Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Ainda o telelixo (A televisão é para estúpidos?), por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

Todos temos horas, mais ou menos certas para despejar o nosso lixo – a televisão também – chama-lhe prime-time ou horário nobre – vai desde as seis da tarde até às dez horas. Hoje, mais uma vez, vou falar do telelixo que a televisão generalista (e não só) nos despeja diariamente em casa. Para nós, a importação e a produção de lixo televisivo, de uma forma consciente e industrializada, começou há cerca de dez anos. Até então, já tínhamos lixo no pequeno ecrã, mas eram detritos domésticos, artesanais, ingénuos, se comparamos com o que hoje recebemos. Aliás, o conceito de telelixo aprofundou-se ao longo desta última década – há tratados, há filósofos (como Gustavo Bueno) que se especializaram na abordagem do tema. Na rede, circula alguma matéria interessante sobre o assunto.

 

Precisamente com este título - «O telelixo é uma droga pesada» - encontrei um magnífico texto de Ramiro Marques, do qual já havia lido algumas peças relacionadas com a questão dos professores. Começa por nos lembrar que a Holanda é o maior entreposto europeu de fabrico e distribuição de drogas sintéticas, para depois afirmar que o mesmo país é a sede do maior grupo europeu de produção de concursos, reality shows, novelas da vida real – ou seja o telelixo com que os canais generalistas preenchem os seus horários nobres. Refere-se à nossa bem conhecida Endemol.

 

Ramiro Marques enuncia depois a composição do telelixo - conteúdos que imbecilizam as pessoas, as tornam insensíveis à dor, à violência e à crueldade, lhes cria falsas necessidades, lhes transmite versões distorcidas da realidade e lhes inculca contravalores. Os próprios noticiários, começam a ser moldados por esta visão perversa do negócio televisivo, abrindo com notícias de crimes, explorando exaustivamente os delitos de natureza sexual, bem como assaltos à mão armada e homicídios. Informando? – Talvez. Deformando? - Sem dúvida.

 

Recorda que as crianças portuguesas vêem, em média, três horas diárias de televisão, cinco nos fins-de-semana, ficando expostas, com a vulnerabilidade própria da sua inexperiência, a toxicidade do telelixo. A esta exposição, acrescente-se o tempo que crianças e adolescentes dedicam à navegação em websites e salas de chat (também distribuidores de lixo ou de veneno para a mente). Como diz, os efeitos devastadores da absorção e dependência do telelixo, não são menores que os do consumo de drogas pesadas, atingindo um universo muito maior. E, continua, do mesmo modo que os pais lutam por afastar os filhos do ice ou do ecstasy, da cocaína ou da heroína, o mesmo devem fazer contra o viciante consumo do telelixo.

 

E, conclui dizendo que, infelizmente, ao contrário do que acontece com os narcotraficantes e com os passadores, os proprietários, editores e directores de programas dos canais de televisão que promovem a subida das audiências à custa do telelixo, não são nem punidos, nem sequer alvo da censura social, transformando-se em celebridades e empresários de sucesso. Contudo, os efeitos do telelixo na mente, no carácter e na vida dos jovens podem ser devastadores, tal como o consumo de drogas pesadas – o telelixo, veneno da mente, é uma droga pesada.

 

Belo texto, que deve, o mais possível, ser divulgado. Em Espanha corre um manifesto ou abaixo-assinado contra o telelixo - tvbasura@arrakis.es  – definindo primeiro o que é telelixo e pontualizando depois os seus efeitos nefastos, comparando-o a um vírus informático ou a um cancro, cujas metástases têm tendência para tudo invadir e destruir. Exigem os signatários que os Poderes Públicos responsabilizem os canais de televisão, os anunciantes, os programadores e os profissionais, sem descartar a responsabilidade dos cidadãos que se deixam enganar pela falácia do «espectador soberano» que, segundo os «dealers» televisivos, é quem exige cada vez mais lixo. O que até é verdade, pois os tóxico-dependentes, induzidos ao vício, ficam totalmente dependentes do consumo das drogas que os destroem.

 

Também eles exigem a sua dose diária, facto que não inocenta os traficantes. Penso que deveríamos pensar num amplo movimento de opinião semelhante ao dos nossos vizinhos. O silêncio é cúmplice do crime. Por isso, seria útil desencadearmos uma iniciativa semelhante.

publicado por João Machado às 15:00
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

A televisão, D. Afonso Henriques e o fado, por Carlos Loures


 

 

 


 

Não me recordo precisamente de quando foi – há 15, talvez há 20 anos – num dicionário de História de Portugal cuja edição coordenei, na entrada sobre D. Afonso Henriques, dava-o como nascido no ano de 1109 em Coimbra. As gentes de Guimarães deram paus por pedras: não podia ser, exigiam que a editora publicasse um desmentido. Era uma «gralha»? – perguntavam alguns. Numa obra com diversos volumes, mais de um milhar de páginas, muitos milhares de entradas e milhões de palavras – e com prazos rigorosos a cumprir – quem coordena não pode ler tudo e, aquele pormenor tinha-me passado. E, mesmo que tivesse lido, talvez tivesse estranhado, mas teria de aceitar, pois quase todas as entradas tinham sido entregues a especialistas. Era o caso.

 

O autor da entrada era um credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar para a Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães - nesse ano a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam. A administração apertava comigo – e lá estava este vosso amigo entalado entre o ardor do regionalismo vimaranense e a justificada teimosia da ciência histórica. Não vou fazer do episódio um romance policial. Vou já revelar como é que o imbróglio se resolveu porque o que quero contar é outra história.

 

Um historiador com grande êxito televisivo e editorial, colaborador da editora, foi por esses dias a Guimarães fazer uma palestra à Sociedade Martins Sarmento. Um avultado grupo de vimaranenses, estudantes na sua maioria, julgando-o co-responsável pelo furto do fundador à Cidade-Berço, fez uma manifestação em frente do hotel onde estava hospedado. Teve de sair escoltado pela polícia.

 

A sociedade encheu-se para o ouvir e o conceituado historiador, depois de ter explicado que não tinha dirigido o tal dicionário, tranquilizou as belicosa hostes - «D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães! Não há dúvidas a esse respeito!». Uma estrondosa ovação, que se repetiu depois ao longo da palestra. Ele que entrara protegido pela polícia, saiu quase aos ombros dos manifestantes. E a zanga de Guimarães desvaneceu-se: o que eram um dicionário e um texto de um professor desconhecido comparados com a opinião de um homem tão famoso e que falava na televisão? No regresso de Guimarães, o historiador almoçou comigo e quando lhe perguntei que elementos tinha ele para contrapor aos alicerçados argumentos do medievalista, respondeu-me: «Nenhuns! Só os do bom senso». Fiquei um bocado desconcertado. Mas ele consolidou a sua tese - «O que interessa onde é que o D. Afonso I nasceu realmente? E se não nasceu em 1109? Porque se põe em causa o lugar e não a data?» – e completou - «Há coisas em que não se pode mexer. Esta é uma delas. D. Afonso I nasceu em Guimarães. Assunto arrumado!». Dei-lhe razão, até porque me convinha: assunto arrumado.

 

O professor José Mattoso, na sua biografia sobre o primeiro rei de Portugal narra este acontecimento, com imprecisões, nomeadamente quanto ao nome da editora detentora dos direitos da obra, mas isso não tem importância. E não esclarece de forma peremptória onde nasceu o filho da bastarda de Afonso VI de Leão. Mais recentemente, surgiu a hipótese de o local do nascimento de Afonso I ser Viseu, hipótese secundada por alguns historiadores. Não sei como reagiu desta vez a «cidade-berço»… Mas voltemos à questão.

