Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

Os candidatos a Secretário -Geral do PS : Assis e Seguro - por Luis Moreira

Francisco Assis com o apoio de António Costa avança para a liderança do Partido Socialista. Não se esperaria que António Costa , com a travessia do deserto à sua frente, deixasse a presidência da Câmara de Lisboa. A solução encontrada é forte e é, evidentemente, negociada.Nada a dizer, precisamos, o país precisa de soluções fortes para o futuro.

 

Assis:candidata-se para "constituir uma alternativa de esquerda credível em Portugal em circunstâncias muito difíceis"

 

 

António José Seguro, após anos à espera da oportunidade também avança. Ainda agora na reunião do PS após eleições as suas posições prevaleceram face a Assis. Dominio do aparelho?

 

É a abertura de um novo ciclo no PS até pela utilização do anúncio pelo facebook onde se refere "aos muitos camaradas que manifestaram o seu apoio".

 

Ainda não é desta que vamos ter uma Secretária-Geral, Maria de Belém ficou pelo caminho, gosta do que faz e ser secretária-Geral não faz parte do seu projecto de vida.

 

Apelar a uma candidatura conjunta é que parece redundante, a disputa entre dois candidatos é bom para o partido, obriga a tomar opções, separar águas. Com António Costa na corrida julgo que ninguém concorreria contra ele, não seriam necessários apelos de unidade. Entretanto, o jornal (i) levanta a hipótese de ser António Costa o Primeiro-ministro no caso de eleições.

 

Qual é o pensamento político dos candidatos? Assis, é um orador de primeiro água mas dificilmente se lhe arranca uma resposta directa sobre qualquer assunto. Seguro, entra mudo e sai calado.

 

Entretanto a contagem das espingardas já começou, José Lello e Capoulas Santos já declararam o apoio a Assis.

publicado por Luis Moreira às 13:00
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Domingo, 5 de Junho de 2011

Eleições - a opinião de Luis Moreira

Se não há alternativa que haja alternância

 

 

 

 

 

 

Chega de propaganda, de mentiras, de incompetência! Em Democracia é assim, tem todos os defeitos mas tem esta vantagem, com uma varredela tudo pode recomeçar .

 

 

E, quem ganhou e pode fazer maioria na AR vai para o governo, quem perdeu, vai para a oposição tomar um duche de humildade e preparar-se para daqui a uns anos voltar ao governo. É, assim, a democracia. E a maioria aritmética corresponde, sim, à maioria social, o que o PS quer é que, mesmo perdendo, se mantenha no governo. Na oposição vai ter que apoiar as medidas da Troika que ele mesmo assinou.

 

 

O que espero?

 

Que se aproximem eleitor e eleito por forma a existir uma relação de responsabilidade objectiva e pessoal. Esta aproximação, só se fará no quadro de uma democracia participativa para a qual devemos caminhar como uma das prioridades estratégicas por forma, a sair desta política que não cumpre o que oferece para ser eleita. isto é, usando a mentira para alcançar o poder.

 

 

Que se deixe a economia de casino à volta das grandes empresas que operam no mercado interno, com grandes rendimentos para o accionista e para os amigalhaços, e se canalizem os meios financeiros e humanos para a economia que produz bens transaccionáveis, que substituem importações e se exportem. Agricultura, mar, têxteis, novas tecnologias, sector automóvel, Turismo, reabilitação dos centros históricos para permitir a sua ocupação chamando população e criar postos de trabalho.

 

 

Que se tirem dos lugares chave os amigalhaços que impedem que a Justiça funcione.

 

 

Que se defenda o SNS  abandonando-se os caquéticos - universal e gratuito - e se acrescente o "ninguem ficará sem tratamento por razões económicas".

 

 

Que as famílias tenham direito à escolha da escola autónoma e avaliada.O que se sabe hoje da estupidificação em curso na escola Estatal brada aos céus e explica por que se quer manter o sector em circuito fechado.

 

 Que se reforce a participação da sociedade civil na vida nacional e, na inversa, que o Estado saia das nossas vidas em muitas vertentes.

 

 Que se privatizem as empresas que há muito estão nas mãos dos privados e onde o estado faz papel de "pau de cabeleira" assegurando a cobertura de todos os riscos.

 

 Que se mantenha nas mãos do estado a CGD reorientando a sua actividade para apoio da economia real e, não, para os negócios "finos".

 

Que a regulação dos mercados se faça por Reguladores independentes do poder político e dos interesses dos "players", com um mandato insusceptível de ser interrompido por 5 anos.

 

Que se usem os muitos e bons técnicos existentes na Função Pública e se deixe de pagar fortunas aos grandes escritórios de advogados e aos assessores externos.

 

E, gostava que me explicassem. Se crescemos ZERO e pagamos juros da dívida a 5% como é que pagamos os juros e, já agora, a dívida? Fazendo TGVs, aeroportos e mais autoestradas e hospitais, em parcerias- público-privadas onde as vantagens estão todas do lado do privado?

 

Que se crie uma Comissão para analisar as parcerias-publico-privadas e, outra, para assegurar a realização das metas e objectivos da troika.

 

O universalismo na saúde, na educação e na segurança social tem os dias contados. Em vez de cegamente, continuarmos a não ver o inevitável seria bom que se lançassem desde já as bases de sistemas sustentáveis. É bem melhor do que cortar subsídios a crianças, a famílas, a idosos enquanto se mantêm pensões milionárias.(foi o que Sócrates fez enquanto enchia a boca de estado social)

 

Vamos pagar com o empobrecimento de todo um povo! Eis a herança de José Sócrates!

 

E, mais uma vez se viu, que não apareceu qualquer sistema alternativo ao sistema vigente, apesar de todos os seus erros e injustiças.Mas podemos melhorá-lo, e é o que deveremos fazer até que se reunam as condições objectivas para implantar um socialismo democrático de rosto humano, democrático e participativo. A social-democracia do centro e do norte da europa tem muito por onde aprendermos e copiar.

 

Assim, não queiramos estar, novamente, orgulhosamente sós!

