Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Luta armada contra a ditadura (3) – por Carlos Loures

(Continuação)

 

 

 

Numa reunião do comité central do PCP, realizada em Agosto de 1963, verificou-se uma grave dissidência entre a linha, estalinista, ortodoxa, a corrente maioritária, a de Álvaro Cunhal, e uma minoritária, liderada por Francisco Martins Rodrigues. Sendo insanável a divergência, este, acompanhado por outros elementos daquele órgão dirigente, abandonaram o partido, acusando a linha dominante de ser «meramente eleitoralista».

Em Abril de 1964, esse dissidentes criaram a FAP- Frente de Acção Popular, através

de cujo órgão de imprensa (o Luta Popular) defenderam a acção armada como única via de derrube do regime salazarista. Em 1965 os principais dirigentes e outros militantes foram presos pela PIDE. Porém seria a partir deste pressuposto, de que o regime só cairia pela violência e nunca pela luta legal, que iriam nascer organizações clandestinas como a LUAR e como as Brigadas Revolucionárias. Organizações que o PCP sempre acusou de serem «aventureiristas», «divisionistas» e «blanquistas».

 

Abro um parêntesis, para lembrar que «blanquismo» é um conceito proveniente do nome de Louis-Auguste Blanqui (1805-1881), político francês que defendia que a revolução socialista e a consequente tomada do poder, não seria obra das massas proletárias, mas sim de um grupo reduzido de conspiradores, bem organizados em estruturas secretas. Segundo Blanqui, a revolução seria consumada sob a forma de um golpe de estado. Na linguagem dos partidos comunistas ortodoxos, blanquismo é, portanto, um termo fortemente pejorativo.

 

Em 17 de Maio de 1967, um grupo  comandado por Palma Inácio, assaltou a dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, fugindo depois num pequeno avião e levando cerca de 30 mil contos. Em 19 de Junho desse mesmo ano, fundar-se-ia em Paris a Liga de Unidade e Acção Revolucionária – LUAR, onde militariam figuras como Hermínio da Palma Inácio, Emídio Guerreiro, Camilo Mortágua, José Augusto Seabra, Fernando Echevarria e Fernando Pereira Marques. Em 1968, a LUAR tentou tomar a cidade da Covilhã, falhando no entanto a operação. Palma Inácio, preso na sequência desta operação, fugiu das instalações da PIDE no Porto, protagonizando uma fuga espectacular e que emocionou os antifascistas.

 

Em 1970 surgiram as Brigadas Revolucionárias, criadas a partir de um núcleo de antifascistas ligados à Frente Patriótica de Libertação Nacional, sediada em Argel. As BR, que em Setembro de 1973 dariam lugar ao Partido Revolucionário do Proletariado, desencadearam diversas acções, tais como a sabotagem  nas instalações da NATO na Fonte da Telha em 7 de Novembro de 1971, uma data simbólica; dias depois foi destruída uma bateria de canhões no Barreiro. Em 1972 destruíram doze camiões Berliet do Exército e assaltaram os serviços cartográficos militares obtendo mapas que enviaram aos movimentos de libertação, em 1973, uma série de operações visando sobretudo instalações e infra-estruturas militares em Lisboa e no Porto. Em 1974 foi levada a cabo uma acção de sabotagem no Quartel-General de Bissau, destruindo o edifício do comando. Foi também praticada uma acção de sabotagem no navio «Niassa» no momento em que ia partir para a Guiné com um contingente de tropas. O navio foi evacuado, sem que houvesse vítimas, pois as BR tinham avisado a PSP uma hora e quinze minutos antes da explosão. Isabel do Carmo e Carlos Antunes foram as figuras mais carismáticas e mediatizadas do PRP, partido que durante o chamado PREC teve grande influência na esquerda militar, sobretudo junto de Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON.

 

Já disse que, por princípio, o  PCP era contra este tipo de acções. No entanto, a partir da cisão de Francisco Martins Rodrigues, um número cada vez maior de militantes manifestava o seu apoio às operações da LUAR e das BR, embora o comité central continuasse a considerar essas organizações como aventureiristas e objectivamente fazendo o jogo do poder. Até que a pressão dos militantes, sobretudo dos mais jovens, foi insustentável e o Partido criou a Acção Revolucionária Armada (ARA), destacando para a organizar os membros do CC – Rogério de Carvalho e Raimundo Narciso, a que se juntaram Jaime Serra e Francisco Miguel. A ARA praticou diversas acções de sabotagem em instalações militares. A operação mais espectacular e eficaz foi (talvez não só da ARA, mas de toda a luta armada) foi, em 8 de Março de 1971, o ataque à base aérea de Tancos, destruindo 28 aeronaves e cortando as comunicações. Porém praticou outras acções, tais como em 1970 colocação de uma bomba no navio «Cunene», ao serviço das guerras coloniais, em 1971 destruição da central de comunicações nacionais e internacionais, em Lisboa, durante uma conferência da NATO, em 1972 vários actos de sabotagem visando instalações militares. Entre os elementos operacionais da ARA, encontram-se nomes como o do romancista, dramaturgo e jornalista Carlos Alberto Coutinho e o de José Brandão, historiador especializado no período entre o final da Monarquia e a I República.

 

Estas organizações clandestinas, cuja acção se desenvolveu entre o final dos anos 60 e a eclosão da Revolução de Abril, tiveram um papel muito importante, talvez mesmo decisivo, na queda da ditadura. Afinal, Francisco Martins Rodrigues tinha razão: uma ditadura violenta não cederia perante argumentos democráticos – apenas cairia pela força das armas. Salgueiro Maia, Otelo e os seus companheiros do MFA assestaram o golpe final no monstro apodrecido que entre clericais batinas, capelos doutorais e espadas de militares nascera 48 anos antes, gerado no tumulto caótico da I República.

 

(Continua)

 

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira em 18/01/2011 às 01:05
link | favorito
Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

O 18 de Janeiro de 1934 – por Carlos Loures

No dia 18 de Janeiro de 1934, faz hoje 77 anos, eclodiu uma insurreição armada na Marinha Grande. O vídeo que antecede este texto parece estar carregado de simbologia partidária do PCP, mas não é bem assim. O hino «A Internacional», foi  composto durante a comuna de Paris, em 1888, por Pierre Degeyter, operário anarquista de origem belga. A letra foi escrita pelo anarquista francês Eugène Pottier. Foi a partir de 1896, após a realização do congresso do Partido Operário Francês realizado em Lille e durante o qual foi tocado e cantado, que o hino se difundiu por toda a Europa através dos delegados presentes.

 

O autor da versão portuguesa da letra foi o anarco-sindicalista Neno Vasco (Gregório Nazianzeno Moreira de Queiroz e Vasconcelos) que, no ano de 1909, traduziu para o português a letra do hino, a qual segue o original francês, reflectindo a influência da literatura e poesia inspiradas pelo socialismo utópico que ficara da geração de 70, quando não mesmo pelo anarco-sindicalismo, maioritário no movimento operário português nas primeiras décadas do século passado.  Dei esta explicação, pois «A Internacional» não é comunista, mas sim o hino de que quase todas as correntes de esquerda. O vídeo acima reflecte, de facto, a sua origem partidária, não por ter «A Internacional» na banda sonora, mas porque as três vítimas que destaca, são militantes do PCP.

