação de  pobreza durante as recessões.                                                                                     

 

Fundamentalmente, queremos saber qual a probabilidade das crianças que vivem em situações de pobreza induzidas pela recessão continuarem a viver na pobreza mesmo depois do fim da recessão. Ao responder a essa questão, podemos fazer uma avaliação mais exacta dos custos a longo prazo de uma situação de pobreza na infância induzida pela recessão,  desde a situação mais prolongada da pobreza,  desde a   mais grave   nas suas consequências futuras.                                                                                                                                                                      

 

A nossa análise procura encarar as crianças que caíram na pobreza durante as duas situações de recessão recentes, que ocorreram a partir de 1980 a 1983 e  de 1990 a  1.993.  Seguimos essas crianças, crianças que viviam em famílias com rendimento acima da linha oficial de pobreza no ano anterior ao do início da recessão, mas que caíram em situação de  pobreza durante os anos de recessão, em  cerca de dez  anos depois da  recessão ter acabado. Entre as crianças que caíram na pobreza durante a recessão da década de 80, aproximadamente 26% delas passaram pelo menos metade dos seus restantes anos da infância em situação de pobreza, mesmo depois de a recessão ter terminado.

 

Outros 17% passaram pelo menos um quarto dos seus restantes anos  de infância em situação de pobreza. Finalmente, outros 21% sofreram pelo menos um ano adicional de pobreza depois da recessão ter terminado. Face ao conjunto total, para cerca de dois terços  destas crianças, a pobreza continuou a atormentá-los mesmo depois da  economia  ter recuperado.

 

Os números foram muito semelhantes ao corte da recessão dos anos 90. Cerca de  
 29% das crianças que caíram durante numa situação de pobreza  durante a  recessão viveram  pelo menos metade dos seus restantes tempos de  infância em situação de pobreza , mesmo depois da recessão ter  terminado  e um grupo adicional de 10% viveram em situação de  pobreza, pelo menos, um quarto do seu restante tempo de infância.  Embora possa parecer uma  pequena parte (39%) das crianças  que sofreram situações de pobreza na infância durante  vários anos depois da recessão ter sido ultrapassada,  deve-se comparar este grupo de crianças com as crianças da mesma idade que não caíram  em situação de pobreza na infância  durante a recessão.                                                                                  

 

De entre as crianças que ficaram fora da situação de pobreza durante o início dos anos 90,  apesar da turbulência económica, apenas 3% delas caiu em situação de pobreza, em qualquer momento durante o resto da  sua infância (por outro lado, 65% das crianças que começaram, em 1989, já em situação de pobreza, continuaram a estar sujeitos à situação de  pobreza depois da recessão   ter acabado). Por outras palavras, as crianças que caíram em situação de pobreza durante a recessão tiveram uma probabilidade 13 vezes maior  de  virem a sofrer anos adicionais de situação de pobreza na infância, depois da economia  ter  recuperado do que as crianças que não caíram em situação de pobreza induzida pela recessão.

CONCLUSÃO

É claro que a queda na situação de pobreza durante uma recessão carrega consigo uma possibilidade significativa de pobreza persistente que acompanha  uma criança mesmo depois de a recessão ter terminado.  No entanto, é também evidente que uma parte das crianças que sofrem uma situação de pobreza induzida pela recessão poderão sair dela depois do fim da recessão e, portanto, escapar à maioria das desvantagens de longo prazo que acompanham a situação de pobreza na infância. A nossa melhor estimativa, baseada na nossas análises dos dados PSID é que, se não fizermos nada, a cerca de  60%  dos 3 milhões de crianças que são projectadas para caírem vítimas da pobreza durante esta recessão estas  irão estar sujeitas à situação de pobreza persistente ou intermitente, que provocará graves danos  a longo prazo. Destes, cerca de metade irá ainda cair na primeira categoria  que é a mais prejudicial.                                                                                                                                 

 

Utilizando  a nossa análise dos dados PSID, podemos ajustar a nossa estimativa  para  ter em conta o facto de que nem todas as crianças que caem na pobreza durante esta recessão  ficarão sujeitos em toda sua  extensão aos efeitos negativos de  longo prazo de se ter caído  numa situação prolongada  de pobreza na infância. Esse ajuste reduz  a nossa estimativa de perdas de  0,3% do PIB para cerca de 0,17% do PIB, o que representa  cerca  de 22 mil milhões de dólares por ano.

Considerando apenas os prejuízos a longo prazo sobre as condições de saúde e sobre as perdas de rendimentos que são efeitos da situação de pobreza na infância e com hipóteses muito conservadoras, os custos  anuais futuros de permitir  que três milhões de crianças  adicionais venham a cair numa situação de  pobreza durante esta recessão  ultrapassa , pelo menos, os  35 mil milhões por ano. Durante a  vida dessas crianças, esses custos serão agregados e representarão um encargo  económico total de aproximadamente  1,7 milhão de milhões  de dólares  (em dólares de 2008) .

