Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Uma Árvore, Um Rochedo, Uma Nuvem - Carson McCullers

 

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Quem Conta Um Conto...

Não há nada que nos deixe tão conscientes

de quão improvisada é a

existência humana como uma canção inacabada.

Ou uma velha agenda de moradas.

Carson McCullers

 

 

Carson McCullers  Uma Árvore, Um Rochedo,

Uma Nuvem

(tradução de Jorge de Sena)

Nessa manhã, chovia e estava ainda escuro. Quando o rapaz passou pelo café ambulante(1), chegara quase ao fim do seu caminho, e entrou para tomar uma chávena de café. O estabelecimento, aberto a noite toda, pertencia a um homem azedo e mesquinho, chamado Leo. Depois da rua, agreste e vazia, o café parecia acolhedor e resplandecente: ao longo do balcão havia um par de soldados, três operári­os da fiação e, a um canto, um homem curvado para diante e com o nariz e parte da cara metidos numa caneca de cer­veja. O rapaz trazia um carapuço como usam os aviadores. Quando entrou no café, desapertou a presilha e levantou a aba direita para cima da orelhita vermelha; muitas vezes, ao beber o seu café, alguém lhe dirigia amigavelmente a palavra. Mas, nesta manhã, nem Leo lhe olhou para a cara, nem qualquer dos homens estava falando. Pagou e ia a sair do café, quando uma voz gritou por ele:

 

- Ó filho! Eh filho!

 

Voltou-se, e o homem do canto chamava-o com um dedo e abanando a cabeça. Tirara a cara da caneca de cerveja e, de súbito, parecia sentir-se muito feliz. O homem era alto e pálido, narigudo, de cabelo ruivo descorado.

 

- Eh filho!

 

O rapaz dirigiu-se para ele. Era um rapaz pouco desen­volvido, de uns doze anos, com um dos ombros mais alto do que o outro, por causa do peso da saca dos jornais. O rosto era vulgar, sardento, e os olhos eram redondos olhos infantis.

 

- O senhor chamou?

 

O homem pôs a mão no ombro do garoto dos jornais, depois agarrou-lhe o queixo e voltou-lhe, devagar, a cara de um lado para o outro. O rapaz recuou, perturbado.

 

- Então, que é lá isso?

 

A voz do rapaz era aguda; e no interior do café reinou, subitamente, um grande silêncio.

 

O homem disse devagar:

 

- Gosto de ti.

 

Ao longo do balcão, os homens riram-se. O rapaz, car­rancudo e desviado, não sabia que fazer. Olhou por cima do balcão para Leo, e Leo observava-o com um vago e cansado ar de troça. O rapaz tentou rir também. Mas o homem ficara sério e triste.

 

- Eu não queria «entrar» contigo, meu filho - disse. - Senta-te e bebe uma cerveja. Há uma coisa que eu pre­ciso de explicar.

 

Cautelosamente, com o rabo do olho, o ardina inter­rogou os homens do balcão, para ver o que deveria fazer. Mas haviam voltado às suas cervejas ou aos almoços e não repararam. Leo pôs no balcão uma chávena de café e uma leiteirinha.

 

- É menor - disse Leo.

 

O garoto dos jornais içou-se para o banco. A orelha do lado da aba levantada do carapuço era muito pequena e estava rubra. O homem acenava-lhe com a cabeça, grave­mente.

 

- É importante. - E levou a mão ao bolso traseiro das calças, tirando qualquer coisa que segurou na palma da mão, para o rapaz ver. - Olha com muita atenção.

 

O rapaz fitou aquilo, mas nada havia que ver com muita atenção. Na mão grande e encardida, o homem segurava uma fotografia. O rosto de uma mulher, mas esmaecido, a ponto de só o chapéu e o vestido que usava sobressaírem claramente.

 

- Vês? - perguntou o homem.

 

O rapaz acenou que sim, e o homem pôs na palma da mão outro retrato. A mulher estava em fato de banho, numa praia. O fato fazia-lhe o estômago muito saído e era, princi­palmente, o que se notava.

 

- Olhaste bem? - e, debruçando-se para mais perto, acabou por perguntar: - Já a viste alguma vez?

 

O rapaz não se mexia no banco, fitando de esguelha o homem.

 

- Não, que eu saiba.