 

Para se entender o que aconteceu no dia 18 de Janeiro de 1934, é preciso ir um pouco atrás. Com efeito, a nova Constituição plebiscitada em 1933, dava margem ao Estado Novo para retirar todas as liberdades cívicas aos cidadãos, apoiando-se num texto que, oficialmente, a maioria do eleitorado aprovara. No dia 23 de Setembro desse ano foi publicada a legislação sobre a organização corporativa do trabalho. No que ao universo laboral se referia, a  liberdade sindical era extinta, pois só seriam legais os sindicatos nacionais, enquadrados na estrutura corporativa.

 

Foi criada uma «Frente Única» para fazer face a esta nova arrancada no sentido de consolidar a ditadura. As organizações dos trabalhadores, sobretudo a Confederação Geral do Trabalho, dominada pelos anarquistas, defendeu a realização de uma greve geral insurreccional. O  PCP preconizou uma estratégia diferente - das assembleias gerais dos sindicatos marcadas para votar os estatutos, deviam sair moções repudiando a nova legislação, criando-se uma grande movimentação de massas que poderia resultar na tal greve geral  projectada pelos anarquistas.

 

Porém, a proposta da CGT prevaleceu e os próprios  militantes do PCP envolvidos na organização aderiram à ideia mais radical.  Na noite de 17 explodiram algumas bombas: duas em Lisboa e uma em Coimbra. Contudo, no dia 18 de Janeiro, a adesão à greve geral foi decepcionante. Paragens de laboração apenas em fábricas de Almada, do Barreiro e do Algarve. Na Marinha Grande, as coisas passaram-se de modo diferente. Tudo começou de acordo com os planos traçados – nas fábricas a laboração foi suspensa, cortou-se comunicações e houve manifestações de rua. Depois, a situação alterou-se quando os responsáveis locais, entusiasmados com a adesão maciça da população, resolveram criar um soviete.

 

Foi eleito um soviete que assumiu o controlo da vila, tomando o posto da GNR e a estação dos Correios. Beneficiando do factor surpresa, tudo foi feito sem derramamento de sangue, decidido passo a passo. À medida que as questões surgiam, iam sendo resolvidas. O comandante do posto da GNR e a sua família foi «aprisionado» numa pensão local. Os guardas ficaram sob custódia de um administrador de uma fábrica. O chefe da estação dos CTT, ao ser-lhe detido, pediu para ver a família. Conduzido à residência e respeitada a sua privacidade, aproveitou essa conduta dos revoltosos para, telefonicamente, denunciar o golpe às autoridades.

 

Durante algumas horas, a vila esteve ocupada pelos revolucionários, até que as forças militares que iam chegando os foram cercando, jugulando de forma violenta a revolta. Mais uma vez, o regime capitalizou esta acção, com ela justificando a criação do Campo de Concentração do Tarrafal.

A vila foi cercada por forças militares e, na madrugada de 19, as posições ocupadas pelos trabalhadores foram tomadas e a rebelião jugulada. Seguiu-se o que era de esperar de um regime como o que Salazar instituíra – prisões em massa, interrogatórios acompanhados de tortura, simulacros de julgamentos, deportações para as colónias.

 

O campo de concentração do Tarrafal foi criado para acolher presos do 18 de Janeiro.  Na primeira leva de 152 presos que o foram estrear, 37 tinham participado no 18 de Janeiro. António Guerra, que liderou a ocupação da Estação dos Correios, condenado a 20 anos de degredo, ali morreu em 1948. O líder do movimento, o ferroviário, militante do PCP, Manuel Vieira Tomé foi brutalmente torturado, vindo a morrer no cárcere em Abril do mesmo ano. Houve centenas de prisões e de deportações.

 

Os sovietes ou conselhos operários foram uma inovação na luta de classes criada na Revolução Russa de 1905.  Antes,  na Comuna de Paris (1875), haviam existido estruturas semelhantes. Foi Rosa Luxemburgo, sobretudo na sua Greve de Massas, Partidos e Sindicatos, uma das primeiras teorizadoras deste tipo de organização. Os «conselhos operários» voltaram a aparecer  na Rússia de 1917, na Revolução Húngara de 1919, na Revolução Espartaquista, na Alemanha, entre 1918 e 1919.

 

Estas e outras experiências forneceram as bases para a tese dos conselhos formulada por Anton Pannekoek. Os conselhos surgiriam  também  em Espanha durante a Guerra Civil. Em Portugal após o 25 de Abril de 1974, sobretudo o Partido Revolucionário do Proletariado, defendeu a criação de conselhos operários, que, com outras assembleias de base, dariam lugar a um sistema de democracia directa, conceito oposto à democracia representativa que nos governa.

 

 

publicado por Carlos Loures às 07:00

editado por Luis Moreira em 17/01/2011 às 22:36
link | favorito
Sábado, 20 de Novembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (37)

O Primeiro Congresso do Partido Comunista Português


César Oliveira


Seara Nova, 1975



Este é um volume cujo principal objectivo é dar a conhecer ao público as teses, resoluções e outro noticiário referente ao I Congresso do Partido Comunista Português realizado em 1923, dois anos após a sua fundação em 1921.
Não se pretende neste volume iniciar uma história do P.C. P. para cuja continuidade nos faltariam, necessariamente, elementos dadas as condições de clandestinidade em que foram obrigados a viver, durante dezenas de anos, os militantes deste partido. Por outro lado não é nosso propósito mostrar com a publicação deste material a fraqueza teórica patente no referido congresso: isso seria, exactamente, desconhecer ou ignorar deliberadamente o contexto social e económico da época em que nasceu o partido…

___________________


O Primeiro de Maio


César Nogueira

Lisboa, 1917

É esta a orientação, que o proletariado português deve também acompanhar. Mas para que as reivindicações do 1.º de Maio melhor possam vingar é necessário, é imprescindível, que ao lado do esforço económico esteja a luta do carácter político pela conquista das juntas de paróquia, dos municípios, das juntas distritais e do Parlamento, porque sendo os melhores baluartes onde se acoita o capitalismo, é, por consequência, o meio mais autêntico o mais prático para obter e manter as reivindicações formuladas no dia 1.° de Maio, factos importantes, que o Congresso Socialista Internacional de Paris, em 1900, reconheceu, convidando as organizações operárias a prosseguir na obtenção das reformas sociais, «obrando duma maneira progressiva e ligando a acção sindical e a acção politica». Assim o têm compreendido e executado as massas populares para além-fronteiras.

_______________
publicado por Carlos Loures às 18:00
link | favorito
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Coisas breves. Cavaco recebe partidos

Carlos Mesquita

Cavaco Silva reuniu hoje com partidos de esquerda. Recebeu-os na sala trapezoidal de S. Bento, onde para além dos assentos há uma mesa redonda com apenas quatros pernas, em cima um candeeiro de lâmpadas anti-melgas. Ao fundo uma pantera de louça e um cavalete de pintura com um quadro de tela branca roto desde o centro esquerdo ao centro direito.

Aníbal (é o nome próprio com que se levanta) acordou depois de uma noite mal dormida de preocupações.

-Ouvi espirrar, quem raio me acorda aos espirros?! Foi o teu ouvido, Aníbal. Não foi nada o meu ouvido! Eu ouvi mesmo espirrar! Foi o teu ouvido que espirrou, Aníbal. Ouviu de novo. O meu ouvido espirrou? Qual? Não pode ser, lamentou-se enquanto se levantava, o meu ouvido esquerdo está outra vez constipado, logo hoje que vou escutar os partidos deste lado, lindo serviço.