 

 

 

publicado por Luis Moreira às 21:30

editado por Carlos Loures às 21:22
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Quarta-feira, 16 de Março de 2011

Aleluia, Tudo Vai Mudar Para Melhor

AGORA É QUE VAI SER

 

O PEC 4 não vai passar.

Está iminente a queda do governo.
O senhor José vai-se embora.
O senhor Presidente da República vai ficar com uma batata quente nas mãos, e nós bem sabemos o quanto ele detesta queimar-se, ou mesmo chamuscar-se, por pouco que seja. De qualquer das formas, vamos ficar, dentro de dias, a saber se temos ou não um Presidente à altura dos acontecimentos.
O senhor Silva vai ter de decidir se quer um governo de sua iniciativa, se quer tentar um bloco central ou se vai partir para eleições.
Neste último caso, qualquer um pode ganhar, seja ele o actual partido do poder ou o outro que quer ir para o lugar dele, já que os outros são pequeninos demais para que se equacionem.
Depois disso, e de se saber quem irá ganhar, precisa, o senhor Presidente, de decidir quem vai governar.
Poderá ser o actual partido da oposição, com ou sem a muleta do senhor Portas, caso os votos do povo cheguem para que, juntos, façam uma maioria.
Poderá de novo equacionar-se a hipótese de um 'bloco central', se os votos de cada um não chegarem para nada.
Poderá ainda ser o actual nosso Primeiro a ganhar.
E se for assim, se o senhor voltar a ganhar, como vai ser? Voltamos à estaca zero?
Se o actual governo cair, de uma coisa poderemos todos ter a certezinha absoluta. Seja qual for a solução encontrada pelo senhor Presidente, e sejam quais forem os resultados que se obtenham, Portugal vai mudar. E vai mudar para melhor, claro. E, se forem outros diferentes dos actuais governar o nosso País, a mudança vai ser mais rápida e 'mais melhor'.
Se calhar vamos ter o FMI ou outro qualquer organismo a ajudar a acabar com esta chuchadeira, mas isso não será mal algum já que rapidamente iremos verificar que o desemprego começa a desaparecer, os ordenados a subir, a inflação a descer, a Justiça a funcionar, a Saúde de vento em popa, e as desigualdades a desaparecerem. Em muito pouco tempo, dias até, tudo vai mudar, e vamos voltar a ser felizes.
 
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publicado por atributosestrolabio às 18:00
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Terça-feira, 8 de Março de 2011

Questões socialistas por Júlio Marques Mota

 Nota introdutória do autor

 

Neste momento em que o Partido socialista procura reconstruir-se, em que  procura renovar as suas relações ao mesmo tempo respeitosas   e eficazes com o mundo intelectual, não é inútil tentar delimitar o que pode contrariar  esta consolidação há tanto tempo esperada.
Há já  muito tempo que os responsáveis do PS tinham colocado na sua rúbrica de perdas e ganhos a herança marxista que tinha  fornecido as bases teóricas da refundação  de Epinay. Quem é que pensa hoje constituir um “aliança de classes ” permitindo “romper com o capitalismo " ? O problema, é que estas noções, incontestavelmente discutíveis, foram abandonadas sem terem sido  discutidas, na sequência de uma  deriva gestionária  bem clara tanto nas  práticas como nos discursos. E quando o socialismo elimina  do pensamento o conceito de exploração ,de dominação de classes  e de  alienação, passa a ser apenas uma sombra de si-próprio .
 
     

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Reflectindo sobre o PS - por António Gomes Marques

 

O mês de Fevereiro tem sido bem interessante para quem queira ter um olhar sobre o PS de José Sócrates (um Partido Socialista será outra coisa). Fiquemo-nos pelo Jornal i e atentemos:

 

No dia 8 de Fevereiro é publicada, naquele jornal, uma entrevista com Henrique Neto, sob o título «Seguro deve avançar contra Sócrates» e, como me parece óbvio, Seguro não avança, está à espera que o poder lhe caia nas mãos, o que significa que, caso isso viesse a acontecer, a democraticidade interna sofreria algumas alterações no início até que o aparelho, essa entidade que não consta nos Estatutos, recuperasse o espaço e tudo voltasse ao mesmo, apenas com a diferença das personalidades António José Seguro/José Sócrates. O mesmo poderia escrever-se sobre António Costa.

 

Voltemos à entrevista. Diz H. Neto: «A partir de António Guterres começou um processo muito forte de centralização e os grupos que tomam conta do partido são cada vez mais pequenos. É sabido que José Sócrates foi escolhido numa reunião entre oito ou nove pessoas.» Temos outras afirmações importantes de HN, como, comparando com os clubes de futebol: «…, há mais reacções populares do que nos partidos políticos».

 

Há, de facto, uma maioria de militantes, como refere HN, que vota pela manutenção do actual Secretário-Geral com receio de perder o poder. Que poder e de quem, pergunto eu? É também por isso que o entrevistado defende eleições primárias dentro do PS, de acordo, aliás, com o que defende a Esquerda Socialista, de que faço parte, assim como HN.

 

Em toda a entrevista houve algo que incomodou sobremaneira Almeida Santos, quando HN diz: «… nas reuniões da comissão nacional, por exemplo, o presidente do partido, Almeida Santos, controla tudo. Só dá a palavra verdadeiramente a quem quer, corta a palavra, diz que não há tempo…» e, mais à frente: «Sim, o Almeida Santos tem culpas enormes na falta de democraticidade interna do partido». HN faz estas afirmações com base, nomeadamente, no que diz um membro da comissão nacional, eleito pela Esquerda Socialista, o qual, na edição do mesmo jornal do dia seguinte, 9 de Fevereiro, sob o título «Dirigente do PS acusa partido de apagar críticos das actas», confirma as afirmações de HN. Pode ler-se naquela edição: «Rómulo Machado escreveu recentemente ao secretariado do PS a queixar-se da forma como são elaboradas as actas e já informou o presidente do partido, Almeida Santos, sobre o mesmo assunto. “Uma coisa é as actas não reflectirem exactamente o que se diz. Outra coisa é verificar que as intervenções críticas estão a ser completamente manipuladas”, diz.»