 

- Muito bem. O homem soprou as fotografias e voltou aguardá-las na algibeira. - Era minha mulher.

 

- Morreu? - perguntou o rapaz.

 

Vagarosamente, o homem abanou a cabeça. Franziu os lábios como se para assobiar e respondeu num prolongado suspiro:

 

- Huuuuum... Eu explico.

 

A cerveja no balcão, em frente do homem, estava numa grande caneca castanha. Não a levantava para beber. Pelo contrário, curvava-se e, pondo a cara em cima da borda, ficava assim um momento. Depois, com as mãos, voltava a caneca e beberricava.

 

- Uma destas noites você adormece com a narigueta nacaneca e afoga-se - disse Leo. - «Ilustre viandante, afoga-se em cerveja.» Que linda morte!

 

O ardina tentou fazer sinal a Leo. Enquanto o homem não olhava, franziu a cara e com a boca procurou silenciosamente perguntar: Bêbado? - Mas Leo apenas ergueu o sobrolho e voltou-se para pôr umas rosadas fatias de presunto na chapa do fogão. O homem afastou de si a caneca, endireitou-se e pousou no balcão as mãos enclavinhadas. A expressão do rosto era triste, ao olharpara o ardina. Não pestanejava, só de vez em quando as pálpebras, com delicada gravidade, desciam sobre os olhos verdes claros. Quase amanhecia e o rapaz acomodou o peso da saca dos jornais. - Do que eu falo é de amor - disse o homem. - Cá para mim, é uma ciência.

 

O rapaz deixava-se escorregar do banco. Mas o homem ergueu o indicador e algo havia nele que prendia o rapaz e o não deixava ir-se embora.

 

- Há doze anos casei com essa mulher da fotografia. Foi minha mulher durante um ano, nove meses, três dias e duas noites. Amava-a. Sim... - e, afinando a voz incerta e divagadora, repetiu: - Amava-a. E pensava que ela gostava de mim. Eu era engenheiro dos caminhos de ferro. Não lhe faltava conforto e luxo. Nunca me passou pela cabeça que ela se não sentisse satisfeita. Mas sabes tu o que aconte­ceu?

 

- Miau!... - disse Leo.

 

O homem  não desviou os olhos da cara do rapaz. - Deixou-me. Uma noite, cheguei, a casa estava vazia, ela tinha-se ido embora. Deixou-me.

 

- Com outro tipo? - perguntou o rapaz.

Suavemente, o homem pôs a palma da mão no balcão. - Ó meu filho; naturalmente! Uma mulher não foge assim, sozinha.

 

O café estava sossegado e a chuva miudinha, escura e infinda, lá fora. Leo calcou o presunto que fritava, com os dentes do comprido garfo. - Pois tens então andado há onze anos atrás da borboleta, meu patife de uma figa!

 

Pela primeira vez, o homem lançou um olhar a Leo. - Faça-me o favor de não ser ordinário. Além de que eu não estou a falar consigo. - E voltou a dirigir-se ao rapaz numa meia voz segredada e confiante: - A gente não lhe dá atenção, O. K.?

 

O ardina acenou dubiamente.

 

- Foi assim - continuou o homem. - Sou uma pessoa que sente muitas coisas. Durante a vida inteira, uma e outra coisa me impressionou. O luar. As pernas de uma rapariga bonita. Uma coisa primeiro, outra depois. Mas o caso é que, quando gozava qualquer coisa, havia em mim a peculiar sensação de aquilo se demorar cá dentro. Nada parecia acabar ou acertar com as mais coisas. Mulheres? Tive a minha conta. Era o mesmo. Depois, aquilo ficava a vibrar em mim. É que eu era um homem que nunca tinha amado de verdade.

 

Muito devagar, fechou as pálpebras, e o gesto era como que o cair do pano num fim de acto de uma peça. Quando falou de novo, a voz excitara-se, e as palavras saíam rápi­das - e os lobos das suas orelhas grandes e moles pare­ciam tremer.

 

- Encontrei então esta mulher. Eu tinha cinquenta e um anos e ela dizia ter sempre trinta. Conheci-a numa esta­ção de serviço e casámos em três dias. E sabes como era aquilo? Isso é o que eu não sei dizer-te. Tudo o que eu jamais sentira se concentrou à volta desta mulher. Nunca mais tive as sensações à solta, todas acabavam nela.