Aníbal passou o resto do tempo até à reunião a testar a capacidade de ouvir à esquerda, Norberto, o 2º motorista deu uma ajuda. Um, dois, experiência…está a ouvir Sr. Presidente? Ora comece lá a falar Sr. Norberto. Um, dois, experiência…está a ouvir Sr. Presidente? Ó Sr. Norberto diga qualquer coisa para ver se a minha acuidade auditiva está recuperada, olhe deixe estar que já vem ali a Sra. Deputada dos Verdes; essa não terei dificuldade em ouvir que tem uma voz vibrante, irritante mas vibrante.

Como está Sra. Deputada? Sr. Presidente queria agradecer-lhe ter-nos convidado para sermos ouvidos nesta altura tão difícil, os nossos fins… Pois é Sra. deputada, cortou o anfitrião, era muito bom com este tempo fazermos a reunião nos nossos belos jardins, mas manda o protocolo que usemos os aposentos interiores. Entremos.

Sentaram-se e o Presidente disse: - Cumpramos a Constituição que me recomenda nestas ocasiões ouvir os partidos. A delegada dos Verdes foi dizendo de sua justiça enquanto o seu interlocutor pensava; é tal e qual como quando a vejo no Canal Parlamento com o som desligado, talvez um pouco mais calma. Ainda lhe chegou ao ouvido bom qualquer coisa como “novas políticas” que estava habituado a ouvir vindo desse lado direito mas mais nada. O tempo esgotou-se, levantaram-se, a deputada perguntou se o Sr. Presidente não se importava que ela dissesse aos jornalistas que ele estava preocupado por causa do que disse o ministro da presidência. Cavaco foi dizendo que era preciso cuidado com o que se dizia porque estamos sob observação externa, o que foi interpretado como consentimento. Voltou a agradecer ter sido recebida e foi para os pés de microfone.

Há hora destes acontecimentos ainda não tinham chegado os delegados do Bloco de Esquerda e do PCP para as respectivas audiências, espera-se que agradeçam o facto de terem sido convocados e que jurem que não querem ajudar a criar uma crise política.

Cavaco Silva no intervalo confessava aos seus colaboradores que a audição do partido “Os Verdes” tinha corrido de forma extraordinária, não tinha ouvido uma crítica, uma contestação, o mais leve comentário desagradável. Esperava que o mesmo acontecesse com o BE e o PCP, desejando que na delegação do BE viesse o médico deputado para o aconselhar sobre a trompa de Eustáquio. Também o Jerónimo de Sousa que foi afinador de máquinas o podia ajudar a afinar o estribo, o martelo e a bigorna do ouvido, tudo isso, evidentemente, depois das audiências terminarem.
tags:
publicado por Carlos Loures às 11:00
link | favorito
Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 151 e 152 (José Brandão)

A I República Portuguesa

Uma cronologia

Fernando de Castro Brandão

Livros Horizonte, 1991

Hoje em dia reconhece-se a cronologia como um instrumento imprescindível para a análise histórica. As datas existem como marcas insubstituíveis a partir das quais se articulam os factos inseridos no tempo e no espaço. A referência cronológica ganha ainda mais relevância quando o material de investigação e as obras de referência são escassas ou pouco rigorosas, criando dificuldades quase insuperáveis aos investigadores e a todos quantos se interessam pela história por falta de indicações cronológicas precisas. Daí esta cronologia da I República Portuguesa, um período aliciante e fundamental da história contemporânea portuguesa mas ainda com muita informação por desbravar.

_____________________

O Primeiro Congresso do Partido Comunista Português


César Oliveira

Seara Nova, 1975

Este é um volume cujo principal objectivo é dar a conhecer ao público as teses, resoluções e outro noticiário referente ao I Congresso do Partido Comunista Português realizado em 1923, dois anos após a sua fundação em 1921.

Não se pretende neste volume iniciar uma história do P.C. P. para cuja continuidade nos faltariam, necessariamente, elementos dadas as condições de clandestinidade em que foram obrigados a viver, durante dezenas de anos, os militantes deste partido. Por outro lado não é nosso propósito mostrar com a publicação deste material a fraqueza teórica patente no referido congresso: isso seria, exactamente, desconhecer ou ignorar deliberadamente o contexto social e económico da época em que nasceu o partido…
________________________
publicado por Carlos Loures às 18:00
link | favorito
Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

José Gomes Ferreira –2

Carlos Loures


Quando José Gomes Ferreira, vindo da Noruega, voltou a Lisboa, encontrou outro um país – A Revolução continua – diziam os apoiantes da «nova ordem» que reinava nas ruas e com a repressão que condicionava as mentes. Com um ou outro acidente de percurso, a direita católica e conservadora, o chamado Governo da Ditadura Militar, ia, decreto a decreto, sob a orientação cautelosa, mas obstinada, de um tal Oliveira Salazar, eliminando os vestígios da República, suprimindo as liberdades fundamentais.

Alguns amigos eram os mesmos, outros tinham morrido. E surgiram alguns novos – Manuel Mendes, Bernardo e Ofélia Marques (seus «compadres», padrinhos de seu filho Raúl), Carlos Botelho, Diogo de Macedo, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões Cottinelli Telmo, a Maria e o Chico Keil… E os neo-realistas Alves Redol, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Queiroz… Olha, ainda há flores/ Mas quem se atreve/a cantar as flores do verde pino/no madrigal desta manhã de pesadelos?/ E tu, papoila, minha bandeira breve,/quando voltarás ao teu destino/ de enfeitar cabelos?

Estes versos, escreveu-os José Gomes Ferreira para As Papoilas, uma canção popular composta por Fernando Lopes-Graça. Na realidade, os tempos não corriam de feição «a cantar as flores do verde pino». Em 1933, logo em Janeiro, o governo a que Salazar presidia criava a Polícia de Defesa Política e Social, que passaria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e depois a Polícia Internacional de Defesa do Estado, a PIDE, que ensombrou gerações de antifascistas, perseguindo, prendendo, torturando, matando.

Em 1936 desencadeava-se em Espanha a rebelião fascista de Franco contra o governo legítimo da República – era a Guerra Civil que iria durar até 1939, num prelúdio sangrento da II Guerra Mundial, que eclodindo nesse ano, se manteria até 1945, deixando o mundo em ruínas.

Foi um período negro em que não publicou livros. Colaborou, sim, em revistas como a Presença, a Seara Nova, a Gazeta Musical e de Todas as Artes, na revista de cinema Imagem, no jornal infantil Senhor Doutor, onde publicou em folhetins As Aventuras de João Sem Medo. Foi na Presença que, em 1931, publicou o poema Viver sempre também cansa, que representou o arranque para uma fase decisiva da sua obra poética. Colaborou também na legendagem de filmes estrangeiros sob o pseudónimo de Álvaro Gomes.

Terminada a guerra com a vitória dos Aliados, nasceu entre os antifascistas portugueses a ilusão de que todas as ditaduras nazi-fascistas, lixo da História, iriam ser varridas pelas democracias vencedoras do conflito. Mas foi mesmo uma ilusão. Salazar, qual ilusionista de circo pobre, faz um truque, um passe de mágica – Portugal uma ditadura? Que ideia! - O regime corporativo, onde a saudação de braço estendido, como na Itália fascista ou na Alemanha nazi, foi ritual corrente e, por vezes, obrigatório, transformou-se numa «democracia orgânica».