 

Estava já a esquecer o caso, quando me telefonam da RTP, pedindo-me para ir a um programa da tarde, dirigido pelo Raul Durão, falar no assunto do D. Afonso Henriques. E disseram-me o dia e a hora. Procurei escusar-me, mas um administrador, com o qual estava reunido quando do telefonema, insistiu para que fosse. Era uma boa oportunidade, disse-me, para esclarecer a posição da editora. Quando me prontifiquei a ir, disse que levaria comigo o professor, o medievalista: eu falaria sobre a prática comum da editora em matéria de escrúpulo científico e ele esclareceria a questão histórica.

 

Da RTP concordaram. Foi numa segunda-feira. Passei pela Nova, encontrei-me com o professor e fomos até ali perto, à 5 de Outubro, de onde era emitido o programa. Eu tinha estudado alguma coisa sobre o tema, porque embora não fosse essa a área sobre a qual iria falar, não queria estar «às escuras». Lembro-me que estive no domingo de manhã no Limo Verde da Parede, onde na altura morava, lendo e anotando, nas fotocópias de que me munira, o que me parecia interessante. Pelo meio, para descansar do tema afonsino, li num suplemento do DN um pequeno texto do Jorge Luis Borges, onde o genial escritor argentino, analisava com mestria as similitudes entre duas canções urbanas – o tango e o fado.

 

Lá marchámos, o professor e eu, para os estúdios, combinando estratégias pelo caminho. Fomos, como é hábito, recebidos por uma secretária que nos levou à maquilhagem e, enfim, lá chegou o momento de entráramos no estúdio e de nos sentarmos em frente das câmaras, enquanto passavam um bloco de publicidade. Primeira surpresa: não era o Raul Durão que nos ia entrevistar, mas sim Luís de Castro. O Durão estava de férias, esclareceu Castro. Por nós não fazia diferença. Diferença fez, quando a entrevista começou a ser dada em directo e vimos no teleponto aparecer a primeira pergunta, mais ou menos isto: «No vosso dicionário, na entrada Fado, diz-se que a chamada canção nacional teve origem no Brasil. É verdade?» Olhar de pânico entre mim e o professor. Fado? Resolvi avançar e conceder tempo ao ilustre académico para rebobinar o cérebro. Às vezes nem sei como continuo a ser um ateu empedernido: então não é que o tetxtozinho do cego prodigioso, que li nos intervalos da consulta às fotocópias, estava quase todo na minha memória?

 

A questão do fado arrumei-a com uma frase – É verdade. Terá nascido de uma música popular que existia no Brasil no início do século XIX, proveniente de danças trazidas de Angola pelos escravos e que podiam ser acompanhadas por canto, conjunto a que se chamava fado; música que a corte de D. João Vi trouxe do Brasil, quando regressou a Lisboa. E depois acrescentei: «Segundo Jorge Luis Borges… e, zás, debitei o sumo do texto lido na véspera. Entretanto o professor teve tempo para recuperar do susto e fez uma intervenção muito interessante sobre as eventuais raízes árabes da canção, que teria passado a sua influência às famosas endechas e daí vindo até aos nossos dias ligado à tal dança chegada dos trópicos. Foi canja!

 

A entrevista acabou e a secretária veio dizer-nos que tinha ficado fascinada com o tínhamos dito sobre o fado. A senhora foi tão simpática que nem tivemos coragem para protestar muito pelo qui pro quo. Apesar de tudo, enquanto nos acompanhava até à saída, queixámo-nos – «então convidam-nos para falar sobre o D. Afonso Henriques e entrevistam-nos sobre o fado? A senhora desvalorizou. «- Ah sim? O Raul foi de férias e se calhar esqueceram-se de dar as notas que ele deixou ao Luís. São coisas que acontecem. E os senhores saíram-se tão bem…» - fiquei com a ideia, talvez injusta, de que fora ela quem se esquecera de dar os tais apontamentos ao Luís de Castro.

 

*

 

Nunca mais pensei no assunto das eventuais raízes árabes do fado. No entanto, ao escutar esta interpretação de «Meu Fado», por Mariza e Miguel Poveda, os requebros de flamenco do cantor catalão levaram a eu me lembrasse da hipótese levantada pelo Professor – origens mouras, herança da cultura do Al-Andalus? Não é tão improvável como á primeira vista parece.

 

Moral das histórias – nunca se pode dar nada por adquirido: O “Fundador” nasceu em Guimarães, Coimbra ou Viseu? O fado veio de África (via Brasil) ou os muçulmanos deixaram-no cá ficar? Para complicar, há quem fale na hipótese da origem celta… É rebuscado, mas quem sabe?

 

Enquanto meditamos, ouçamos a Mariza e o Miguel Poveda - «Meu Fado»:

 

 

 

 

 


publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures em 24/05/2011 às 11:00
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Informação ou manipulação? ( A televisão é para estúpidos?), por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

 


 

Terminei a crónica anterior deixando em suspenso a questão das manipulações (políticas, económicas, culturais…) que a televisão veicula. Foi tema muito falado há pouco mais de um ano, em Maio de 2009, quando Manuela Moura Guedes entrevistou no “Jornal Nacional” da TVI o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, No seu habitual estilo truculento, o bastonário disse à pivô verdades duras como punhos, daquelas que muito raramente se escutam em televisão. Vamos recordar esse momento.

 

 

De facto, a «informação» que naquela estação (e não só) se praticava, e pratica, deixa muito a desejar, misturando-se de maneira avulsa, opiniões com factos e não se fazendo a destrinça do que é uma e outra coisa. Isto, como muito bem disse Marinho Pinto não é jornalismo; são sim «julgamentos sumários disfarçados de jornalismo».

 

A televisão tem este poder de eliminar factos e de criar factos, de manipular a realidade e de a apresentar conforme melhor for servida a necrofagia e o sensacionalismo que parecem ter tomado conta do jornalismo em geral e os interesses, políticos, económicos, dos grupos a que o canal seja afecto.

 

Sobre o poder da televisão, dizia Karl Popper na sua obra já citada, que, nos nossos dias a, a televisão assumiu um poder colossal, potencialmente o maior de todos, «como se tivesse substituído a voz de Deus». Afirma ainda que em democracia não pode haver poderes incontrolados, pois a essência da democracia consiste precisamente em submeter o poder político a um controlo.

 

O poder da televisão constitui, pois, um grave perigo para a democracia e esse perigo agudizar-se-á se não conseguirmos pôr cobro aos abusos dos canais televisivos - «Nenhuma democracia pode sobreviver se não controlarmos esta omnipotência», dizendo ainda: «A democracia, como expliquei algures, não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura, e nada no seio da democracia proíbe as pessoas mais instruídas de comunicarem o seu saber às que o são menos. Pelo contrário, a democracia sempre procurou elevar o nível de educação; é essa a sua autêntica aspiração. As ideias deste director de uma cadeia televisiva não correspondem em nada ao espírito democrático, que sempre foi o de oferecer a todos as melhores oportunidades. Inversamente, os seus princípios conduzem a propor aos telespectadores emissões cada vez piores, que o público aceita desde que se lhes acrescente violência, sexo e sensacionalismo"."(Popper refere-se ao director de um canal de televisão que conheceu na Alemanha no decurso de uma conferência, que afirmava axiomaticamente que “Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam”).

 

Não sei se Popper tem razão quando diz que a democracia «não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura». Esta definição parece-me redutora. Mas isso seria entrar numa outra discussão. Todavia, quanto a mim, Popper tem toda a razão quando nos alerta para os perigos de um meio que, tendo o poder de substituir a informação pela manipulação, pode destruir a democracia, instaurando em seu nome a ditadura dos media, por sua vez ao serviço de interesses políticos e económicos que nada têm de democrático.

 

Os governantes, os actuais e os anteriores, só se preocupam com as manipulações quando elas os atingem, como fez Sócrates na entrevista de 21 de Abril de 2009, na RTP, concedida a José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, em que denunciou o mesmo Jornal Nacional da TVI e aquilo que naquele canal passa por ser um serviço informativo, dizendo que o que ali se faz não é jornalismo, mas sim «caça ao homem» e que se trata de um «telejornal travestido». Isto, porque foi atacado a propósito do caso Freeport. E quando, ali e noutros espaços «informativos», outras pessoas, a verdade e a Democracia são atacados? Acrescente-se que Moura Guedes contra-ataca e pôs agora uma acção ao primeiro-ministro devido aquelas declarações.