Fonte:
Michael Linden, The Cost of Doing Nothing: the economic impact of recession-induced child poverty, Edição de: First Focus, Making Children & Families the priority.
Michael Linden is the Senior Director of Tax & Budget Policy
at First Focus. He can be reached at MichaelL@firstfocus.net.
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publicado por Luis Moreira às 20:00
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Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Sobre o custo de nada fazer - Celebrou-se no dia 12 de Junho o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil.

enviado e nota introdutória por Julio Marques Mota

Nota Introdutória

 

Celebrou-se no dia 12 de Junho  o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil.
No ano transacto os docentes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra responsáveis pela Iniciativa Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC  associaram-se aos festejos desse dia  em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho.  Dessa  sessão produziu-se um caderno de textos de apoio de onde se reproduzem os textos aqui presentes.

Sessão Especial do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, ano lectivo de 2009-2010, que decorreu sob o tema Economia Global e os Muros da Repartição do Rendimento

 

O trabalho infantil é sobretudo um expressivo e violento efeito dos muros da repartição de rendimento e estes foram o tema do Ciclo Integrado de Cinema Debates e Colóquios na FEUC deste ano. Combater o trabalho infantil é, sobretudo e em primeiro lugar, combater a pobreza que lhe está subjacente ou, como se diz, num texto da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que será distribuído no Teatro Académico Gil Vicente, é combater a pobreza da política mais do que a pobreza em si mesma pois “muito frequentemente, é a pobreza da política realizada mais do que a própria pobreza em si que deixa as crianças à porta da escola e as empurra para o trabalho infantil”.

 

Em tempos difíceis como os de agora em que a política é mesmo pobre, desde os países desenvolvidos aos países em vias de desenvolvimento, em que em nome dos equilíbrios orçamentais em tempos de crise, que é a última descoberta do neoliberalismo, não se hesita em criar uma situação de austeridade à escala mundial que pode vir a colocar milhões de crianças em situação de pobreza, não quiseram a Comissão Organizadora do Ciclo e o Núcleo de Estudantes de Economia da AAC deixar de se associarem a este dia, a esta data, ao seu significado, projectando a 17 de Junho, no TAGV, o filme Os Herdeiros, de Eugenio Polgovsky, filme este que conta com o apoio da UNICEF. Associou-se a esta iniciativa a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o que muito nos honra, que estará representada por Sofia Amaral de Oliveira.

 

Certos, e de acordo com Juan Somavia, actual Director-Geral da Organização Internacional do Trabalho,  de que atravessamos tempos difíceis, de que a “época que vivemos põe os nossos valores e os nossos empenhamentos à prova. [Certos de que] os progressos são frágeis, [certos de que] os países também estão frágeis perante os conflitos endémicos e perante as catástrofes naturais. [Certos de que] devemos reencontrar a lucidez, a motivação e a coragem necessárias para empreender as mudanças que transformarão a existência das crianças e as suas famílias”, certos de que a sensibilização das pessoas perante a existência do trabalho infantil é parte essencial para a eliminação desta tragédia, queremos pois com esta sessão associarmo-nos às campanhas que por todo o mundo foram realizadas.

 

Será distribuído o relatório global da OIT sobre o trabalho infantil no mundo, numa edição em língua portuguesa e editado por esta mesma organização. Adicionalmente será distribuído gratuitamente um pequeno caderno de textos de apoio com textos ligados à temática do filme, textos da UNICEF, uma reportagem sobre a extracção de carvão na Índia com gente de pequenas mãos e de muitos calos da vida sentida que nos dão à escala de um ponto, na Índia, o que é a globalização, num mundo sem lei e onde a lei quando é aprovada não é para ser aplicada. O trabalho infantil é proibido na Índia mas quem controla? Apenas 3 fiscais para toda uma região, onde trabalham milhares de crianças, três agentes que nem sequer carro têm! Curiosamente, encontrámos uma realidade semelhante em Espanha, na região de Almeria, a ausência de fiscais para garantirem o respeito pelas leis laborais, e essa mesma ausência encontrámo-la também numa situação semelhante, nas sweatshops em Los Ângeles. A questão é: o que há de comum entre estes sítios tão distantes? De comum, existe a pressão constante para a minimização do papel de regulação do Estado e para a redução dos custos, quaisquer que sejam os meios para essa mesma descida, que se transforma assim em finalidade do sistema.

 

Mas se passarmos deste plano, para o plano dos textos da UNICEF e para os mais recentes do Banco Mundial sobre a pobreza é claro que a política aberrante da privatização do ensino em zonas menos desenvolvidas que foi seguida nestes últimos anos é neles vista como um absurdo, um absurdo que é meio caminho para colocar milhões de crianças a perderem o direito de serem crianças, a colocá-las às portas das fábricas, das minas, dos campos. Mas esta privatização do ensino faz parte do pacote de medidas que a OMC tem defendido. É tempo para reflexão e também certamente para recuo nesta matéria quanto a privatizações. É desta questão que os textos da UNICEF nos falam.

 

Aventuremo-nos um pouco mais e olhemos para o que se passa quanto às pequenas mãos daqueles que são deixados para trás, os “those left behind”, na primeira potência mundial em termos de indústria transformadora e em termos de exportações, a China. Olhemos então para os filhos dos principais actores do forte crescimento económico chinês, os migrantes internos, emigrantes no próprio país, olhemos para os cerca de 70 milhões de crianças  left-behind  de onde sai a maior  massa dos abandonos escolares,  de onde sai, então, a maior massa de trabalho infantil.