Foi criado o Movimento de Unidade Democrática e Gomes Ferreira aderiu, tal como a grande maioria dos intelectuais portugueses e, em 1947, quando nasceu o ramo juvenil do MUD, escreveu a letra do hino «Jornada» ou «Vozes ao Alto», como é conhecido, com música composta por Fernando Lopes-Graça. Durante as frequentes e intensas lutas estudantis dos anos sessenta, será cantado até à saciedade por jovens, mesmo pelos que, mais à direita ou mais à esquerda, não militam no Partido Comunista, organização que está por detrás do MUD Juvenil. O Jornada, foi também o hino que serviu de indicativo à estação clandestina Rádio Portugal Livre que, a partir de Praga, emitia diariamente para Portugal desde Março de 1962. Da colaboração entre Fernando Lopes-Graça e José Gomes Ferreira, nasceu também este «Acordai» aqui cantado pelo coro da Academia dos Amadores de Música:






Entre 1950, ano do O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens, selecção de crónicas publicadas na Seara Nova, e a sua morte, publicou cerca de quarenta títulos - poemas, obras de ficção, crónicas, livros de memórias, ensaios, peças teatrais, introduções, prefácios, comentários, notas, traduções. De um escritor que, nos primeiros cinquenta anos de vida, produzira pouco mais de meia dúzia de títulos, passou a ser um criador prolífico. No segundo fôlego do seu espírito criativo, vieram as grandes obras, as que o converteram num dos mais importantes escritores portugueses do século XX.

Naturalmente que José Gomes Ferreira não publicou muito nesse primeiro meio século de vida, mas escreveu. Foi «enchendo gavetas com nuvens», para usar a expressão que ele próprio utilizou para classificar esses anos em que acumulou projectos que, por uma razão ou por outra, não concluiu. Depois, as nuvens foram saindo das gavetas transmutadas em sóis luminosos:

Em 1948 saiu a público Poesia I, que jOsé considera o seu verdadeiro livro de estreia; em 1950 é publicado o volume de Poesia II, sendo também editado o livro de ficções O Mundo dos Outros. Colabora com Lopes-Graça em Líricas. Em 1956 publica Eléctrico. Em 1960 é a vez da obra de ficção, O Mundo Desabitado. Em 1961 é-lhe atribuído o Grande Prémio da Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pela Poesia III. Em 1962 é editada a Poesia IV e publicado Os Segredos de Lisboa. Em 1963 edita-se Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo. Em 1965 sai A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim.1966 é o ano de publicação de Imitação dos Dias – Diário Inventado. Em 1969 publicou os contos de Tempo Escandinavo. Em 1971, O Irreal Quotidiano – histórias e Invenções. Em 1973, Poesia V.

publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Sábado, 7 de Agosto de 2010

Partidocracia

Carlos Loures

Sabemos o que significa partidocracia - poder, domínio, autoridade dos partidos. Num sentido mais lato, governo dos partidos. Num sentido ainda mais lato, ditadura de partidos. Se pretendermos aprofundar a vertente prática do conceito, veremos que geralmente são dois os partidos que se alternam no poder. O filósofo espanhol Gustavo Bueno, criador do «materialismo filosófico» (e do qual aqui tenho falado a propósito do telelixo), diz que «a partidocracia constitui uma deformação sistemática da democracia», pois, cada um dos partidos do poder «tem sistematicamente que atacar o outro». Esta situação de guerra permanente entre os dois partidos alternantes, esconde uma realidade cruel – a de que são faces da mesma moeda. Não se trata aqui da guerra entre esquerda e direita ou entre conservadores e progressistas. Luta-se não por princípios ou por ideais (esses, no fundo, são os mesmos), mas por lugares privilegiados. As oligarquias partidárias digladiam-se pela conservação ou pela tomada do poder, mas no fundo, graças à tal «engenharia endogâmica» de que já falei - criadora de uma verdadeira oligarquia - o poder está sempre nas mesmas mãos. Este sistema duocrático vigora em Portugal e em quase todos os países onde existe a democracia formal e parlamentar. Os eleitores podem, no entanto, conservar a ilusão de que vivem numa verdadeira democracia.

Em 1991, o Partido Socialista (que por essa altura ainda se preocupava com este tipo de questões), organizou um colóquio sobre o tema «Democracia ou Partidocracia», orientado pelo Professor Eduardo Lourenço, em que participaram, entre outros, os Professores Alfredo Margarido, Fernando Pereira Marques(colaborador do Estrolabio), António Reis, Manuel Vilaverde Cabral, Guilherme de Oliveira Martins, João de Almeida Santos. Uma revista «de reflexão e crítica» que, pela mesma época, a Fundação José Fontana editava, a Finisterra, publicava algumas dessas comunicações. Eram, na sua maior parte, intervenções de valioso conteúdo, reflectindo a profunda capacidade de autocrítica que o Partido Socialista apresentava há menos de vinte anos. Embora já se começasse a esboçar a criação do «bloco central», como era diferente a parte do PS que reflectia, o hemisfério activo do seu cérebro, diferente de um PPD-PSD preso à herança de Francisco Sá Carneiro, homem que não produziu uma ideia que valha a pena recordar, mas que apesar disso, conseguiu ser a cabeça mais brilhante do partido que co-fundou. O que prova não ser a ausência de ideologia que fragiliza uma organização partidária que lute pelo poder. O PSD nunca a teve e nunca lhe sentiu a falta; o PS tinha-a, mas tem estado a desembaraçar-se de algo que só servia para atrapalhar. Como se faz aos trastes velhos, a ideologia socialista foi parar ao sótão.

Com efeito, como estamos distantes, dezoito anos depois, desse tempo em que, ape
sar de já haver um ala inclinada a uma «visão prática» da política partidária, receptiva a cedências ideológicas, havia ainda uma pujança intelectual que se perdeu, se dissolveu na voragem de compromissos, comunitários e não só – embora a maioria das pessoas que constituíam essa elite ainda sejam, felizmente, vivas. Hoje, apesar da guerra das palavras e das denúncias mútuas de corrupção, de criação de clientelas, de caciquismo, de corrupção – acusações que, na maior parte, não serão injustas – os dois partidos são praticamente iguais. E quando digo praticamente, é isso mesmo que quero dizer. Na prática, para o que é importante, na perspectiva dos governados, não se nota diferença sensível entre um e outro partido. Diferenças, se as há, só em meras questões de estilo.

Seria excelente que um Deus ex machina, como acontecia nas comédias e tragédias do teatro renascentista, descesse sobre esta cena de tragicomédia que estamos a viver, e entre outros actos de justiça, reorganizasse o leque político português, simplificando-o e clarificando-o. Assim, por exemplo:

a) - num partido neo-liberal organizar-se ia a grande massa de militantes e apoiantes do PS e do PSD (talvez mesmo franjas direitistas do PC e «esquerdistas» do CDS);
b) - num partido social-democrata, os actuais militantes do PS, do PSD, do PCP e do BE, que querem transformar a sociedade, mas sem uma ruptura violenta;
c) - num partido socialista, os que querem que os meios de produção e a riqueza por eles criada estejam inteiramente ao serviço da comunidade, mesmo que para tal haja que fazer uma Revolução;
d) - talvez se tivesse de arrumar alguns democratas-cristãos separadamente - os mais ligados à sacristia e ao Vaticano do que à eclesia, porque estes últimos, os verdadeiros cristãos, estariam dispersos pelos outros partidos;
e) – haveria, além destes e obviamente, todos os partidos e movimentos que os cidadãos livremente quisessem criar.

