Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

A República nos livros de ontem nos livros de hoje - CLXXXIV, por José Brandão

 

Suicídios Famosos em Portugal

 

José Brandão

 

Europress, 2007

 

As histórias dos suicídios aqui apresentadas são apenas uma parte de tantas outras que ocorreram durante esse período que medeia entre o início da segunda metade do século XIX e vai até aos anos Trinta do século XX.

 

São figuras que se destacaram nos diversos campos da vida nacional e que optaram por pôr termo à vida recorrendo ao suicídio.

 

Apresentadas em dois blocos, em que o primeiro, de José Fontana a Florbela Espanca, contem exposição mais detalhada de cada uma das histórias, esta relação de 17 suicidas famosos ocupa a maior parte deste trabalho.

 

O segundo bloco, que começa em 1856 e se estende até 1934, resume-se a pequenas notas de cada uma das 30 ocorrência expostas.

 

São pois, um total de 47 vultos envolvidos num final de vida que é comum a todos eles.

 

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publicado por João Machado às 17:00
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Domingo, 19 de Junho de 2011

A corda do senhor Amável - por Carla Romualdo

 

 

 

 

As salas de espera oferecem-nos uma invariável colecção de revistas anódinas, a que só o tédio ou o nervosismo, ou a penosa combinação de ambos, nos faz recorrer, revistas que compilam dados inúteis sobre gente que não conhecemos, fotos de sorrisos branqueados com as mais recentes e dispendiosas técnicas de branqueamento,  mamas aumentadas com silicone, lábios insuflados, rostos inexpressivos. São publicações concebidas para adormecer qualquer inquietação, e, na sucessão tranquila das suas páginas, vamos passando, sem sobressalto, por fotos de gente que posa para a câmara enquanto  profere frases plenas de uma inofensiva banalidade, coisas como “Os filhos mudam a nossa vida”, ou “A Vanessa é a mulher dos meus sonhos”, ou “Este é o maior desafio da minha carreira”.  


E entre vestidos glamorosos, sorrisos resplandecentes e histórias de amores e famas meteóricas, pontuadas por algum episódio mais negro de um divórcio ou de uma avó falecida aos 90 anos, enfiada num lar há mais de dez anos mas de quem o artista muito gostava, folheia-se a revista e, mesmo sem conhecer um terço dos que lá estão, cai-se naquele entorpecimento que nos faz esquecer o que nos trouxe à sala de espera.


Mas talvez isto, que até há pouco era suficiente, já não chegue e seja agora necessário um pouco mais de dramatismo, umas pinceladas largas de tragédia, histórias mais folhetinescas, que belisquem o leitor e o façam sentir a alfinetada dos dramas alheios, o alívio por não ser a vítima. Só neste contexto se poderia entender a história que encontrei numa dessas revistas, numa dessas descaracterizadas e cinzentas salas de espera.


O pai de um famoso totalmente desconhecido (categoria que, como sabem, sendo inteiramente paradoxal, com frequência se encontra nestas revistas) havia-se suicidado. E a publicação, acometida de brio jornalístico, resolvera investigar esse suicídio, falando com gente mais ou menos próxima ao falecido, com vizinhos, vagos conhecidos, comerciantes do bairro onde morava. E é assim que numa das páginas surge uma foto que eu por pouco não vi, folheando a revista a toda a pressa, mas que me fez voltar atrás e deter-me nela, é assim que aparece frente a mim o senhor Amável, dono da drogaria ao pé da casa do suicida, a mesma drogaria onde o pai do famoso desconhecido comprou a corda que viria a usar para se enforcar, ali estava ele, o senhor Amável, posando, visivelmente pouco à vontade, não deve estar acostumado a que o fotografem, e muito menos para as revistas, com um pedaço de corda nas mãos, mostrando aos leitores da revista esse pedaço de corda, ainda presa ao enorme rolo de onde saiu um outro pedaço de corda, o que nunca chegámos a ver, mas que sabemos que apertou o pescoço de um homem até o matar.


Sim, terá dito o senhor Amável, foi uma corda como esta, deste mesmo rolo que aqui está, que ele comprou, e nunca me passou pela cabeça que fosse para aquilo, claro, que a gente nunca sabe o que vai na cabeça das pessoas, e a nossa função é vender e não fazer perguntas. Mas foi com esta que ele se matou, é o que dizem, não sei porque eu não o vi, claro, não estive lá. Mas é possível, porque é uma boa corda, é resistente, e embora não seja muito grossa era bem capaz de dar conta do recado e aguentar o peso de um homem. Coitado do homem, nunca me passou pela cabeça que fosse para aquilo. Mas é mesmo assim, a gente vende o que nos pedem e não pergunta para que será. 


Tudo isto terá dito o senhor Amável até o fotógrafo o mandar calar, e por isso apenas nos chegou a foto que retrata a sua incomodidade. E quando lhe disseram que se colocasse frente ao rolo, e que mostrasse aos leitores como era essa corda, tornando-se assim um nobre servidor do jornalismo, da imperiosidade de informar o público sedento de detalhes, o senhor Amável lá se colocou ao lado do rolo,  fazendo um esforço para endireitar as costas que a idade e os anos ao balcão encurvaram, e agarrou um pedaço de corda entre os dedos, a horrível corda, mas também a resistente e prestimosa corda, que cumpre aquilo que o homem lhe pede, a mesma corda que um homem colocou à volta do seu pescoço, a mesma que o suspendeu no ar, e lhe garroteou o pescoço, essa horrível, sim, mas também resistente e prestimosa  corda do senhor Amável.

publicado por CRomualdo às 21:00

editado por João Machado às 03:03
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

França Telecom: um suicídio reconhecido como acidente do trabalho parte II por Júlio Marques Mota

continuação daqui

 

1.c França Telecom: um suicídio reconhecido como acidente do trabalho

 

Le Monde com AFP , 13.07.10

 

Este inquérito, no qual participaram inspectores da polícia judiciária, durou dezoito horas. Reuters/Eric Gaillard

 

O Director Geral da França Telecom, Stéphane Richard, decidiu reconhecer o suicídio de um assalariado como sendo acidente do trabalho apesar dos pareceres desfavoráveis da Inspection générale des affaires sociales (IGAS) e de uma comissão interna, indicou na terça-feira  a direcção.

 

“Além do parecer comunicado pela comissão de reforma [instância interna] sobre a ligação do drama que nos tocou com a empresa, Stéphane Richard decidiu que enquanto líder deste grupo, devia assumir um dever de assistência e de memória no que diz respeito aos desaparecidos, dos seus ambientes familiares e profissionais ", declarou um porta-voz da França Telecom.

 

O Director Geral “deseja igualmente tudo fazer para que todos juntos possamos superar este momento particularmente doloroso ". “Neste espírito, decidiu considerar este suicídio como um acidente de trabalho ", acrescentou o porta-voz.

 

O assalariado em causa que não tem descendentes e assim  esta classificação em acidente de serviço não dá lugar ao pagamento de uma renda pelo Estado, como os seus eventuais descendentes teriam podido dela pretender.

 

Dezassete suicídios desde o início de 2010

 

Há um ano exactamente, na noite de 13 para 14 de Julho de 2009, Michel D., quadro arquitecto de redes em Marselha de 51 anos, suicidava-se no seu domicílio, pondo em causa numa carta sua a “sobrecarga de trabalho” e um “gestão de terror”.

 

O gesto deste funcionário não era o primeiro, mas tinha posto em evidência no quadro do mal-estar em que se estava a viver na France Télécom por uma parte dos assalariados perante os métodos de gestão e das numerosas reorganizações, obrigando o governo a reagir e a direcção a tomar uma série de medidas das quais a substituição do Presidente, Didier Lombard, pe3lo presidente actual  Stéphane Richard

 

A Direcção e os sindicatos recensearam 35 suicídios de assalariados, alguns dos quais no local de trabalho, em 2008 e 2009, e os sindicatos referem ainda que houve ainda 17 suicídios desde o início 2010.

 

O gesto de Stéphane Richard é “extremamente simbólico " de acordo com o sindicato SUD, “muito político " segundo a CFDT, para quem “isto credibiliza a sua intenção de colocar o humano no centro " da empresa, como o proclamou no dia 5 de Julho.

 

“É uma medida de apaziguamento e de reconstrução ", considera o sindicato CFE-CGC/UNSA, que se interroga contudo “como é que se vai reanalisar os suicídios da era Lombard " (2005-2010). Os sindicatos sublinham “a ambiguidade” do procedimento de reconhecimento dos acidentes de serviço para os funcionários da France Télécom (65% de alguns 100.000 assalariados), sobre os quais a empresa decide. Para os assalariados de direito privado, ter direito à Segurança Social é o elemento decisivo e de toda a independência..

