Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

Bom Ano de 2011 !





Luis Moreira


Este é o menino que representa todos os meninos. Este é o menino que devia iluminar o presépio e a árvore de Natal.

Em cada cinco segundos um dos meus meninos Jesus morre de fome devorado pelos abutres que da fome alheia se alimentam. Quem os poderá ignorar?

Poema de Eugénio Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos.
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão apodrecidos.

Eugénio Andrade



Tenham um óptimo ano de 2011 !
publicado por Luis Moreira às 23:58
link | favorito
Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

O meu verdadeiro presépio


Luis Moreira


Entre Caldas da Rainha e Óbidos, numa casa com quintal, pintada de branco e com fachas azuis escuro, dando para um pinhal, moravam o meu pai, eu e os meus dois irmãos mais novos. O patrão da casa durante o dia era eu, embora nos meus precoces seis anos, isso quisesse dizer uma só coisa. Tinha que defender os meus irmãos. E defendia-os, como o meu pai viu ao chegar a casa à noite e verificar que eu tinha rasgado o vestido da minha irmã para lhe atar a cabeça partida com uma pedra perdida.


Era Natal, e eu na minha casa de família perdida pelos adultos, sempre tivera presépio e árvore de Natal e meti na cabeça que teria presépio, aquele ano e naquela casa.. À entrada das Caldas havia ( e há, embora fechadas) as fábricas de loiça com as criações de Bordalo Pinheiro cujas peças com defeito eram amontoadas no seu exterior. Grande fartura de peças para o presépio, para mim não tinham defeito nenhum, sabia lá porque estavam ali à mão, a única explicação era um milagre do menino Jesus , Ele sabia bem que sem ovelhinhas, moinhos, pontes, homens e mulheres não havia presépio.


E, ali no quintal, ao lado direito da porta de entrada fiz com os meus irmãos o "nosso" presépio, bem me lembro que o Menino deixou para mim o milagre de arranjar "papel de prata" para fazer o rio que passava por debaixo da ponte. Um rapaz mais velho ( tinha uma bengala que usava debaixo do ombro, onde se apoiava) viu o "nosso " presépio e arranjou-me a prata, ele também não tinha amigos para jogar a bola, também teve que fazer o seu próprio presépio."Fazes bem, Luis, é bom!" disse-me ele e para mim bastou, alguém tinha olhado para o nosso presépio e gostara dele. Basta uma palavra, a indiferença é algo de terrível, fazer uma festa na cabeça de uma criança, todos os dias, devia ser
uma das três coisas obrigatórias antes de morrer.


O meu pai, foi ao pinhal e trouxe um ramo de pinheiro e com ele fez a árvore de Natal, a vizinha ao lado fez uma estrela prateada ( depois vim a saber que "era aquela estrela pequenina a tremer de medo por cima do forte de Santa Catarina...), não havia luzes, mas havia o musgo que íamos buscar ao bosque, o azevinho de bolinhas vermelhas , as plantas selvagens, e o nosso presépio cresceu, vinham pessoas do bairro ver e sempre deixavam uma ideia, mais uma estrela, e o menino à noite por causa do frio teve direito às roupas que lhe fez a minha professora da pré-escola (bem a vi a chorar...) e o presépio já era de todos, vieram os bolos e as rabanadas, o bacalhau e o azeite, e o meu presépio já era a minha casa cheia de gente .


Não houve presentes comprados à pressa, não havia dinheiro, mas a lareira estava cercada de mulheres a cantar as canções de Natal, a todos se abria a porta, todos a desejarem "Bom Natal" , bandos de rapazes andavam de porta em porta, levavam uma rabanada ( na região das Caldas são filhós..) o meu pai era um emérito cozinheiro, a aletria da minha terra natal, e a mesa farta cheia de pequenas coisas que todos deixavam e trocavam e saboreavam...


E, naquela noite, sonhei com a minha mãe, estava feita figurinha junto ao "menino"...
publicado por Luis Moreira às 13:00
link | favorito
Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

...


Uma história de Natal
ou
Duas meninas e um relógio

Maria Cecília Correia

Um dia o reloginho vermelho amuou. Era um despertador com duas orelhas, redondo, e encostava-se a outros relógios também vermelhos e de iguais orelhas, pacata colecção em diferentes tamanhos. Seus tiquetaques eram desafios musicais que alegravam a cómoda do meu quarto. Mas, quando resolveu amuar, nada o convenceu a mudar de ideias. Primeiro, tentei umas leves palmadinhas, depois uns abanões fortes, depois ainda, com leves esperanças, pu-lo de rabo para o ar. Mas ele, vá lá saber-se porquê, manteve-se firme. Que fazer? Aceitei a sua teima, ou a sua “doença”, quem sabe? E guardei-o no fundo de um gavetão da cómoda sobre a qual conversava alegre com os seus pares.

Ficou no meio do que quase não anda a uso e que por largos meses se esquece. Só às vezes, ao remexer coisas, dava com ele.