 

Todos sabemos que nenhum governo da «democracia» que temos, exercerá uma acção pedagógica, profilática e terapêutica sobre os órgãos de informação. Não estou a falar de censura política, de repressão ou de limitações impostas à liberdade de imprensa (como em resposta a Sócrates o então director da TVI, vitimizando-se, se apressou a vir denunciar o que lhe parecia subjacente às palavras do primeiro-ministro). Estou a falar do inverso: impedir que a comunicação social se transforme ela mesma num odioso instrumento de repressão. O que começa a acontecer.

 

A liberdade de imprensa exige por parte dos profissionais um grande sentido de responsabilidade, o que raramente se verifica. Estou a falar de um cotejo sistemático e permanente entre o código deontológico que rege a profissão de jornalista e a prática exercida pelos respectivos profissionais. Aquilo de que falava Marinho Pinto.

 

Nunca esquecendo que, a maior parte das vezes, muito bons jornalistas, submetidos a direcções ligadas a grupos político-económicos e não só, são obrigados a escolher entre a honestidade e o emprego, entre o pão e a verdade. Para se extirpar este tumor que não cessa de aumentar, tem de se ir bem fundo na incisão e não ficar pela solução fácil de punir ou diabolizar jornalistas corruptos, por certo ao serviço de interesses obscuros, mas que apesar da sua desonestidade mais não são do que as pontas visíveis e emergentes de gigantescos icebergues submersos.

publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures às 10:31
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

O telelixo, uma última, ou penúltima, vez (A televisão é para estúpidos?), por Carlos Loures

 

 

 

Sei que estou a abusar da vossa paciência com esta obsessão (causada pelo imprinting?) de vasculhar no lixo televisivo. Vou só falar do que se passa no estado espanhol e não volto a falar tão cedo deste tema. Prometo.

 

No que à televisão diz respeito, em Espanha, pelos vistos, as coisas não vão melhor. Há meses, circulou um manifesto exigindo a aplicação de medidas contra a emissão de telelixo: «Plataforma para uma televisão de qualidade», apoiada pela Associação de Utentes da Comunicação, União Geral de Trabalhadores, «Comisiones Obreras», Confederação Espanhola de Mães e Pais de Alunos, União dos Consumidores de Espanha e Confederação das Associações de Moradores de Espanha. Não sei se deu algum resultado.

 

Muito do que aqui digo a seguir foi inspirado naquele manifesto e não seria mau que fôssemos pensando numa iniciativa semelhante, concitando o apoio de associações de pais, organizações de defesa dos consumidores e dos ecologistas, porque o telelixo é extremamente poluente. Teria de ser um amplo movimento de opinião dirigido aos cidadãos em geral, porque, antes de mais, o telelixo e sua proliferação coloca um sério problema de cidadania, minando e pondo em perigo os próprios alicerces da Democracia.

 

O objectivo dos promotores do telelixo é encontrar um mínimo denominador comum que permita atrair um grande número de espectadores. Para tal, utilizam qualquer tema de interesse humano, seja um acontecimento político ou social, como mero pretexto para desencadear aquilo que consideram ser os elementos básicos para a atracção da audiência – sexo, violência, sentimentalismo, humor grosseiro, superstição, muitas vezes de forma sucessiva e recorrente dentro do mesmo programa.

 

Sob uma hipócrita aparência de denúncia, os programas de telelixo deleitam-se com o sofrimento, com as demonstrações mais sórdidas da condição humana, com a exibição gratuita de sentimentos e de comportamentos íntimos. Contam também, com uma série de ingredientes básicos que os transformam em factor de aculturação e de desinformação, bem como um obstáculo ao desenvolvimento de uma opinião pública livre e devidamente fundamentada. Segue-se uma lista desses ingredientes.

 

reducionismo, com explicações simplistas de assuntos complexos, facilmente compreensíveis, mas parciais ou contendo orientações determinadas. Uma variante deste reducionismo consiste no gosto das teorias da conspiração de não se sabe bem que poderes ocultos, que muitas vezes servem de álibis a determinadas personalidades e grupos de pressão no seu trabalho de intoxicação.

 

demagogia, que consiste em apresentar todas as opiniões como equivalentes, independentemente dos conhecimentos ou dos fundamentos éticos sobre os quais se apoiam. Para tal, contribuem a realização de supostos debates, entrevistas e inquéritos, que mais não são do que simulacros, e que longe de lançarem luz sobre os problemas apenas contribuem para consolidar a ideia do «vale tudo». A demagogia tem uma variante: o desenvolvimento de mensagens esotéricas, milagreiras e paranormais, apresentadas de forma acrítica e num mesmo plano de realidade que os argumentos científicos. O desprezo pelos direitos fundamentais, tais como a honra, a intimidade, o respeito, a veracidade ou a presunção de inocência, cuja infracção não pode em nenhum caso ser defendida sob a capa da «liberdade de expressão». Este desprezo desemboca na realização de «juízos paralelos», no abuso do sensacionalismo e do escândalo; na apresentação de testemunhos supostamente verdadeiros, mas que provêm de «convidados profissionais».

 

E na apoteose de uma televisão de trivialidade, baseada no protagonismo das personagens do mundo cor-de-rosa, as suas insignificâncias e conflitos sentimentais, tratados descaradamente de forma sensacionalista. O problema é ainda mais agudo quando estes conteúdos são difundidos pelo canal de serviço público, cuja obrigação moral e legal é o de fornecer produtos, ética e culturalmente, solventes.

 

O telelixo nada inventou: a lisonja ao espectador e o sensacionalismo, vêm muito de trás, mas actualmente, a enorme influência social dos meios de comunicação de massas aumenta de forma exponencial os efeitos negativos deste tipo de mensagens. O telelixo está num momento ascendente do seu ciclo vital, como um cancro cujas metástases invadem todo o tecido social, impedindo que grelhas de outros modelos de informação mais respeitadores da verdade e do interesse colectivo surjam e se expandam.

 

Tudo o que no referido manifesto se alega para mobilizar esforços que combatam este tipo de negócio e todos os seus agentes é válido no nosso País. Não sei se devemos pensar num manifesto, mas é preciso fazer alguma coisa para que a televisão, factor tão importante de informação, cultura, entertenimento, mude em Portugal.

publicado por João Machado às 15:00

editado por Luis Moreira às 00:51
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Domingo, 22 de Maio de 2011

Cultura e televisão (a televisão é para estúpidos?), por Carlos Loures

 

 

 

 

 Cultura e televisão, será que ainda têm alguma coisa em comum? No começo da década de 90, Marlon Brando dizia numa entrevista que já não faltaria muito para que algum «génio criativo» se lembrasse de, num reality show, pôr pessoas a defecar perante as câmaras. Numa roda de amigos comentou-se na altura esta profecia do grande actor e, embora reconhecendo que a qualidade da televisão generalista baixava de ano para ano, pareceu-nos exagerada. Não havia ainda aqui a moda dos reality shows. Quando a inefável TVI lançou o Big Brother, alguns dos mesmos amigos recordaram a entrevista de Brando e começaram a perceber onde ele queria chegar. O nível cultural dos participantes era tão básico, o léxico e o universo conceptual utilizados tão rasteiros, que não exigia grande esforço imaginar qualquer deles a concretizar perante as câmaras a profecia de Marlon, caso tal lhes fosse pedido pela «realização».

 

Um dia em que, conversando com Mr. Hugh House, director do departamento de cursos de inglês da BBC, me queixava da má qualidade dos programas televisivos em Portugal ele respondeu-me: - Então você não sabe que a principal função da televisão é ser de má qualidade? Estávamos nos anos 80 e eu ainda acreditava que a televisão, meio ao qual me prende um vínculo afectivo, como terei oportunidade de explicar, poderia cumprir uma importante função pedagógica na efectiva criação de uma mentalidade democrática.