 1.d Um texto a ler com muita atenção

 

Suicídio: a armadilha das explicações simplistas

 

LEMONDE, 10.11.10

 

Nestes últimos tempos, numerosos meios de comunicação social atribuíram um lugar importante aos suicídios de assalariados de empresas ou de instituições como a França Télécom, Correios, Renault, a Guarda Nacional ou o Serviço Nacional das Florestas (ONF). Nessas ocasiões, simplificações puderam ser feitas mas merecem que se volte a esta questão .

 

O enigma e a violência que representa o gesto suicida de um ser humano agridem muito fortemente e muito naturalmente o seu ambiente familiar, profissional e social. Como sempre face à dimensão do incompreensível, a necessidade de explicar impõe-se com força. A fascinação ou a angústia que suscita tal acto não permitem, aos familiares - a família, o ambiente escolar, profissional ou social - diferir a resolução, para tentar reencontrar um equilíbrio posto em perigo.

 

Se é fácil compreender e aceitar, para melhor os acompanhar, tais reacções emanando do ambiente familiar e profissional próximo, é lamentável ver os meios de comunicação social, que estão mais à distância e que têm um dever de esclarecimento objectivo à comunidade, precipitarem-se pela mesma via. A época evidentemente privilegia as simplificações abusivas, pronta a adoptar uma representação caricatural da realidade. Ela testemunha regularmente a sua incapacidade em apreender a complexidade humana.

 

Perante cada grande problema que se nos é colocado - quer se trate de desregulação climática, da ameaça de uma nova forma de gripe ou do suicídio de assalariados - tudo se passa como se o que importa é, sobretudo, identificar uma causa, simples e única, a fim de obter ,o mais depressa possível, um suposto remédio para tudo resolver. Infelizmente, como assim efectivamente o deu a perceber René Girard, a sociedade prefere sacrificar um bode expiatório para canalizar, através dele, a violência social.

 

Para além do facto de esta abordagem traduzir  a pretensão rara de pensar que seríamos os primeiros na história humana a ser confrontados com questões deste tipo o que é típico do funcionamento adolescente que caracteriza em parte a nossa época - esta forma de abordagem afasta o enriquecimento que permite , cada vez que acontece, a investigação dos factores contributivos do que pode conduzir à passagem para o acto suicida: da psicologia individual à história do pessoa, da sua família e do seu ambiente; da antropologia e da Sociologia à filosofia; da economia à psicologia do trabalho; dos factores mais íntimos aos factores ambientais mais diversos. Sem esta abordagem plural, e em cada vez também, única, o risco é grande de conduzir a simplificações que certamente tranquilizam a curto prazo, mas erradas e conduzindo a soluções também elas, truncadas e erradas ou mesmo  impróprias.

 

A simplificação pode igualmente provocar uma indução, até mesmo um “contágio” o que a todos deve francamente preocupar. Este fenómeno é conhecido nos adolescentes, em especial nos mais vulneráveis, para os quais o que interessa aos adultos - e os inquieta muito - é que se abra a esperança de que se tenha mais atenção ao seu mal-estar : assim, o interesse da nossa época traduzido pelos meios de comunicação social sobre o alcoolismo, sobre as tentativas de suicídio ou sobre o absentismo escolar, etc. pode ter, para os mais frágeis,  um valor paradoxal de indução do que é temido. Daí o risco real de uma mediatização excessiva destes fenómenos, como a OMS e a Associação Internacional para a Prevenção do

 

Suicídio já o sublinharam, aquando do dia mundial de prevenção do suicídio a 10 de Setembro de 2010.

 

Daí a importância da boa utilização dos dados estatísticos disponíveis, a fim de os utilizar para o que estes nos podem trazer, mas não para além disso. Daí, igualmente, a necessidade para as instituições ou para as empresas confrontadas com suicídios de não naufragarem na culpabilidade activa e na adopção demasiada de normas, de protocolos e de cuidados que, antes que de se proteger a comunidade contra a tentação suicida, confortaria sobretudo aqueles que a esta tentação sucumbiriam mais facilmente quanto à oportunidade psíquica de ultrapassar a linha.

 

Perante os dramas humanos do suicídio, é imperativo abrir a reflexão efectivamente muito para além do que a que esta tem sido,  frequente e infelizmente bastante reduzida. Os meios de comunicação social, têm a este respeito uma responsabilidade que é da sua obrigação saber enfrentar, sem nunca se esquecer que, muito longe de serem simples relatores da realidade, a sua presença e os seus discursos também influenciam esta mesma realidade.

 

Doutor Patrice Huerre, psiquiatra dos Hospitais, psicanalista, chefe de serviço de psiquiatria da criança e adolescência, EPS Erasme, Antony, França.

 

O Doutor Patrice Huerre é também Vice-Presidente de La Maison des Adolescents des Hauts de Seine e perito junto do Tribunal de Recurso, em Versalhes.

 

Patrice Huerre, Suicide : le piège des explications simplistes, Le Monde, 10 de Noveembro de 2010.

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Suicídios entre os trabalhadores - É sempre outra coisa por Luis Louzã

Luís Louzã é nosso leitor e a propósito do texto do nosso companheiro Júlio Marques Mota, sobre os suicídios entre os trabalhadores da France Télécom, enviou-nos o excelente texto que publicamos em seguida:

 

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de economia da Universidade de Coimbra em 1998,

 

Técnico de intervenção Local  nos bairros Municipais de Lisboa, Gebalis, Gestão dos Bairros de Lisboa

autor do capítulo III,  Comportamentos suicidários e modelos Sociais, - alguns pressupostos teóricos in “ Comportamentos Suicidários em Portugal ed. SPS, Lisboa,2006.

 

Aluno do curso de Mestrado, ISCTE, 2010; 2011

 

 

Autor: Luís Louzã

Liboa, 3 de Maio de 2011

Ao ler o texto  do Prof. Júlio Mota acerca das comemoração do dia do Trabalhador, 1 de Maio num actual contexto nebuloso várias reflexões me suscitou e a necessidade de reconceptualizar um tema tantas vezes obscuro, ignorado e negligenciado como o do suicídio nas sociedades modernas e desenvolvidas, o suicídio no mundo do trabalho. O tema não é novo. A História repete-se, tem os seus ciclos e com ela também os fenómenos sociais.

 

Durkheim, já em 1897 se debruçara sobre as causas deste facto num ambiente de rápida industrialização europeia e em particular da francesa. Para este autor, muito sucintamente, tal era estreitamente ligado ao estudo da divisão do Trabalho e Durkheim detectava  uma crise moral e um vazio de regras que se traduzia numa divisão forçada do trabalho.                                                                                                                            

 

Ao tipificar os vários tipos de suicídio ( egoísta, altruísta, anómico) dava enfoque a um conceito que definiu como Anomia ou seja, ausência ou desintegração social de normas, regras ou leis. A anomia, considerava, é uma das consequências patológicas da divisão do trabalho que se traduz numa carência temporária de qualquer regulação social apta a assegurar a cooperação entre funções especializadas.                                   

 

Afirmava que a sociedade está sob muitos pontos de vista em estado anómico, patológico. Havia uma desregulação moral, numa moral colectiva na sociedade europeia em particular na francesa,  afirmava .Actual esta análise? Veremos que sim:

 

Sobre o fenómeno do desemprego, estudos médicos  de meados do séc. XX nomeadamente a partir das décadas de cinquenta e sessenta demonstraram ser este um factor de risco na propensão ao acto suicida  nas camadas mais baixas da população. Origina alterações psíquicas em indivíduos mais expostos ao ciclo de desemprego.                                                                                                                                   

 

Leva muitas vezes a outros factores de risco como a miséria e o alcoolismo. O risco aumenta consideravelmente com o desemprego de longa duração no sexo masculino.                                                                                         

 

Começam também a definir os vários tipos de  comportamentos suicidários sendo que suicídio é entendido na concepção “ Durkheiminiana “ como sendo todo o caso de morte que resulta directa ou indirectamente de um acto positivo ou negativo praticado pela própria vítima, acto que a vítima sabia dever produzir este resultado; Tentativa de Suicídio, entendida como o acto levado a cabo por um indivíduo e que visa a sua morte, mas que por razões diversas não é alcançada, e por último uma inovadora conceptualização: Para-suicídio entendido este como  acto não fatal.                     

 

O indivíduo protagoniza um comportamento invulgar, sem intervenção de outrem, causando lesões a si próprio ou ingerindo uma substância em excesso com vista a conseguir modificações imediatas com o seu comportamento ou a partir de eventuais lesões físicas consequentes.                                                                                                 

 

Desta redefinição surgem na literatura psiquiátrica estudos muito interessantes que remetem para uma análise das condições sócias e económicas das populações. De 1968 e 1982, a Escola de Edimburgo verificou haver dez vezes mais incidência do desemprego nos para-suicidas do sexo masculino do que no do grupo de controle. (Platt & Kreitman). Num Estudo de Oxford, essa mesma incidência subiria de 12 a 15 vezes mais. (Hawton & Rose;1986).
 

