Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Prémio Camões 2011 atribuído a Manuel António Pina

 

Manuel António Pina  ganha Prémio Camões 2011

 

 

O Jardim publica hoje um capítulo do livro Os Papéis de K.

 do escritor premiado, para aguçar a vontade de ler, na íntegra, 

a bela prosa do, também, ficcionista. para além de poeta e cronista.

 

 

 

Michiko

 

 

 

Agnes calou-se. «Desculpa, não queria dar-te uma aula... Tudo isto é também muito confuso para minm...» Mudando de tom: «Entretanto perdi-me... Onde é que ia?

 

«No momento em que o original falava da menina nas­cida em... já não me lembro quando...»

 

«Ah, sim... Em 1936», precisou Agnes.

 

«Chamava-se Michiko», prosseguiu, acendendo mais um cigarro. «Fazia 9 anos em 9 de Agosto de 1945. Estava, na escola, em Nagasaki, a escrever uma redacção, no momento em que foi lançada a bomba atómica.»

 

«A bomba atómica...?», disse eu, surpreendido. «E a criança daquela fotocópia que... daquela redacção...?»

 

«Sim», respondeu Agnes, sem me fitar.

 

«Era... ela a menina descendente de... Sesshu, do assassino?!»

 

«É o que diziam os papéis de K.», continuou hesitantemente Agnes, com os olhos postos em algum ponto inde­finido para lá do pára-brisas do automóvel.

 

Começara a amanhecer. Talvez fossem cinco ou seis da manhã. Não dera conta da passagem das horas. Olhei para o relógio. Agnes olhou também para o seu.

 

«É muito tarde, desculpa.»

 

Fez menção de abrir a porta, mas eu segurei-a pelo braço.

 

«Não. Por favor, conta-me o resto...»

 

«Acabaram-se-me os cigarros», disse ela.

 

Eu levei a mão ao bolso. «Fuma um dos meus.»

 

Agnes pegou no maço que eu lhe estendi e, depois de tirar um cigarro e de o acender, disse:

 

«Demorei-me muito em pormenores, desculpa. Vou ser mais rápida. O meu avião é daqui a três horas, já não vou poder dormir.» E encarando-me: «Nem tu...»

 

«Não faz mal», disse eu, ansioso. «Continua...»

 

«Como te disse, K. guardava na pasta a fotocópia dessa folha do caderno da pequena Michiko. O caderno está no Museu da Bomba Atómica, em Nagasaki. Foi encontrado no meio das ruínas da escola de Shiroyama. Quando estive com K. no Japão visitámos o museu. É impressionante. Existe lá também uma parede com o vulto de um corpo desintegrado, que ficou desenhado na pedra. Era um sol­dado, talvez urna sentinela. Vêem-se a sua espingarda, a tiracolo, e uma escada de madeira, ambas também desinte­gradas e inscritas na parede...»

 

«Mas — interrompi-a — como chegou K. a essa menina...?»

 

«No não-tempo dos kami», continuou Agnes, «e no antes e depois do tempo dos homens, foi-se lentamente conjugando, por acção... é o que dizia o manuscrito...» — Agnes falava a medo, como se estivesse assustada, ou como se receasse que eu não acreditasse no que me contava — «... por acção do kami cristão... toda a cadeia de aconteci­mentos que conduziu à morte de Michiko, enquanto os outros kami procuravam, em vão, detê-lo. Terá sido o kami cristão quem — no xintô, as acções dos homens são inspi­radas pelos kami; os homens são, como também, por exem­plo, na Ilíada, ou na Odisseia, instrumentos da vontade dos kami... — inspirou a Otto Hahn, dois anos depois do nas­cimento de Michiko, a descoberta do processo de cisão nuclear do urânio e, no ano seguinte, a Einstein, a carta que escreveu a Roosevelt e esteve na origem do Projecto Manhattan de construção da bomba atómica. Como terão sido os bons kami quem levou, depois, outros cientistas envolvidos no projecto a tentar evitar que a bomba fosse lançada. Toda esta parte do manuscrito é muito perturba­dora... Eu...» Agnes hesitou de novo. «Guardei esse capí­tulo... São três páginas em francês. Foram as únicas que não consegui queimar. Queria, julgava eu, ficar com uma recordação de K.. Agora sei que as guardei porque... por­que queria ter a certeza...»

