Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

As encruzilhadas da História – por Carlos Loures

 

 

 

 

 

Dizia-me há dias o escritor e artista plástico Vasco de Castro que viveu já em diferentes épocas – na aldeia transmontana da sua infância, viveu na Idade Média, em Vila Real tomou contacto com o século XIX. Vindo para a Lisboa dos anos 50, conheceu o dealbar do século XX. Uma década depois, em Paris, viveu a plenitude do século XX. Agora, embora viva numa pequena aldeia saloia, habita a aldeia global em que o mundo se transformou. Fernand Braudel (1902 —1985)  historiador francês, um dos mais significativos representantes da Escola dos Annales, adverte-nos contra os perigos de uma interpretação demasiado linear do processo histórico. As grandes transformações no curso histórico da humanidade têm um ritmo próprio, um momento de transformação e viragem pode durar séculos. Lembremo-nos, por exemplo, da passagem da Idade Média para a Idade Moderna. As duas idades coexistiram durante muito tempo. Os homens mantinham hábitos ancestrais enquanto se iam adaptando às novidades do novo modelo de sociedade que, paulatinamente, se ia instalando.

 

 

 

 Neste começo de século parece a muitos de nós que estamos a viver o fim de uma época, enquanto o início de outra se esboça. Aquilo a que se poderá chamar  uma encruzilhada da História. Como diz Braudel no seu ensaio L’Apport de l´Histoire des Civilisations, um trabalho publicado em 1959, mas cujas linhas de força permanecem actuais, o viver uma encruzilhada implica sacrifícios, nos conceitos básicos, mas também na linguagem com que os definimos. Implica, sobretudo, o ter-se consciência de que muito do que consideramos como dados adquiridos, atavismos culturais e políticos, nada está garantido; nada é definitivo. As ciências humanas, a antropologia, uma nova concepção da economia, terão de fazer um esforço interdisciplinar para acompanhar os excepcionais avanços da ciência e da tecnologia. Porque é neste desfasamento que bate o ponto.

 

 

 

Forjámos utensílios tecnológicos  de  uma grande sofisticação e adquirimos ferramentas científicas de grande transcendência, mas o cidadão comum não está muito mais avançado culturalmente do que um homem do Renascimento (e muitas vezes estará mesmo mais atrasado). Aquilo a que se chama evolução das mentalidades é principalmente  a adopção de novos comportamentos sociais – não se trata de uma evolução cultural, mas sim de uma modificação comportamental. Involutiva, em muitos casos. Usando uma imagem poética, diria que temos a cabeça imersa nas estrelas e os pés afundados num lodaçal.

 

 

 

Numa entrevista recente que aqui referi, o escritor José Luis Sampedro dizia que temos de abandonar o capitalismo e que isso só se consegue modificando as pessoas o que, por sua vez, só pode ser obtido através da educação e do ensino. Vamos no dia 23 comemorar o Dia Mundial do Livro. Na formação de uma nova mentalidade mais voltada para o ser do que para o ter, o livro tem um papel fulcral. E os professores, que são os principais elementos na difusão do saber são também elementos imprescindíveis na criação de uma verdadeira nova mentalidade. Uma política do livro, tratando-o como produto especial que é, e uma política de ensino que proteja os bons professores, os profissionais competentes, e não meta no mesmo saco gente que só está no Ensino porque, conforme o velho, aforismo «quem nada sabe fazer, ensina», são medidas necessárias e urgentes.

 

 

 

Mais uma vez chamo Sampedro a depor: A história é mudança. Estamos agora a passar por um momento de barbárie, porque se degradaram todos os valores. É uma etapa de desorientação a caminho de outro modelo. Esta cultura capitalista de cinco séculos já esgotou as suas possibilidades. Estamos numa encruzilhada. O capitalismo trouxe-nos até este ponto. Está moribundo, mas vai continuar a cometer crimes. A barbárie continua e os tempos que se avizinham não são fáceis – tenhamos a esperança de que as convulsões que aí vêm sejam o parto de uma nova sociedade. E a cultura – livros, professores… - terá um papel central nessa transformação. A não ser que sejam os políticos, os financeiros, os militares, a desempenhá-lo e, nesse, caso, terá ganho a barbárie.

 

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira às 14:09
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