  

Quando, ainda a propósito da entrevista de Marlon Brando e falando dos programas actuais, alegou-se como desculpa a falta de cultura dos portugueses, o baixo índice médio de escolaridade. Alguém disse - «Mas o conceito do Big Brother não é português». E outro recordou - «Há trinta anos, com um índice de escolaridade mais baixo, as ruas das cidades ficavam desertas nas segundas-feiras à noite, pois estava quase toda a gente a ver o Zip-Zip, um programa que, apesar do bom nível do conteúdo era apreciado por uma larga faixa da população. Hoje em dia, as audiências aumentam na razão directa do número de telenovelas que um canal apresenta. Se às telenovelas, geralmente más, se somarem os tais reality shows e uns concursos idiotas, os índices de audiência sobem em flecha. A televisão generalista percorre uma espiral descendente – os canais na sua fúria de competirem na guerra das audiências, procuram colocar-se ao nível da incultura geral e, nesse esforço de «chegar às massas», com telenovelas tontas, talk shows inqualificáveis, concursos de pseudo cultura-geral, contribuem para o défice cultural dos telespectadores que terão tendência cada vez a preferir programações mais pobres. É sempre a descer.

 

Sobre este tema, encontramos palavras esclarecedoras num pequeno livro de Karl Popper, um grande filósofo britânico de origem austríaca (1902-1994) – Televisão Um Perigo Para a Democracia: "Por ocasião de uma conferência que dei há alguns anos na Alemanha tive o ensejo de conhecer o responsável de uma cadeia (de TV) que se deslocara para me ouvir juntamente com alguns colaboradores. (...) . Durante a nossa discussão fez afirmações inauditas, que se lhe afiguravam naturalmente indiscutíveis. «Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam», afirmava, por exemplo, como se fosse possível saber o que as pessoas pretendem recorrendo simplesmente aos índices de audiência.

 

Tudo o que é possível recolher, eventualmente, são indicações sobre as preferências dos telespectadores face aos programas que lhes são oferecidos. Esses números não nos dizem o que devemos ou podemos propor, e esse director de cadeia também não podia saber que escolhas fariam os telespectadores perante outras propostas. De facto, ele estava convencido de que a escolha só seria possível no quadro do que era oferecido e não perspectivava qualquer alternativa. Tivemos uma discussão realmente incrível. A sua posição afigurava- se-lhe conforme aos «princípios da democracia» e pensava dever seguir a única direcção compreensível para ele, a que considerava «a mais popular». Ora, em democracia nada justifica a tese deste director de cadeia (de TV), para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia porque é o que as pessoas esperam. Nessas circunstâncias, só nos resta ir para o inferno!» Um inferno ao qual vamos descendo, abandonando toda a esperança, como preconizava Dante, sempre que accionamos o comando. Um inferno onde vale meter todo o lixo.

 

Já para não falar nas manipulações…

 

__________________

Nota: Tendo mostrado um momento alto do Big Brother português, preparava-me para ilustrar este texto com um outro vídeo da 9ª edição do Big Brother italiano - Grande Fratello - que foi emitida em 2009. Um concorrente ameaça defecar em frente das câmaras (“Allora io adesso mi metto a cagare e pisciare qui in giardino, va bene? ” ). O vídeo não pode ser reproduzido, mas está disponível no You Tube. A profecia de Marlon Brando, não era, afinal, tão exagerada quanto parecia.


publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures às 15:18
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Sábado, 21 de Maio de 2011

O telelixo, uma última, ou penúltima, vez (A televisão é para estúpidos?), por Carlos Loures

 

 

 

 

 


 

Sei que estou a abusar da vossa paciência com esta obsessão (causada pelo imprinting?) de vasculhar no lixo televisivo. Vou só falar do que se passa no estado espanhol e não volto a falar tão cedo deste tema. Prometo.

 

No que à televisão diz respeito, em Espanha, pelos vistos, as coisas não vão melhor. Há meses, circulou um manifesto exigindo a aplicação de medidas contra a emissão de telelixo: «Plataforma para uma televisão de qualidade», apoiada pela Associação de Utentes da Comunicação, União Geral de Trabalhadores, «Comisiones Obreras», Confederação Espanhola de Mães e Pais de Alunos, União dos Consumidores de Espanha e Confederação das Associações de Moradores de Espanha. Não sei se deu algum resultado.

 

Muito do que aqui digo a seguir foi inspirado naquele manifesto e não seria mau que fôssemos pensando numa iniciativa semelhante, concitando o apoio de associações de pais, organizações de defesa dos consumidores e dos ecologistas, porque o telelixo é extremamente poluente. Teria de ser um amplo movimento de opinião dirigido aos cidadãos em geral, porque, antes de mais, o telelixo e sua proliferação coloca um sério problema de cidadania, minando e pondo em perigo os próprios alicerces da Democracia.

 

O objectivo dos promotores do telelixo é encontrar um mínimo denominador comum que permita atrair um grande número de espectadores. Para tal, utilizam qualquer tema de interesse humano, seja um acontecimento político ou social, como mero pretexto para desencadear aquilo que consideram ser os elementos básicos para a atracção da audiência – sexo, violência, sentimentalismo, humor grosseiro, superstição, muitas vezes de forma sucessiva e recorrente dentro do mesmo programa.

 

Sob uma hipócrita aparência de denúncia, os programas de telelixo deleitam-se com o sofrimento, com as demonstrações mais sórdidas da condição humana, com a exibição gratuita de sentimentos e de comportamentos íntimos. Contam também, com uma série de ingredientes básicos que os transformam em factor de aculturação e de desinformação, bem como um obstáculo ao desenvolvimento de uma opinião pública livre e devidamente fundamentada. Segue-se uma lista desses ingredientes.

 

reducionismo, com explicações simplistas de assuntos complexos, facilmente compreensíveis, mas parciais ou contendo orientações determinadas. Uma variante deste reducionismo consiste no gosto das teorias da conspiração de não se sabe bem que poderes ocultos, que muitas vezes servem de álibis a determinadas personalidades e grupos de pressão no seu trabalho de intoxicação.

 

demagogia, que consiste em apresentar todas as opiniões como equivalentes, independentemente dos conhecimentos ou dos fundamentos éticos sobre os quais se apoiam. Para tal, contribuem a realização de supostos debates, entrevistas e inquéritos, que mais não são do que simulacros, e que longe de lançarem luz sobre os problemas apenas contribuem para consolidar a ideia do «vale tudo». A demagogia tem uma variante: o desenvolvimento de mensagens esotéricas, milagreiras e paranormais, apresentadas de forma acrítica e num mesmo plano de realidade que os argumentos científicos. O desprezo pelos direitos fundamentais, tais como a honra, a intimidade, o respeito, a veracidade ou a presunção de inocência, cuja infracção não pode em nenhum caso ser defendida sob a capa da «liberdade de expressão». Este desprezo desemboca na realização de «juízos paralelos», no abuso do sensacionalismo e do escândalo; na apresentação de testemunhos supostamente verdadeiros, mas que provêm de «convidados profissionais».

 

E na apoteose de uma televisão de trivialidade, baseada no protagonismo das personagens do mundo cor-de-rosa, as suas insignificâncias e conflitos sentimentais, tratados descaradamente de forma sensacionalista. O problema é ainda mais agudo quando estes conteúdos são difundidos pelo canal de serviço público, cuja obrigação moral e legal é o de fornecer produtos, ética e culturalmente, solventes.