Correlacionados também estão outros factores que os podem desencadear, como sejam, alcoolismo, consumo de drogas, lares desfeitos, saída de casa na adolescência ou psicopatologias. Estas também recaem em indivíduos que têm êxito, por ex. empresários. Stengel refere, já nos finais da década de sessenta que as taxas mais elevadas de suicídio também se situavam nas profissões liberais e nas posições dirigentes, seguidos de empresários e gestores.

 

Outra realidade que começou a ser detectada, principalmente nos países nórdicos e anglo saxónicos foi o aumento na faixa etária do 15-24 anos principalmente em indivíduos do sexo masculino. São várias as razões apontadas: Maior competição, académica e  laboral, dificuldades de manter postos de trabalho e fontes de auto estima  alternativas.                                                                                                                             

 

O estudo de Kessel, em Edimburgo  verificou em relação ao Para- suicídio, haver uma predominância de indivíduos, principalmente do sexo feminino em idade jovem ou jovens adultos oriundos de zonas de periferia das cidades, zonas degradadas e onde predominavam casas superlotadas ou de pequena dimensão. Todas estas realidades apontam para uma só causa:                                                                                                      

 

As Profundas alterações e reestruturações  sofridas no mundo da produção e do mercado de trabalho por um processo de globalização.  Consequentemente aumentou a exclusão nas classes baixas  e o afastamento de quadros técnicos em idade activa.

 

E nos dias de Hoje em relação ao Emprego e às políticas de Emprego?

 

A estratégia está muito bem montada por parte dos grandes grupos financeiros e económicos e por parte do poder político. Interessa dividir classes sociais, gerações de trabalhadores, sectores, em nome da forte rentabilidade descartam-se os recursos humanos. Aos Jovens que chegam agora ao mercado de trabalho diz-se que o estado social não comporta tantas reformas e o envelhecimento e da população. À população no activo afirma-se a oposição a jovens e  idosos.                                                                                                                                                                   

 

Aos trabalhadores do sector privado afirma-se que os da Função publica são ociosos. Aos trabalhadores dos vários sectores produtivos afirma-se a ociosidade dos sector terciário. O desmantelamento das classes médias é já um sintoma de que estas também já fazem parte de uma certa forma de “Lumpen”. Caminham a passos largos para uma vida sem esperança num presente ou num futuro.                                                              

 

São já aquilo que em Inglaterra se designa por  “hopeless”- são estes que vivem em bairros degradados, que começam a viver em bairros degradados. São estes que morrem.

 

O caso “France Telecom” é já um referencial no estudo da epidemiologia do Suicídio. Um paradigma. Mas não o único. Ignoram-se e são escamoteadas as estatísticas de Suicídio das profissões de risco ou que lidam com o risco, no limiar da vida e da morte: da classe médica, não é noticiado, dos professores, dos militares, dos agentes da polícia e muitos outros.                                                                                         

 

Em muitos destes casos estas mortes são consideradas como acidentes de trabalho ou noticiadas como tal num processo algo obscuro, nebuloso.                                                                               

 

Referência apenas para estudos americanos que apontam para uma série de suicídios em militares das tropas americanas em exercício no Iraque e no Afeganistão. Mortes que muitas das vezes são referenciadas como em combate ou tendo origem em atentados. Nada mais falso. Já há estudos sobre isso.                                                                                                                                                                                            

 

Em Portugal, tem havido, nos últimos anos um acréscimo de Suicídios entre os agentes da Polícia de Segurança Pública o que levou o Gabinete de Apoio psicológico da PSP a estabelecer um protocolo de linha de Intervenção preventiva com a SPS( Sociedade Portuguesa de Suicidologia ( ver site: www.spsuicidologia.pt)
     

No Fundo da névoa como na frase de um Poema de Herberto Helder: “ É Sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes”(…) porque afinal tudo isto é um sintoma de uma Sociedade anómica.
    



publicado por Luis Moreira às 23:00
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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Histórias de Suicídios Famosos em Portugal - 5 - por José Brandão

Júlio César Machado (1835-1890)



Júlio César da Costa Machado nasceu em Lisboa, em 1 de Outubro de 1835, filho de Luís Maria Cesário da Costa Machado e de Maria Inácia Machado. Aos 3 anos de idade foi com a mãe para uma casa de campo da família, na Durruivos, nas cercanias de Óbidos. Ali, «resguardado entre as saias da mãe, das tias e de um tio frade», ali pároco, cresceu o escritor numa imensa saudade pelo pai, quase sempre ausente. Refere-se-lhe desta forma, numa das suas melhores páginas:


«Vi aparecer um homem embuçado numa capa, alto, elegante, de uma fisionomia suave e inteligente, mãos compridas e delgadas, dedos finos, e o indizível quê da sedução nos olhos, no sorriso, nas maneiras... imagine-se a fusão da aristocracia da raça, aristocracia natural, com a burguesia digna e séria: foi o que eu senti, sem poder, sem saber exprimi-lo, olhando para meu pai e para minha mãe. Nem era fidalgo nem descendia de nobres, meu pai; mas tinha a nobreza que dão a inteligência, a fisionomia, a figura; havia nele o quid da superioridade, o tom especial do gosto. Minha mãe era uma mulher forte, que parecia moldada em bronze florentino, daquelas mulheres como que destinadas a alcançarem que suas filhas pareçam ser suas irmãs, por tal modo se conservam moças como as mulheres do Egipto, núbeis aos 10 para os 11 anos, avós aos 24, bisavós aos 26. Quantas vezes hoje, quando se admiram, os que me conhecem de há muito, por notarem que eu aguento, na minha movediça e fatigante vida que tenho levado, certa inverosímil mocidade, me lembro eu de minha mãe que aos 60 anos não tinha cabelos brancos e lhe atribuo o segredo desta serôdia e estranha primavera aparente! A nossa época é uma democracia de trabalho: a base dela reside no que produz cada um; aquele que adquira uma ideia, uma só ideia que seja, em toda a sua vida, vale mais do que o outro que se haja conservado na sombra, como numa fábrica, uma roda que não gira à vontade de quem a emprega: mas dantes não era assim; era a idade dos cadetes, dos filhos da viúva, dos herdeiros ricos, que começavam o viver novo, despendendo os haveres paciente e laboriosamente ganhos pelo viver velho.

«Meu pai vivera, divertira-se, despendera três fortunas no florescer daquela quadra. Em parte, porque lhe fosse natural, e em parte, porque a vida elegante dá um cunho especial, como que a sua marca, o seu selo, aos que a cultivam. Tudo nela respirava a cavalheiro; era um gentlemen, era um senhor. Olhava para ele pasmado, encantado; que diferença dos sujeitos de sobrecasaca, que apareciam às vezes na Durruivos, o administrador do concelho, o médico da vila próxima, o cónego que vinha visitar o pároco... Nunca vira um homem assim! Não sabia no que mais atentasse, se no bigode longo e assedado, se nos cabelos finos e compridos, se no casaco justo ao corpo, com alamares e debruado a peles, como era a moda de então, se no anel que lhe vi brilhar no dedo, se na capa, se nas botas altas... Direito, ágil, intrépido, cabeça erguida, em tudo o homem costumado a ver satisfeitos os seus desejos, e a quebrar as resistências todas [….]. Não existe a felicidade na sua plenitude, porque no adejar das asas frementes aspira sempre a ir mais longe do que a ilha encantada do momento; aliás, eu poderia dizer que fui feliz naquela noite... Mas a felicidade verdadeira nunca chega a servir senão para se lembrarem dela os que a desgraça instruir. Em todo o caso, a querer pôr em linha de conta o tempo em que em toda a minha vida tenho empregado em dormir, em esperar, em duvidar, em me enganar a mim, em errar, em prever, em evitar estar doente, em o estar deveras, em deplorar penas, que eram bens, e passar por mágoas verdadeiras, em desprezos e ilusões, em derrubar e erguer altares até se desfazerem em pó, talvez não vivesse completamente para a felicidade, absoluta, inteira, completa, mais do que essa hora! Nos compridos dias da Durruivos, ir para meu pai havia sido o meu sonho; e o meu sonho cumpria-se.»


Depois de uma breve passagem pelo Colégio Militar, de onde foge devido aos maus-tratos do professor de Latim, César Machado matricula-se no liceu. Datam dessa época as suas primícias literárias: Estrela de Alva, romance dos catorze anos, será publicado na revista A Semana, de Camilo Castelo Branco. A morte prematura do pai força-o a ganhar a vida com a escrita, tornando-se tradutor efectivo do Teatro do Ginásio.




Em 1844, com a mãe, vai, finalmente, juntar-se-lhe a Lisboa. Quatro anos depois, o empresário Silva Vieira apresentou no teatro do Salitre a comédia em um acto As Calças Listradas. E quando o pano desceu, o público reclamou a presença do autor. Entre os autores, um adolescente de 14 anos agradecia a ovação. Era Júlio César Machado, na estreia da sua carreira literária. Até ao final da vida, o teatro mereceria sempre um lugar de relevo na carreira de homem de letras, que cedo começara. É que ele, como praticamente todos os homens de letras, teve um emprego de sobrevivência, porém apenas a partir de 1864: secretário do Instituto Industrial de Lisboa.