 

Almeida Santos não resiste e responde com «Carta aberta ao militante do meu partido Henrique Neto», na edição do mesmo jornal de 10 de Fevereiro, onde, e é o mais importante da carta, escreve a dado momento: «Desta vez, porém, o Henrique Neto, para discordar mentiu. E isso é que é grave!»

 

Não resisto a registar que Almeida Santos escreve «Desta vez, …», o que nos pode levar a concluir que Henrique Neto das outras vezes falou verdade e, então, caro leitor, leia a entrevista que, não há muito tempo, HN concedeu ao Jornal de Negócios. Mas a troca de palavras continua, agora com uma carta aberta de resposta de HN, onde mostra claramente quem é o mentiroso, razão por que, é a minha leitura, Almeida Santos não responde aos desafios lançados por Henrique Neto.

 

Isto faz-nos perguntar: que faz correr Almeida Santos? Que interesses está ele a defender? Os do povo português não são, com toda a certeza; os do PS também não. Fica a pergunta.

Ou será que o interesse de Almeida San

tos se limita a ser coerente com o seu Secretário-Geral? Ser número 3 de um partido que tem Mário Soares e Salgado Zenha é algo de prestigiante, ser número 2 de um partido que tem José Sócrates como número 1 é bem pouco de louvar, para alguém como Almeida Santos. Ou será que Almeida Santos, afinal, não é quem eu pensava que era?

 

Então, impõe-se uma outra questão: será que Almeida Santos não pode deixar de ser coerente com José Sócrates? Contrariamente ao que eu pensava, Almeida Santos, profissional da política, faz jus ao que Alfredo Barroso no mesmo Jornal i, apoiando-se em «Robert Michels, um dos maiores autores clássicos especializados no estudo dos partidos políticos em democracia», escreve na edição de 15 de Fevereiro: «Graças ao conhecimento das questões essenciais e à sua experiência política, essa classe profissional acaba por se tornar indispensável. A sua “ciência” dos mecanismos internos (o chamado “aparelho”) e a habilidade para utilizar as regras do jogo (que conhece e manipula como ninguém) preservam-na de ser derrubada por súbitas inversões de maioria.» Ou seja, Almeida Santos é uma outra espécie de José Lello, muito mais inteligente e culto, claro!

 

O carácter de José Sócrates pode avaliar-se pelas palavras que utilizou quando exultou com o défice orçamental de Janeiro próximo passado, claramente demonstrativas do que é o seu conceito de falar verdade ao país. A «boa» notícia de que o défice caiu 100 milhões de euros, esquece que a receita, à custa da maior carga fiscal da Europa, subiu 367 milhões de euros. Leia-se o que escreveu Camilo Lourenço na 4.ª feira, 23 de Fevereiro, na sua habitual coluna no Jornal de Negócios. Ou, então, o que Paulo Trigo Pereira escreve no seu Comentário no Jornal Público do mesmo dia, intitulado “A procissão ainda vai no adro”: «Assim, pode-se concluir que o objectivo da consolidação para 2011 é reduzir o défice em 3135 milhões de euros, que o contributo do subsector Estado para esta redução é de 2732,5 milhões e que 94,2 por cento dela provirá de um aumento das receitas (ou seja, apenas 5,8 por cento deriva de diminuição da despesa). Isto significa que o OE 2011 considerou a incapacidade de o Governo reduzir a despesa do Estado, pelo que a melhoria do seu saldo provém essencialmente do aumento da receita, sobretudo fiscal.», o que confirma que, de facto, como escreve este Professor, «No Estado, o esforço de consolidação está a ser feito, sobretudo, e de forma clara, pela receita fiscal que aumentou 15,1 por cento, mas a despesa do Estado não diminuiu.»

 

Para concluir, diremos que no Partido Socialista é o momento de reflexão para os seus militantes. Aproxima-se o momento de escolher entre um futuro com valores socialistas e, portanto, de esperança e um futuro negro, com a direita liberal, liderada por José Sócrates, a fazer-se passar por socialista e defensor do estado social, com o ultra-liberal PSD a governar por muitos anos, mas não com os dinheiros de que beneficiou Cavaco Silva e com os quais não soube construir um país com futuro.

Praia de Santa Cruz (Boavista), 2011/02/26

 

 

publicado por Carlos Loures às 20:00
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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Faz hoje 75 anos – em 16 de Fevereiro de 1936 a Frente Popular vencia as eleições em Espanha – por Carlos Loures

 

 

No jargão político português da Oposição, desde que em 1958 comecei, na campanha de Humberto Delgado, a participar em reuniões, verifiquei que o termo «frentismo» tinha uma conotação negativa. Depressa percebi porquê – pelo que ocorrera em França e em Espanha com as Frentes Populares de 1936. Em Espanha as eleições legislativas foram em 16 de Fevereiro de 1936, com a vitória da Frente Popular.  Faz hoje 75 anos. Em França as eleições foram em Maio e o Front Populaire, constituído pelo Partido Comunista Francês, pelos trotskistas da SFIO, pelo Partido Socialista Radical, que formaram governo sob a Liderança de León Blum, governo que se manteria até Junho de 1937.

 

 

Neste pequeno artigo, só me vou ocupar de Espanha, mas não posso deixar de referir que nesses meses de 1936 uma onda de optimismo e de alívio percorreu as esquerdas europeias – as ameaças totalitárias de direita que incubavam, sobretudo, na Alemanha e em Itália, pareciam esconjuradas em França e em Espanha. Sol de pouca dura: de 18 para 19 de Junho o exército de África, comandado por Franco,  invadia Espanha e desencadeava uma terrível Guerra Civil que iria terminar em 1939 com a vitória franquista, prolongando-se depois na II Guerra Mundial. Mas falemos então de Espanha e da sua Frente Popular.

 

 

Já desde os últimos meses de 1935 que se esboçava uma aliança entre os partidos de esquerda, aliança que se veio a concretizar na Frente Popular, pacto entre republicanos e socialistas com um programa reformista, mas que da óptica da direita católica e reaccionária, se afigurava revolucionário..A Frente Popular, cuja proposta partira do Partido Comunista, foi recusada pelos anarquistas que não fazendo parte da Frente, apoiaram as candidaturas frentistas. Proposta do PC espanhol reflectia as decisões do sétimo congresso do Comintern realizado em 1935, segundo as quais se renunciava ao objectivo da revolução proletária praticando-se uma política de colaboração com partidos liberais, social-democratas, republicanos, unidos em plataformas antifascistas. E foi constituída uma Frente Nacional (ou Frente de Orden) para se opor à união das esquerdas. Aqui a organização preponderante era a CEDA, liderada por Gil Robles. A Falange de Jose Antonio Primo de Rivera não aderiu, pois este não se entendeu com Gil Robles.