 

«Guardaste partes do manuscrito?!», perguntei, estupe­facto.

 

«Sim», disse Agnes, desviando os olhos dos meus. «Depois li vários livros sobre o Projecto Manhattan. Foi tudo como K. escreveu!»

 

«Tudo... o quê?»

 

«A descoberta de Otto Hahn, em 1938, a carta de Einstein, as petições de outros cientistas ao presidente Truman para que não lançasse a bomba. Até o que K. diz depois, no final do capítulo, as dúvidas dos outros físicos, até de Oppenheimer e de Fermi... K. estava convencido de que os kami travaram, quando a bomba ficou pronta, uma batalha terrível no coração dos cientistas... E que foi aí, no seu coração, que o destino de Michiko se decidiu.»

 

«O manuscrito era, afinal, sobre essa Michiko...», comentei eu.

 

«Sim, julgo que sim...»

 

«Mas... tanta coisa... uma bomba atómica... apenas para matar uma menina de 9 anos?», estranhei, céptico.

 

«Sim», respondeu Agnes. «Os kami — era outra ques­tão que atormentava K. — não têm o sentido da medida e da desmedida que têm os homens... A picada de uma víbora ou um dilúvio de sangue, a espada de um inimigo ou uma tempestade, uma derrota militar ou a loucura, têm a mesma grandeza para os kami e todos são igualmente apropriados à consumação dos seus propósitos. Também a moral dos homens lhes é alheia. Os kami são apenas von­tade. E, do mesmo modo que os homens não alcançam nos seus desígnios, também eles não alcançam nos limites e nas reservas dos homens. Um dos últimos capítulos do manus­crito é dedicado a essa recíproca e impenetrável — K., lem­bro-me perfeitamente, hesitou muito nas palavras; primeiro tinha escrito "recíproca e opaca", depois mandou-me alte­rar para "recíproca e impenetrável"... — incompreensão, que, se é uma insuficiência dos homens, é igualmente uma insuficiência dos kami...»

 

«De qualquer modo», disse eu, «custa a compreender que...»

 

«Não é possível compreender», disse Agnes. «Não tem compreensão. Nem extensão.»

 

«Nem a imaginação de K. ...», ironizei.

 

«Sim», disse ela em voz baixa. «Se (sublinhou este "se") K. imaginou tudo. Às vezes interrogo-me se ele não era um místico, um kami menor, se não se encontrou, por um momento, entre o humano e o inumano. E se não foi aquilo que viu, e não o cancro, ou o coração, o que o matou. A sua imaginação, se não foi antes uma visão, se ele não era um visionário, tentava, acho eu, agarrar-se aos fac­tos e aos documentos como um náufrago afogando-se. Julgo que, por qualquer motivo, ele se sentia perdido com o que julgava ter descoberto, e que procurava através de todos os documentos que foi reunindo, mais do que con­vencer quem o viesse a ler, satisfazer a sua própria razão, convencer-se a si mesmo. Era um historiador, um cientista, e estou certa — tenho pensado muito nisso — de que seguiu estritamente o método científico... Primeiro obser­vou algo que o perturbou, provavelmente no tal Congresso de 1958, quando descobriu as suas origens judaicas; depois, ao longo dos anos, foi formulando uma hipótese espantosa; e passou o resto da vida a tentar verificar angustiadamente essa hipótese. A conclusão a que chegou era intolerável, des­truiu-o... K. citava frequentemente Meneio, um filósofo chinês, que disse: "Quando os homens perdem as suas gali­nhas ou os seus cães, sabem muito bem onde procurá-los mas perdem a alma e não sabem reencontrá-la..."»

