Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XV

Etapa 5: Da nascente do Alviela a Minde

Chego à nascente do Alviela. O sítio terá sido mais bonito antes de o transformarem em praia fluvial, perdeu entretanto o aspecto bravio, há pontes, tanques e mesas de merenda, restam vários penedos, árvores imponentes, o rio a sair de uma caverna.

Aproveito aquela cópia de mesas e bancos, abanco numa delas para o merecido banquete. Devoro a sandes (enorme) que em Pernes mandei preparar, figos e damascos secos, nozes, uvas, maçãs, chocolate preto... Parto com a mochila mais leve.

Mas não durante muito tempo. Avanço por um caminho pedregoso, encontro pedaços de quartzo transparente, que me parecem muito bonitos, resisto aos primeiros, embora com dificuldade, acabo por sucumbir a três outros – como se me faltasse lastro na mochila.


Desde Arneiro das Milhariças o trajecto está bem sinalizado através de marcos indicando Fátima. Em todo o Caminho de Santiago é tradição os andarilhos, quando passam pelos cruzamentos, deixarem uma pedra simbolizando a passagem – um caminhante após outro caminhante, no Caminho Francês constituem por vezes imensos montes de pedras. Aqui sete peregrinos poisaram sete pedras, às quais acrescento um dos meus magníficos pedaços de quartzo.

Hei-de escrever um texto sobre esta paixão pelas pedras. Nas Filipinas cheguei a encher de pedras um cofre que tínhamos alugado num banco de Manila... Claro que não o alugáramos para ad hoc mas para guardar parte dos traveler’s checks necessários nos seis meses de viagem passada, não raro, em bungalows cujas portas podiam ser facilmente arrombadas.

Em Monsanto fotografo o restaurante Mal Cozinhado mas entro numa mercearia, sou interpelada por uma senhora, que a princípio julgo ser dona da loja, pois insiste em me oferecer uma broa – é o aniversário da inauguração. Compreendo depois tratar-se de mera cliente. Que não me larga. O quê, vai sozinha? Então não tem medo? Et caetera. Consigo, com a senhora a contar-me a vida desde o dia em que a mãe foi a Fátima com ela na barriga, encontrar fruta e leite, pago e saio; a senhora sempre a falar. Esta ao menos não é xenófoba... Busco desesperadamente uma desculpa quando sai outra cliente da mercearia e passa por nós.

- Ó Odete, essa menina vai para Fátima, não a empates mais!

Isto deixa-a um instante perplexa, bastante para eu me escapar. Passo junto à igreja, que está fechada, admiro a fachada barroca. Caminho à beira de uma estrada na qual passa, de vez em quando, algum raro carro. Há cada vez mais pedras. Fotografo uma eira. Vejo medronheiros, provo os frutos, pouco maduros e manchados; alguma moléstia. Desço, subo. Chego ao Covão do Feto. Continuo a subir. A partir daqui vou serra acima, trepo por caminhos pedregosos, entre muros de pedras, milhares de muros, quilómetros e quilómetros de muros, pedra sobre pedra, que dividem e fecham as pastagens. Beleza imensa. Emoção intensa que, desde os Açores, não voltei a sentir. Um grande respeito pelos pastores que edificaram estas paredes. Doem-me o calcanhar e o joelho esquerdos mas esqueço-me dos padecimentos. Oiço pássaros a cantar e chocalhos de ovelhas. De vez em quando, a minha passagem faz esvoaçar um bando de aves.

O caminho até ao cume parece-me curto. Gostaria de caminhar durante horas por esta serra... Covão do Feto fica de um lado e Minde do outro lado da serra: atravessei a pé. Passo por um marco que indica 19,426 quilómetros para Fátima. Pouco me importa a distância. O que conta não é o destino mas o caminho.

Está a cair humidade, quase chuva, entre o borrifo e a nuvem, aquilo a que os brasileiros devem chamar garoa – não consigo ver Minde.

Desço por um trilho muito inclinado. Se até Arneiro das Milhariças o trajecto aparecia indicado de uma maneira intermitente, a partir de Arneiro a sinalização tornou-se primeiro boa, depois excessiva e agora... delirante. Nos últimos metros quase não há uma pedra que não esteja pintalgada de azul (Fátima), de amarelo (Santiago), de outras cores, com F, com setas, com conchas, com Santiago de Compostela via lusitana... Parece que confiaram a sinalização aos putos da escola de Minde. Esta profusão chega a tornar-se confusa: engano-me à entrada de Minde pois vejo setas em várias direcções e as que eu sigo estão erradas.