 

 

Mas todos os dados estavam viciados.

 

 

A direita estava disposta a, caso perdesse as eleições, a desencadear um golpe militar. Nas esquerdas, era patente a falta de unidade – estalinistas, anarquistas, trotskistas, social-democratas, todos visavam objectivos diferentes e propunham respostas diferentes à ameaça fascista. Quando a vitória eleitoral pareceu dar razão à corrente estalinista, o tecido social entrou em decomposição acelerada – os ricos, os latifundiários fugiram, abandonando as terras que começaram a ser ocupadas por camponeses. Os pequenos proprietários sentiram-se ameaçados. O clima de tensão tornou-se insuportável e começaram a eclodir pequenos focos de instabilidade – a Igreja concitava abertamente à violência armada. Posição que levava grupos a incendiar igrejas, a invadir conventos. As greves e as ocupações multiplicavam-se. Alguns dos que tinham saudado a vitória da Frente, começavam a mudar de campo e a ser favoráveis a um golpe de Estado que repusesse a ordem social. Nesses anos trinta, o estrato social a que hoje chamamos classe média, embora com uma vida difícil e com um débil poder económico, constituía um grupo considerado privilegiado e tendencialmente conservador - era gente que se sentia ameaçada pelas movimentações dos trabalhadores e, por isso, se passava para o campo dito nacionalista.

 

 

Muitos trabalhadores se organizavam para gerir as empresas, embora a autogestão e a democracia directa estivessem fora dos programas da Frente Popular. A Frente começava a ser ultrapassada pela esquerda e a perder o controlo sobre as massas. Em França, com a vitória do Front Populaire, a partir de Maio ocorreu uma enorme onda grevista e de ocupação de fábricas que serviam de exemplo e de incentivo aos espanhóis.

 

 

 Neste cenário de luta entre as diversas correntes que formavam a frente, de greves, incêndios, assassínios políticos, os militares reaccionários, comprometidos com a Falange, com a Igreja, conspiravam contra a República. Em 18 de Junho o golpe militar eclodia. Os fascistas vinham combater o caos social, provocando uma carnificina sem paralelo na História. A Frente Popular e a sua acção desarticulada, tinha fornecido o pretexto de que a direita necessitava para impor a "ordem".

 

 

"Ordem" que iria reinar por quase quarenta anos.

 

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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

O Centrão - o partido dos negócios.

Luís Moreira

O que os divide? O que os une?

O PS, nasceu pelas mãos de republicanos que acreditavam profundamente na Liberdade política e só mais tarde descobriram a economia de mercado. O PSD, nasceu na primavera marcelista, convencido que seria possível mudar as coisas por dentro. Acreditava que a melhoria do nível de vida, conseguido por uma economia mais aberta levaria o país para a democracia.

Mas, ambos, mesmo não estando na governação, estão no poder, ficaram ligados, qual gémeos siameses, numa teia de interesses que os leva a estarem de acordo no essencial e, na verdade, pouco os separa.

Após, os primeiros dirigentes, gente batida na vida e com carreira profissional, chegaram aqueles que se fizeram nas Jotas, sem curriculum académico e/ou profissional, juntam-se nos gabinetes ou nas administrações das empresas, presas fáceis para quem verdadeiramente manda!

Após a saída de cena de Ferro Rodrigues e Leonor Beleza, talvez os últimos com peso próprio, a classe política está marcada quando é sujeita às exigências da governação, como o caso bem recente do deputado Branquinho, aceitando um emprego numa empresa parceira até agora dos socialistas, mas que os ventos soprando em direcção diversa, a levaram a mudar ,interessada que está na privatização da RTP que um futuro governo PSD ameaça levar a efeito.

O centrão está aí e nada de verdadeiramente muda, seja qual for o partido que esteja no governo, temos um Estado paralelo criado pelos dois partidos que dá emprego a boys e que assegura as correias de transmissão necessárias, afastando a administração pública do que é fundamental.

O que fazer? Enquanto cheirar a poder as várias facções dentro dos dois principais partidos não se reordenam em novos partidos, misturando e dando de novo, por forma a afastar do poder os grupos económicos de sempre e as corporações que se sentam à mesa do orçamento.

O futuro não é fácil, enquanto os boys (do PS e do PSD) enriquecem o povo empobrece.
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Sábado, 2 de Outubro de 2010

O Orçamento é uma espécie de confessionário.

Luis Moreira

O Orçamento tem como parceiro natural o PSD diz o PS sem se rir, da mesma forma que os parceiros naturais do PS nas eleições são o BE e o PCP .O PS precisa de um parceiro para, naturalmente, arcar com as medidas neoliberais e anti-populares que aí vêm e quem melhor do que quem lhe pode tirar o poder?

O relatório da OCDE não é bem o que por aí anda nos jornais e na boca dos PS, é bem pior, como a despesa é muito inflexível, vai-se pela receita, mais impostos, o que vai arrefecer a economia ainda mais, quando a economia da Alemanha cavalga a 4% nós nem aos 1% chegamos. Se tivéssemos o trabalho de casa feito, podíamos agora beneficiar com as exportações para a Alemanha, mas como não fizemos, andamos a sonhar com o TGV e o aeroporto, outros beneficiarão.

O trabalho de casa era ter dado prioridade às PMEs, como toda a gente aconselhou o governo, que são quem exporta, quem cria postos de trabalho e as que mais rapidamente se acomodam às novas condições. Infelizmente, as políticas económicas foram dirigidas para os bancos, para as empresas publicas e para os megainvestimentos, deixando para segundas núpcias os investimentos de proximidade.

O Orçamento é a confissão dos pecadores, já não podem esconder mais os pecados capitais, trava-se o TGV, o aeroporto, os contentores de Alcântara pagam milionárias indemnizações , as locomotivas já não vêm, e os submarinos andam debaixo de água a ver se a gente se esquece das comissões...