 

«Uma hipótese? Que hipótese?», perguntei eu.

 

Agnes calou-se por momentos.

 

«Ainda não te disse tudo», murmurou. E, depois de nova pausa: «A menina de Nagasaki, Michiko, era a filha única de K. ...»,

 

(in Manuel António Pina, Os Papéis de K., Assírio & Alvim)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Augusta Clara às 16:00
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Manuel António Pina recebe o Prémio Camões 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem, anunciaram no Rio de Janeiro que foi atribuído o Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina. Jornalista durante trinta anos do Jornal de Notícias, é um cronista de grande fôlego, e autor de histórias infantis, em que procura usar o humor e o absurdo para explicar o mundo ás crianças, e segundo alguns, também aos adultos, pois não visaria propriamente nenhuma faixa etária na sua ficção. Também é poeta e autor teatral, assim como tradutor. Estrolabio apresenta aqui os seus parabéns a Manuel António Pina, que muito tem feito para divulgar a língua e literatura portuguesas.

 

 

 

Ao longo da sua carreira recebeu vários prémios de poesia. Convidamo-vos a que leiam a seguir um dos seus poemas.

 

 

A um Jovem Poeta

 

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

publicado por João Machado às 15:00
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

Ferreira Gullar por Sílvio Castro

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Hoje Falamos de...poesia de Ferreira Gullar, "Prémio Camões-2010"

Sílvio Castro  Ferreira Gullar

 

Numa significativa realidade literária nacional, como é aquela brasileira contemporânea, os nomes dignos de um grande Prêmio pela obra completa são muitos. Se esse Prêmio possui as dimensões internacionais, como acontece com o “Prêmio Camões”, destinado a um escritor de uma das nações componentes da grande Comunidade dos Países Lusófonos, o premiado vem reconhecido como um representante altamente representativo da criatividade artística contemporânea de seu país. Ferreira Gullar possui todas as dimensões que o “Prémio Camões-2010” lhe reconhece e proclama. Poeta dedicado igualmente à crítica e ao ensaio, bem como autor de obras teatrais, ele demarca com clareza algumas características da modernidade brasileira. Autor que sabe criar a própria expressão a partir do valor essencial da linguagem, ainda que capaz de profunda participação com o mito poético, não o limita aos valores da pura subjetividade lírica. Nele se apresenta igualmente acentuada e assumida participação com a realidade, mais em particular com a realidade civil. Esta, nascida de uma forte integração com os problemas sociais e políticos de seu país, faz derivar naturalmente no poeta uma integração com os problemas próprios de outras realidades nacionais. Ferreira Gullar é naturalmente um poeta empenhado, um poeta político. Assim sendo, ele corresponde a uma já consagrada norma derivada da ação e teoria da história da Modernidade brasileira referente ao conceito de “poeta maior”, conceito nascido de um esclarecimento de um outro grande poeta brasileiro moderno, Manuel Bandeira, que se definia um “poeta menor”, pois, sempre segundo ele próprio, a sua poesia se confinava na dimensão lírica, nunca ousando atingir aquela do empenho social. Para esta, e portanto para a melhor definição do “poeta maior”, Bandeira os encontrava em criadores como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Certamente, foi a partir da magnífica conceituação de Manuel Bandeira que Sérgio Buarque de Hollanda, na sua Introdução ao volume de Gullar, Toda Poesia (1980), escrevia sobre o autor:
“(… ….) Parece-me a mim, além disso, que, exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do Povo) é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje.“