 

Vejamos dois pequenos textos que em si-mesmos encerram dois profundos comentários:

 

De um pai:

Her marks were not good in school. I felt that our family was paying so much money and the marks were no good, so it was better for her just not to go to school, and earn a little money to share the family burden. Her marks were not good and also she didn’t want to go to school anyway.

De uma autoridade chinesa responsável pela educação em Hebei:

Rural parents believe that students attend school in order to get into university, and that going to university is the only way out. If their child is not doing well and is unlikely to get into university, there is a good chance they will drop out in middle school. Because if their child cannot get into university, why should they attend high school? Why should they spend that money? Then, if they don’t need to attend high school, why should they stay in middle school until graduation? Add to that the child’s poor marks, and their own reluctance to carry on in middle school, the parents feel that since they can’t get into university anyway, they might as well drop out and go to work to earn some money.

Não é apenas uma questão de pobreza que está por detrás do trabalho infantil, é uma questão mais global, é uma questão de sistema que se descortina por detrás destes dois pequenos excertos, de um sistema que desvaloriza o papel regulador do Estado sobre todos os mercados, que desvaloriza o trabalho, de um sistema que gera a pobreza e que dela se alimenta, acrescente-se, é então uma questão de pobreza da política. É a partir daqui que a problemática do trabalho infantil deve ser encarada, a exigir dura intervenção do Estado quer pelo lado da oferta quer pelo lado da procura de trabalho infantil, mas isto é uma tarefa gigantesca a exigir outro modelo de política, de visão de sociedade.

 

Mas se assim é, e admitimos que assim seja, passamos em seguida a analisar na mais rica economia do mundo o significado económico de uma criança cair numa situação de pobreza, passamos a analisar, por consequência, os custos económicos da crise vistos agora nas marcas a deixar no futuro por cada criança que é afundada numa situação de pobreza, enquanto criança, hoje. E a análise tem tanto de sério como de assustador, sobretudo face às medidas que se anunciam de se privilegiar exclusivamente o presente como se as sociedades deixem de ter horizonte temporal.

 

Que se fechem escolas, porque têm poucos estudantes, que se fechem estações de correio, porque têm pouca gente, que se reduzam os internamentos hospitalares, para se reduzirem os riscos de infecções, que se aumentem o número de alunos por turma, para que se aumente o rendimento por unidade de custo, que se aumente o tempo de permanência na vida activa, porque o trabalho dá saúde, que se reduzam os mecanismos de protecção social, porque a crise já passou, que se aumente a precariedade, porque a necessidade aguça o engenho, tudo, mas tudo, converge para um fim que é o de reduzir a função do Estado quer como regulador, quer como agente activo, quer ainda como agente redistribuidor.

 

Ora o estudo que aí iremos publicar mostra o percurso inverso, mostra que se não queremos defraudar o futuro, as gerações futuras, temos que nelas investir e bem no presente. O custo futuro da pobreza é aí analisado com rigor, a mostrar que o caminho a seguir tem que ser o inverso daquele que agora nos querem impor, porque os neoliberais de todos os quadrantes descobrem agora que o crescimento depende do equilíbrio orçamental, que com as receitas a diminuir relativamente ao rendimento possível, o mesmo é dizer com as despesas sociais relativamente a diminuírem, haverá mais crescimento, mais emprego. Mas esta sequência levará inexoravelmente muitas crianças para a situação de pobreza e é para alertar contra essa filosofia que o texto é publicado, mostrando os pesados custos no futuro contra os fracos ganhos no presente de um qualquer governo e de um qualquer orçamento equilibrado. É por esta razão que neste contexto se analisa a situação de pobreza na infância, quando esta é também a característica do trabalho infantil que agora está em discussão.

Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes.

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Terça-feira, 14 de Junho de 2011

O ataque contra a força do trabalho - por Noam Chomsky

Na maior parte do mundo, o dia 1º de Maio é um dia feriado dos trabalhadores internacionais, ligado à amarga luta dos trabalhadores americanos do século 19 pela jornada de trabalho de oito horas. O 1º de Maio passado leva-nos a uma sombria reflexão.

Há uma década, foi cunhada pelos ativistas laborais italianos em honra do 1º de Maio uma palavra útil: “precariedade”. Referia-se inicialmente à cada vez mais precária existência da gente trabalhadora “à margem” – mulheres, jovens e imigrantes.

Logo de seguida, ela foi alargada e aplicada ao crescente “precariado” no núcleo da força laboral, o “proletariado precário” que sofria os programas de “dessindicalização”, flexibilização e desregulação, que formam parte do ataque contra a força de trabalho em todo o mundo.

Nessa altura, inclusive na Europa, havia uma preocupação crescente sobre aquilo a que o historiador do trabalho Ronaldo Munck, citando Ulrich Beck, chama a “brasileirização do Ocidente” “(… )a proliferação do emprego temporário e sem segurança, a descontinuidade e relaxamento das normas nas sociedades ocidentalizadas, que até então tinham sido bastiões do pleno emprego”.

A guerra do Estado e das corporações contra os sindicatos estendeu-se recentemente ao setor público, com legislação proibindo acordos coletivos e outros direitos elementares.