Por mim,para além das avés marias da praxe, levavam com o FMI...

PS: já depois do texto escrito o governo anunciou as medidas que jurava que nunca faria. Não há almoços grátis!
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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Governo de Salvação Nacional

Luis Moreira


Nenhum governo assente num partido ou mesmo em vários partidos estará disposto a fazer o que o interesse nacional exige. Tomar as duríssimas medidas de contenção da despesa sem as quais não vai ser possível equilibrar as contas, como todos já percebemos, pois marcará o partido para muitos anos, e nenhum quer passar por essa prova.

O PS governou em maioria absoluta e fez gala disso, não partilhou a governação, foi o quero,posso e mando, e agora tenta a todo o transe puxar para a área da tomada de decisão, o PSD, querendo partilhar os escombros. Há três meses atrás, o PSD, foi chamado a colaborar para que o PEC fosse aprovado em Bruxelas. Como já hoje é evidente, apesar de um aumento da receita por via do aumento brutal dos impostos, o déficit cresceu em vez de diminuir, ao invés do que está a acontecer em Espanha e Grécia. E a razão é só uma, o PS não consegue nem quer fazer os cortes na despesa primária que a situação exige. Quem tem dúvidas olhe para os avanços e recuos nos grandes investimentos que não têm impacto, a curto prazo, no bolso dos contribuintes e que só não vão em frente porque a realidade (leia-se a falta de quem nos empreste dinheiro em condições aceitáveis) se impôs. A não ser assim a vocação socialista de despesismo do PS cavalgaria esses investimentos, não prioritários, alegremente.

Há, pois, que avançar para um governo de salvação nacional, capaz de olhar para o interesse nacional e não para os votos. O tempo urge, a credibilidade do governo cá dentro e lá fora não é nenhuma, o FMI ronda e a taxa de juro atinge máximos insuportáveis. Este teatro entre PS e PSD quer dizer que chegou o momento de a realidade vir à luz do dia, já se fala no corte do 13º mês e no aumento de impostos.

A bem da Nação, o PSD não deve embarcar no canto da sereia, não há crise nenhuma se o governo de Sócrates cair, a democracia tem soluções. Desde logo pode governar em 2011 com o orçamento de 2010 o que traz várias vantagens, tem os limites da despesa e da receita do ano anterior, o que só por si é uma contenção de gastos. O grande problema, como todos andam a dizer há pelo menos dois anos, é que a economia desfalece sem o dinheiro que foi retirado às empresas e às famílias, ou se reduz a despesa ou é necessário aumentar o PIB em 15 000 milhões/ano o que é impossível sem investimento e com uma procura débil, por isso, todos os anos a nossa dívida aumenta naquele número.

Ao fim de sete anos de governação de José Sócrates estamos num beco sem saída, temos pela frente o empobrecimento do país e das pessoas, continuaremos a divergir dos outros países da UE, já somos os últimos e vamos continuar a ser os últimos.

Este governo está esgotado não tem soluções, anda à deriva ( 2 semanas depois de anular os concursos do TGV. TTT, aeroporto, já começou a dizer que os vai reabrir dentro de 6 meses), nem as milionárias indemnizações às empresas concorrentes o protegem do desvario de que está possuído.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Sondagem: alegres e nobres para Cavaco




Luís Moreira


A sondagem do CM dá 54% para Cavaco, 28% para Alegre e um resultado residual para Nobre. Cavaco ganharia à primeira volta, ele que há quatro anos ganhou com 51%. Os 28% de Alegre são o que vale hoje o PS, embora não se confundam pois andarão por aqui os 8% do BE.

A direita agita-se por causa do casamento gay, procura, ou faz que procura, alguem que possa pressionar Cavaco, desde logo a Igreja pela voz do Cardeal de Lisboa e do CDS lançando para a mesa o nome de Bagão Félix.É fogo fátuo, a direita não vai correr o risco de dar a vitória a Alegre como, ao contrário, a esquerda deu a vitória a Cavaco com as suas divisões entre Alegre e Soares.

Quem está Presidente tem grandes vantagens, como mostra o facto de terem sido sempre reeleitos, e numa situação miserável como a que temos pela frente, com um governo descredibilizado e forçado a tomar medidas impopulares, ninguem se atreve a abrir um "melão" novo na Presidência da Republica.Vamos pois ter Cavaco.

Mas Cavaco bem pode começar, como já começou, a usar expressões mais duras como "situação insustentável" que é raríssima no seu discurso, mas que se viu obrigado a usar, num cada vez maior distanciamento do governo e de Sócrates, não vá apanhar com a "peçonha" que de um momento para o outro assaltou o governo.

Se Alegre fizesse o pleno da Esquerda, talvez o máximo que conseguisse fosse obrigar Cavaco a uma segunda volta vexatória, mas nem isso vai conseguir, há muito PS que não lhe perdoa e o PCP vai, como sempre faz, tocar a reunir à volta de um candidato que só serve para isso, para tocar a reunir.

O que esta mais que provável vitória de Cavaco possa meses depois influir nas eleições legislativas é coisa que não se adivinha, mas a direita está próxima de conseguir o velho sonho de Sá Carneiro: um Presidente, uma maioria, um governo!
publicado por Luis Moreira às 11:00
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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Opinião. Cavaco, outro “berdadeiro” independente