Um dos mais destacados polígrafos da segunda metade do século XIX, jornalista, tradutor, autor de romances, contos e peças de teatro, Júlio César Machado salientou-se sobretudo como folhetinista e cronista.




Em 1852, com apenas dezassete anos, publica o romance Cláudio, confessadamente influenciado pelas Memórias de um Doido, de Pedro Lopes de Mendonça, que viria a ser o seu mestre, tanto no romance como no folhetim; a partir de 1858, César Machado substituiu-o como folhetinista regular em A Revolução de Setembro. Em 1864, ocupa o lugar de secretário do Instituto Industrial de Lisboa. Em 1870, é um dos co-fundadores da Associação de Homens de Letras.


Ao longo da sua vida, Júlio César Machado deixaria uma imensa colaboração dispersa por jornais e revistas como a Revista Universal Lisbonense, o Diário de Notícias, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, a Revista Ocidental, a Ilustração Portuguesa e o Eco Literário, de que foi co-fundador, em 1886, entre muitos outros. Muitos dos seus folhetins e crónicas de viagem seriam reunidos em volume.




Crítico de teatro durante muitos anos, «sempre de luva de pelica, com o sorriso nos lábios, mas ensinando o bom caminho a escritores e artistas», no dizer de Sonsa Bastos, Júlio César Machado biografou alguns dos mais notáveis artistas da sua época: Tasso, Taborda. Josefa Soller, Isidoro e Sargedas, os mais dos textos saídos na «Galeria Artística/Colecção de Biografias de Actores e Actrizes Portuguesas», da Livraria de A. M. Pereira.




Júlio César Machado escreveu ficções, viagens, comédias e chegou a abordar a comédia-drama. Porém, ontem, como agora, escrever para o teatro não seria uma actividade muito gratificante do ponto de vista financeiro, e o talento dispersou-se-lhe por outros géneros, especialmente o folhetim. Mesmo assim, deixou-nos as peças Amigos... Amigos, provérbio em um acto, O Tio Paulo, drama em três actos escrito expressamente para o Teatro das Variedades e para o cómico Isidoro, cuja biografia publicara em 1859, O Anel da Aliança, comédia em um acto, Amor às Cegas, comédia em um acto levada à cena, aliás com muito sucesso, no Teatro D. Maria II, e Primeiro Deter, comédia-drama em três actos, de parceria com Alfredo Hogan, que Sousa Bastos verbera por ter escrito precipitadamente todas as suas peças, mais interessado na edição que na representação. Outras comédias da sua autoria, no entanto, foram representadas, mas nunca impressas. É o caso de Antes das Eleições e Depois das Eleições, ambas levadas à cena no Trindade.




Estimado e festejado por todos, Júlio César Machado era um «coração de ouro». Camilo Castelo Branco, de quem fora amigo toda a vida — desde o dia em que o visitara na Rua do Ouro, numa dessas estadas lisboetas do romancista, quando este escrevia Anátema — não ocultava o que lhe parecia um «vazio» nos seus escritos: «minguavam em crítica, doutrina, conselho e ensinamento», mas, acrescentava, «essa falta não há-de arguir ao entendimento de Júlio César Machado é uma virtude nele, bondade do seu coração».




Frequentador dos teatros e visita dos camarins, dedicou muitos anos da sua vida a estudar e analisar o fenómeno teatral e conheceu todos os grandes e pequenos artistas do seu tempo.
«Quando, em 1857, a cólera caiu sobre Lisboa, escreve, em tanta maneira foi cortês para com as classes altas, que não atacou senão os pobres. Sucedia-me nessa ocasião uma pequena contrariedade, difícil de vencer — a de estar pobríssimo. Era tradutor do Teatro do Ginásio; dirigia a secção literária de um jornal, Doze de Agosto e era revisor da Revista Universal Lisbonense... Mas, logo que rompeu a cólera, o Teatro do Ginásio fechou, o jornal Doze de Agosto parou, e a Revista Universal Lisbonense morreu. Não se apresentava de um modo propriamente risonho o horizonte, para mim.»




É nessa altura que, apertado pela necessidade, inicia os seus famosos folhetins na Revolução de Setembro, onde substituiu Lopes de Mendonça, que trocava o jornalismo pela política. E o jornal esgotava-se às terças-feiras ou seja cada vez que o seu nome aparecia impresso como autor. Com pseudónimo — chegou a usar simplesmente Carolina! — o êxito era o mesmo, e assim colaborou noutros jornais. Aliás, na construção de pseudónimos utilizou os anagramas como Ochadam e Oiluj, assim como Zzzt, e outros. Mas conheciam-lhe o estilo, procuravam-no, pelo que foi compondo o seu pé-de-meia. Nos folhetins, Júlio César Machado arranjou fartos leitores para os seus livros. E estes tiveram êxito assegurado. Só Contos de Luar teve três edições em oito meses, num total de cinco mil exemplares — importante número para a época. «O mais elegante contista», chamou-lhe Alberto Pimentel. Mas as viagens seriam o seu gozo e, assim, depois de ter publicado um livro um tanto heterodoxo deste género, Passeios e Fantasias, no mesmo ano de 1862 em que saiu Cenas da Minha Terra, no ano seguinte apareceu com Recordações de Paris e Londres, em 1865 com Em Espanha, e, em 1867, com Do Chiado a Veneza, que antecedeu o curiosíssimo Quadros do Campo e da Cidade. Lisboa, apesar de tudo é a grande protagonista da sua obra em livro e em jornal. Lisboa é o cenário privilegiado dos textos e da própria vida de Júlio César Machado.




É de notar que um espírito extrovertido como o deste folhetinista, surpreendentemente, apenas uma vez falou em público. Foi no Colégio Artístico Comercial, que ficava ao Rato, onde proferiu uma palestra sobre Rossini. Convidou-o o director do estabelecimento, José Maria de Andrade Ferreira, seu antigo colega da Galeria Artística e o autor do Curso de Literatura Portuguesa, que Camilo concluiria.




Sousa Bastos, em O Biógrafo, de 15 de Maio de 1880, deixou-nos escrito que, a Machado, «a política meteu-lhe sempre horror, e por isso, possuindo um talento superior e uma popularidade extraordinária, tem até hoje conseguido não ser deputado. Todos os políticos o estimam; ele trata-os muito bem, felicita-os pelos seus triunfos, lastima-os pelos seus desastres, mas afasta-se deles o mais que pode, unicamente porque lhe cheiram a... política.» E no fecho de uma biografia, a cerca de dez anos da sua morte: «Como homem e como literato, Júlio César Machado é a individualidade mais simpática da nossa terra.» No mesmo sentido, Gervásio Lobato, em Contemporâneo, de Abril de 1875, abria o seu artigo publicando que «Júlio César Machado é uma das individualidades mais simpáticas e mais características das nossas letras. Espírito verdadeiramente superior, profundo na sua singeleza, artístico na sua simplicidade, elegante na sua funda filosofia, ninguém como ele pôde atingir entre nós as formas correctas, definitivas e características do folhetim.»


Ironicamente, a sua vida, consagrada à escrita humorística do quotidiano, terminaria num ambiente de tragédia familiar. Dois meses depois do suicídio do filho único, em 1890, no mesmo ano da morte do seu grande amigo Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado, não resistindo à dor provocada pelo suicídio do único filho, pôs termo à vida na sua casa, um terceiro andar do número 2 da Travessa do Moreira, ao Salitre, em Lisboa. Mais tarde a artéria passou a chamar-se Rua de Júlio César Machado, ficando a casa assinalada com uma placa comemorativa da efeméride.


Foi na manhã de 12 de Janeiro, num gesto premeditado. O escritor e sua mulher, Maria das Dores, arranjaram-se como se fossem fazer uma visita. Júlio César chamou a velha criada, Maria José — há mais de meio século ao serviço da família —, e mandou-a à Rua do Ouro, comprar o «Le Fígaro». Quando a criada regressou com o jornal, um estranho quadro a aguardava: o casal jazia no chão, num lago de sangue — o patrão morto e a esposa moribunda. Ambos tinham golpeado os pulsos com tal violência que se viam os ossos. Como espectador daquela cena macabra, o retrato do filho, que propositadamente fora retirado da parede e colocado na mesa, ante a qual tudo se desenrolara. Maria das Dores resistiu. Durante mais de três meses obrigaram-na a lutar com a morte. Ficou-lhe o braço esquerdo paralisado e o luto pelo filho e pelo marido.