Mesmo no Massachusetts, a Câmara de Representantes favorável aos trabalhadores votou, pouco antes do 1º de Maio, uma acentuada restrição aos direitos dos polícias, dos professores e de outros empregados municipais quanto à negociação sobre a assistência à saúde - assunto crucial nos Estados Unidos, com o seu disfuncional e altamente ineficiente sistema privatizado de cuidados de saúde.

O resto do mundo pode associar o 1º de Maio com a luta dos trabalhadores americanos pelos seus direitos básicos, mas nos Estados Unidos essa solidariedade encontra-se suprimida a favor de um dia feriado reacionário.

O dia 1º de Maio é o “Dia da Lealdade”, assim designado pelo Congresso em 1958 para a “reafirmação da lealdade aos Estados Unidos e pelo reconhecimento do legado americano de liberdade”.

O presidente Eisenhower proclamou, além disso, que o Dia da Lealdade seja também o Dia da Lei, anualmente reafirmado com o içar da bandeira e a dedicação à “Justiça para Todos”, às “Fundações da Liberdade” e à “Luta pela Justiça”.

O calendário dos Estados Unidos tem o Dia do Trabalho em setembro, em celebração do regresso ao trabalho depois de férias que são mais curtas que noutros países industrializados.
A ferocidade do ataque contra as forças laborais pela classe dos negócios dos EUA está ilustrada pelo fato de Washington se ter abstido durante 60 anos de ratificar o princípio central da lei internacional do trabalho que garante a liberdade de associação.

O analista de leis Steve Charnovitz chama a isso de “tratado intocável da política dos Estados Unidos” e observa que nunca houve um debate sobre este assunto.

A indiferença de Washington em relação a algumas convenções apoiadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) contrasta marcadamente com a sua preocupação em fazer respeitar os direitos das corporações aos preços de monopólio, ocultos sob o manto do “livre comércio”, um dos orwellismos contemporâneos.

Em 2004, a OIT informou que “as inseguranças econômica e social multiplicam-se com a globalização e as políticas com ela associadas, à medida que o sistema econômico global se tornou mais instável e os trabalhadores suportam uma carga cada vez maior por exemplo através das reformas das pensões e da assistência na saúde”.

É este o que os economistas chamam o período da Grande Moderação, proclamado como “uma das grandes transformações da história moderna”, encabeçada pelos EUA e baseada na “libertação dos mercados” e, em particular, na “desregulação dos mercados financeiros”.

Este elogio ao estilo americano dos mercados livres foi pronunciado pelo editor do Wall Street Journal, Gerard Baker, em janeiro de 2007, dois meses apenas antes do sistema desmoronar e com ele o edifício inteiro da teologia econômica sobre o qual estava assente, levando a economia mundial à beira do desastre.

O descalabro deixou os Estados Unidos com níveis de desemprego real comparáveis aos da Grande Depressão e sob muitos aspectos piores ainda, porque debaixo das atuais políticas de quem manda esses empregos não regressarão, como aconteceu com os estímulos governamentais massivos durante a Segunda Guerra Mundial e nas décadas seguintes da “era dourada” do capitalismo estatal.

Durante a Grande Moderação, os trabalhadores americanos habituaram-se a uma existência precária. O aumento do precariado americano foi orgulhosamente proclamado como um fator primário da Grande Moderação que produziu um crescimento mais lento, virtual estancamento do rendimento real para a maioria da população e riqueza para além das ambições da avareza para um setor diminuto, uma fração de um por cento, na maior parte diretores executivos, gestores de fundos de cobertura e outros nessa categoria.

O sumo-sacerdote desta economia magnífica foi Alan Greenspan, descrito na imprensa empresarial como “santo” pela sua brilhante condução. Orgulhando-se dos seus êxitos, testemunhou perante o Congresso que eles dependiam de “uma moderação atípica dos aumentos das compensações (que) parece principalmente consequência de uma maior insegurança dos trabalhadores”.

O desastre da Grande Moderação foi resgatado por esforços heroicos do governo para recompensar os seus autores. Neil Barosky, ao renunciar em 30 de março como inspetor-geral do programa de resgate, escreveu um artigo revelador na seção de Op-Ed (colunas de opinião – N.T.) do New York Times acerca de como funcionava o resgate.

Em teoria, o ato legislativo que autorizou o resgate foi um compromisso: as instituições financeiras seriam salvas pelos contribuintes e as vítimas dos seus maus atos seriam compensadas de certa forma através de medidas que protegeriam o valor das casas e preservariam a propriedade das mesmas.

Parte do compromisso foi cumprido: as instituições financeiras foram recompensadas com enorme generosidade por terem causado a crise e perdoadas dos crimes descarados. Mas o resto do programa desapareceu.

Conforme Barosky escreve: “as execuções hipotecárias continuam a aumentar, com entre 8 e 13 milhões de julgamentos previstos durante a existência do programa”, enquanto “os maiores bancos são 20% maiores do que antes da crise e controlam uma parte maior da nossa economia, como nunca antes. Assumem, logicamente, que o governo os resgatará de novo, se necessário. De fato, as agências de classificação do crédito incorporam futuros resgates do governo nas suas avaliações dos maiores bancos, exagerando as distorções do mercado que lhes proporcionam uma vantagem injusta sobre as instituições mais pequenas que continuam lutando por sobreviver”.

Em poucas palavras, o programa do presidente Obama foi “uma prenda para os executivos da Wall Street” e um golpe no plexo solar para as suas indefesas vítimas.