Carlos Mesquita


Pronunciei-me sobre Fernando Nobre, hoje toca a vez a Cavaco Silva, o único dos três candidatos (este é oficioso por enquanto) à presidência da República, que foi secretário-geral de um partido, o PSD. Cavaco tem a tarefa de parecer independente facilitada; a campanha que o coloca distanciado do partido a que pertence, tem anos, resmas de artigos de opinião foram escritos com esse fim e são imensos os comentadores e jornalistas que ao longo da carreira política do actual presidente o têm arrumado fora do partido, criaram-lhe essa imagem, é mas não é, apesar de ser não se assume como sendo, está acima, ao lado, ou de costas, para o PSD, conforme as suas conveniências conjunturais. Pode-se duvidar se Cavaco quando líder do PSD era do PSD. No entanto o seu partido, (ou ex-partido) não lhe nega apoios; todas as linhas do PSD, e são mais que as linhas do TGV do tempo de Durão Barroso/Ferreira Leite, concordam em ampará-lo na candidatura ao segundo mandato como presidente. Todas? Não! Como se diria na introdução de mais uma aventura de Astérix. Alguns católicos do PSD juntos com o CDS e a Igreja, e os seus mais leais fiéis, (ou seja, o sector democrata cristão e cristãos pouco democratas) depois da promulgação por Cavaco Silva, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, põem em causa esse apoio. Este novo elemento é decisivo para medir a facilidade de Cavaco em ser ou não reeleito; os cavaquistas desvalorizam a controvérsia, mas o país, diz-se, é maioritariamente católico. Os activistas anti-casamento gay juntaram mais de 200mil assinaturas para pedir um referendo, número semelhante aos dos movimentos anti-aborto.

Responsáveis da Igreja católica e figuras da direita procuram alternativas ao nome do actual presidente, e o CDS já disse que poderia sustentar um nome da sua área como opção a Cavaco Silva. Qualquer que seja a evolução destas iniciativas, a Igreja e também políticos e comentadores conservadores, não deixarão de levar o tema do “casamento gay” para o período da campanha presidencial, não sendo previsível que esses sectores deixem morrer o assunto em nome das contrariedades económicas e financeiras. Cavaco Silva desiludiu quem nele votou, também pelas comodidades oferecidas à governação de Sócrates, e agora para se furtar à discussão vem dizendo que só pensa na crise, em campanha eleitoral vai ter de abandonar esse paleio.


A forma como Portugal vai enfrentar no curto/médio prazo as dificuldades internas e as ameaças exteriores, depende do nível de estabilidade política e da situação social a par da capacidade de aumentar o crescimento. Com governos sem maioria parlamentar e na ausência de acordos partidários consistentes o desempenho do presidente da República será importante, o próximo presidente é fundamental para o rumo da política nacional; de Cavaco já se sabe que se não é presidente que agrade a todos os portugueses, é presidente que encanta os partidos da governação. O que é preciso tentar entender é que Cavaco seria o do segundo mandato, a campanha cavaquista diz que será diferente, os cavaquistas não estão satisfeitos com o desempenho de Cavaco Silva. Há um outro Cavaco? Ou só existe este, inseguro e inconsistente, refugiando-se na posição institucional e nas dificuldades económicas para não ter qualquer papel activo; seria bom nunca vir a saber.

O que é essencial para os portugueses é perceberem porque vão ser sujeitos a medidas severas de austeridade, e que vantagens essa necessidade vai trazer no futuro. De nada serve prometer grandes alterações no panorama político partidário, que não vão acontecer, nem imaginar mudanças radicais na Constituição. Com mais ou menos independência em relação aos partidos políticos o que seria honesto no próximo presidente, é que depois de eleito, a sua actuação não fosse uma surpresa para quem o elegeu. Cavaco Silva parte com a vantagem de agradar a todo o “centrão”, de forma natural ao centro direita e pela prática do actual mandato à direita do PS que governa o partido e o país. Para a direita mais conservadora Cavaco Silva só será seu presidente por inteiro, quando a direita ganhar o parlamento ou houver um governo de iniciativa presidencial.
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Terça-feira, 18 de Maio de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 5

Carlos Leça da Veiga

Em Portugal “não existe Democracia” e “em certos casos, não estamos melhor do que antes do 25 de Abril”
Prof. Doutor Vitorino Magalhães Godinho


O sintoma que historicamente mais revela a decadência das classes dirigentes em Portugal é o cansaço de ser autónomo” e “A partir de agora (em 2004), a Constituição portuguesa de 1976, totalmente subvertida, pode ser posta em causa por qualquer regulamento comunitário, mesmo o mais comezinho
Prof. Doutor João Ferreira do Amaral

Salvo para aqueles crentes, convictos indefectíveis de estar a viver-se em Democracia – mais uma outra vez volta a haver situacionistas – parece não ser difícil concordar-se que temos uma Constituição inadequada e incapacitada de servir a generalidade da população portuguesa e que, por igual, embora com muito maior gravidade, estamos sujeitos a uma dependência política, económica, cultural, ecológica e militar alienígena que vicia a História nacional e dá cor escura ao futuro dos portugueses. Não será por haver quem aceite esta situação – mesmo que seja uma maioria indiscutível – que isso fará passá-la a poder ser tida como justa, aceitável que seja. Até as maiorias, bem sabido, já têm feito as piores escolhas, como disso é um paradigma histórico, todos recordá-lo-ão, a vitória eleitoral obtida por Hitler.

Os pecados capitais posteriores ao 25 de Abril são, de facto, uma Constituição política que não garante aquela Democracia que o século XXI exige e, também, a situação de sujeição a interesses politico-económicos comandados pelo exterior. De facto, a Constituição actual não serve a generalidade das necessidades sociais da maioria da população, não ambiciona accionar as boas vivências duma efectiva participação cívica e, também, não menos grave, por força da sua ambiguidade, permite acolher uma situação de dependência do exterior que, como incontestável – a experiência está a mostrá-lo – tudo embaraça, senão tolhe, inclusive liquida a esperança em viverem-se melhores dias.


Com efeito, estas duas particularidades muito lamentáveis da política nacional – os seus pecados capitais – decorrem do país, por um lado, ter sido levado a perfilhar uma política de relacionamento com o exterior que obriga a claros compromissos internacionais, quaisquer deles reveladores duma indiscutível dependência política de feição ideológica, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia (UE) mas, também, por outro lado, a ter sido elaborada uma Constituição Política inadequada, desactualizada e permeável, em absoluto, ao querer político discricionário das classes sociais possidentes, por sua natureza tradicional nada democráticas e muito subservientes ao pensamento e às decisões vindas do exterior, afinal, donde vem a protecção bastante para assegurar-lhes a manutenção dos seus interesses e privilégios.