 

O telelixo nada inventou: a lisonja ao espectador e o sensacionalismo, vêm muito de trás, mas actualmente, a enorme influência social dos meios de comunicação de massas aumenta de forma exponencial os efeitos negativos deste tipo de mensagens. O telelixo está num momento ascendente do seu ciclo vital, como um cancro cujas metástases invadem todo o tecido social, impedindo que grelhas de outros modelos de informação mais respeitadores da verdade e do interesse colectivo surjam e se expandam.

 

Tudo o que no referido manifesto se alega para mobilizar esforços que combatam este tipo de negócio e todos os seus agentes é válido no nosso País. Não sei se devemos pensar num manifesto, mas é preciso fazer alguma coisa para que a televisão, factor tão importante de informação, cultura, entertenimento, mude em Portugal.

publicado por João Machado às 15:00
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

A televisão que temos (a televisão é para estúpidos?) – II, por Carlos Loures

 

 

 

 


 

 

Disse ontem que não percebia porque é que se gastava o dinheiro dos contribuintes em lixo, mas foi uma força de expressão, pois percebo perfeitamente as razões dessa aberração - a RTP está na guerra das audiências com a TVI e com a SIC e para isso precisa de baixar o nível cultural das suas emissões. À medida que os canais da concorrência vão descobrindo fórmulas de atrair audiências com concursos tontos, com telenovelas onde tudo é mau, do enredo às interpretações, passando pela realização, a RTP vai atrás, sempre atrás, imitando, procurando ir mais abaixo nesta espiral descendente, que não sabemos onde irá parar. O serviço público de televisão não deveria entrar nessa competição. com os canais privados. A sua função deveria ser informar, formar, divertir educando… Mesmo correndo o risco de perder telespectadores. Mantê-los servindo-lhes programas que competem em falta de qualidade com a «concorrência», vendo quem consegue exibir o lixo mais nauseabundo, não é prestar um serviço público.

 

Woody Allen, disse algures que, na Califórnia, não se deve deitar fora o lixo - «Eles reciclam-no sob a forma de programas de televisão». O problema é que este conselho passou a ser válido fora da Califórnia, mesmo na Europa, particularmente em Portugal. Dissemos num texto anterior que as palavras cultura e televisão estavam a deixar de fazer sentido quando aparecem em conjunto; em contrapartida, a palavra lixo, coaduna-se perfeitamente com a televisão que se faz dos nossos dias.

 

Gustavo Bueno, o pensador espanhol, criador do conceito de Materialismo Filosófico, publicou em 2002 um livro a que chamou «Telebasura y democracia», ou seja «Telelixo e Democracia». O subtítulo da obra é elucidativo - «cada povo tem a televisão que merece». Afirmação que tem graça, mas que não pode corresponder à verdade. Quando um povo é muito inculto tem tendência a preferir programas fúteis, idiotas mesmo. Isso não significa que «mereça» que lhe sirvam o lixo que ele prefere.

 

É uma interpretação muito redutora do princípio democrático que obriga a respeitar a vontade das maiorias, esquecendo que é função das instituições democráticas do Estado proporcionar meios para as pessoas elevarem o seu nível cultural e educacional. Tanto mais que, neste caso, a vontade da maioria prejudica essa maioria e beneficia o negócio. Mas, aparte este slogan que não sei se é da autoria de Bueno ou de algum «génio» do marketing, o livro é muito interessante. Não conheço tradução em língua portuguesa, mas tudo o que ali se diz sobre a qualidade da televisão espanhola é aplicável, por maioria de razão, à televisão portuguesa que, pelo que tenho visto, consegue ser pior do que a do estado vizinho, embora isso pareça difícil. Para além do lixo servido como entretenimento e que cria dependência nos telespectadores, há a vertente política de um meio que Karl Popper, como já vimos noutro texto anterior, não hesitou em classificar como «um perigo para a democracia»

 

O eixo temático do livro de Gustavo Bueno é a observação sistemática que o filósofo fez sobre o Big Brother (Gran Hermano, na versão espanhola), programa visto diariamente por onze milhões de telespectadores. Os níveis de abjecção e de indigência mental alcançados em Espanha, parecem não terem ficado nada a dever aos que em Portugal se atingiram. Porque, como afirma Gustavo Bueno, os índices de audiência na sociedade democrática é que orientam a produção de novos programas. E Bueno remata o raciocínio dizendo que não será por razões éticas ou morais, «mas sim por razões de simples sobrevivência democrática». E cita Lope de Veja, grande dramaturgo espanhol dos séculos XVI e XVII: «homem de teatro que conhecia as leis do mercado séculos antes da televisão: “Se o vulgo é néscio, é justo falar-lhe néscio para lhe dar prazer.”» Será verdade que o néscio e o inculto, por uma questão de preguiça intelectual, têm prazer em que lhes falem na linguagem e segundo os conceitos que melhor dominam, sem terem que fazer esforço mental.

 

Mas, seguindo este critério, o néscio nunca deixará de o ser.

publicado por João Machado às 21:00
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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

A televisão que temos (a televisão é para estúpidos?) – I, por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Konrad Lorenz o grande naturalista austríaco (1903-1989), prémio Nobel para a Medicina em 1973, criou o conceito do imprinting, que em castelhano se traduziu por «impronta», mas que entre nós se tem preferido deixar em inglês, já que uma tradução literal – estampagem, cunhagem, gravação - podia dar lugar a uma distorção do conceito científico. O que é o imprinting? Estudando o comportamento dos gansos recém-saídos da casca, Lorenz verificou que eles aprendem a seguir a mãe, mesmo que seja uma falsa mãe, um ser humano, outro animal ou mesmo um objecto, copiando-lhe o comportamento.

 

Num tempo de agressividades e de fundamentalismos, seria útil compreender os mecanismos desse comportamento que, à primeira vista, é irracional e autodestrutivo. Volto ao tema inicial. Saído da casca, o meu primeiro emprego «a sério» foi na RTP. Por isso, talvez, à luz do conceito etológico do Lorenz, me tenha ficado dos longínquos dois anos em que lá trabalhei o hábito de preferir o canal de serviço público aos outros dois que surgiram muito posteriormente. Vejo diariamente os serviços informativos da RTP, o «Jornal da Tarde» emitido do Porto e o «Telejornal». Imprinting? Talvez.

 

Vou abordar pormenores. As coisas transcendentes ficam para depois. Entre o que se tem e o que se idealiza é preciso criar degraus. Se deixamos um abismo intransponível entre realidade e sonho, nem as asas da imaginação de quem lê o consegue por vezes transpor. E as pernas da realidade muito menos. Mutatis mutandis, entre o canal de serviço público que temos e o que gostávamos de ter, a diferença é abismal. Por isso, vou referir alguns dos modestos degraus que poderiam conduzir a RTP ao patamar satisfatório que merecíamos ter num serviço público de televisão. Se o soubéssemos exigir.

 

No que se refere ao «Jornal da Tarde», lamento os critérios de um alinhamento que privilegia notícias regionais sem grande relevância, deixando para o fim acontecimentos mais importantes da actualidade nacional ou internacional. Não seria preferível a RTP ter mais dois ou três canais regionais onde se desse uma informação local completa e minuciosa (como o da Madeira e o dos Açores e como acontece com a descentralizada TVE? Embora se compreenda perfeitamente a necessidade de dar, num palco com audiência nacional, protagonismo à região Norte, esse desiderato resulta muitas vezes em mau jornalismo – o que diríamos de um jornal que trouxesse na primeira página um vulgar acidente de viação ocorrido na cidade onde o periódico se edite e nas páginas interiores a notícia de um terramoto na China, ou de um descarrilamento na Índia, com centenas de mortos? Deficiência, essa comum a todos os serviços informativos da RTP, é uma exagerada extensão, incluindo peças temáticas, com maior ou menor interesse, mas que não têm a ver com o tipo de informação que se espera. Os serviços da RAI, por exemplo, são modelares, pois em meia hora dizem tudo o que de importante se passou no mundo e no país. Na RTP (e nos outros canais generalistas) existe a ideia de que um serviço informativo é «uma espécie de magazine».