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, nasceu em São Luís do Maranhão aos 10 de setembro de 1930. Portanto, o Prêmio que agora lhe vem concedido pode ser integrado nas muitas comemorações e homenagens que o poeta brasileiro já recebe e receberá pelo seu próximo oitantésimo aniversário. Gullar publicou sua primeira coletânea de poemas, Um pouco acima do chão, em 1949, transferindo logo após para o Rio de Janeiro. De 1954 é A luta corporal, livro de poemas que desperta imediatamente grande interesse na crítica literária brasileira e que será um dos pontos de referências para a teoria do Movimento da poesia concreta, de 1956, principalmente derivada da ação de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Depois de um período de participação com o movimento concretista, a poesia de Gullar assume novos rumos, indo na direção de um maior empenhol social. Este período, começado em 1962, se acentua a partir de 1964, em oposição ativa contra o regime militar então instaurado no Brasil. Integrado no CPC da União Nacional dos Estudantes, de que era presidente quando do golpe militar, o poeta se integra na divulgação de uma poesia de contestação civil, em especial a partir dos Cadernos do Povo Brasileiro que acolhe os volumes do movimento dos Poemas para a liberdade, da série Violão de Rua. Perseguido político, se exília inicialmente no Chile de Allende e posteriormente na Argentina. No exílio argentino escreve, em 1975, o seu livro de maior repercussão, Poema sujo, publicado em 1976.

Ferrera Gullar faz parte da “Geração de ‘56”, segundo os critérios que adoto para a história da literatura brasileira moderna e contemporãnea (em particular nas páginas da minha História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 1999-2000). A “Geração de -56”, dentro do quadro da moderna poesia brasileira, sucede àquela fundadora do Movimento modernista brasileiro, a de 1922 e à sua complementar, aquela dos poetas de 1930, bem como ao possível movimento revisionista da “Geração de -45“. Desta maneira, a Geração de ‘56 absorve os ideais de liberdade criadora própria dos movimento modernistas fundadores, assim como endossa muitas das revisões formais quanto à linguagem poética, propostas pelos poetas de 1945. Os poetas de ’56 procuram aliar os processos formais mais condizentes ao novo poema da liricidade moderna a uma mais forte politização da poesia. Gullar, nos seus poemas, interpreta bem todo esse complexo percurso.

Nele existe uma natural e profunda preocupação para com a liguagem poética. O seu poema se realiza a partir naturalmente de um forte ânimo lírico, sempre porém em consonância com o espaço do real, como convincentemente vem traduzido no poema “Arte poética”:

Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte –
some-se
aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz

Nada que se pareça
a pássaro empalhado múmia
de flor
dentro do livro
e o que da noite volte
volte em chamas
ou em chaga
vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só
ilumina a cidade inteira

Será justamente de uma tal posição de precisa consciência lírico-formal que Ferreira Gullar saberá dar voz a poemas de acentuado empenho sócio-político, como acontece em “Meu povo, meu poema”:


Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai crescendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta :

publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira às 14:06
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Sábado, 29 de Janeiro de 2011

Biografia de Ferreira Gullar

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

 

Hoje Falamos de...Ferreira Gullar

O Jardim dedica hoje a sua edição ao poeta brasileiro Ferreira Gullar, vencedor do Prémio Camões 2010, com uma biografia escrita por Sílvio Castro. Na próxima segunda-feira, dia 31, será apresentado um poema falado do mesmo poeta.