O jornalista e escritor vivia obcecado pelo filho. Criara-o, digamos assim, com excesso de enlevo. Estroina, muitos desgostos deu o moço ao pai, acabando por suicidar-se a tiro, dentro de um trem, a 13 de Outubro de 1889, ficando numa agonia que demorou dois dias. Tinha 17 anos. O desgosto prostrou Júlio César Machado e a esposa, que, desde então, até ao segundo acto da tragédia, deixaram de contactar com os seus amigos. Tanto quanto sabemos, antes de o casal cortar as veias, com uma grande raiva, o escritor, em vão, tentou enforcar-se.


O escritor morre, para consternação dos seus contemporâneos, que lhe admiravam o estilo claro e ligeiro, o tom coloquial e humorístico, a atenção aos temas do quotidiano. Ramalho Ortigão, como ele cronista, escreveria mais tarde (in Costumes e Perfis): "Em toda a sua obra, nos folhetins e nos livros, há uma larga claridade hospitaleira de toalha lavada, de jantar servido ao ar livre dos campos".


«Mas como pôde este Júlio, tão alegre, tão moço, sempre tão acostumado a rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado à vida que até parecia disposto a não envelhecer jamais, tão delicado e gentil nos seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, num drama de sangue que só de recordá-lo sente a gente o coração constranger-se?» Recordava assim Alberto Pimentel aquele domingo de Janeiro de há um século.


Hoje, podemos vê-lo, em estátua de bronze, da autoria de Simões de Almeida, no Cemitério do Alto de S. João, na capital. Foi essa a maior das homenagens póstumas que lhe prestaram os seus amigos.
publicado por Carlos Loures às 18:00
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Histórias de Suicídios Famosos em Portugal - 4 - por José Brandão

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Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825, na Rua da Rosa, filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho e de Jacinta Rosa do Espírito Santo, uma sua criada. Antes de Camilo, tinha já nascido uma outra filha do casal, Carolina. No ano seguinte, a família mudou-se para a Rua da Oliveira.


A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária.


A mãe morreu em 1827 e o pai perfilha Camilo e a irmã dois anos depois, em 1829. Camilo iniciou os estudos primários em Lisboa (1830), na escola de mestre Inácio Minas, situada na Rua dos Calafates, e depois na escola de Satírio Salazar, na Calçada do Duque.


Os parentes decidem confiar a educação dos dois órfãos a uma tia paterna, Rita Emília — uma das personagens de Amor de Perdição —, e os dois regressam, por isso, a Vila Real (1836). Quando a irmã se casa (1839), instala-se com o marido em casa de um cunhado, o P. António de Azevedo, em Vilarinho de Samardã, nas proximidades de Vila Real. Camilo acompanha-a e recebe do P. António uma educação literária e religiosa tendente ao estado clerical; terá então sido iniciado nos clássicos portugueses e adquiriu os conhecimentos básicos de latim e francês. Simultaneamente contactou de perto com a vida rural, que depois iria descrever em algumas das suas novelas.


Com apenas dezasseis anos (1841), Camilo casa com Joaquina Pereira de França e instala-se em Friúme (Ribeira de Pena). O casamento precoce parece ter sido resultado de uma mera paixão juvenil, não tendo resistido muito tempo. No ano seguinte prepara-se para ingressar na Universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha.


Em 1843 nasce a sua filha Rosa e decide inscrever-se na Escola Médica do Porto. Nos anos seguintes frequenta irregularmente as aulas e chega mesmo a perder o ano por faltas, em 1845. Pensou ainda em matricular-se no curso de Direito, em Coimbra, mas o projecto não teve continuidade. Nesse mesmo ano faz a sua estreia literária com o poema herói-cómico Pundonores Desagravados


Em 1846 encontra em Vila Real a jovem Patrícia Emília de Barros — sua prima — e foge com ela para o Porto, sendo perseguido pela justiça, em resultado da queixa dos parentes da moça. Passa a colaborar nos jornais O Nacional e o Periódico dos Pobres. Escreve a peça Agostinho de Ceuta, que é representada pela primeira vez num teatro de Vila Real.

Depois da morte da esposa (1847), Joaquina Pereira, muda-se para o Porto e entrega-se a uma vida de boémia, entremeada com escândalos de carácter amoroso, ao mesmo tempo que se dedica mais profissionalmente à actividade jornalística, prestando colaboração ao Jornal do Povo. Rosa, a sua filha legítima, morre e nasce uma outra filha, Bernardina Amélia, fruto da relação com Patrícia Emília.


Em 1850 instala-se durante algum tempo em Lisboa e passa a viver exclusivamente da sua actividade literária. É por esta altura que conhece Ana Plácida, noiva de Manuel Pinheiro Alves, o que não o impede de se envolver amorosamente com uma freira do Porto, Isabel Cândida Vaz Mourão. Decide então inscrever-se no seminário do Porto, decisão a que não será estranho o casamento de Ana Plácido, mas rapidamente abandona o curso de Teologia. Nos anos seguintes funda dois jornais de carácter religioso, O Cristianismo (1852) e A Cruz (1853) e continua a colaborar com vários outros, em ocasiões distintas.


Em 1857, transfere-se para Viana do Castelo, como redactor do jornal A Aurora do Lima. Ana Plácido vai também para lá, a pretexto de apoiar uma irmã doente, e a ligação entre os dois torna-se pública. O escândalo cria-lhe dificuldades com vários jornais em que colaborava. Talvez por isso decide publicar o jornal O Mundo Elegante, em 1858. Ainda nesse ano, sob proposta de Alexandre Herculano, é eleito sócio da Academia Real das Ciências. Por essa altura, Camilo e Ana Plácido passam a viver juntos e deslocam-se de terra em terra para fugir à justiça. Em 1859 nasce o filho Manuel Plácido.


Após queixa de Manuel Pinheiro Alves contra a mulher e o amante, Ana Plácida é presa em Junho de 1860 e Camilo foge à justiça durante algum tempo, mas acaba por entregar-se em Outubro, ficando detido na cadeia da Relação do Porto, onde é visitado pelo próprio rei D. Pedro V. Finalmente, em Outubro de 1861 os dois são absolvidos pelo juiz, curiosamente, pai de outra grande figura das letras, Eça de Queirós.


Episódio não provado da sua vida é a participação na revolta da Maria da Fonte e da Patuleia. No Porto, inicia uma vida de boémia e escândalo, marcada por inúmeras aventuras amorosas e uma tentativa de suicídio. Em 1850, depois de uma breve atracção pela vida sacerdotal, inicia o seu período de maior produção literária, de que referiremos apenas as principais obras: logo em 1850, o panfleto O Senhor Alexandre Herculano e o Clero; em 1851, Anátema; em 1855, O Livro Negro do Padre Dinis e A Filha do Arcediago. Entre 1859 e 1862, desenrolam-se os lances principais da sua aventura com Ana Plácido: fuga para Lisboa, prisão por adultério, novamente na Cadeia da Relação, julgamento e absolvição dos dois amantes.
Em 1863, nasce em Lisboa o segundo filho do casal, Jorge, que viria a criar-lhe sérios problemas, com o seu alcoolismo crónico. Com a morte de Manuel Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, Manuel Plácido, legalmente seu filho, herda a casa de São Miguel de Ceide, em Famalicão. No ano seguinte, já instalados em São Miguel de Ceide, nasce o terceiro filho, Nuno, que viria, também ele, a manifestar comportamentos desregrados durante a juventude. Ao longo destes anos, Camilo desenvolve uma intensa actividade literária, ganhando notoriedade pública como escritor.
Em 1868 volta ao Porto para dirigir a Gazeta Literária. No ano seguinte passa longas temporadas em Lisboa, embora o domicílio familiar permaneça em São Miguel de Ceide. Anos depois, em 1875, pensando na educação dos filhos, transfere a residência para Coimbra. Dois anos depois, o filho mais velho, Manuel Plácido, morre. Por esta altura Camilo tem já alguns problemas de visão, que se irão agravar com a idade.


Mais tarde, em 1881, participa activamente no rapto de uma jovem para a casar com o filho Nuno. As relações com o filho degradam-se e Camilo acaba por o expulsar de casa em 1882. Em 1883, atormentado por dificuldades financeiras, leiloa a sua biblioteca. Em 1885 é-lhe finalmente concedido o título que ele solicitara em vão, quinze anos antes — visconde. Em 1888 casa com Ana Plácido.


Definitivamente cego, em 1890, põe fim à vida e aos sofrimentos físicos e morais (a morte de um filho de Ana Plácido que se crê ser de Camilo, a loucura do filho Jorge, a irresponsabilidade do filho Nuno), suicidando-se com um tiro na cabeça.


Camilo foi seguramente o primeiro escritor profissional português. Durante quase toda a sua vida activa assegurou a sua subsistência e a da família, depois de assumida a relação com Ana Plácido, com os seus trabalhos jornalísticos e as novelas que publicava em ritmo frenético: a sua bibliografia ultrapassa muito a centena de títulos, descontada a profusa colaboração espalhada pelos jornais da época.