 

Dá-se demasiada importância ao futebol. Não é invulgar os serviços abrirem com um flash de um jogo o que me leva logo a pensar: «hoje não aconteceu nada de importante». E às vezes nem é verdade. Outra coisa que não percebo é a razão por que se gasta tanto dinheiro em tele-tontice, pagando a «cantores populares» que nos despejam em cima, doses maciças de analfabetismo de pornografia primária, servidos sob uma suposta forma musical. Lixo, que serve para preencher programas como a Praça da Alegria, Portugal no Coração, e quejandos, verdadeiros hinos à imbecilidade (salvo uma ou outra entrevista que teria interesse se os apresentadores fossem capazes de as fazer).

 

Registo também o tique anedótico dos jovens profissionais que, depois de termos escutado uma personalidade discorrer sobre qualquer assunto da sua área de actividade, nos «explicam», como se estivessem a fazer uma tradução do chinês, .as mais das vezes em linguagem confusa e demorada, aquilo que, por vezes, a pessoa disse de forma escorreita e ágil. Como fazem todos os mesmo, penso que será lição (mal) aprendida nos cursos de jornalismo onde lhes devem ter dito para encerrar cada entrevista com uma breve síntese do que o entrevistado disse. Coisa de que a maioria não é capaz.

publicado por João Machado às 21:00
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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Esta noite podemos contar

com uma canção romântica à uma hora - cantada pelo Bing Crosby; às duas, mais um texto dos dez mais lidos (o nono classificado) - que nos fala dos momentos-chave na evolução do galego-português e às três uma pergunta baseada numa afirmação do Luiz Pacheco - A televisão é para estúpidos?

Agora, podemos contar com mais uma aparição de um sapo - já perceberam porquê?
publicado por Carlos Loures às 00:30
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Sábado, 23 de Outubro de 2010

A televisão, D. Afonso Henriques e o fado

Carlos Loures

Não me recordo precisamente de quando foi – há 15, talvez há 20 anos – num dicionário de História de Portugal cuja edição coordenei, na entrada sobre D. Afonso Henriques, dava-o como nascido no ano de 1109 em Coimbra. As gentes de Guimarães deram paus por pedras: não podia ser, exigiam que a editora publicasse um desmentido. Era uma «gralha»? – perguntavam alguns. Numa obra com diversos volumes, mais de um milhar de páginas, muitos milhares de entradas e milhões de palavras – e com prazos rigorosos a cumprir – quem coordena não pode ler tudo e, aquele pormenor tinha-me passado. E, mesmo que tivesse lido, talvez tivesse estranhado, mas teria de aceitar, pois quase todas as entradas tinham sido entregues a especialistas. Era o caso.

O autor da entrada era um credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar para a Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães - nesse ano a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam. A administração apertava comigo – e lá estava este vosso amigo entalado entre o ardor do regionalismo vimaranense e a justificada teimosia da ciência histórica. Não vou fazer do episódio um romance policial. Vou já revelar como é que o imbróglio se resolveu porque o que quero contar é outra história.

Um historiador com grande êxito televisivo e editorial, colaborador da editora, foi por esses dias a Guimarães fazer uma palestra à Sociedade Martins Sarmento. Um avultado grupo de vimaranenses, estudantes na sua maioria, julgando-o co-responsável pelo furto do fundador à Cidade-Berço, fez uma manifestação em frente do hotel onde estava hospedado. Teve de sair escoltado pela polícia.

A sociedade encheu-se para o ouvir e o conceituado historiador, depois de ter explicado que não tinha dirigido o tal dicionário, tranquilizou as belicosa hostes - «D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães! Não há dúvidas a esse respeito!». Uma estrondosa ovação, que se repetiu depois ao longo da palestra. Ele que entrara protegido pela polícia, saiu quase aos ombros dos manifestantes. E a zanga de Guimarães desvaneceu-se: o que eram um dicionário e um texto de um professor desconhecido comparados com a opinião de um homem tão famoso e que falava na televisão? No regresso de Guimarães, o historiador almoçou comigo e quando lhe perguntei que elementos tinha ele para contrapor aos alicerçados argumentos do medievalista, respondeu-me: «Nenhuns! Só os do bom senso». Fiquei um bocado desconcertado. Mas ele consolidou a sua tese - «O que interessa onde é que o D. Afonso I nasceu realmente? E se não nasceu em 1109? Porque se põe em causa o lugar e não a data?» – e completou - «Há coisas em que não se pode mexer. Esta é uma delas. D. Afonso I nasceu em Guimarães. Assunto arrumado!». Dei-lhe razão, até porque me convinha: assunto arrumado.

O professor José Mattoso, na sua biografia sobre o primeiro rei de Portugal narra este acontecimento, com imprecisões, nomeadamente quanto ao nome da editora detentora dos direitos da obra, mas isso não tem importância. E não esclarece de forma peremptória onde nasceu o filho da bastarda de Afonso VI de Leão. Mais recentemente, surgiu a hipótese de o local do nascimento de Afonso I ser Viseu, hipótese secundada por alguns historiadores. Não sei como reagiu desta vez a «cidade-berço»… Mas voltemos à questão.

Estava já a esquecer o caso, quando me telefonam da RTP, pedindo-me para ir a um programa da tarde, dirigido pelo Raul Durão, falar no assunto do D. Afonso Henriques. E disseram-me o dia e a hora. Procurei escusar-me, mas um administrador, com o qual estava reunido quando do telefonema, insistiu para que fosse. Era uma boa oportunidade, disse-me, para esclarecer a posição da editora. Quando me prontifiquei a ir, disse que levaria comigo o professor, o medievalista: eu falaria sobre a prática comum da editora em matéria de escrúpulo científico e ele esclareceria a questão histórica.

Da RTP concordaram. Foi numa segunda-feira. Passei pela Nova, encontrei-me com o professor e fomos até ali perto, à 5 de Outubro, de onde era emitido o programa. Eu tinha estudado alguma coisa sobre o tema, porque embora não fosse essa a área sobre a qual iria falar, não queria estar «às escuras». Lembro-me que estive no domingo de manhã no Limo Verde da Parede, onde na altura morava, lendo e anotando, nas fotocópias de que me munira, o que me parecia interessante. Pelo meio, para descansar do tema afonsino, li num suplemento do DN um pequeno texto do Jorge Luis Borges, onde o genial escritor argentino, analisava com mestria as similitudes entre duas canções urbanas – o tango e o fado.

Lá marchámos, o professor e eu, para os estúdios, combinando estratégias pelo caminho. Fomos, como é hábito, recebidos por uma secretária que nos levou à maquilhagem e, enfim, lá chegou o momento de entráramos no estúdio e de nos sentarmos em frente das câmaras, enquanto passavam um bloco de publicidade. Primeira surpresa: não era o Raul Durão que nos ia entrevistar, mas sim Luís de Castro. O Durão estava de férias, esclareceu Castro. Por nós não fazia diferença. Diferença fez, quando a entrevista começou a ser dada em directo e vimos no teleponto aparecer a primeira pergunta, mais ou menos isto: «No vosso dicionário, na entrada Fado, diz-se que a chamada canção nacional teve origem no Brasil. É verdade?» Olhar de pânico entre mim e o professor. Fado? Resolvi avançar e conceder tempo ao ilustre académico para rebobinar o cérebro. Às vezes nem sei como continuo a ser um ateu empedernido: então não é que o tetxtozinho do cego prodigioso, que li nos intervalos da consulta às fotocópias, estava quase todo na minha memória?

A questão do fado arrumei-a com uma frase – É verdade. Terá nascido de uma música popular que existia no Brasil no início do século XIX, proveniente de danças trazidas de Angola pelos escravos e que podiam ser acompanhadas por canto, conjunto a que se chamava fado; música que a corte de D. João Vi trouxe do Brasil, quando regressou a Lisboa. E depois acrescentei: «Segundo Jorge Luis Borges… e, zás, debitei o sumo do texto lido na véspera. Entretanto o professor teve tempo para recuperar do susto e fez uma intervenção muito interessante sobre as eventuais raízes árabes da canção, que teria passado a sua influência às famosas endechas e daí vindo até aos nossos dias ligado à tal dança chegada dos trópicos. Foi canja!