Sílvio Castro

Numa significativa realidade literária nacional, como é aquela brasileira contemporânea, os nomes dignos de um grande Prêmio pela obra completa são muitos. Se esse Prêmio possui as dimensões internacionais, como acontece com o “Prêmio Camões”, destinado a um escritor de uma das nações componentes da grande Comunidade dos Países Lusófonos, o premiado vem reconhecido como um representante altamente representativo da criatividade artística contemporânea de seu país. Ferreira Gullar possui todas as dimensões que o “Prêmio Camões-2010” lhe reconhece e proclama. Poeta dedicado igualmente à crítica e ao ensaio, bem como autor de obras teatrais, ele demarca com clareza algumas características da modernidade brasileira. Autor que sabe criar a própria expressão a partir do valor essencial da linguagem, ainda que capaz de profunda participação com o mito poético, não o limita aos valores da pura subjetividade lírica. Nele se apresenta igualmente acentuada e assumida participação com a realidade, mais em particular com a realidade civil. Esta, nascida de uma forte integração com os problemas sociais e políticos de seu país, faz derivar naturalmente no poeta uma integração com os problemas próprios de outras realidades nacionais. Ferreira Gullar é naturalmente um poeta empenhado, um poeta político. Assim sendo, ele corresponde a uma já consagrada norma derivada da ação e teoria da história da Modernidade brasileira referente ao conceito de “poeta maior”, conceito nascido de um esclarecimento de um outro grande poeta brasileiro moderno, Manuel Bandeira, que se definia um “poeta menor”, pois, sempre segundo ele próprio, a sua poesia se confinava na dimensão lírica, nunca ousando atingir aquela do empenho social. Para esta, e portanto para a melhor definição do “poeta maior”, Bandeira os encontrava em criadores como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Certamente, foi a partir da magnífica conceituação de Manuel Bandeira que Sérgio Buarque de Hollanda, na sua Introdução ao volume de Gullar, Toda Poesia (1980), escrevia sobre o autor:
“(… ….) Parece-me a mim, além disso, que, exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do Povo) é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje.“

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, nasceu em São Luís do Maranhão aos 10 de setembro de 1930. Portanto, o Prêmio que agora lhe vem concedido pode ser integrado nas muitas comemorações e homenagens que o poeta brasileiro já recebe e receberá pelo seu próximo oitantésimo aniversário. Gullar publicou sua primeira coletânea de poemas, Um pouco acima do chão, em 1949, transferindo logo após para o Rio de Janeiro. De 1954 é A luta corporal, livro de poemas que desperta imediatamente grande interesse na crítica literária brasileira e que será um dos pontos de referências para a teoria do Movimento da poesia concreta, de 1956, principalmente derivada da ação de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Depois de um período de participação com o movimento concretista, a poesia de Gullar assume novos rumos, indo na direção de um maior empenho social. Este período, começado em 1962, se acentua a partir de 1964, em oposição ativa contra o regime militar então instaurado no Brasil. Integrado no CPC da União Nacional dos Estudantes, de que era presidente quando do golpe militar, o poeta se integra na divulgação de uma poesia de contestação civil, em especial a partir dos Cadernos do Povo Brasileiro que acolhe os volumes do movimento dos Poemas para a liberdade, da série Violão de Rua. Perseguido político, se exília inicialmente no Chile de Allende e posteriormente na Argentina. No exílio argentino escreve, em 1975, o seu livro de maior repercussão, Poema sujo, publicado em 1976.

Ferrera Gullar faz parte da “Geração de ‘56”, segundo os critérios que adoto para a história da literatura brasileira moderna e contemporãnea (em particular nas páginas da minha História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 1999-2000). A “Geração de -56”, dentro do quadro da moderna poesia brasileira, sucede àquela fundadora do Movimento modernista brasileiro, a de 1922 e à sua complementar, aquela dos poetas de 1930, bem como ao possível movimento revisionista da “Geração de -45“. Desta maneira, a Geração de ‘56 absorve os ideais de liberdade criadora própria dos movimento modernistas fundadores, assim como endossa muitas das revisões formais quanto à linguagem poética, propostas pelos poetas de 1945. Os poetas de ’56 procuram aliar os processos formais mais condizentes ao novo poema da liricidade moderna a uma mais forte politização da poesia. Gullar, nos seus poemas, interpreta bem todo esse complexo percurso.