 

 

O homem calou-se de súbito e esfregou o nariz com­prido. A voz desceu a um murmúrio regular e lamentoso: - Não estou a explicar bem. O que aconteceu foi isto. Ha­via dentro de mim esses sentimentos belos e pequenos prazeres vagos. E esta mulher foi para a minha alma como que um ponto de reunião. Através dela passei esses pedacinhos de mim e saí completo. Estás a perceber?

 

- Como se chamava ela? - perguntou o rapaz.

 

- Oh! - respondeu ele. - Eu chamava-lhe Dodo. Mas isso é irrelevante.

 

- Fez por que ela voltasse?

 

O homem parecia não ouvir. - Nestas circunstâncias, bem podes imaginar como eu fiquei, depois que ela me deixou.

 

Leo tirou o presunto do lume e dobrou duas fatias den­tro de um pãozinho. O rosto dele era terroso, com os olhos oblíquos, e um nariz torcido, marcado por suaves sombras azuladas. Um dos operários pediu, com um sinal, mais café, e Leo serviu-lho. Não dava de graça tais repetições. O operário da fiação comia ali todas as manhãs, mas Leo, quanto melhor conhecia os fregueses, mais rudemente os tratava. E mastigava o seu pão, como se a si próprio o re­gateasse.

 

- E nunca mais conseguiu apanhá-la?

 

O rapaz não sabia que pensar do homem, e o seu rosto infantil tinha uma expressão incerta, mista de curiosidade e dúvida. Era novo na venda; e ainda estranhava a rua, na madrugada singular e escura.

 

- Sim - disse o homem. - Tomei certas medidas para a fazer voltar. Andei a tentar localizá-la. Fui a Tulsa, onde ela tinha pessoas de família. E a Mobile. Fui a todas as terras a que ela alguma vez se referira, e procurei cada um dos homens que ela antes de mim conhecera. Tulsa, Atlanta, Chicago, Cheehaw, Memphis... O melhor de dois anos pas­sei eu a ver se a apanhava.

 

- Mas o par desaparecera da face da terra! - disse Leo.

 

- Não o ouças - disse o homem, em tom de confidência. - E  esquece também esses dois anos. Não importam. O que interessa é que, por volta do terceiro ano, me começou a acontecer uma coisa curiosa.

 

- O quê? - perguntou o rapaz.

 

O homem inclinou-se e tombou a caneca para beberricar um pouco de cerveja. Mas, ao pender sobre a caneca, as narinas vibraram ligeiramente; aspirou o cheiro acre da cerveja, e não bebeu. - Para começar, o amor é uma coisa curiosa. Primeiro, só pensava em fazê-la voltar. Era uma espécie de mania. Mas, à medida que o tempo passava, procurei lembrar-me dela. E sabes o que aconteceu?

 

- Não - respondeu o rapaz.

 

- Quando me deitei numa cama e fiz por pensar nela, o meu espírito estava em branco. Não era capaz de a ver. Bem pegava nos retratos. Não adiantava. Nem nada. Em branco. És capaz de imaginar isto?

 

- Eh, Mac! - clamou Leo para o extremo do balcão. - És capaz de imaginar o espírito deste pespego em branco?

 

Vagarosamente, como se enxotasse moscas com um leque, o homem adejou com a mão. Os olhos verdes con­centravam-se fixamente na carita inexpressiva do ardina.

 

- Mas, um caco de vidro encontrado no passeio. Ou  uma musiqueta de caixa de música. Uma sombra na parede, à noite. E eu lembrava-me. Podia acontecer na rua, que eu chorava ou dava com a cabeça num candeeiro. Estás a ver?

 

- Um caco de vidro... - repetiu o rapaz.

 

- Qualquer coisa. Punha-me a andar à volta, impotente para o como ou o quando lembrar-me dela. Pode a gente pensar que se defende como com um escudo. Mas o re­cordar não aparece a um homem, pela frente... Vem de es­guelha, pelos cantos. E eu estava à mercê de quanto via e ouvia. De repente, em vez de ser eu a passar o país inteiro a pente fino à procura dela, começou ela a perseguir-me na minha própria alma. Ela a perseguir-me, repara bem! E na minha alma.

 

O rapaz perguntou, então: - Em que região estava o senhor?

 

 

 

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publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira às 01:53
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