A sua actividade desdobrou-se pelos mais variados géneros: destacando-se como novelista, foi também poeta, contista, dramaturgo, polemista, jornalista, tradutor e editor, deixando uma obra vastíssima.
Essa actividade literária tão intensa — "forçado das letras", chamou-lhe alguém — bem como a leitura frequente e atenta dos escritores portugueses, sobretudo os clássicos, são os principais responsáveis pelo domínio da língua, que revela em numerosas passagens das suas obras. É verdade que o ritmo vertiginoso com que escrevia (o Amor de Perdição, por exemplo, terá sido escrito em cerca de quinze dias) não lhe permitia trabalhar como gostaria a escrita. Essa urgência da escrita é certamente a grande responsável pela irregularidade qualitativa da sua obra, onde encontramos textos de inegável qualidade a par de outros que não conseguiram resistir ao tempo.


Embora seja um escritor da segunda metade do século XIX, a verdade é que muitas das suas novelas reflectem o clima social, político e mental da primeira metade — época extremamente conturbada, a nível político, e marcada por profundas transformações de natureza social.


As invasões francesas, iniciadas em 1807, obrigaram ao exílio da família real no Brasil. Esse facto mostrou a fragilidade do poder estabelecido (a monarquia absoluta) e terá certamente dado força aos grupos sociais mais favoráveis aos ideais proclamados pela Revolução Francesa — liberdade, igualdade, fraternidade — ou simplesmente interessados em substituir o poder das classes tradicionais (nobreza e clero) pelo seu próprio poder.
Essas duas forças estavam muito equilibradas e o conflito entre absolutistas e liberais prolongou-se só vindo a resolver-se, a favor dos segundos, em meados da década de 30. O facto de as ideias liberais, de origem francesa, poderem ser associadas ao invasor do país (os sucessivos exércitos de Napoleão) terá fortalecido a adesão de muita gente ao grupo absolutista, adiando a implantação da monarquia constitucional. O anticlericalismo da facção liberal também não contribuía para a expansão das suas ideias, já que a população rural, religiosa, analfabeta e controlada pelo clero, rejeitava com vigor as ideias defendidas pelos "herejes".


Quando finalmente em 1834 os absolutistas são vencidos, o conflito transfere-se para o campo liberal, opondo conservadores e progressistas. A estabilidade só chegará em 1851, com a Regeneração.


Ora, Camilo formou-se, como homem e como escritor, nesta sociedade em efervescência. E é nesse clima de agitação, de instabilidade, que decorre a acção de muitas das suas novelas.


As suas novelas constituem um painel descritivo, em tom frequentemente sarcástico, da sociedade portuguesa do século dezanove. A sua atenção debruça-se sobretudo sobre uma aristocracia em clara decadência — material e moral — e uma burguesia em ascensão, que, aos seus olhos, se destaca pela boçalidade.


A obra de Camilo é, em grande parte, um reflexo do seu próprio percurso biográfico. A agitação, a instabilidade, os raptos, o conflito entre a paixão e a razão que encontramos nas novelas de Camilo, encontramo-los igualmente na vida de Camilo. Por outro lado, como profissional das letras que era, Camilo não pôde ignorar os apelos do seu público, que os editores traduziam sob a forma de pressões incontornáveis. Camilo vivia da escrita, e para isso precisava vender, o que implicava obedecer de alguma maneira às solicitações do público leitor. É essa sujeição aos gostos dominantes que explica também a "conversão" naturalista, detectável nas últimas obras de Camilo.


Independentemente dessas cedências, há na sua obra passagens antológicas, onde transparecem os costumes, os comportamentos, os jeitos de falar do norte de Portugal.


A exuberância, o imprevisto, o excesso passional das suas intrigas cativaram igualmente a geração literária dita ultra-romântica, que o homenageou quase no fim da vida.


A intriga é quase sempre de teor passional, como se esperaria de um escritor romântico. Os impulsos do coração determinam a acção das personagens principais, que, normalmente, se defrontam com outras, movidas por outros impulsos menos ideais: o estatuto social, as rivalidades familiares, os interesses económicos...


As suas intrigas são frequentemente demasiado lineares, mas não se pode negar a Camilo uma capacidade de efabulação notável.


As condicionantes estéticas da sua época, os circuitos editoriais, a sociologia e psicologia do seu público e a sua própria personalidade impuseram à sua obra novelística características fortemente românticas. No entanto, a sua longa permanência de quase meio século na vida literária, e a sua dependência financeira da escrita, levaram-no, talvez a contragosto, a tentar acompanhar a evolução ideológica do seu tempo. Daí que o mais romântico dos nossos escritores nos apareça, quase no fim da vida, a ensaiar uma escrita realista e até naturalista.


É autor de uma obra multifacetada. Nela se destaca, como sabemos, a componente novelística, mas estende-se também pelo teatro, jornalismo, ensaios biográficos e históricos, poesia, polémica, crítica literária, além de dezenas de traduções e uma extensa epistolografia.


Vida e obra, realidade e ficção interpenetram-se no percurso de Camilo Castelo Branco, o escritor mais abundante do Romantismo português.


A produção literária de Camilo sofreu grande influência das atribulações, nomeadamente amorosas, da sua vida. Tendo de se sujeitar frequentemente às exigências dos seus editores, fazendo cedências, apressando a escrita, recorrendo a estereótipos que satisfizessem o gosto da época, a sua produção é algo irregular e apresenta algumas falhas. No entanto, soube pintar de forma ímpar os costumes e gentes da sua região e os seus modos de falar; as suas personagens revelam ainda uma intensidade passional que o celebrizou.


A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária. Quando contava dezasseis anos, casou-se com uma aldeã, de quem cedo se separou. Estudou Medicina no Porto, de 1842 a 1844, e preparou-se para ingressar no curso de Direito em Coimbra, que não chegou a frequentar. A partir de 1848, dedicou-se à actividade jornalística, no Porto. Integrando-se no grupo dos «leões» do café Guichard, dedicou-se aos escritos polémicos e à novelística. Entre as várias aventuras amorosas que vinha tendo, salienta-se a sua paixão por Ana Plácido, cujo casamento o levou a matricular-se num seminário, em 1850. Dois anos mais tarde, regressou à actividade jornalística e literária, impondo-se nos círculos culturais de então. Em 1859, fugiu com Ana Plácido. Os dois foram presos, acusados de adultério, e absolvidos posteriormente, em 1861. Após a morte do marido de Ana Plácido, passaram a viver na casa deste, em São Miguel de Ceide. Dependente da sua escrita para sustento da família, Camilo viveu dificuldades económicas. Os seus problemas agravaram-se com o avanço progressivo da cegueira. Em 1888, casou-se com Ana Plácido e, dois anos mais tarde, suicidou-se com um tiro de pistola.


A maior glória da literatura portuguesa escreveu uma carta datada de 21 de Maio de 1890: «Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego». A 1 de Junho do mesmo ano, depois do dr. Edmundo de Magalhães Machado, oftalmologista de renome, o ter examinado cuidadosamente na sua casa de S. Miguel de Ceide. Camilo percebe que a cegueira era irreversível. Despediu-se do médico, saindo este acompanhado de Ana Plácido: «Calmo e decidido, Camilo sacou do revólver, em seu poder há vários anos, e disparou sobre o parietal direito».


O suicídio sempre lhe fora familiar, parece que «primeiro como uma especulação da inteligência», depois, à medida que a cegueira progredia como resolução final. O escritor recusava deixar-se ficar um morto vivo.
Considerado um dos grandes prosadores românticos, ainda durante a sua vida foi muito admirado pela geração ultra-romântica, e homenageado oficialmente recebendo, em 1885, o título de visconde de Correia Botelho.
É geralmente tido como um dos grandes escritores portugueses.


Obras: Da extensíssima bibliografia de Camilo salientam-se Pundonores Desagravados, 1845 (sátiras); Anátema, 1851 (novela); Inspirações, 1851 (poesias); Mistérios de Lisboa, 1854 (folhetim); O Livro Negro do Padre Dinis, 1855 (novela); A Filha do Arcediago, 1857 (novela); Amor de Perdição, 1862 (novela); Memórias do Cárcere, 1862 (memórias); Esboços de Apreciações Literárias, 1865 (crítica literária); Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866 (opúsculo); A Queda de um Anjo, 1866 (novela); O Retrato de Ricardina, 1868 (novela); Curso de Literatura Portuguesa, 1876 (crítica literária); Eusébio Macário, 1879 (novela); A Corja, 1880 (novela); A Brasileira de Prazins, 1883 (novela).
publicado por Carlos Loures às 18:00
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Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Histórias de Suicidios Famosos em Portugal - 1 - José Brandão


José Fontana (1840-1876) -II


Giuseppe Silo Domenico Fontana — dito José Fontana em português — filho de Maria Clara Bertrand Bonardelli e de Giovanni Battista Fontana, nasceu em Cablio (Suíça) a 28 de Outubro de 1840 e morreu em Lisboa a 2 de Setembro de 1876, tendo conservado sempre a nacionalidade suíça, como consta no registo do funeral, realizado no Cemitério Ocidental de Lisboa (Prazeres).