O resultado apenas surpreende os que insistem com inalterável ingenuidade no projeto e aplicação da mesma política, particularmente quando o poder econômico está altamente concentrado e o capitalismo de Estado entrou numa nova etapa de “destruição criativa”, para usar a famosa frase de Joseph Schumpeter, mas agora com uma diferença: criativa quanto às maneiras de enriquecer e dar mais poder aos ricos e poderosos, deixando o resto livre de sobreviver como puder, enquanto vai celebrando o Dia da Lealdade e da Lei. 

publicado por Carlos Loures às 20:00

editado por Augusta Clara às 16:10
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

Três textos - apresentados por Júlio Marques Mota

 

Uma pequena compilação de textos, de Michel Rocard, Os europeus votaram para que a crise continue, de Robert Castels (já publicado há dias mas que, pela sua importância, repetimos), Trabalhar mais para ganhar o quê, e de Jean-Claude Millner, Depois da crise que revolução, que revoluções ?, sobre o papel  do trabalho e sobre os direitos do trabalhador nas sociedades neoliberais. Chamo a atenção para a posição exposta no texto de Milner,  o texto final desta pequena série de três artigos :

 

(…)um recurso natural chamou bem à atenção. Através das técnicas de terror ou de necessidade, este pode ser mesmo muito barato; é renovável e é extremamente produtivo. Refiro-me à força de trabalho. Este é o principal recurso natural de que a China dispõe e ela explora-o intensivamente, sem problemas de consciência.

Do  outro lado do sistema, diz-nos Milner :

Desde então, uma ilusão necessariamente se impõe como quase inevitável. Uma aplicação financeira traduz-se sempre numa transferência de dinheiro; se o investimento é benéfico, o movimento parece em si mesmo gerador de lucro. Desta ilusão, tira-se uma conclusão ao mesmo tempo perfeitamente lógica e perfeitamente ilusória, ela também: uma vez que o deslocamento do valor cria por si só valor, é então suficiente multiplicar as deslocações de dinheiro. Quanto mais sinuoso for o percurso de cada produto financeiro mais os lucros crescerão. Eles crescem, na realidade, a cada passo, a cada movimento. Labirintos e rizomas produzem, por si mesmos, um ouro sempre a jorrar. Os modelos matemáticos utilizados pelos operadores financeiros servem para os construir.

Técnicas de terror, na China, técnicas da necessidade e da precariedade na Europa, como se tem estado a ver na Itália, na Espanha, algures por essa Europa neoliberal  fora ou como se viu ainda hoje, em Portugal. A esta situação diz-se, na China,  que se trata de um capitalismo de Estado de características chinesas, de acordo com o líder da Nova Esquerda, Wang Hui, aqui os neoliberais chamam-lhe ou chamavam-lhe ditadura de Estado,  e a esta mesma situação, no Ocidente, em que  claramente os resultados são os mesmos sobre a força de trabalho e sobre a multiplicação “dos pães” para o capital,   para o caso da Itália os intelectuais italianos chamam-lhe  “equivalente funcional” com o fascismo, e por cá e para cá, como se pode chamar?  Deixo a questão em aberto e responda quem puder ou souber.

Stéphane Hessel dá-nos, sobre esta matéria,  uma sugestão: “os responsáveis políticos, económicos, intelectuais e o conjunto da sociedade não podem demitir-se nem se deixar impressionar  pela actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaçam a paz e a democracia.”  As instituições regionais e internacionais, assim como os  governos, temo-lo visto e muito, têm-se submetido a essa ditadura, mais ainda , têm-se mostrado  e bem como sendo o seu braço legal, dando ou impondo aquelas aos quadros legislativos nacionais uma tipologia no plano político que ainda não tem nome mas que claramente se afasta do que entendemos por democracia real e que de democracia já está a ter  muito pouco. Face à demissão dos Estados, ou melhor face à sua subordinação à ditadura dos mercados financeiros  cremos que cabe a todos nós, a sociedade civil, ainda na linha proposta por Hessel, um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos do Homem, agarrar o sentido da história, agarrar o sentido dos seus desafios na sua marcha para a liberdade do homem, questão hoje tanto mais séria quanto a ameaça da barbárie fascista, ainda hoje,  “ não desapareceu completamente”.   

Júlio Marques Mota.

 

 

Os europeus votaram para que a crise continue

 

Há algo de surpreendente no actual debate sobre a situação económica. Todo o mundo admite que há crise. O debate incide apenas sobre o problema de se saber se já se atingiu o fundo e assenta depois em torno do provável momento de uma eventual retoma, no Outono ou em 2010. Afinal, por que não? O espantoso é o conteúdo: estamos perante prognósticos alternativos de peritos sobre os períodos temporais mas quase nenhuma informação factual para se ter uma ideia sobre a questão de se procurar saber se sim ou não estamos a sair da crise


Esta constatação tem algumas excepções no campo das finanças e da banca. Os factos são claros: os bancos dominantes pouco a pouco tem-se restabelecido, deixou de haver mais receios de falências neste importante sector, a transmissão de falências por efeito de contagio parece estar ultrapassada segundo a opinião geral dos considerados peritos. A confiança interbancária está pois em vias de restabelecimento lento, o que é, naturalmente, uma das condições para a recuperação.