A História nacional, a seu crédito – por desgraça – já contem exemplos bastantes de opções políticas de subserviência ao estrangeiro. Dever-se-á repetir? É correcto repetir-se?
A Constituição política em vigor foi formulada em dissonância flagrante com os condicionalismos históricos consequentes ao 25 de Abril, muito em especial, aqueles expressos com grande vigor político pela movimentação popular desencadeada por essa data revolucionária da História portuguesa.
Dependência e Constituição, tal como são dadas a observar pelos portugueses que não aceitam ver-se ludibriados, aconteceram por força dos vários interesses estratégicos alienígenos instalados entre nós e, bem sabido, operados com avonde, arrogância e à-vontade manifestos. Ao serviço de todos eles, dum e doutro lado da disputa internacional, estiveram, e estão, algumas das máquinas partidárias com maior ou menor representação no universo eleitoral português que, anos atrás, no caso disso, foram sinérgicas na regulação conjunta de quanto estivesse sob a alçada dos interesses estratégicos alienígenos, conversados e acordados logo após o final da Segunda Guerra Mundial. Hoje em dia, já lá vão uns bons anos, consumada a derrocada política dum dos lados, só um consegue manter-se com declarado poder de intromissão embora, por força das circunstâncias atinentes à sua evidente decadência (iniciada, sobretudo, com a derrota no Vietname) já tenha de sentir o contratempo importantíssimo da influência, a repercutir-se entre nós, da ascensão pronunciada dos interesses das potências continentais do centro europeu, consubstanciados na chamada União Europeia.

Os sucessivos responsáveis pela direcção política portuguesa liquidaram um necessário posicionamento internacional que, pelo menos, no caso português, com a sua História de oito séculos, devia tornar-se francamente autónomo, imensamente universalista e, jamais, como é, duma dependência servil e dum envolvimento lamentável naquilo que só pode entender-se como uma verdadeira criminalidade internacional.

A interdependência internacional não pode ser sinónimo de dependência nacional; a primeira faz falta, a segunda só prejudica.

Liquidou-se uma necessária Democracia, porquanto, em termos constitucionais nada foi inovado, porquanto, nunca houve a tentação de fugir-se à repetição bafienta do procedimento constitucional europeu utilizado durante os seus últimos dois séculos de História. Nada mais que um modelo constitucional ancorado na monotonia dum pensamento político desactualizado que, para mais e como sempre, prossegue numa formulação socialmente inadequada desde quando – já lá vão dois séculos – foi lançada pela chamada Revolução Francesa. Dele, na verdade, nada mais pode dizer-se que, na sua generalidade, foi uma cópia intempestiva e já, a seu tempo, sem a actualidade social mais necessária, daquele outro modelo inaugurado nos primórdios duma Democracia erigida, no século XIII, para servir, em exclusivo – como convinha – os interesses duns tantos, muito poucos, súbditos de sua majestade inglesa. Com deixou escrito Jean Jacques Rousseau “O povo inglês crê-se livre mas bem está enganado; só o é enquanto dura a eleição dos membros do Parlamento; assim que estes são eleitos, passa a ser um escravo; não é coisa alguma.”

Na conformidade da actual matriz constitucional adoptada para o nosso país tudo prosseguiu e insiste prosseguir sem que, duma forma elaborada com vista à justiça social, esteja soberanamente garantida a «admissão de todos a tomar parte no poder soberano do estado» como ditou o pensamento quase secular, de J. Stuart Mill.

Na Constituição de Abril pecou-se quanto à consistência necessária de imprimir-se a uma imprescindível democratização da economia nacional, designadamente na esfera das relações sociais de produção e na da redistribuição da riqueza nacional. À sua margem, mas a seu par, numa correlação estreita, o 25 de Novembro conseguiu debilitar o poder da intervenção política da população trabalhadora e incrementou, com intenção deliberada, a força política dos possidentes comprometida como estava, e está, com os interesses económicos e políticos do exterior. Tudo somado, começou a fazer sentir-se ruir a já débil estrutura do tecido económico português, fragilizada como estava, pelas incidências duma guerra colonial com mais dum decénio de duração e, também, por um consequente, mas indiscutivelmente necessário processo de descolonização cujas repercussões de ordem vária foram e têm sido muito sentidas na vida portuguesa.

A Constituição de Abril não acompanhou como devia – dando-lhes o acolhimento legal mais necessário – as transformações sociais com que a população portuguesa, no pós-25 de Abril, respondeu ao pesadelo dos cinquenta anos da ditadura salazarista e, pelo contrário, o texto fundamental da República, tal como está expresso, deixou aberto o caminho para a rápida reinstalação do regime capitalista porém, desta feita, agravado na sua capacidade de exploração dos Homens e das Mulheres por força das vestes mafiosas dum neoliberalismo imperante. Não muitos anos após o 25 de Abril, à sombra do disposto na Constituição da República, para reverter-se à situação da preponderância tradicional dos interesses privados, entre outras manifestações de animosidade contra o sector público da economia nacional, recorreu-se à política das privatizações e à recusa, em crescendo e com consequências demolidoras, dos apoios económicos e financeiros imprescindíveis ao sector nacional público, por desígnio, àquelas suas fracções de interesse estratégico vital quantas delas, isso é inquestionável, representadas pelas pequenas e nas médias empresas.

A obra do desgaste intencional do tecido económico português abriu espaço para que a mão dos manobradores dos serviços de inteligência estabelecidos em Portugal soubesse introduzir na mente dos portugueses ser-lhes imprescindível considerar imperiosa a procura de albergue no, então, Mercado Comum, a antecâmara do federalismo europeísta hegemonizado pelos imperialismos germânico e francês. O modelo económico português consequente à sua integração subsidiária na política expansionista dos estados continentais do centro da União Europeia foi transformado, por inevitável, numa dependência do exterior e é aquele a que os governos, os possidentes e a comunicação social, com perseverança, fazem a referência mais exaltante e concedem o acordo máximo. É, afinal, o modelo que, pela força alienante transportada, tem-se mostrado mais capaz de permitir aos sectores socio-económicos nacionais com maior dominância, conseguirem vingar no plano eleitoral, mesmo que tenham de provocar toda a espécie de sacrifícios à população.