A entrevista acabou e a secretária veio dizer-nos que tinha ficado fascinada com o tínhamos dito sobre o fado. A senhora foi tão simpática que nem tivemos coragem para protestar muito pelo qui pro quo. Apesar de tudo, enquanto nos acompanhava até à saída, queixámo-nos – «então convidam-nos para falar sobre o D. Afonso Henriques e entrevistam-nos sobre o fado? A senhora desvalorizou. «- Ah sim? O Raul foi de férias e se calhar esqueceram-se de dar as notas que ele deixou ao Luís. São coisas que acontecem. E os senhores saíram-se tão bem…» - fiquei com a ideia, talvez injusta, de que fora ela quem se esquecera de dar os tais apontamentos ao Luís de Castro.

*

Nunca mais pensei no assunto das eventuais raízes árabes do fado. No entanto, ao escutar esta interpretação de «Meu Fado», por Mariza e Miguel Poveda, os requebros de flamenco do cantor catalão levaram a eu me lembrasse da hipótese levantada pelo Professor – origens mouras, herança da cultura do Al-Andalus? Não é tão improvável como á primeira vista parece.

Moral das histórias – nunca se pode dar nada por adquirido: O “Fundador” nasceu em Guimarães, Coimbra ou Viseu? O fado veio de África (via Brasil) ou os muçulmanos deixaram-no cá ficar? Para complicar, há quem fale na hipótese da origem celta… É rebuscado, mas quem sabe?

Enquanto meditamos, ouçamos a Mariza e o Miguel Poveda - «Meu Fado»:

publicado por Carlos Loures às 12:00
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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

A televisão que temos (a televisão é para estúpidos?) - II

Carlos Loures



Disse ontem que não percebia porque é que se gastava o dinheiro dos contribuintes em lixo, mas foi uma força de expressão, pois percebo perfeitamente as razões dessa aberração - a RTP está na guerra das audiências com a TVI e com a SIC e para isso precisa de baixar o nível cultural das suas emissões. À medida que os canais da concorrência vão descobrindo fórmulas de atrair audiências com concursos tontos, com telenovelas onde tudo é mau, do enredo às interpretações, passando pela realização, a RTP vai atrás, sempre atrás, imitando, procurando ir mais abaixo nesta espiral descendente, que não sabemos onde irá parar. O serviço público de televisão não deveria entrar nessa competição. com os canais privados. A sua função deveria ser informar, formar, divertir educando… Mesmo correndo o risco de perder telespectadores. Mantê-los servindo-lhes programas que competem em falta de qualidade com a «concorrência», vendo quem consegue exibir o lixo mais nauseabundo, não é prestar um serviço público.

Woody Allen, disse algures que, na Califórnia, não se deve deitar fora o lixo - «Eles reciclam-no sob a forma de programas de televisão». O problema é que este conselho passou a ser válido fora da Califórnia, mesmo na Europa, particularmente em Portugal. Dissemos num texto anterior que as palavras cultura e televisão estavam a deixar de fazer sentido quando aparecem em conjunto; em contrapartida, a palavra lixo, coaduna-se perfeitamente com a televisão que se faz dos nossos dias.


Gustavo Bueno, o pensador espanhol, criador do conceito de Materialismo Filosófico, publicou em 2002 um livro a que chamou «Telebasura y democracia», ou seja «Telelixo e Democracia». O subtítulo da obra é elucidativo - «cada povo tem a televisão que merece». Afirmação que tem graça, mas que não pode corresponder à verdade. Quando um povo é muito inculto tem tendência a preferir programas fúteis, idiotas mesmo. Isso não significa que «mereça» que lhe sirvam o lixo que ele prefere.

É uma interpretação muito redutora do princípio democrático que obriga a respeitar a vontade das maiorias, esquecendo que é função das instituições democráticas do Estado proporcionar meios para as pessoas elevarem o seu nível cultural e educacional. Tanto mais que, neste caso, a vontade da maioria prejudica essa maioria e beneficia o negócio. Mas, aparte este slogan que não sei se é da autoria de Bueno ou de algum «génio» do marketing, o livro é muito interessante. Não conheço tradução em língua portuguesa, mas tudo o que ali se diz sobre a qualidade da televisão espanhola é aplicável, por maioria de razão, à televisão portuguesa que, pelo que tenho visto, consegue ser pior do que a do estado vizinho, embora isso pareça difícil. Para além do lixo servido como entretenimento e que cria dependência nos telespectadores, há a vertente política de um meio que Karl Popper, como já vimos noutro texto anterior, não hesitou em classificar como «um perigo para a democracia»

O eixo temático do livro de Gustavo Bueno é a observação sistemática que o filósofo fez sobre o Big Brother (Gran Hermano, na versão espanhola), programa visto diariamente por onze milhões de telespectadores. Os níveis de abjecção e de indigência mental alcançados em Espanha, parecem não terem ficado nada a dever aos que em Portugal se atingiram. Porque, como afirma Gustavo Bueno, os índices de audiência na sociedade democrática é que orientam a produção de novos programas. E Bueno remata o raciocínio dizendo que não será por razões éticas ou morais, «mas sim por razões de simples sobrevivência democrática». E cita Lope de Veja, grande dramaturgo espanhol dos séculos XVI e XVII: «homem de teatro que conhecia as leis do mercado séculos antes da televisão: “Se o vulgo é néscio, é justo falar-lhe néscio para lhe dar prazer.”» Será verdade que o néscio e o inculto, por uma questão de preguiça intelectual, têm prazer em que lhes falem na linguagem e segundo os conceitos que melhor dominam, sem terem que fazer esforço mental.

Mas, seguindo este critério, o néscio nunca deixará de o ser.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

Informação ou manipulação? ( A televisão é para estúpidos?)

Carlos Loures

Terminei a crónica anterior deixando em suspenso a questão das manipulações (políticas, económicas, culturais…) que a televisão veicula. Foi tema muito falado há pouco mais de um ano, em Maio de 2009, quando Manuela Moura Guedes entrevistou no “Jornal Nacional” da TVI o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, No seu habitual estilo truculento, o bastonário disse à pivô verdades duras como punhos, daquelas que muito raramente se escutam em televisão. Vamos recordar esse momento.



De facto, a «informação» que naquela estação (e não só) se praticava, e pratica, deixa muito a desejar, misturando-se de maneira avulsa, opiniões com factos e não se fazendo a destrinça do que é uma e outra coisa. Isto, como muito bem disse Marinho Pinto não é jornalismo; são sim «julgamentos sumários disfarçados de jornalismo».


A televisão tem este poder de eliminar factos e de criar factos, de manipular a realidade e de a apresentar conforme melhor for servida a necrofagia e o sensacionalismo que parecem ter tomado conta do jornalismo em geral e os interesses, políticos, económicos, dos grupos a que o canal seja afecto.

Sobre o poder da televisão, dizia Karl Popper na sua obra já citada, que, nos nossos dias a, a televisão assumiu um poder colossal, potencialmente o maior de todos, «como se tivesse substituído a voz de Deus». Afirma ainda que em democracia não pode haver poderes incontrolados, pois a essência da democracia consiste precisamente em submeter o poder político a um controlo.

