Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Notas sobre o suicídio de 26 de Abril, na France Télécom por Júlio Marques Mota

1ª Parte

 

Notas sobre o suicídio de 26 de Abril, na France Télécom

 

1 a. Um pouco de história sobre France Télécom

 A lei de 10 de Julho de 1990, relativa à organização do serviço público dos correios e das telecomunicações, transformou o serviço público das telecomunicações em exploração pública, pessoa moral de direito privado, denominada France Télécom . Na data da promulgação da lei, esta entidade empregava  funcionários e dos contratados em regime de direito público. O emprego de contratados de direito privado só era possível em casos muito limitados.

 

A lei de 2 de Julho de 1996 modificou a lei citada transformando France Télécom em pessoa moral de direito privado, na ocorrência, em empresa nacional, exploradora de serviço público, constituída em sociedade anónima. Esta empresa nacional viu reconhecido o direito empregar agentes, contratados de acordo com o direito privado.

 

A lei de 2003 retirou a qualificação de explorador de serviço público e de empresa nacional e submeteu France Télécom à legislação aplicável, às sociedades anónimas.

 

A privatização de France Télécom foi acompanhada do seu desenvolvimento à escala internacional. Esta adquiriu numerosas filiais. Em particular, em 2000 adquiriu o operador de telemóveis britânico Orange, que se tornará a marca de France Télécom. Ela internalizou igualmente um certo número de actividades das suas filiais.

 

Esta sociedade que emprega ainda 65% de funcionários, está sujeita ao código do trabalho e, em particular, ao conjunto das disposições relativas às instituições representativas  do pessoal. As primeiras eleições tiveram lugar em 2004, os funcionários participam nas eleições e podem ser eleitos. Os funcionários são, pois representados por instancias de direito privado. Todavia permanecem regidos por regras estatutárias que lhes são aplicáveis e que lhes são mantidas. Assim, As comissões administrativas paritárias, são mantidas e os funcionários continuam a ser regidos pelo estatuto de função pública.

 

Entre 1998 e 2002 France Télécom tornou-se o quarto operador mundial pela sua dimensão. France Télécom endividou-se, aquando das suas aquisições, em particular com as realizadas no período mais alto, o da bolha internet.

 

De 22002 a 2005 France Télécom tinha anualmente que pagar entre 5 e 15 milhares de milhões de euros. O ano de 2002 foi marcado por um prejuízo de 20 mil milhões de euros . Esta situação levou o estado a recapitalizar a empresa France Télécom e o reembolso da sua dívida foi reescalonado .

 

Face a esta situação France Télécom reduziu os seus encargos e em particular os da massa salarial.
Assim, durante o período 2001 a 2005 os efectivos de France Télécom passaram de 148.900  a 121.000. Estas saídas maciças são essencialmente devidas às saídas para a reforma, para a pré-reforma e numa menor medida em deslocações para a função pública.

 

Aliás, em Junho de 2003 um acordo de gestão previsional das competências foi assinado com 4 organizações sindicais. A direcção desejava de facto graças a este acordo organizar a fluidez do emprego e reorientar os seus colaboradores para os empregos prioritários, a fim de acrescer a produtividade e a qualidade dos seus serviços. Este acordo organiza a mobilidade no interior do grupo e para a função pública. Esteve em vigor, de Junho de 2003 a Março de 2006.

 

Em Junho de 2005 Didier Lombard PDG de France Télécom apresenta o plano NEXT (Nova Experiência das Telecomunicações).

Aquando duma conferência de imprensa na associação dos quadros superiores e dirigentes de France Télécom, Louis Pierre Wenes, director-geral adjunto de France Télécom,  indicava que era conveniente aumentar a produtividade de 15% entre 2006 e 2008, ou seja de 5 % ao ano. Didier Lombard nessa mesma reunião lembra as escolhas feitas para aumentar a produtividade de France Télécom e de dinamizar a política comercial. Dois eixos essenciais são escolhidos: suprimir 22.000 empregos em 3 anos e reforçar os empregos dedicados ao serviço cliente assim como às novas tecnologias. Pierre Louis Wenes acrescenta que é necessário fazer depressa, fazer depressa, fazer depressa”.

 

Excertos de Relatório enviado a sua Ex.ª o Procureur de la Republique pela Inpectrice du travail de la section 15.A, a 4 de Fevereiro de 2010.