Essa política de dependência prossegue com uma metodologia de acção e uma definição de objectivos que só retratam e só satisfazem as necessidades e as vantagens dos detentores do grande capital sabendo-se que dentre estes todos, é reconhecível, que quem mais ganha são aqueles eminentemente especuladores e, notório, os mais ligados ao aparelho burocrático do estado, ás organizações iniciáticas e às máfias instaladas nos aparelhos político-partidários. Tudo é feito como seja para dar a primazia máxima a uma economia posta ao serviço desses possidentes o que, na vida real, nada mais é que tudo sujeitar à determinação ideológica – enganadora, por natureza – de querer enriquecer uns poucos à custa de muitos, tudo exposto com a argumentação falaciosa que, esses poucos, em consequência, num tempo mais ou menos breve, produto da sua bela navegação pelo mar da economia de mercado, venham, depois, a dar aos seus serventuários um qualquer retorno financeiro proporcionalmente justo – equitativo – face às mais valias acumuladas. Com tanto idealismo a funcionar e com tanta “pureza de princípios” a agir, vejam-se os resultados decorrentes traduzidos, como regra, em grandes fortunas para muito poucos e em desemprego, precariedade e pobreza para muitíssimos outros. A economia para ser uma ciência digna desse nome deve estudar, investigar e promover o valor do uso e não o da troca, por exacto, aquilo que a Constituição portuguesa não preconizou nem sequer aflorou, como era obrigatório fazer-se dado que, conforme o preâmbulo constitucional, está indicado dever caminhar-se para o socialismo. Nestes termos, sem hesitações, impunha-se que quaisquer réditos substanciais acumulados, não pudessem ficar em mãos privadas, pelo menos, tão magnanimamente como, por generosidade, é prescrito pelos menos radicais.
Com efeito, as insuficiências constitucionais ou, pelo menos, o enviesar, quanto baste, dos seus preceitos instituídos tornam-se, quaisquer deles, propiciadores duma alienação muito generalizada e dum divórcio muito acentuado do exercício duma cidadania activa, interveniente e institucionalmente operacional que, com toda a realidade, e em toda a extensão, possa fazer sentir-se, possa saber dizer tudo aquilo, e tudo quanto é seu desejo indeclinável inclusive, caso disso, com convicção, possa, tão-somente, querer dizer não.

Tanto a dependência do exterior, aceite e mantida como, por igual, a Constituição da República aprovada, vista e revista, sem nunca ser plebiscitada pelo voto popular, uma e outra, são os dois pecados capitais que não deviam ter sido impostos ao país. Urge afastá-los.
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

A síndrome de Estocolmo



Carlos Loures

Todos já ouviram falar desta patologia que, basicamente, consiste na disfunção psicológica que leva um sequestrado a identificar-se com o sequestrador. A designação deriva de um facto ocorrido em Estocolmo no ano de 1973 – durante um assalto a um banco, os reféns, sequestrados durante seis dias, mostraram-se, depois de libertos, solidários com os assaltantes mesmo durante o processo judicial. A solidariedade da vítima para com o seu captor nasce com pequenos gestos de urbanidade do sequestrador para com o sequestrado e cimenta-se durante o processo de libertação por parte das autoridades policiais, em que o sequestrado se identifica com o assaltante no receio de ser vitimado durante a luta.

Uma visão lúcida da realidade é difícil e as pequenas atenções dos bandidos transformam-se, na memória da vítima, em rasgos de bondade. Por outro lado, os sequestrados têm tendência em ser dóceis com os captores, procurando uma fuga a represálias. Uma estratégia de sobrevivência, digamos que dá lugar a uma bela amizade.

A evolução da síndrome é subconsciente, a vítima não tem consciência da progressão do trauma. Por outro lado, esta não afecta todas as vítimas em cativeiro, alguns defendem-se desenvolvendo um ódio, porventura exagerado (mas saudável), aos captores. A síndrome, de espectro abrangente, tipifica também o afecto que muitas mulheres vítimas de violência nutrem pelos maridos agressores.


Em grupos alargados, lugares e transportes públicos, ouve-se, desde que os governos são eleitos democraticamente em Portugal, protestos contra a forma como somos governados. Ninguém parece apoiar o partido que está no poder – fervem as anedotas, os boatos, as acusações… Foi sempre para mim um mistério como é que situações de descontentamento generalizado dão lugar a vitórias, por vezes rotundas, dos partidos que estão por detrás dos governos tão duramente criticados. Outro aspecto interessante da chamada psicologia de massas é, pessoas que votam em partidos de direita e que às vezes até se mostram saudosas da ditadura, quando os seus interesses pessoais são de alguma maneira afectados, invocarem «as conquistas de Abril».

Mas esta é uma questão anedótica e marginal. O mistério que gostava de ver esclarecido é como é que partidos que já se viu como governam continuarem a ter a maioria dos votos dos eleitores. Então surge uma explicação – a síndrome de Estocolmo – reféns do neo-liberalismo, nós os eleitores, cativos do círculo vicioso, ciclo e circo fantasioso, que faz alternar um dos dois partidos no poder – ganhámos afecto aos captores, somos seduzidos pelos pequenos gestos amáveis que travestem a violência de impostos e de medidas lesivas do nosso bem-estar.

Quando faço a pergunta directamente a votantes no PS ou no PSD, as pessoas encolhem os ombros e respondem - «é que os outros não dão garantias de poder governar». Talvez seja verdade. PCP e Bloco de Esquerda talvez até nem fossem capazes de governar e permanecer fiéis aos seus princípios. Talvez se «pragmatizassem». Porém, os dois compadres do bloco central deram já amplas garantias de não conseguirem governar na acepção nobre do termo. Porque «governar-se», perdoe-se-me o chulismo, eles conseguem sempre.

Sofremos colectivamente da síndrome de Estocolmo.

Só essa explicação pode justificar que continuemos a eleger e a confiar em quem faz de nós e dos nossos votos passadeira para satisfazer ambições pessoais, enriquecer o currículo e beneficiar interesses dos grandes empresários, ponte para negociatas obscuras…

Não, não somos nem masoquistas nem tão estúpidos como parecemos; estamos é afectados pela síndrome de Estocolmo.

Isto explica tudo, não acham?.
publicado por Carlos Loures às 09:16
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