Consigo chegar aos bombeiros. Sou acolhida com uma franca hospitalidade, encontro-me desta vez no Salão Nobre, onde escolho entre mais de trinta colchões. Não me resta força para ir ver Minde. Duche, jantar, massagem dos pés com óleos e arnica –adormeço antes das oito. Há um ensaio da banda dos bombeiros? Ou estou a sonhar? Oiço dormindo.

Acordo às sete. Preparo-me, ponho talco nos pés – que são, para o andarilho, objecto de todos os desvelos.

Não resisto a contar aqui a piada de Alphonse Allais, que cito de memória, por me encontrar em Lisboa e ter o livro em Paris – os livros de que precisamos escondem-se sempre na outra casa.

Um cabo interroga o soldado:

- O que são os pés?

-...

- Animal! Página 15: os pés são para o soldado o objecto de todos os cuidados!

(Depois de pronta, da cabeça aos pés, vou conhecer Minde.)
publicado por Carlos Loures às 10:00
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Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XIV

Etapa 5: De Arneiro das Milhariças à nascente do Alviela

Pernoito no ginásio dos bombeiros voluntários de Pernes, onde vinte colchões servem ocasionalmente para este fim. Escolho, por razões de higiene, dois com revestimento de napa, desdobro-lhes por cima o saco-cama e, depois de lavar a minha camisola, ponho-a a secar na rede de uma baliza. Mais uma vez, sou acolhida com respeito, discrição e muita simpatia. Gosto da generosidade e do profissionalismo que sempre encontro nestes quartéis.
Em Lisboa, hesitei entre dois sacos-cama, um mais quente, para uma temperatura de cinco graus, o outro menos, para uma de vinte. Ora neste momento, mesmo durante a noite, as temperaturas exteriores não devem descer abaixo dos dez graus – e eu não durmo na rua. Trouxe portanto o saco menos quente. Afinal... deve haver algures janelas abertas, talvez no próprio ginásio onde durmo – a verdade é que acordo às quatro horas com frio. E não volto a adormecer.
Saio às sete horas dos bombeiros. Ainda é de noite. Tomo o pequeno almoço no primeiro café e prossigo na direcção de Arneiro das Milhariças por uma estrada muito bonita com, diante de mim, as serras a nascerem da neblina.
Ontem à noite, quando cheguei a Arneiro, não encontrei alojamento mas um rapaz, canalizador, passava por Pernes com a carrinha e deixou-me nos bombeiros voluntários; trabalha catorze horas por dia mas não se queixa da crise. Esta manhã também converso em Arneiro com um trabalhador da construção: conta-me que era barman, mudou de trabalho por aquele ser bem pago, porém agora o patrão baixa os salários, aproveitando-se da crise para aumentar o lucro.
Previ caminhar dezanove quilómetros de Arneiro das Milhariças a Minde. Subo uma encosta quase de saltos altos por a terra molhada se agarrar às botas. No cimo há dois moinhos abandonados e um habitado, o moinho dos Silvas. A bruma deixa adivinhar lá em baixo um casario branco: Arneiro das Milhariças. Logo à entrada de Chã de Cima, num sítio muito sujo, sou atacada por quatro cães e, mesmo com o bordão, tenho dificuldade em escapar. Esta ocorrência ajuda-me a formular uma lei social: quanto mais lixo, mais cães e mais ferozes. Sigo em frente e, como não encontro nenhum café e já bebi um litro de água, prevendo a travessia de oito quilómetros até Monsanto sem avistar vivalma, peço a um habitante que me encha a garrafa; o que ele faz sem adiantar conversa. Desconfiado. Mais uma vez. Não imaginava os portugueses capazes de tamanha xenofobia. O sentimento de insegurança acabou com a franca hospitalidade: todos os estranhos lhes parecem agressores potenciais.
Atravesso uma vegetação muito variada, oliveiras, sobreiros, carvalhos, pinheiros. E tojo, cisto, urze, torga, murta, carqueja, que eu conheço, mas também numerosos arbustos cujos nomes ignoro. Avisto um rebanho de ovelhas. De súbito vejo entulho vazado no meio do caminho: pedaços de tijolo, azulejo e cimento. Dali a pouco chego à beira de uma estrada. Há medronheiros com frutos maduros. Noto porém cada vez mais lixo, montes de embalagens de plástico, como se tivessem despejado algum contentor, lixo e mais lixo, papéis e vidros... De repente sou atacada por dois cães – já estava à espera disto. (Cá diz o refrão: não há lixo sem cães.)
publicado por Carlos Loures às 10:00
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