Nele existe uma natural e profunda preocupação para com a liguagem poética. O seu poema se realiza a partir naturalmente de um forte ânimo lírico, sempre porém em consonância com o espaço do real, como convincentemente vem traduzido no poema “Arte poética”:

Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte –
some-se
aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz

Nada que se pareça
a pássaro empalhado múmia
de flor
dentro do livro
e o que da noite volte
volte em chamas
ou em chaga
vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só
ilumina a cidade inteira

Será justamente de uma tal posição de precisa consciência lírico-formal que Ferreira Gullar saberá dar voz a poemas de acentuado empenho sócio-político, como acontece em “Meu povo, meu poema”:


Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai crescendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta

publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira às 01:01
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Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Ferreira Gullar, “Prémio Camões – 2010”, visita hoje o Terreiro da Lusofonia


Sílvio Castro

Numa significativa realidade literária nacional, como é aquela brasileira contemporânea, os nomes dignos de um grande Prêmio pela obra completa são muitos. Se esse Prêmio possui as dimensões internacionais, como acontece com o “Prêmio Camões”, destinado a um escritor de uma das nações componentes da grande Comunidade dos Países Lusófonos, o premiado vem reconhecido como um representante altamente representativo da criatividade artística contemporânea de seu país. Ferreira Gullar possui todas as dimensões que o “Prêmio Camões-2010” lhe reconhece e proclama. Poeta dedicado igualmente à crítica e ao ensaio, bem como autor de obras teatrais, ele demarca com clareza algumas características da modernidade brasileira. Autor que sabe criar a própria expressão a partir do valor essencial da linguagem, ainda que capaz de profunda participação com o mito poético, não o limita aos valores da pura subjetividade lírica. Nele se apresenta igualmente acentuada e assumida participação com a realidade, mais em particular com a realidade civil. Esta, nascida de uma forte integração com os problemas sociais e políticos de seu país, faz derivar naturalmente no poeta uma integração com os problemas próprios de outras realidades nacionais. Ferreira Gullar é naturalmente um poeta empenhado, um poeta político. Assim sendo, ele corresponde a uma já consagrada norma derivada da ação e teoria da história da Modernidade brasileira referente ao conceito de “poeta maior”, conceito nascido de um esclarecimento de um outro grande poeta brasileiro moderno, Manuel Bandeira, que se definia um “poeta menor”, pois, sempre segundo ele próprio, a sua poesia se confinava na dimensão lírica, nunca ousando atingir aquela do empenho social. Para esta, e portanto para a melhor definição do “poeta maior”, Bandeira os encontrava em criadores como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.


Certamente, foi a partir da magnífica conceituação de Manuel Bandeira que Sérgio Buarque de Hollanda, na sua Introdução ao volume de Gullar, Toda Poesia (1980), escrevia sobre o autor:

“(… ….) Parece-me a mim, além disso, que, exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do Povo) é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje.“

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, nasceu em São Luís do Maranhão aos 10 de setembro de 1930. Portanto, o Prêmio que agora lhe vem concedido pode ser integrado nas muitas comemorações e homenagens que o poeta brasileiro já recebe e receberá pelo seu próximo oitantésimo aniversário. Gullar publicou sua primeira coletânea de poemas, Um pouco acima do chão, em 1949, transferindo logo após para o Rio de Janeiro. De 1954 é A luta corporal, livro de poemas que desperta imediatamente grande interesse na crítica literária brasileira e que será um dos pontos de referências para a teoria do Movimento da poesia concreta, de 1956, principalmente derivada da ação de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Depois de um período de participação com o movimento concretista, a poesia de Gullar assume novos rumos, indo na direção de um maior empenhol social. Este período, começado em 1962, se acentua a partir de 1964, em oposição ativa contra o regime militar então instaurado no Brasil. Integrado no CPC da União Nacional dos Estudantes, de que era presidente quando do golpe militar, o poeta se integra na divulgação de uma poesia de contestação civil, em especial a partir dos Cadernos do Povo Brasileiro que acolhe os volumes do movimento dos Poemas para a liberdade, da série Violão de Rua. Perseguido político, se exília inicialmente no Chile de Allende e posteriormente na Argentina. No exílio argentino escreve, em 1975, o seu livro de maior repercussão, Poema sujo, publicado em 1976.