O acordo também parece estar adquirido sobre a razão de fundo para este resultado positivo. As autoridades públicas, ao contrário da crise de 1929-1932 em que a sua estupidez cumulativa tudo complicou, têm agido com rapidez, convergência intelectual e considerável poder. Se o contribuinte não vier a pagar todo esse esforço, ainda é ele que, na sua infinita bondade, forneceu a garantia e, eventualmente, assumiu uma parte significativa dos encargos. Não é nada evidente que esta questão coloque à profissão bancária um problema ético de  considerável dimensão.



A impressão do fim das tensões e do reiniciar parcial da actividade é tão clara neste sector do que a profissão bancária, em toda a parte, iniciou campanhas activas para evitar os controlos, a regulação, e manter a opção de pagar aos sua gestores e aos seus operadores sobre títulos, os traders, as suas habituais remunerações extravagantes. A atmosfera estranha de saída da crise, mantida conjuntamente pelos governos, banqueiros e pela imprensa, contribuíram grandemente para minimizar a importância dos problemas.


Assim, a City, a praça financeira londrina, contribuiu para uma ofensiva, nestas últimas semanas, com a finalidade de desestabilizar Gordon Brown, o Primeiro-Ministro britânico culpado de querer muita ordem no sistema. O Presidente Barack Obama está claramente em luta contra os seus banqueiros e senadores sobre o mesmo assunto. O debate é menos veemente em França e na Alemanha, mas é o mesmo.


A precaridade do emprego

 

Parece que a tendência geral é para um - leve?- colocar à distância os paraísos fiscais, para os discursos simbólicos sobre as remunerações, e para o status quo, para a manutenção da situação no que diz respeito aos instrumentos derivados. Se isso finalmente acontecer, ter-se-á mantido o sistema, preservando simultaneamente os seus factores de forte instabilidade.

O detonador financeiro poderá explodir uma vez mais, dentro de alguns anos. Afinal, desde há vinte anos que o mundo tem estado a enfrentar uma grave crise financeira mais ou menos em cada cinco anos... A partir disto, tentar-se reduzir o volume insensato de actividade financeira quando comparado com o nível de produção, é tentar impedir a ganância colectiva que faz derivar o essencial desta profissão para a imoralidade, vai apenas um passo que não se quer dar. E, depois, tudo recomeça de novo.


Mas não é claro que o pior esteja aqui. As economias dos países desenvolvidos estão quase todas em recessão neste momento. Mais do que uma recessão, que pode ser curta, é a situação do desemprego que justifica o uso generalizado da palavra crise. Mas nesta área, a actual taxa de aumento do desemprego é assustadora - a França espera ultrapassar os 10% num ano, os Estados Unidos os 8%, e é quase o duplicar do desemprego em três anos - e as perspectivas são muito preocupantes. Ainda neste domínio, o do enfraquecimento do consumo, o principal componente é menos o desemprego do que a precariedade do trabalho. Neste contexto, todas as economias desenvolvidas atingiram desde há mais de quinze anos percentagens de trabalhadores precários entre os 15% e os 20%. Os trabalhadores  precários consumem tão pouco quanto lhes for possível. Em toda a parte, a recente crise, veio agravar ainda mais o seu número.


Mas, curiosamente, as estatísticas oficiais e os governos são muito discretos em relação a este ponto. Acompanha-se mal a sua evolução. Toda a gente sabe que, no entanto, na América do Norte, na Europa e no Japão, mais de um quarto da população está numa situação precária, desempregados ou pobres. Um quarto: 70 milhões de pessoas na Europa, 40 a 50 milhões nos Estados Unidos, talvez trinta no Japão é obviamente enorme para o dinamismo do consumo.

De facto, em trinta anos, de forma lenta, a parte dos rendimentos salariais e de protecção social nos respectivos PIB diminuíram entre 7% a 10%. Este indicador é contestado devido à baixa visibilidade do período de referência e às diferenças no método de cálculo aqui e ali. Mas a massa de desempregados, trabalhadores eventuais e os pobres, são estatisticamente encontrados, e esta reflecte uma série redução da velocidade de crescimento e do consumo.


Compreende-se assim melhor que, se o capitalismo desenvolvido teve em toda a tríade (América do Norte, União Europeia e Japão) um crescimento económico médio de  4,5% a 5% entre 1945 e 1970, hoje, antes da crise, tem tido muita dificuldade em tentar alcançar os 2,5% a 3% de crescimento, sem verdadeiramente o conseguir. Na medida em que o indicador da crise é do mercado de trabalho, a crise é, sobretudo, isto. Esta situação reflecte o facto de o detonador financeiro (aumento de preços de matérias-primas relacionadas com os produtos derivados, depois as subprimes, depois a titularização parcialmente fraudulenta e a cadeia de falências) ter atingido economias em situação de anemica, sem capacidade de resistência. Desta situação ninguém fala e ninguém mostra interesse em dar-lhe resposta. Mas o fundamental da crise é isto.


Sair desta situação não é fácil. Relançar exclusivamente o consumo não tem sentido, pois importar-se-ia mais, sobretudo, da China e da Índia. É necessariamente pelo investimento que o ciclo virtuoso tem de ser reiniciado, principalmente através do investimento em energias renováveis, tecnologias e produtos biológicos. E é este arranque que pode, a seguir, conduzir ao aumento do poder de compra e do consumo.