O Deus ex machina, que surgia nos palcos ou nas arenas movido por engenhosos maquinismos (Leonardo da Vinci concebeu alguns) descido por cordas, à força de braços, de roldanas e manivelas, solucionava intrincados problemas que os autores tinham criado ao longo dos enredos, intrigando os espectadores que se acumulavam nos teatros ou nos pátios de comédias - «como é que eles se vão sair desta?», interrogavam-se. Pois o deus descido à corda resolvia tudo – afinal a pastora era a uma princesa, o conde despótico, era apenas uma alma amargurada e um ser bondoso, a duquesa bondosa era a megera que tinha tecido toda a venenosa intriga. O príncipe desposava a pastora-princesa e tudo se resolvia. Aquele deus que saía rangendo da urdidura, pendurado em cordas, punha as coisas na devida ordem. Nós não temos disso e assim, vemos estes dois clones irem tomando conta de tudo, sempre zangados, denunciando as trapaças um do outro (essas, sim, quase sempre reais) parecendo «inimigos para sempre», tão diferentes, tão iguais.
Eduardo Lourenço, em texto da Finisterra (nº.8, Primavera de 1991), compara a construção da Democracia ao trabalho, incessantemente recomeçado, de Penélope, tecendo a mortalha de Laerte, pai de Ulisses. Podíamos também associar a essa construção a punição eterna de Sísifo, talvez ainda mais adequado à situação que vivemos – rolar até ao topo de uma montanha um pedra que, chegada aí cai pela encosta, sendo necessário recomeçar a tarefa. Com uma diferença, a nossa pedra nunca chegou ao topo, embora depois da Revolução de Abril tivéssemos a ilusão de que a tínhamos conseguido levar até lá. Aqui entram em jogo as perspectivas de cada grupo político. Para os «socialistas» e «social-democratas» a pedra está no cimo quando ganham eleições. Para mim e para os que pensam de forma similar, a pedra só esteve mais abaixo quando vivíamos em ditadura. Com uma diferença: nessa situação ninguém alimentava a ilusão de ter rolado a pedra até ao topo da montanha. Não tenho saudades da autocracia. Mas as coisas eram mais claras.

Eduardo Lourenço, com a limpidez que caracteriza o seu discurso, diz na revista já citada: «Enquanto o tecido democrático assentar quase exclusivamente nos mecanismos de representação partidária, enquanto esse sistema não for contrabalançado por outras formas de representação social, a de associações, grupos, clubes de reflexão, ou outras formas de expressão activa da sociedade civil, o reino da «partidocracia», mais ou menos nocivo, é inevitável:» (…) «O único remédio contra uma certa e inevitável «partidocracia» é a democratização em profundidade da sociedade civil, a subida do nível de autonomia individual, a delegação cada vez mais consciente da nossa parcela de poder e do seu controlo. A Democracia é um círculo vicioso quando o cidadão abdica por simples rito a sua responsabilidade nas mãos alheias para que elas exprimam, reforcem vida à mesma Democracia. No fundo o que é a «partidocracia» senão a quintessência dessa abdicação?» Gostava muito de ouvir a opinião sobre o mesmo tema de Eduardo Lourenço, agora, dezoito anos depois de estas palavras terem sido escritas.

A «partidocracia» instalou-se de armas e bagagens e domina completamente a vida política, económica e social do País. Tito de Morais, num discurso parlamentar do 10º aniversário do 25 de Abril, dizia que se a engenharia é «matéria de engenheiros, a saúde da competência dos médicos e a Igreja da responsabilidade dos sacerdotes, a política, por sua parte, é assunto de que só os políticos se devem ocupar.» Na altura a frase caiu mal, pois afinal só tinham passado dez anos sobre o tempo em que as assembleias de trabalhadores, de bairro ou de escola, tinham poder. Numa perspectiva democrática, isto continua a ser um disparate; mas lá que reflecte a práxis em vigor, disso não há dúvidas.

E quem é que, tendo chegado às cadeiras do poder, quer saber de perspectivas democráticas?
publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010

Há 35 anos: Lisboa já está a arder?

Carlos Loures

Está a fazer 35 anos era o «Verão Quente». A esquerda tomava o freio nos dentes. Parecia que nada a iria deter. Quando falo de esquerda, não incluo o Partido Comunista, falo dos pequenos partidos – MES, PRP, UDP… que chegaram a ter uma capacidade de mobilização superior à do PCP. Era o “Verão Quente”, o despertar dos mágicos.

Num jornal diário que há muito desapareceu, o Portugal Hoje, publiquei uma série de textos a que dei o título «Repensar a esquerda». O jornal estava ligado ao PS, partido com o qual nunca tive nada a ver, a não ser o facto de ter alguns bons amigos que eram (e muitos ainda são) militantes socialistas. Estava-se em 1980, o PS era tão diferente do que é hoje que até convidava esquerdalhos como eu a colaborar num jornal oficiosamente seu. E não me foi imposta qualquer condição - podia escrever o que quisesse. E assim fiz. Iniciei um balanço às causas da falência da Revolução de Abril, enquanto movimento popular. A um dos textos chamei «O tumultuoso despertar dos mágicos». Referia-se o título a um livro que na época estava muito na moda «O Despertar dos Mágicos» (Le matin des magiciens), de Louis Pauwels e Jacques Bergier. Era coisa ligada aos chamados factos insólitos, às religiões, às ciências ocultas e ao esoterismo. Um manifesto do fantástico, como lhe chamaram. Em suma, o meu texto nada tinha a ver com o tema. Mas achei o título giro e não resisti à tentação de o utilizar. E venho recordar alguns passos desse texto.



A partir das eleições legislativas de 1969, as que desmascararam a «primavera marcelista», criaram-se no seio da CDE duas correntes, Uma maioritária onde coexistiram durante algum tempo elementos dos actuais PCP e PS (que viria a sair e a constituir a CEUD), defendendo formas de luta legais, e outra minoritária, que defendia formas de luta mais radicais, nomeadamente no que se referia à denúncia da guerra colonial. Os primeiros (PCP, PS e republicanos históricos) eram, na linguagem dos segundos, os «reformistas»: os segundos, eram designados pelos primeiros como «esquerdistas». Na campanha de 1973, a corrente «esquerdista» organizara-se e parecia ter alguma coesão.