O poder da televisão constitui, pois, um grave perigo para a democracia e esse perigo agudizar-se-á se não conseguirmos pôr cobro aos abusos dos canais televisivos - «Nenhuma democracia pode sobreviver se não controlarmos esta omnipotência», dizendo ainda: «A democracia, como expliquei algures, não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura, e nada no seio da democracia proíbe as pessoas mais instruídas de comunicarem o seu saber às que o são menos. Pelo contrário, a democracia sempre procurou elevar o nível de educação; é essa a sua autêntica aspiração. As ideias deste director de uma cadeia televisiva não correspondem em nada ao espírito democrático, que sempre foi o de oferecer a todos as melhores oportunidades. Inversamente, os seus princípios conduzem a propor aos telespectadores emissões cada vez piores, que o público aceita desde que se lhes acrescente violência, sexo e sensacionalismo"."(Popper refere-se ao director de um canal de televisão que conheceu na Alemanha no decurso de uma conferência, que afirmava axiomaticamente que “Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam”).

Não sei se Popper tem razão quando diz que a democracia «não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura». Esta definição parece-me redutora. Mas isso seria entrar numa outra discussão. Todavia, quanto a mim, Popper tem toda a razão quando nos alerta para os perigos de um meio que, tendo o poder de substituir a informação pela manipulação, pode destruir a democracia, instaurando em seu nome a ditadura dos media, por sua vez ao serviço de interesses políticos e económicos que nada têm de democrático.

Os governantes, os actuais e os anteriores, só se preocupam com as manipulações quando elas os atingem, como fez Sócrates na entrevista de 21 de Abril de 2009, na RTP, concedida a José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, em que denunciou o mesmo Jornal Nacional da TVI e aquilo que naquele canal passa por ser um serviço informativo, dizendo que o que ali se faz não é jornalismo, mas sim «caça ao homem» e que se trata de um «telejornal travestido». Isto, porque foi atacado a propósito do caso Freeport. E quando, ali e noutros espaços «informativos», outras pessoas, a verdade e a Democracia são atacados? Acrescente-se que Moura Guedes contra-ataca e pôs agora uma acção ao primeiro-ministro devido aquelas declarações.
Todos sabemos que nenhum governo da «democracia» que temos, exercerá uma acção pedagógica, profilática e terapêutica sobre os órgãos de informação. Não estou a falar de censura política, de repressão ou de limitações impostas à liberdade de imprensa (como em resposta a Sócrates o então director da TVI, vitimizando-se, se apressou a vir denunciar o que lhe parecia subjacente às palavras do primeiro-ministro). Estou a falar do inverso: impedir que a comunicação social se transforme ela mesma num odioso instrumento de repressão. O que começa a acontecer.

A liberdade de imprensa exige por parte dos profissionais um grande sentido de responsabilidade, o que raramente se verifica. Estou a falar de um cotejo sistemático e permanente entre o código deontológico que rege a profissão de jornalista e a prática exercida pelos respectivos profissionais. Aquilo de que falava Marinho Pinto.

Nunca esquecendo que, a maior parte das vezes, muito bons jornalistas, submetidos a direcções ligadas a grupos político-económicos e não só, são obrigados a escolher entre a honestidade e o emprego, entre o pão e a verdade. Para se extirpar este tumor que não cessa de aumentar, tem de se ir bem fundo na incisão e não ficar pela solução fácil de punir ou diabolizar jornalistas corruptos, por certo ao serviço de interesses obscuros, mas que apesar da sua desonestidade mais não são do que as pontas visíveis e emergentes de gigantescos icebergues submersos.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

Cultura e televisão (a televisão é para estúpidos?)

Carlos Loures



Cultura e televisão, será que ainda têm alguma coisa em comum? No começo da década de 90, Marlon Brando dizia numa entrevista que já não faltaria muito para que algum «génio criativo» se lembrasse de, num reality show, pôr pessoas a defecar perante as câmaras. Numa roda de amigos comentou-se na altura esta profecia do grande actor e, embora reconhecendo que a qualidade da televisão generalista baixava de ano para ano, pareceu-nos exagerada. Não havia ainda aqui a moda dos reality shows. Quando a inefável TVI lançou o Big Brother, alguns dos mesmos amigos recordaram a entrevista de Brando e começaram a perceber onde ele queria chegar. O nível cultural dos participantes era tão básico, o léxico e o universo conceptual utilizados tão rasteiros, que não exigia grande esforço imaginar qualquer deles a concretizar perante as câmaras a profecia de Marlon, caso tal lhes fosse pedido pela «realização».

Um dia em que, conversando com Mr. Hugh House, director do departamento de cursos de inglês da BBC, me queixava da má qualidade dos programas televisivos em Portugal ele respondeu-me: - Então você não sabe que a principal função da televisão é ser de má qualidade? Estávamos nos anos 80 e eu ainda acreditava que a televisão, meio ao qual me prende um vínculo afectivo, como terei oportunidade de explicar, poderia cumprir uma importante função pedagógica na efectiva criação de uma mentalidade democrática.



Quando, ainda a propósito da entrevista de Marlon Brando e falando dos programas actuais, alegou-se como desculpa a falta de cultura dos portugueses, o baixo índice médio de escolaridade. Alguém disse - «Mas o conceito do Big Brother não é português». E outro recordou - «Há trinta anos, com um índice de escolaridade mais baixo, as ruas das cidades ficavam desertas nas segundas-feiras à noite, pois estava quase toda a gente a ver o Zip-Zip, um programa que, apesar do bom nível do conteúdo era apreciado por uma larga faixa da população. Hoje em dia, as audiências aumentam na razão directa do número de telenovelas que um canal apresenta. Se às telenovelas, geralmente más, se somarem os tais reality shows e uns concursos idiotas, os índices de audiência sobem em flecha. A televisão generalista percorre uma espiral descendente – os canais na sua fúria de competirem na guerra das audiências, procuram colocar-se ao nível da incultura geral e, nesse esforço de «chegar às massas», com telenovelas tontas, talk shows inqualificáveis, concursos de pseudo cultura-geral, contribuem para o défice cultural dos telespectadores que terão tendência cada vez a preferir programações mais pobres. É sempre a descer.

Sobre este tema, encontramos palavras esclarecedoras num pequeno livro de Karl Popper, um grande filósofo britânico de origem austríaca (1902-1994) – Televisão Um Perigo Para a Democracia: "Por ocasião de uma conferência que dei há alguns anos na Alemanha tive o ensejo de conhecer o responsável de uma cadeia (de TV) que se deslocara para me ouvir juntamente com alguns colaboradores. (...) . Durante a nossa discussão fez afirmações inauditas, que se lhe afiguravam naturalmente indiscutíveis. «Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam», afirmava, por exemplo, como se fosse possível saber o que as pessoas pretendem recorrendo simplesmente aos índices de audiência.

Tudo o que é possível recolher, eventualmente, são indicações sobre as preferências dos telespectadores face aos programas que lhes são oferecidos. Esses números não nos dizem o que devemos ou podemos propor, e esse director de cadeia também não podia saber que escolhas fariam os telespectadores perante outras propostas. De facto, ele estava convencido de que a escolha só seria possível no quadro do que era oferecido e não perspectivava qualquer alternativa. Tivemos uma discussão realmente incrível. A sua posição afigurava- se-lhe conforme aos «princípios da democracia» e pensava dever seguir a única direcção compreensível para ele, a que considerava «a mais popular». Ora, em democracia nada justifica a tese deste director de cadeia (de TV), para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia porque é o que as pessoas esperam. Nessas circunstâncias, só nos resta ir para o inferno!» Um inferno ao qual vamos descendo, abandonando toda a esperança, como preconizava Dante, sempre que accionamos o comando. Um inferno onde vale meter todo o lixo.

Já para não falar nas manipulações…

__________________
Nota: Tendo mostrado um momento alto do Big Brother português, preparava-me para ilustrar este texto com um outro vídeo da 9ª edição do Big Brother italiano - Grande Fratello - que foi emitida em 2009. Um concorrente ameaça defecar em frente das câmaras (“Allora io adesso mi metto a cagare e pisciare qui in giardino, va bene? ” ). O vídeo não pode ser reproduzido, mas está disponível no You Tube. A profecia de Marlon Brando, não era, afinal, tão exagerada quanto parecia.

publicado por Carlos Loures às 12:00
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