Ora, o investimento na indústria, serviços, e até mesmo na agricultura e no sector agro-alimentar, é severamente prejudicado por duas razões. Em primeiro lugar, todas as grandes empresas no mundo desenvolvido viram num ou em dois anos os activos financeiros do seu balanço perderem uma boa metade do seu valor ; a redução do valor dos activos no balanço diminui evidentemente as oportunidades de investimento. Em segundo lugar, a recuperação de relativa fragilidade do sector bancário é também claramente acompanhada de um drástico agravamento das condições de crédito. Obrigam-se a conceder crédito com muito mais cautela. Uma "recuperação económica" é pouco provável no curto e a médio prazo, por ausência dos factores que a esta são necessários. A saída da crise exige que, após o arranque através do investimento, que se encontre um mecanismo de ligação entre os salários e os ganhos de produtividade.

Nestas condições o prognóstico é de uma estabilização entre 5% e 10% abaixo do nível de produção anteriormente alcançado e, em seguida, por um crescimento quase nulo ou muito lento para os próximos três ou quatro anos.


Isto significa colocar em dificuldade a coesão social, significa governos fracos, significa o aumento do populismo. Se o detonador financeiro - uma vez que se está a querer preservar o sistema bancário, incluindo os seus factores de desequilíbrio – volta a explodir daqui a alguns anos, ele vai reencontrar as economias ainda mais fragilizadas, mais anémicas. Tem que haver preocupação com o que fazer, peço desculpa de não o saber esconder.

Em trinta anos, uma revolução no interior do capitalismo que foi feita e para o pior. A razão para esta grande mudança é simples: no mundo da banca, a avidez é desmedida, sem limites, uma orientação visceral, orientação para a procura do enriquecimento rápido, o que explica tanto a expansão vertiginosa dos produtos financeiros derivados como os inverosímeis níveis de remuneração como a tendência evidente para a vigarice e para a imoralidade bem patente nas subprimes e na titularização de créditos de cobrança difícil, de créditos mal parados.


Na economia real, é o endurecimento da pressão do “accionista”, praticamente inexistente até 1980 e, em seguida, organizada pelos fundos de pensões, de investimento e de arbitragem, depois reforçada pela tomada do poder ou pela formação de minorias de blocagem por todos estes fundos, em todas as grandes empresas ou quase. Quer-se ganho de capital, mesmo triturando a lógica empresarial. Todos se lembram da louca referência aos 15% de rentabilidade financeira exigida em certa altura por estes tipos de fundos.


O diagnóstico é claro: a classe média alta nos países desenvolvidos está em vias de renunciar à esperança de alcançar um bom nível de vida pelo procurando sim substitui-la pela esperança de fazer mais-valias rápida e maciçamente, em suma de enriquecer rapidamente. Este comportamento sociológico é incompatível com o bom funcionamento e, sobretudo, com a estabilidade do sistema. A social-democracia internacional explica desde há mais de meio século que os mercados não são de equilíbrio automático, que se dever regular a economia e a finança e lutar fiscalmente contra as desigualdades. Os factos, e esta crise, dão-lhe tragicamente razão. Ela acaba ainda agora de perder maciçamente as eleições europeias em todos os paises.


Votando por toda a parte pelos partidos conservadores, votando em toda a parte pelas forças que nos trouxeram a crise, os eleitores têm mostrado a sua preferência, o seu empenho, no modelo de capitalismo financeirizado, o capitalismo em que os mercados financeiros são dominantes. A esperança de ganhos na bolsa, da riqueza, tornou-se esmagadora. O resultado deixa pouco lugar para se esperar que haja um tratamento político sério da anemia económica actual. Quantas crises será necessário haver para que as pessoas se convençam? De toda a maneira, o mecanismo da sua repetição parece já estar desencadeado.

 

Michel Rocard, Les Européens ont voté pour que la crise continue, Peuples et gouvernements esquivent le fond du problème, Le Monde, 7 de Julho de 2009.

 

A SEGUIR: Trabalhar mais, para ganhar o quê? - por Robert Castel

publicado por Carlos Loures às 21:00
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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Mis Camelias – 5 – por Raúl Iturra

(Continuação)

MEMÓRIAS DE PADRES INTERESADOS - ENSAIO DE ETNOPSICOLOGIA DE LA INFANCIA

 

Nunca me olvido de los primeros meses del nacimiento de Eugenia: debía mamar de cuatro en cuatro horas, esas primeras seis semanas de vida: venía del útero, donde era alimentada por el líquido amniótico cada vez que ella quería. En el mundo de interacción social, correspondía  a la madre dar el pecho o pasar sus senos llenos de leche, para nuestro bebé mamar. Para aliviar su carga de trabajo, todas esas noches de los primeros meses, a las cuatro de la mañana me levantaba, mudaba los pañales de Eugenia, mas tarde serían los de Camila, para que estuvieran secas en su mamar. La última  actividad llamada dar el pecho, era a media noche.