Com a profissão de encadernador e depois caixeiro de livraria, entrou para o serviço da Livraria Bertrand, da qual chegou a ser sócio.
Autodidacta, extraordinariamente culto, interessado nos problemas sociais da época, acompanhou a criação das primeiras associações operárias portuguesas e foi elemento decisivo para a criação do Partido Socialista em Portugal, no seguimento das resoluções do Congresso da Internacional Operária realizado em Haia e que preconizavam a criação de partidos operários nacionais.


Muito novo ainda abandonara o seu país e viera para Portugal. Em rapaz fizera tudo o que todos fazem: namoricara, comera, bebera... Depois, pouco a pouco, à sua vivacidade enérgica aliou-se aquele tom sombrio de reflexão, que o fizera tal qual o veremos mais tarde.
Atribui-se-lhe actividades revolucionárias na terra de origem, mas desconhece-se todavia a data da sua entrada em Portugal, para onde emigrou de forma a fugir às perseguições policiais de que por certo era alvo.


Em Portugal, começou por frequentar o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas, (CPMCL) aí propagandeando as teorias socialistas, nomeadamente as de Proudhon, tanto em voga na época.


Aquando da chegada a Lisboa dos delegados do Conselho Confederal Espanhol da Associação Internacional dos Trabalhadores, que se dirigiram ao CPMCL para contactarem os mais conscientes militantes desta agremiação, José Fontana destaca-se desde logo como figura de grande prestígio e audiência na massa operária do Centro Promotor.


Mas a fase federal-socializante do Centro encontra algumas resistências por parte dos republicanos, o que faz com que este se dissolva para dar lugar ao aparecimento de duas outras associações, ambas co-fundadas por José Fontana: Associação Protectora do Trabalho Nacional e, logo a seguir, aquela em que José Fontana mais se empenhou, a Fraternidade Operária, em Janeiro de 1872.


Por esta época, José Fontana liga-se a um grupo de intelectuais de que fazem parte, entre outros, Antero de Quental, Jaime Batalha Reis, Eça de Queirós, Adolfo Coelho, etc., que estão na origem das Conferências do Casino Lisbonense, das quais ele, Fontana, foi a alma no que tocou à agitação e propaganda.


As Conferências do Casino podem considerar-se um manifesto de geração. Denominam-se assim por terem tido lugar numa sala alugada do Casino Lisbonense e foram uma série de cinco palestras realizadas em Lisboa no ano de 1871 pelo grupo do Cenáculo formado, por sua vez, pelas mesmas pessoas, mais ou menos, que constituem a Geração de 70.


Um grupo de jovens intelectuais do final do século XIX, liderado ideologicamente por Antero de Quental e José Fontana e do qual fizeram parte alguns dos maiores escritores da História da Literatura portuguesa, como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Téofilo Braga e Guerra Junqueiro, formou o essencial da chamada geração de 70.


Iluminados por ideias inovadoras que beberam da cultura europeia, sobretudo da francesa, irão opor-se a um governo monárquico cada vez mais contestado nos finais do século. Racionalistas, herdeiros do positivismo de Comte, do idealismo de Hegel e do socialismo utópico de Proudhon e Saint-Simon, protagonizaram uma autêntica revolução cultural no nosso País, agitando consciências e poderes estabelecidos.


Os movimentos do Fontismo e da Regeneração acentuaram os desequilíbrios económicos crónicos da sociedade portuguesa. As dívidas ao estrangeiro contraídas para pagar as infra-estruturas, agravam a situação económica (no fim da Regeneração o País estava na falência); o falseamento das instituições, a astúcia dos políticos, a fraude e a corrupção do poder político; são os condimentos que contribuem para uma degradação acentuada do estado da Nação. Acresce ao panorama o predomínio da mentalidade rural sobre a urbana; a indústria moderna não se desenvolveu, a concorrência estrangeira derrubou a fraca indústria portuguesa e nos campos a situação era aflitiva, com o consequente aumento de emigração, sobretudo para o Brasil.


Nas Artes e nas Letras persistiu a falta de apoio que agravou as difíceis condições de vida dos Artistas. Os escritores precisavam da protecção do Estado, e este oferecia importantes cargos no Governo em troca do "controlo da pena" – e daqui surge a chamada "literatura oficial".


É contra todas estas condições (que contrastavam com o avanço no resto da Europa) que surge a Geração de 70, que, por volta de 1865, se insurge sobretudo contra o exagero caduco e balofo do gosto ultra-romântico, contra o monopólio de António Feliciano de Castilho.
Antero de Quental chamou à escola de Castilho a "Escola do Elogio Mútuo", já que os seus membros passavam o tempo a elogiar-se mutuamente, para prestígio do grupo. A Geração de 1870 defende uma maior abertura à cultura europeia, e uma reforma do País, sobretudo a nível cultural.


Denota-se no grupo a influência do socialismo utópico com laivos republicanos e uma influência francesa muito forte, de pendor anti-clerical.


São disso exemplo a Questão Coimbrã e as Conferências do Casino. Esta revolução cultural acabaria mesmo por culminar numa revolução política: a instauração da República, a 5 de Outubro de 1910.


A ideia destas palestras surgiu na casa da Rua dos Prazeres, onde na época reunia o Cenáculo. Pode definir-se o Cenáculo como um grupo de jovens escritores e intelectuais, denominados de vanguarda, que trazem de Coimbra para Lisboa a disposição boémia e tentam agitar a sociedade no que diz respeito a questões políticas e mesmo sociais, agitação esta que terá como ponto culminante as Conferências Democráticas do Casino, organizadas pelos artistas e literatos que fundam e frequentam este grupo.


Esta espécie de tertúlia, iniciada por fins de 1867, tem como seu primeiro local de reunião a casa de Batalha Reis, na Travessa do Guarda-Mor, n.º 19 hoje Rua do Grémio Lusitano, situada no cruzamento desta rua com a Rua dos Calafates, actualmente Rua Diário de Notícias, no Bairro Alto.


Por esta altura eram frequentadores desta tertúlia Salomão Saragga, José Fontana, Lobo de Moura, Mariano Machado, Manuel Machado e outros, nomeadamente Eça, Antero, Batalha Reis.
Quando Antero e Batalha Reis mudam de casa, passando a habitar uma sobreloja que dava para o Jardim de São Pedro de Alcântara as reuniões mudaram-se para a plataforma inferior desse jardim, onde Eça de Queirós os encontrou aquando do seu regresso da viagem ao Oriente para assistir à inauguração do Canal do Suez.


Mais tarde Antero e Batalha Reis mudam-se para a Rua da Cruz de Pau, n.º 20, 2º andar, ao Alto de Santa Catarina, permanecendo durante pouco tempo, mudando-se de novo para o 1º andar do n.º 63 da Rua dos Prazeres, até 1872, onde planeiam as famosas Conferências Democráticas do Casino.


Antero e Batalha Reis alugaram a sala do Casino Lisbonense, situado no Largo da Abegoaria, presentemente de Rafael Bordalo Pinheiro. No jornal "Revolução de Setembro" foi feita a propaganda a estas Conferências.


A 18 de Maio foi divulgado o manifesto, já anteriormente distribuído em prospectos, e que foi assinado pelos doze nomes que tinham intenções organizadoras destas Conferências Democráticas.


Nesse manifesto podia ler-se:


«Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social.


Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, há uma ideia e um interesse que são a causa e o porquê dos movimentos.
Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação dessas ideias e a legitimidade desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as Nações têm sido, e como as pode fazer hoje a liberdade; e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.


Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.


Abrir uma tribuna, onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupando-se sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos;
Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada;
Procurar adquirir consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;
Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;
Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa;
Tal é o fim das Conferências Democráticas.


Têm elas uma imensa vantagem, que nos cumpre especialmente notar: preocupar a opinião com o estudo das ideias que devem presidir a uma revolução, de modo que para ela a consciência pública se prepare e ilumine, é dar não só uma segura base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem.


Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que, ainda que não partilhem as nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções e o resultado dos seus estudos e trabalhos.
Lisboa, 16 de Maio de 1871»


Como já foi referido, José Fontana está na origem das Conferências do Casino Lisbonense, participando como principal animador no que reporta às lides da agitação e da propaganda em prol das mesmas.


É, contudo, no âmbito do movimento operário e socialista que José Fontana dedica a sua maior atenção.


Naturalmente que não sendo Portugal um país fortemente industrializado — não o é ainda hoje, como seria há 100 anos?! também nunca poderíamos ter um grande movimento sindical.