Ferrera Gullar faz parte da “Geração de ‘56”, segundo os critérios que adoto para a história da literatura brasileira moderna e contemporãnea (em particular nas páginas da minha História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 1999-2000). A “Geração de -56”, dentro do quadro da moderna poesia brasileira, sucede àquela fundadora do Movimento modernista brasileiro, a de 1922 e à sua complementar, aquela dos poetas de 1930, bem como ao possível movimento revisionista da “Geração de -45“. Desta maneira, a Geração de ‘56 absorve os ideais de liberdade criadora própria dos movimento modernistas fundadores, assim como endossa muitas das revisões formais quanto à linguagem poética, propostas pelos poetas de 1945. Os poetas de ’56 procuram aliar os processos formais mais condizentes ao novo poema da liricidade moderna a uma mais forte politização da poesia. Gullar, nos seus poemas, interpreta bem todo esse complexo percurso.

Nele existe uma natural e profunda preocupação para com a liguagem poética. O seu poema se realiza a partir naturalmente de um forte ânimo lírico, sempre porém em consonância com o espaço do real, como convincentemente vem traduzido no poema “Arte poética”:


Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte –
some-se
aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz

Nada que se pareça
a pássaro empalhado múmia
de flor
dentro do livro
e o que da noite volte
volte em chamas
ou em chaga

vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só
ilumina a cidade inteira

Será justamente de uma tal posição de precisa consciência lírico-formal que Ferreira Gullar saberá dar voz a poemas de acentuado empenho sócio-político, como acontece em “Meu povo, meu poema”:

Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvores nova

No povo meu poema vai crescendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta
publicado por Carlos Loures às 08:00
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Terça-feira, 11 de Maio de 2010

Saudação a Rubem Fonseca


José Rubem Fonseca, um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa, faz hoje 85 anos. Estrolabio felicita-o pelo seu aniversário e, sobretudo pela excelência da sua obra.

Nasceu em 11 de Maio de 1925, em Juiz de Fora (Minas Gerais). Licenciado em Ciências Jurídicas e Sociais. Em 2003 foi-lhe outorgado o Prémio Camões, o mais prestigiado prémio literário para escritores lusófonos. Foi comissário da Polícia, no Rio de Janeiro, entre 1952 e 1958. Durante a sua permanência na Polícia, estudou na New York University. Embora só depois tenha nascido a sua apetência pela escrita, a experiência vivida no meio policial, convivendo com a violência, com marginais, assassinos e prostitutas, forneceu-lhe temas e inspiração para muitas das suas obras.

Em Agosto, talvez o seu livro mais conhecido do grande público, aborda o clima conspirativo e de intriga que conduziu ao suicídio de Getúlio Vargas. Em algumas das suas ficções, surge Mandrake, um advogado, que conhece bem o submundo do Rio e nele se movimenta entre criminosos, belas mulheres, misteriosos crimes. Fez-se já uma série televisiva baseada em Mandrake. Rubem Fonseca tem escrito guiões para filmes, muitos deles premiados. Eis os títulos de algumas das suas obras:

Os prisioneiros (contos, 1963); A coleira do cão (contos, 1965); Lúcia McCartney (contos, 1967); O caso Morel (romance, 1973); Feliz Ano Novo (contos, 1975); O cobrador (contos, 1979); A grande arte (romance, 1983); Bufo & Spallanzani (romance, 1986); Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (romance, 1988); Agosto (romance, 1990); O selvagem da ópera (romance, 1994); O buraco na parede (contos, 1995); Histórias de amor (contos, 1997); E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto (novela, 1997); A confraria dos espadas (contos, 1998); O doente Molière (romance, 2000); Pequenas criaturas (contos, 2002); Diário de um fescenino (romance, 2003);; Mandrake, a bíblia e a bengala (romance, 2005); Ela e outras mulheres (contos, 2006); O Seminarista (romance, 2009) ..
publicado por Carlos Loures às 20:30
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Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
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sugestão: revista arqa #84/85

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