Domingo, 3 de Julho de 2011

A impossibilidade material de pagar a dívida - uma explicação realista de quem não "tapa o sol com a peneira"

Apresentamos a seguir um texto, enviado por uma pessoa nossa amiga, que aborda um ponto muito concreto e determinante da situação em que vivemos, dando uma opinião muito clara sobre as opções a tomar no curto prazo. É mais um contributo para a discussão, que esperamos que seja franca, intensa e muito participada, mas também cordial e serena.

Pagar a dívida é ser egoísta <http://ingenea.gualter.net/?p=355>  / A impossibilidade material de pagar a dívida <http://ingenea.gualter.net/?p=355>
Tuesday, 31 May, 2011
 <http://ingenea.gualter.net/?p=355>  


Publicado em Economia <http://ingenea.gualter.net/?cat=10> , Polí­tica <http://ingenea.gualter.net/?cat=7>  | 

A tentativa de  pagar a dívida, ainda que renegociada, poderá vir a figurar entre um dos  actos de maior egoísmo da história portuguesa. A narrativa em que  assenta esta afirmação não se baseia tanto numa questão subjectiva de  legitimidade, mas sim na impossibilidade material do seu pagamento e nas  consequências sócio-ecológicas de tal gesto.

As teorias económicas que sustentam o pensamento político actual, da  direita até à esquerda foram concebidas durante um período de expansão económica, associado ao aparecimento de fontes de energia com uma  qualidade e intensidade extraordinárias – o carvão e, posteriormente, o petróleo e o gás natural. É a capacidade de utilizar estas energias no  processo produtivo que abre espaço à industrialização, assente numa transformação profunda do trabalho e da cultura geral, resultando num  enriquecimento da burguesia (cada vez mais ampla) e na expansão espacial do capitalismo.

Marx fez um excelente trabalho de análise dos processos do capitalismo.  Ao mesmo tempo que lhe lança louvores – sobretudo pela sua capacidade de  romper com as dinâmicas do sistema feudal – aponta as suas  contradições, que inevitavelmente geram a divisão de classes e o  acentuar da exploração das classes trabalhadoras pela burguesia  detentora do capital. Não vou aqui entrar em detalhes sobre a  actualidade e utilidade de tal análise ou divisão nos tempos  contemporâneos, apesar de a considerar útil e relevante em muitos  contextos, além de conter conceitos, como o fetichismo das comodidades,  que são fundamentais para compreender como se estimulam hábitos de  consumo insustentáveis e até irracionais. Contudo, o pensamento marxista (salvo algumas excepções, como o caso de marxistas verdes como John  Bellamy Foster), em particular a teoria económica sofre das mesmas  limitações do que a economia neoclássica ou outras teorias económicas  associadas ao capitalismo: os seus pressupostos, válidos num contexto de expansão suportado por uma abundância energética crescente, deixam de o ser quando entramos num período de contração, marcado designadamente  pelo pico do petróleo e de muitos outros recursos.

Frederick Soddy, um radiologista galardoado com o Nobel da Química,  escreveu, em 1926, um famoso livro intitulado Wealth, Virtual Wealth and Debt. O ponto central de Soddy era bastante simples: é fácil, para o  sistema financeiro – que representa uma esfera da economia totalmente virtual – aumentar as suas dívidas (privadas ou públicas) através de uma expansão de crédito. Esta expansão de crédito confunde-se com uma geração real de riqueza, o que aliás se tornou  bastante claro na actual crise. Soddy alerta para o facto de que a  velocidade a que o sistema financeiro se expande está totalmente  desfasada da capacidade de a economia “real” (produtiva, actualmente  medida pelo PIB) gerar riqueza para repagar as dívidas. Tal sucede  devido ao facto de a produção estar dependente do seu sustento material e  energético, onde o ritmo de crescimento é distinto e limitado, em  particular, pela velocidade dos ciclos dos ecossistemas e que, por sua  vez, estão limitados pela capacidade de aproveitamento da energia  (essencialmente solar) que atinge a atmosfera terrestre.

A expansão industrial e o aparecimento de um capitalismo capaz de  crescer exponencialmente, só foi possível devido à descoberta de combustíveis fósseis, que não são mais do que energia solar acumulada  numa escala de tempo geológica e armazenada graças a fenómenos biológicos e geológicos muito particulares. A sua extracção e uso  permitiram desenvolver as sociedades abundantes do ocidente, sobretudo, uma classe média planetária capaz de disseminar (supostas) democracias e de estabilizar uma hegemonia de pensamento, independentemente dos seus problemas e contradições. Foi também esta abundância energética que  permitiu a construção de um dos mais ambiciosos projectos da Humanidade, o Estado Social, capaz de garantir condições de vida dignas para  qualquer cidadão de um estado-nação. O Keynesianismo, transformado em  modelo para um crescimento económico de longa duração, permitiu  sustentar e alargar o Estado Social, e alimentar o crescimento económico e transformar sociedades ocidentais numa quase omnipresente classe  média. Contudo, teve uma moeda de troca: um endividamento crescente, ao  ponto de se ter tornado insustentável. A insustentabilidade da dívida  não ocorre apenas ao nível dos estados-nação. Ela é verdadeiramente  insustentável à escala global e esse é, aliás, uma das razões pelas  quais as economias mais vulneráveis e periféricas são submetidas à  pressão internacional especulativa. Alguém tem que ceder, para que  outros continuem a crescer (até quando é outra questão).