Não vou reproduzir o que disse há quase trinta anos, pois quase nada do que disse na altura, protestando contra o divisionismo, faz actualmente sentido. Vou lembrar três momentos, ali referidos, dessa luta surda que se travava no seio daquilo a que se chamava a «esquerda» - alguns, mais lúcidos, já diziam «as esquerdas». Recordei um plenário da CDE que se realizara numa garagem de Odivelas em 17 de Janeiro de 1973. A ordem de trabalhos privilegiava pontos tais como o recenseamento eleitoral, o aproveitamento político da campanha para organizar o movimento, pontos em que o PC, que manipulava as comissões eleitorais, insistia sempre. A chamada extrema-esquerda, os embriões dos pequenos partidos, já existiam. Tínhamos um movimento unitário, as CBS – Comissões de Base Socialistas – onde, num equilíbrio sempre instável e tenso, convivíamos se assim se pode chamar à maneira como nos tratávamos uns aos outros. Sobretudo os maoístas eram impossíveis de aturar; detentores daquelas verdades «irrefutáveis» que aprendiam no «Livro Vermelho»,escrito para os camponeses da China, mas que eram aqui utilizados no sentido metafórico. Por seu turno, os trotskistas assumiam um ar contido e sábio, de quem estando de posse da Verdade – com V – nem precisa de a discutir. Mas adiante - voltando à tal reunião, um de nós, da tal CBS, apresentou uma proposta à mesa no sentido de na Ordem de Trabalhos ser incluído um ponto sobre a guerra colonial. Usando as habituais manobras processuais, o presidente afecto ao PCP (um «compagnon de route» do MDP/CDE), recusou a proposta. Nós também não éramos santos e, com propostas, requerimentos, votações, declarações de voto, fomos adiando o início da O.T., a tal conversa de xaxa do costume, que eles traziam no bolso. Três ou quatro horas depois do começo da reunião, puderam enfim «dar início aos trabalhos». Mas havia já delegados a debandar, porque «fazia-se tarde». Um fracasso. Destacou-se, pela sua acutilância «anti-reformista», o Adriano de Carvalho, um jornalista brilhante, colaborador de O Século, que estava ligado ao embrião do MRPP. A reunião apenas teve a utilidade de nos permitir confirmar que: a) – a esquerda anti-reformista nunca se entenderia com o PCP; b) que essa esquerda nunca se entenderia entre si.

Um segundo momento dessa luta foi quando, também em 1973, no Verão num pinhal da praia de Santa Cruz, se realizou uma reunião plenária da CDE, a nível nacional. A maioria pecepista era esmagadora, cerca de ¾ dos mais de 400 delegados. A minoria anti-reformista, gente que viria a constituir o MES, o PRP, a UDP, a LCI, grupos católicos, e outros pequenos movimentos, éramos apesar de tudo, mais de uma centena. A mesma luta – nós a querermos debater os problemas cruciais do País, nomeadamente a guerra colonial, e eles a recusarem-se. Um rapaz ruivo, nervoso, que usava «pá» como frequente muleta do seu discurso, fez uma intervenção vibrante, recusando «os anátemas sinistros» que os pecepistas lançavam contra quem não estava de acordo com a sua linha, indo ao ponto de sugerir que essas pessoas ao querer discutir «temas provocatórios» (tais como a guerra colonial), estavam ao serviço da polícia política.

Foi estes anátemas sinistros que Jorge Sampaio, pois era ele, condenou num discurso aplaudido pela parte minoritária da reunião – que logo abandonámos em massa, deixando o PC e os seus «compagnons de route» a falar sozinhos. Foi a ruptura com a CDE. E a unidade cada vez mais longe. Até porque os cisionistas sofreram uma primeira cisão. O documento em que uma parte dos delegados explicava por que saíra da CDE, foi vivamente contestado por outra parte que considerou a posição assumida no texto «inexacta e mistificante. No primeiro grupo, o do documento, havia militantes do futuro PRP-BR, que se constituiria em Setembro desse ano, em Argel, da LCI e da URML, no segundo grupo, anti-documento, grosso modo, estavam os que viriam a formar o MES.

Terceiro momento – Noite de 19 de Maio de 1974, na Voz do Operário em Lisboa. As tais Comissões de Base Socialistas, através da LCI (trotskista), do PRP e da URML organizaram um comício, um dos primeiros do pós-25 de Abril. Estava tudo a correr bem, quando um trotskista na sua intervenção referiu algo como «os 50 anos de terror estalinista»; parte da sala irrompeu em gritos de indignação, outra em aplausos. Como estava tudo misturado, aqui e ali irromperam focos de pancadaria, com os PRPês a servirem de corporação de bombeiros, tentando extinguir os fogos. Valeu a palavra oportuna e pacificadora de Isabel do Carmo que apossando-se do microfone, conseguiu que a reunião continuasse, embora com as asas negras do sectarismo adejando sombriamente sobre a sala. Como se vê, poucos dias depois da euforia fraterna do 1º de Maio - reparem na fotografia acima, onde até há uma ingénua (?) saudação ao Spínola - os grandes cismas do movimento operário caíam com as suas toneladas de peso em cima da frágil unidade de esquerda: Trotsky, Lenine e Estaline e outros doutrinários, eram arrancados aos seus túmulos e mausoléus e, estremunhados pelo sono eterno, vinham pelas mãos dos discípulos portugueses, cavar intransponíveis fossos. As CBS, primeira tentativa de organização unitária da extrema-esquerda, morreu de morte natural. Sabemos o que aconteceu com os GDUPs, uma segunda tentativa que, tendo algum êxito eleitoral devido ao prestígio de Otelo (mau grado as calúnias reformistas), foi como estrutura unitária um rotundo fracasso. As estruturas de base desse movimento ou eram dominadas pela UDP (os «fininhos») ou pelo PRP (os «metralhas»). «Fininhos» e «metralhas» envolveram-se numa guerra e os objectivos comuns perderam-se. E houve outras tentativas, mas sempre dominadas por um movimento, era a consabida «chico-espertice» de atrair incautos ao redil. Falharam, todas elas.

A esquerda começou mal, embora no seio do MFA, uma parte importante da esquerda militar, fosse antipecepista. Nas assembleias de base, comissões de moradores, comissões de trabalhadores, nas faculdades, os princípios genéricos da esquerda não-reformista ganhavam terreno sobre os que queriam aqui reproduzir uma realidade soviética visivelmente moribunda. Militantes do PCP aderiam aos princípios não reformistas que, na sua simplicidade esquemática (tinha de o ser, para fugir às matrizes maoístas, trotskistas, blanquistas…) se apresentava como mais sensata do que a «ditadura do proletariado», submetida ao comité central do PCP. A esquerda começara mal. Tivera o pássaro na mão, mas era uma mão com tantos dedos que, embaraçando-se uns nos outros, deixaram o pássaro fugir.

Também se deve dizer uma coisa: uma vitória da esquerda como por diversas vezes se esboçou durante o PREC, teria levado Frank Carlucci, embaixador norte-americano e homem da CIA a soltar os cães da guerra, que no caso vertente, poderia ser a divisão Brunete que, quando da invasão da Embaixada de Espanha diz-se, chegou a estar na fronteira e que, dizia-se também em poucas horas os seus 330 blindados estariam em Lisboa. Claro (entremos no campo da fantasia) que com um milhão de homens habituados a combater (era a estimativa da soma entre combatentes no activo e veteranos da guerra colonial «em bom estado») e com armamento ligeiro que chegaria para todos, os invasores teriam um osso duro de roer. Mas teria sido um banho de sangue. Muito provavelmente estaríamos no mesmo sítio onde estamos, mas com mais recordações amargas e heróicas, com mais órfãos, viúvas e as vítimas inocentes do costume. Sobretudo, poucos de nós estariam. Teria sido uma lição dura.*

Os mágicos resolveram voltar a adormecer. Quando acordaram, alguns «ganharam juízo» e andam por aí em administrações, depois de terem sido ministros ou secretários de estado, deputados no mínimo. Houve quem já passasse os lugares aos filhos e «goze a merecida reforma». Outros, os tontos idealistas, continuam pobres, dedicaram-se a ver televisão, a beber umas bujecas, e a chatear os filhos e os netos com as suas memórias; há os que nunca aprendem, persistentes, a distribuir panfletos a fazer bancas de jornais e opúsculos, (ou a colaborar em blogues). O costume.