- Olha o relógio vermelho! E, como o remexer nunca é ordem, lá ficava ele tapado, de novo escondido.

Um dia, em novas remexidas, voltou o relógio a aparecer. Tirei-o para fora, tive-o nas mãos, olhei-o com cuidado e desabafei:

- Não serves para nada. Para nada? Deixa-me olhar bem para ti. Atenta, virei-o, revirei-o e aceitei a ideia: calhas bem em moldura para retrato.




Vá de o desmanchar aos poucos, orelhas, parafusos, pernas. Umas tantas coisas saíram com facilidade, mas as outras…. Alicate, chaves de fenda, empurrões em jeito de alavanca… E pancada, muita pancada. Lá consegui. Depois escolher foto antes de voltar a armar tudo (difícil que foi), procurando as peças espalhadas sobre a cama.

Claro que preferi para a exótica moldura uma foto das minhas Princesas-Cinderelas-Sereias (títulos por elas escolhidos), Raposinhas por mim chamadas, embora que o nome lhes cause estranheza (“Rapozeta, Pintalgreta, senhora de muita treta…”, não era assim, Mestre Aquilino?). Com um lote de fotos espalhado à minha frente, ia escolhendo pelos tamanhos: esta não, que é pequena, aquela não cabe no redondo do vidro, e por aí fora… Difícil!

Até que apareceu a certa, e que mostra as meninas preparando o Presépio com muita compostura. Nesse dia, nada de Cinderelas a contas com a madrasta e suspirando pelo príncipe, nada de sereias a fugir do polvo gigante. Encantadas, atentas, entregues à sua tarefa. Angélicas mesmo!

Depois, quando elas já no centro do vidro e o relógio milagrosamente armado, ouvi um tímido tiquetaque, brandinho, a medo. Tique------taque.

-Que ouço? Devo estar enganada! Mas não. De tímido, passou ao antigo som alegre, fanfarrão mesmo: tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque. E, ao som daquele trinar alegre e ritmado, as figurinhas animaram-se como as de uma “cascata” à moda do Porto: Eleonor, com as mãos sapudinhas, ajeita o musgo com mil carinhos, põe, dispõe, alisa. Rosa, com o burro entre as mãos, hesita em pô-lo antes ou depois da vaquinha. – José, onde fica? Talvez aqui, para ver melhor o Jesus. A gruta, ainda por acabar, sem tecto de colmo, é um amontoado de seixos da praia. Nus, polidos, trazem ao Presépio o mar calmo e verde de Galapos – onda vai, onda vem, misturadas ao musgo e aos pastores que carregam borregos aos ombros. Contra a janela, as hastes enormes das bagas vermelhas como quando nascidas junto do ribeiro. Mil azáfamas para que o Presépio seja coisa linda e ao jeito da sua criação.

– Avó, canta tu, nós ainda não sabemos bem. E a avó, dócil, entoa:

“Ó meu Menino Jesus/a tua mamã é bonita/e tu és lindo também/ó meu Menino Jesus”.

Lá no fundo, num longe sem distância, minha mãe assiste a mais uma armar do Presépio, ritual que passa entre os dedos e as gerações. Assiste e sorri com ternura. Estas não são bem as suas meninas, antes as minhas. Talvez que sejam somente um florir longe dos seus braços – ou talvez não, quem sabe destes prolongamentos para lá de presenças concretas? Ela fala e só eu a ouço: “o musgo do pinhal do Zé rebelo era muito mais fofo, lembras-te? Vocês traziam uma canastra cheia, sempre o dobro do que era preciso”. Este, colhido em terra barrenta, não é tão bonito, mas, como o outro, é a base da construção. A mãe lembra também: “ E porque não cantas a nossa toada antiga, e ao uso do povo? “

Ó meu Menino Jesus/quem te deu esses calções?/foi a minha avó Santana/ com casinhas e botões….”

– Não, mãe, essa fica para mais tarde. Calções no Menino, sempre de saias, não se ajusta; é tirá-lo do berço e do colo da mãe. E avó Santana, é muita confusão.

Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque. Reloginho canta, mais vivo do que nunca. Ele já não marca o tempo – nem ponteiros tem sequer… O tempo, que lhe importa? Ficou num outro destino: ser o canto, o companheiro das meninas, ter o direito de estar agora nessa festa passada há dois anos. Direito também de ser elemento activo nessa outra festa a acontecer em Dezembro a vir. E, no tempo da espera, que segredos que eu não ouço dirão estes três, ao som de um tiquetaque alegre e fiel? Mãos sapudinhas, olhar interrogador, cantar ritmado, combinam bem… se combinam! O irreal entrou no nosso quotidiano de uma forma concreta e, quando estas coisas acontecem – porque acontecem mesmo – só temos que alegrar-nos com elas.

Dezembro de 1992



publicado por João Machado às 08:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links