A situação geopolítica de Portugal – e da própria Europa, ou mesmo dos  EUA – está longe de permitir a continuação da usurpação crescente de recursos planetários. As economias dos BRIC crescem como nunca antes visto e, tratando-se de territórios bastante vastos e povoados, é natural que não sobre para todos. O pico do petróleo está aí – e traz a  acompanhá-lo a escassez de uma série de outros recursos, desde as terras raras, até ao fósforo. Ignorar isso e continuar a aplicar as mesmas  teorias dos tempos de abundância, é como ter um elefante a caminhar na direcção de um abismo, pensando que a força da sua mente pode contrapôr a  lei da gravidade. Neste caso não é a lei da gravidade que está a ser  ignorada, é a segunda lei da termodinâmica, o princípio da entropia, a  seta do tempo. A crescente incidência de conflitos ecológicos e sociais nas periferias e a recente Primavera Árabe, são sinais de que esses  povos não estão dispostos a ser crescentemente expoliados. A cada avanço das fronteiras dos recursos, há uma reacção cada vez maior.

Perante esta situação, discutir os contornos e a legitimidade da dívida <http://www.esquerda.net/opiniao/extremismo-de-gravata>  torna-se relativamente secundário. Sim, é imoral que nos façam pagar <http://acampadalisboa.wordpress.com/2011/05/30/paguem-nos-o-que-nos-devem> , com juros  especulativos e nacionalizações de bancas corruptas <http://5dias.net/2011/05/31/assembleia-popular-de-hoje-a-mais-importante/> . Contudo, ainda que  essa dívida fosse totalmente legítima, ela seria, ainda assim,  impagável. Tal pagamento não depende de uma maior ou menor produtividade  laboral. Na verdade, se bem feitas as contas, aumentar a produtividade  decorre de duas coisas: a exploração laboral (aumento da carga horária,  redução de salários, aumento da idade de reforma, redução do tempo de  educação, etc.) e, sobretudo, a exploração dos recursos materiais e  energéticos capazes de sustentar essa produção. Isto é, ir buscar, com  termos de troca mais favoráveis, coisas que não existem cá (nem em  Portugal, nem na maioria do território europeu). Para usar palavras  sinceras, aumentar a pilhagem colonialista, ou Raubwirtschaft (economia  de pilhagem), como enunciaram géografos franceses e alemães do  final do séc. XIX.

Hoje, pagar a dívida significa acentuar a exploração neocolonialista ou  hipotecar as gerações futuras. O mais provável é que ambas aconteçam: na  tentativa absurda de aumentar o PIB a níveis que permitam pagar uma  dívida com juros muito acima de 3% (o que nem a melhor das previsões  económicas prevê como crescimento para os próximos anos), aumentará a  pressão sobre os recursos do país e do exterior – sendo de esperar uma  pressão particularmente forte sobre os PALOP (que aliás já se verifica  nalguns campos como as plantações florestais industriais ou os  agrocombustíveis). O resultado disso será apenas uma deterioração da  base material da economia nacional e global e um aumento progressivo do  valor da dívida – a que se associa a renegociação, geralmente  condicional (sinónimo do fim da democracia ou da ditadura financeira).

Pagar a dívida é, por isso, o acto mais egoísta que se pode ter, quer para com os povos de todo o mundo, quer para com as gerações mais novas e  que nos seguirão.

 <http://ingenea.gualter.net/wp-content/uploads/ingenea/2011/05/hp_world_peak_2005.png>

A famosa curva de Hubbert, que descreve aproximadamente o pico do petróleo. As teorias económicas que sustentam as decisões políticas actuais foram construídas na fase ascendente da curva.

Para maior detalhe técnico e histórico, recomendo a leitura deste artigo  de Joan Martinez-Alier <http://www.eoearth.org/article/Herman_Daly_Festschrift:_Socially_Sustainable_Economic_Degrowth> , o qual usei como inspiração para esta breve  abordagem à questão da dívida. Mais seguirão, se o tempo o permitir.
Fonte:  http://ingenea.gualter.net/

--

  
 

 

 


--

  
 





------ End of Forwarded Message

publicado por João Machado às 17:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links