______

* Em 27 de Setembro de 1975, um Franco agonizante à frente de uma ditadura moribunda, mandou executar cinco independentistas bascos. Apelos de todo o mundo, inclusivamente do papa Paulo VI, chegaram ao empedernido e velho bandido que quis levar consigo para as trevas aqueles cinco jovens. Consumada a execução, treze países cortaram temporariamente relações diplomáticas com o estado espanhol, entre eles a Alemanha Democrática. O México pediu a expulsão de Espanha da ONU. Aqui, parámos momentaneamente com os nossos «afazeres» mais ou menos revolucionários e com as nossas lutas e um grande sentimento de revolta cresceu por todos os sectores. Miguel Torga, o grande poeta, leu aos microfones da Emissora Nacional uma mensagem onde dizia »Como poderia Franco selar a crónica negra da sua vida senão com uma nódoa vermelha de sangue? Os cinco executados desta madrugada são o remate inexorável da tragédia humana que foi a passagem pelo mundo do mais cruel dos Torquemadas». Ary dos Santos, no seu tom empolado, declamou as palavras de Torga noutra estação. Os ânimos incendiaram e à noite a Embaixada de Espanha foi invadida e vandalizada. Por esquerdistas disse-se e parece que sim. No entanto, assinale-se que o poeta Miguel Torga era conotado com o PS e José Carlos Ary dos Santos era militante do PCP. Foram eles, ligados à «esquerda responsável», que incendiaram os ânimos. A mão-de-obra terá sido fornecida pela extrema-esquerda. Mas ia dando um grande sarilho, embora o VI Governo se tenha apressado a pedir desculpa ao governo espanhol.
tags: ,
publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito

O Fagundes faz-nos muita falta

Carlos Antunes


O Jorge Fagundes foi sempre um homem muito solidário, antes e depois do 25 de Abril. Foi um dos advogados que mais presos políticos defendeu no Tribunal Plenário antes do 25 de Abril: presos do Golpe de Beja, maoístas da FAP, militantes clandestinos do PCP, não descriminando nenhum anti-fascista pela sua tendência ideológica.

Depois do 25 de Abril, foi o grande organizador da defesa dos presos do PRP. Convidando amigos advogados de todo o país, montou uma defesa extraordinária deste grande processo político. Foi ele que se encarregou pessoalmente da minha defesa e da Isabel do Carmo.

Já em liberdade, e porque tínhamos escritório na mesma rua, face a face, almoçávamos praticamente todos os dias. Tinha um humor fantástico e aproveitava o convívio do almoço para contar histórias inesquecíveis, muitas delas ligadas aos tribunais. Se o Sporting perdesse num domingo, a segunda-feira era sempre dia de luto. E como ele dizia , não era caso para menos...


A sua posição de grande e reconhecido advogado não o impedia de assumir responsabilidades políticas com grande coerência. Foi convidado para ser director do jornal Página Um, em 1976, cargo que assumiu com toda a coragem, mesmo quando choviam os processos jurídicos contra o jornal e contra ele como director. Sem alardes, era um homem com uma grande coerência revolucionária.



_____________________________________
Nota: Logo que soubemos do falecimento de Jorge Fagundes, solicitámos ao Carlos Antunes, grande amigo de Fagundes, um depoimento. Depoimento que só hoje nos é possível apresentar.
publicado por Carlos Loures às 11:00
link | favorito
Sábado, 17 de Julho de 2010

Índios e cowboys

Carlos Loures



Filmes como este, que podemos ver na páina seguinte e que víamos entusiasmados, por vezes nos cinemas de sessões contínuas, levavam os da minha geração a eleger como brincadeira favorita as lutas entre índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Era assim e pronto. Ninguém discutia as regras.

Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas».

Ao recordar estas palavras de Gramsci, sou levado a reflectir sobre o facto de a realidade histórica dos últimos dois séculos nos permitir verificar que são oriundos da burguesia quando não mesmo da aristocracia, os intelectuais que surgem à superfície das grandes e pequenas perturbações sociais e que construíram, não só os suportes teóricos do sistema capitalista, como também os pressupostos ideológicos de quantas revoluções se produziram.

A Revolução Industrial, ao mesmo tempo que veio criar um novo modo de produção – o que, pode dizer-se, não acontecia desde o Neolítico – provocou o aparecimento de uma estrutura intelectual adequada, do mesmo modo que a aristocracia fundiária, no sistema feudal, criou a sua própria categoria intelectual – a dos sacerdotes. Estes monopolizaram, durante um longo período da história, a ideologia religiosa que, para todos os efeitos, constituía a ciência da época. Em contrapartida, poder-se-ia afirmar que a classe operária, nasceu, sobreviveu e, provavelmente, extinguir-se-á sem ter organizado (ainda que a partir de categorias intelectuais «pré-existentes» uma intelectualidade própria, acabando o marxismo, numa análise superficial, fria e pragmática, por surgir como uma ruptura interna na superstrutura da burguesia, não ultrapassando na prática a concepção hegeliana que atribuía aos intelectuais o papel de «aristocracia do Estado».

Esboça-se um quadro de luta de classes em que, a nível superestrutural, um dos contendores estaria numa total dependência dos quadros formados pelo adversário, aparecendo a luta, no campo das ideias, como uma dissensão no campo de burguesia – a clivagem entre intelectuais «burgueses» e intelectuais «proletários» seria determinada por um jogo de opções pessoais baseado na pressão moral que a natureza cruel e desumana da exploração sempre tem exercido sobre camadas sensíveis da classe dominante, nomeadamente entre a juventude. O campo revolucionário, nessa luta que, embora tão anunciada nunca chegou a travar-se, dependeria das deserções que essa pressão ontológica provocasse.

Não falarei aqui do papel desempenhado nessas deserções do campo burguês motivadas por ilusões românticas e a esperança no advento de uma sociedade justa. Não falarei também de apressadas «opções de classe» feitas em ordem a objectivos obscuros de oportunismo, carreirismo, servidas por consabidos artifícios de demagogia. Desde o século XIX até ao século XX, organizações operárias fizeram esforços no sentido de criar estruturas culturais autónomas do tipo das universidades livres. Porém, salvo uma ou outra excepção, todas elas desembocaram em arremedos do ensino burguês.

No fundo, toda esta problemática radica num ponto – o socialismo não criou um modo de produção alternativo ao do capitalismo. Procurou pôr o modo de produção capitalista ao serviço do proletariado. Porém, tal como o carro não consegue puxar os bois, é o modo de produção que determina a estrutura cultural e não o contrário. Entrou-se num labirinto sem saída. Melhor, num labirinto cuja única saída deita para o depósito das revoluções abortadas. O «socialismo real» tinha falido muito antes da queda do muro de Berlim. Quando na União Soviética se chamou stakanovismo à mesma coisa a que os capitalistas chamavam taylorismo, a revolução acabara já. Porque o problema não era uma questão de nomenclatura. Nessa altura, em que os operários se emulavam para ver quem ganhava o título de «trabalhador do mês», nascera uma nova forma de exploração – o capitalismo de Estado, com a economia posta ao serviço de uma nova classe dominante. As pessoas mudaram, a exploração capitalista manteve-se. A bem dizer, não houve revolução.
*
Nesta era pós-industrial em que vivemos, observando a classe política que temos em Portugal, verifico que ainda há muita gente do «meu tempo». Na grande vaga de prisões que se verificou em meados dos anos 60 – o controleiro do sector universitário do Partido Comunista deu de mão-beijada à PIDE toda a estrutura do sector, nomes, pseudónimos, moradas, ligações – tudo. Ao mesmo tempo, um acidente com uma bomba artesanal desencadeou a prisão de muita gente da Frente de Acção Popular, um movimento proveniente de uma cisão no PCP. As prisões regurgitavam de jovens estudantes. Naquela altura, há mais de quarenta anos, estavam concentrados em duas organizações de esquerda (muitos mais no PCP). Eram jovens da classe média na sua generalidade, «filhos da burguesia», usando o linguarejar politiqueiro da época.