 

Os dados de partida são para já suficientes para termos uma linha de análise para os dramas dos suicídios  que é para já colocá-los no âmbito das relações de trabalho e fazer  como o Presidente actual de France Télécom fez que foi considerar este suicídio como um acidente de trabalho. No contexto presente parece-me a melhor linha de análise  daí a nossa opção pela publicação de um texto de Patrice Huerre, psiquiatra.

 

1.b Informação do Jornal Le Monde

 

Um trabalhador suicidou-se

Um assalariado da França Telecom-Orange, de 57 anos de idade, suicidou-se na terça-feira 26 de Abril de manhã, imolando-se  pelo fogo no parque de estacionamento da agência Mérignac, perto de Bordeus, anunciou a direcção do grupo  que se declarou “perturbada”.
A direcção do grupo vai ao local

 

“ Os socorros chegados ao local apenas puderam confirmar o falecimento deste assalariado de 57 anos de idade ", precisou a direcção, acrescentando ter criado uma célula de psicólogos e anunciam a deslocação “imediata” ao local da Directora Executiva, de Orange, France, Delphine Ernotte e do director dos recursos humanos, Bruno Metling.
Sébastien Crozier, responsável sindical nesta área  indicou sobre I-Tele que “esta pessoa tinha sido muito afectada pelo período de reorganização, de supressão de emprego ", posto em prática pelo antigo Um trabalhador suicidou-se

Um assalariado da França Télécom-Orange, de 57 anos de idade, suicidou-se na terça-feira 26 de Abril de manhã, imolando-se pelo fogo no parque de estacionamento da agência Mérignac, perto de Bordéus, anunciou a direcção do grupo  que se declarou “perturbada”.

 

A direcção do grupo,vai ao local

 

Os socorros chegados ao local apenas puderam confirmar o falecimento deste assalariado de 57 anos de idade ", precisou a direcção, acrescentando ter criado uma célula de psicólogos e anunciam a deslocação “imediata” ao local da Directora Executiva de Orange, France, Delphine Ernotte e do director dos recursos humanos, Bruno Metling.

 

Sébastien Crozier, responsável sindical nesta área indicou sobre I-Tele que “esta pessoa tinha sido muito afectada pelo período de reorganização, de supressão de emprego " posto em prática pelo antigo director do grupo Didier Lombard.

 

Acrescentou ainda que este assalariado “trabalhava na empresa desde há mais de 30 anos "  e que tinha “expresso [aos seus colegas] a sua dificuldade para reencontrar um equilíbrio ", depois deste período de tensão social.

 

A France Télécom tinha sido marcada por uma crise social de grande amplitude depois de uma vaga de suicídios de assalariados seus, entre Janeiro de 2008 e final de 2009, no grupo em que trabalham cerca de 100.000 assalariados. O sistema de gestão instaurado a partir de 2004 para incitar à partida de 22 000 assalariados em três anos foi nomeadamente posto em causa.
A política de modernização levada a cabo pela France Télécom a marcha forçada já deu origem  à supressão de  dezasseis mil trabalhadores entre 2006 e 2008. Esta política de modernização já lhe tinha feito vender a casa e este trabalhador já tinha escrito à sua Direcção e sem resposta, que se saiba.  

 

Le Monde com  AFP, France Télécom : un salarié se suicide en s'immolant par le feu,   26.04.11 e 29.04.11.

 

Em nota a estes dois artigos  sabe-se hoje que mandou uma carta aberta à direcção, enviada a   18 de Setembro  e aqui vos deixo a percepção que o trabalhador imolado, pai de quatro filhos, tinha  das condições  de trabalho no quarto operador mundial das novas tecnologias, France Télécom:
“continuamos todos, empregador, Estado accionista e decisor, sindicatos, assalariados, a ignorar as verdadeiras causas profundas: daqui a dez anos, estaremos ainda  do mesmo assunto…enfim não… uma certa categoria de pessoal terá desaparecido quer por ter ido para a reforma quer pelo suicídio: e o problema será resolvido!

 

Na carta sublinha  o facto de ser colocado no caixote do lixo, referenciando que “ aqueles  que são abandonados  e obrigados a enfrentar o seu falhanço no quotidiano estão muito mal! Eles estão preocupados com a qualidade da sua prestação, tornada impossível, sem via de saída. “ Eu estou nesse segmento. Ratio de gestão da situação nacional: estou mais que farto”. A 26 de Abril, mostrou-o da forma trágica que todos sabemos.

 

Basta de palavras.

 

(continua)

publicado por Luis Moreira às 20:00
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