A pouco mais de um quarto de século do ano de 1900, exactamente em 1872, é quando tem lugar a criação da Federação Portuguesa da Associação Internacional de Trabalhadores (I Internacional). A A.l.T. tinha sido fundada 8 anos antes, em Londres, numa Conferência que reunira sindicalistas dos principais países da Europa e da América (Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Suíça e Estados Unidos) e uma das decisões aí tomadas fora precisamente a de que em cada país se constituísse uma Federação ou uma Secção da A.I.T.
Graças ao esforço de homens como José Fontana, Antero de Quental, Azedo Gneco, Sousa Brandão, Nobre França e Batalha Reis foi possível dar esse primeiro passo de tão relevante importância na história do movimento sindical português.


Foram, de resto, estes mesmos homens que deram origem ao Partido Operário Socialista Português (POSP), fundado em 1875.


Fontana foi um activo promotor da resistência operária através de greves e coube-lhe a organização das primeiras manifestações do 1.º de Maio. Elaborou vários discursos inflamados em defesa dos seus ideais e redigiu vários folhetos de propaganda.


«A actividade o trabalho de Fontana na Fraternidade não tiveram rival. Aparecia subitamente numas poucas de reuniões na mesma noite, encontrando-se tão depressa em Alcântara como no Beato, em Santa Clara como no Poço do Bispo. Era um homem, um trabalhador às direitas!». - Recorda Luís Figueiredo, companheiro de luta.


A sua figura e capacidade oratória, tornam aos poucos carismáticas para o movimento operário e socialista português. O mesmo Luís de Figueiredo descreveu assim José Fontana: «[…] era daqueles que nunca se esquecem mais, uma vez encontrados na vida. Tinha um não sei quê de nobre e simpático que o inundava duma tonalidade doce e meiga, que o fazia atraente e vago. Quando ele falava, vagarosamente, espaçando as palavras e seguindo-as nos ares com o seu grande dedo comprido e descamado, recorrendo à parábola e pintando comovido as misérias dos operários, […] tomava um aspecto singular, como dum iluminado sonhador. Se tivesse nascido noutra época, Fontana seria, talvez, um asceta, um inspirado, tal é, pelo menos, a forma porque o reconstruo no meu cérebro, à distância de um bom par de anos».


Na luta contra as influências republicanas no seio do movimento socialista, José Fontana tomou para si o papel de dianteiro, ao denunciar os limites do republicanismo numa das assembleias operárias, em que se lutava pela autonomia do movimento socialista face ao arrastamento para que procuravam conduzi-lo: «Sou suíço, filho dessa República que apontais como modelo. Sou pois uma testemunha viva do que ela vale, e todos sabem que não sei enganar os que me escutam: pois bem, sob minha palavra de honra certifico à assembleia que na Suíça os operários sofrem tanto como em Portugal, que são tão desgraçados, tão miseráveis, tão tiranizados, como neste País monárquico, existe o grande tirano dos operários — o capital. Enquanto não houver igualdade económica, a igualdade política será uma mentira; enquanto o capital for senhor, o trabalho será escravo».


Militante da Federação da Associação Internacional dos Trabalhadores, manter-se-á afastado da corrente socialista encabeçada por Nobre França, prestando todavia, embora já doente, a sua caução à formação do Partido Operário Socialista Português e à Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa.


Irá compartilhar com Antero de Quental o papel de figura tutelar do socialismo português. Ao mesmo tempo que se desdobrava em intensa actividade «uma fatal doença que ainda muito novo se lhe alojara no corpo, caminhava também, aproveitando o cansaço daquele organismo para melhor o prostrar e vencer», diz Luís de Figueiredo referindo-se à sua morte. «Depois, num negro dia — o segundo do mês de Setembro de 1876 uma bala de revólver punha termo ao sofrimento de José Fontana.


Acabrunhado pela doença, inútil, quase morto, com a certeza irrevogável da sua condenação, Fontana foi um suicida, um tíbio, depois de ter sido um benemérito. Não foi um criminoso, nem um cobarde, porque tinha bem pago a sua dívida para com a sociedade e porque havia sido um valente e um herói».


Foi um incansável lutador pela causa do movimento operário e socialista, pronto a defender os direitos humanos das classes operárias. Atestam-no as cartas que dirigiu Karl Marx e a Frederich Engels para Londres e que se conservam hoje nos Arquivos do Instituto Internacional de História Social, em Amsterdão.


Não se preocupava com prestígio individual e, muito menos, com as vantagens que desse prestígio lhe pudessem vir. As suas preocupações centravam-se nos interesses colectivos. E, ao mesmo que defendia os direitos dos seus companheiros ensinava-os a terem consciência da sua condição de homens livres e dignos. Os seus escritos contêm estas noções de pedagogia política, de emancipação social e, por consequência, de liberdade.


As Conferências do Casino — aquelas célebres conferências que iniciaram o movimento democrático em Portugal — foram obra sua e de Antero de Quental.
No Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas eclipsava também Fontana os maiores oradores populares do seu tempo. Depois, o canhoneio da Comuna de Paris orientara-lhe as ideias, dando-lhes forma e definindo-lhes as aspirações. Fontana foi da plêiade brilhante dos que ousaram defender os incendiários de Paris, os petroleiros malditos e condenados. Era necessária coragem, talento, para o poder fazer!


Naqueles tempos a Havas mandava de lá (de Paris) uns telegramas fulminantes e terríveis, que faziam arrepiar os coiros aos paquidermes da ordem. Mulheres desgrenhadas, de rosto feroz e incendiado de cólera — umas megeras, espécie de bruxas malditas de alguns dos contos alemães, segundo diziam as gazetas indígenas — andaram por lá deitando petróleo pelas ventas. E, contudo, as francesas, as boas parisienses, essas endiabradas que me quebrariam a pena — tais elas são, as gaiatas! —, nunca tinham feito mais do que deitar por terra a fortuna de algum banqueiro baboso e apalermado, ou então cometem um desses actos de dedicação heróica que são o assombro da história.


À porta da Havanesa comentava-se isto tudo que Eça de Queirós tão bem desenhou. E olhava-se com susto para os comunistas da voga, uns leões que se davam ao chique de revolucionarismo retórico!
Imagine-se como não seria visto Fontana e os mais que tinham a coragem das convicções e a firmeza da consciência! Contudo, no Centro Promotor, Fontana despertara entusiasmo, agrupando-se à sua volta toda a mocidade lúcida daquela agremiação prestante.


Em 1872 estava iniciado na Maçonaria, figurando hoje entre os nomes ilustres da mesma.
Poucos deixaram obra escrita tão significativa. O Quarto Estado de Fontana merece uma referência à parte. Das conspirações de 1848, Fontana retira uma lição: a do valor da moderação e do reformismo. Fontana recusa claramente a tradição revolucionária. A tese central é a de que os operários só alcançariam benefícios quando fossem eles próprios a organizar a luta. Os progressos «postiços» não tinham garantias de estabilidade. Na opinião de Fontana, isto não significava que o movimento operário devesse excluir a colaboração de outras classes: significava que a luta teria de ser feita segundo os interesses da classe operária.


Para ele, as revoluções criavam o receio da desordem, facilitando assim o advento das ditaduras. Portugal deveria dar-se por feliz por não ter assistido ao «perigoso período de fermentação e utopia sectária» que correspondera a esses anos. Tinha por conseguinte a possibilidade de aprender com a Europa passando directamente à fase do associativismo sem conhecer o ciclo revolução-repressão. Maduros e sensatos, os operários não desejavam a revolução, mas antes «criar para si, dentro do mundo actual, condições mais favoráveis e ir assim correndo lentamente para a gradual transformação das imperfeitas instituições existentes». O fim, a emancipação dos trabalhadores, fornecia o meio a utilizar, as associações. Seria através destas e não com golpes e barricadas que os trabalhadores melhorariam a sua situação.


Fontana contesta a nascente civilização capitalista e o regime de salariato. Ao contrário de Marx, Fontana não olhava ambiguamente os progressos que a burguesia estava a dar ao mundo: olhava-os horrorizado. A nova sociedade era incompatível com o que ele queria. As suas teses correspondiam ao que pensavam os artesões ameaçados pela degradação dos ofícios: o progresso era uma catástrofe. Enquanto a linha do partido fosse esta, o sucesso do P. S. estava garantido.
José Fontana ainda trabalhou no Partido Socialista, mas a doença não permitiu que os seus esforços fossem de peso. Suicidou-se em 2 de Setembro de 1876 numa cave da Livraria Bertrand.


O seu funeral, civil como era de esperar, foi objecto de grandiosa manifestação. Cerca de 600 pessoas acompanharam o cortejo fúnebre, que saiu da Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa, até ao cemitério dos Prazeres, sendo aí esperado por 500 pessoas. O caixão, sem pano, levava em cima uma coroa de perpétuas, foi depositado no coval nº 4278, no meio da consternação geral. Na ocasião, Eduardo Maia e Azedo Gneco proferiram discursos alusivos à vida e obra de José Fontana.


Tinha 36 anos. Tal foi a vida de José Fontana, um dos fundadores do Partido Socialista em Portugal.
publicado por Carlos Loures às 18:00
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