En vez de dormir, conversábamos Gloria y yo y, a veces, hasta adelantábamos la hora de dar el pecho, como se dice en chileno castizo, ese amamantar, y pasaba a ser a las 11 o así, porque sabíamos que había un reloj despertador a las 4 de la mañana: el llanto de Eugenia, como el de Camila más tarde, para comer, como era necesario. Nuestras penurias pasaron cuando ya no había leche para dar y era necesario alimentar con biberón de seis en seis horas y, más tarde, cuando comenzó a comer con las manos de comida pequeña, cortada en trozos y llevadas a la mesa de la silla del bebé.  Fueron las peores clases que di en esos tiempos: eran a las ocho de la mañana y estaba lleno de sueño. Tener hijos es una alegría, pero hay que saberlos tratar para hacer la vida dentro de su horario, que es lo que Gloria y yo hacíamos: el horario del bebé de turno, era el nuestro, como hoy en día es el de nuestras hijas y sus hijos. Mi dos Camelias han tenido experiencias diferentes y estas ideas son apenas para dar una orientación de cómo hacíamos. Un pequeño alcance para Camila, porque Eugenia ya debe saber: siempre estábamos a intercambiar impresiones con papás de hijos de la misma edad. Es lo que más hacíamos, no por curiosidad, pero por desesperación... Ser papás es un amor, una delicia, éramos incapaces de dejar a nuestra primera hija en las manos de otros, sentíamos su falta. Como cuando, para descansar, una semana Eugenia quedó con la madre y hermana de Gloria y nos fuimos al campo, a la casa de mi Nana Griselda, una casa de adobe, con piso limpio de tanto escobar la tierra, el piso de la casa, donde ni ducha había e nos lavábamos en el arroyo que venía desde la Cordillera, esa agua helada, que nunca nos desanimó. Aún más, era un placer estar con mi Nana y comer las empanadas y el pan del horno de arcilla, ese pan amasado, bien  caliente y adorable. Pero... al tercero día Gloria y yo nos miramos, ella adivinó mi pensamiento, yo el de ella, y sin decir nada a nadie, excepto a la Nana Griselda, la dueña de casa, corrimos a hacer las maletas y nos fuimos de vuelta a nuestra casa, a 300 Kilómetros de distancia en Viña del Mar. Gloria y yo  llegamos a correr, sin ni saludar a la suegra y a la cuñada y Preguntamos por Eugenia: la niña andaba por la Avenida Perú en coche con su Nana Marina, largamos las maletas al suelo y corrimos. A la entrada estaba ya Marina con nuestra hija, nos acercamos lentamente para no asustarla, como decía el famoso Dr. Spock, ¡esa Biblia para nosotros! Y Eugenia todo lo que hacía en su calma de niña era mirarse las manos. ¡

Estaba lindamente vestida, con su sombrero de capota blanca, tenía ya seis meses, y ni una sonriso ni llanto de felicidad, como si se hubiera olvidado de nosotros! Lindamente vestida, porque para Gloria, Eugenia era una muñeca con vida, muy querida y bien tratada y sus movimientos señoriales desde el primer día, hacia decir a mi amigo de infancia, Agustín Vargas Zepeda, que era una niña high.[13] Quedamos tristes y aprendimos que los hijos no pueden ser abandonados, porque se entregan a quién los alimenta, en este caso, mi suegra y cuñada, que le daban el biberón... Adoramos nuestros hijos y los cuidamos dentro de todas las buenas posibilidades, pero vamos aprendiendo con el tiempo. Camila fue el mejor ejemplo: no había Nanas ni Abuelas, porque las Abuelas son las que más saben. ¡Cada vez que Eugenia tenía un problema, llamaba a mi madre y ella decía lo que se debía hacer, y estaba siempre cierto!

publicado por Carlos Loures às 15:00

editado por Luis Moreira às 15:43
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Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Sobre as Causas do Atraso Nacional

Luís Moreira



Um companheiro do Estrolabio, o Professor Fernando Pereira Marques, lançou ontem, dia 3, um livro com este título. Como viemos durante os últimos dias a anunciar, o lançamento realizou-se na Fundação Mário Soares, com intervenções dos Professores Eduardo Lourenço e Paulo Ferreira da Cunha e sob a presidência da mesa do Dr. Mário Soares, que abriu a sessão.

Foi um bonito lançamento,  com uma sala ampla cheia de gente conhecida, ligada à cultura e à política. Os apresentadores da obra discorreram sobre o tema central da obra - as razões que explicam o atraso português, com grande sabedoria, recuando vários séculos para mostrar que as gentes que descobriram novos mundos pagaram " a colonização de outros povos" e continuam a pagar.

Habituados à escravidão e serventia de outros, desde muito cedo o português se habituou a não trabalhar, sempre importou quase tudo do que come. Não é de hoje nem de ontem,o trabalho braçal é visto como indigno, falhou a constituição de uma "burguesia" industrial, que resultou das artes e ofícios que, por sua vez, tinham sido trocadas pela navegação e pela colonização de outros povos.

Grandes figuras da cultura portuguesa (como Antero nas célebres «Conferências do Casino»), se debruçaram sobre este problema e detectaram os mesmos índicios que ainda hoje persistem. A procura de um emprego no Estado, a aversão à iniciativa individual, a ideia de que se mantem o nível de vida sem resultados visíveis do trabalho...

Vamos ler o livro e escrever uns quantos textos sobre este assunto.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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