No começo dos anos 70, tinham começado a constituir-se outras formações políticas - a LUAR, as BR, o MRPP e, em 1973, a ASP, que daria lugar ao PS. No seio do partido único, a ANP, nascia uma ala liberal. O leque político que durante as décadas anteriores se resumira ao PCP, aos republicanos históricos (que só se organizavam em vésperas de eleições) e à Causa Monárquica, diversificava-se. Muitos dos militantes destas organizações, geralmente estudantes, provinham da geração seguinte à minha. Porém, os dos anos 60, formados na sua grande maioria no PCP, espalharam-se pelos novos movimentos (alguns em lugares de liderança) nomeadamente pelo PS, um ou outro pelo PSD. Não digo nomes, mas quem viveu aqueles tempos, sabe que foi como digo. Ministros e secretários de Estado do PS, foram e são, gente desse tempo, provenientes das hostes do PC.

Onde quero chegar é à conclusão de que, tal como nos jogos infantis de índios e cóbois, a escolha do campo político em que se actua, não sendo aleatória por corresponder, na melhor das hipóteses, a convicções políticas (há casos em que corresponde a interesses da mais variada espécie, mas não vou por aí), nada tem a ver com a chamada origem de classe. Toda a gente, da extrema-esquerda mais extra parlamentar à direita mais conservadora, pertence, grosso modo, à mesma classe, bebeu a sua formação nas mesmas fontes. Assumindo uns, em diversos graus, o papel de defensores da classe a que pertencem e outros, em diversos graus também, o de revolucionários.

Não explicará esta circunstância a falência sucessiva de quantas experiências de derrube da sociedade burguesa que têm sido empreendidas? Através dos intelectuais, dos quadros herdados, como sapatos de defunto, do capitalismo e introduzidos, mercê das tais opções de classe, sub-repticiamente no cerne do tecido revolucionário, a burguesia ressurge, mais cedo ou mais tarde, metamorfoseada em casta dirigente proletária, como erva daninha agarrada às estruturas de Estado, revestida da sacrossanta autoridade das altas hierarquias do Partido, montada solidamente no cavalo do poder. Cóbois disfarçados de índios. Ou vice-versa, se preferirem.

O jogo está viciado. Mas ninguém discute as regras.
publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Sábado, 5 de Junho de 2010

Coisas breves. Santana Lopes quer o PCP no governo.


Carlos Mesquita


Apesar do ex-líder do PPD/PSD, Santana Lopes, ter dito que “o PCP tem de ser chamado a fazer parte do governo”, ninguém passou cartão ao que disse o ex-primeiro ministro laranja. E disse mais Santana, na SIC; que não era por causa da paz social mas sim da produtividade. O que é que o PCP tem a ver com a produtividade? Tenho andado a matutar no assunto. Produtividade sei o que é, até já fiz profissão disso, mas ligar o PCP à produtividade não é fácil. Não será através das empresas ligadas ao partido; as que conhecia (da minha área) ou fecharam ou foram vendidas, até para Espanha. Com apelos aos trabalhadores também não será, basta os patrões a pedir-lhes isso. Seria com trabalho do Comité Central? Há realmente lá gente com conhecimentos de arqueologia industrial, podiam ajudar como cicerones o turismo que agora se faz para ver cadáveres de fábricas. Explicar às criancinhas que antes dos telemóveis, os telefones tinham fios, e que ainda antes tinham de se plantar postes e passar fios que eram seguros a canecas…mas não, não pode ser por isso que Santana Lopes quer o PCP no governo. Explicar como segurar fios com canecas é um malabarismo que pode prender a atenção dos garotos, mas não é razão para ir para o governo.

O melhor é usar outro método (agora científico), e recuar aos anos em que o PCP esteve no governo, no passado longínquo dos governos provisórios. Nessa altura os ordenados eram baixos, embora alguém do PCP tenha dito que vivia bem com o salário mínimo, mas a produtividade não era grande coisa, também porque parte do tempo decorria a lutar pelos direitos, (chamam-se hoje, direitos adquiridos). O tempo do PCP no governo não foi fecundo em ganhos de produtividade. A não ser (eureka) durante um dia em que os portugueses trabalharam à borla, chamado “Um dia de trabalho para a Nação”. Não há nada mais produtivo que os trabalhadores não quererem remuneração, é ainda mais proveitoso que os baixos salários, que como se deve ensinar nas universidades da especialidade é condição sine qua non para conseguir produtividade, é o que dizem os porta-vozes do saber. À luz desta breve mas produtiva pesquisa entende-se a proposta de Santana Lopes; ele quer o PCP no governo, porque considera que assim, quando Carvalho da Silva for ao Hotel Vitória buscar inspiração para novas jornadas de luta, trará de lá em vez de propostas de greve geral, mais uns dias de trabalho pela Nação. Muita cultura política tem o estudioso Santana Lopes.

Aqui abre-se um parêntesis que fecha do fim do texto, para ir à história e enquadrar o dia de trabalho voluntário. Quem teve a lembrança do dia de dádiva foi Vasco Gonçalves, nomeado primeiro-ministro do II governo provisório em Julho de 1974, fez a proposta em Setembro de 74, ainda durante o II governo, para esse dia ser no 5 de Outubro, entretanto a 30 de Setembro Spínola renúncia à Presidência da República e Costa Gomes assume o cargo. Em 1 de Outubro toma posse o III governo provisório chefiado por Vasco Gonçalves. O primeiro-ministro do III governo, manteve a proposta do primeiro-ministro do governo anterior, e o dia de trabalho lá se realizou, não no feriado, mas no dia seguinte que era de descanso. Vasco Gonçalves amado por uns e odiado por outros manteve nos seus quatro governos (o ultimo foi o quinto) o ministro do trabalho Costa Martins e como secretário de estado do trabalho Carlos Carvalhas, que viria a ser secretário (agora geral) do PCP. O “companheiro Vasco” como primeiro-ministro foi controverso, e mais seria como treinador de futebol, como se vê ele era apologista da máxima; em equipa que perde não se mexe.
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | favorito
Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

A síndrome de Estocolmo



Carlos Loures

Todos já ouviram falar desta patologia que, basicamente, consiste na disfunção psicológica que leva um sequestrado a identificar-se com o sequestrador. A designação deriva de um facto ocorrido em Estocolmo no ano de 1973 – durante um assalto a um banco, os reféns, sequestrados durante seis dias, mostraram-se, depois de libertos, solidários com os assaltantes mesmo durante o processo judicial. A solidariedade da vítima para com o seu captor nasce com pequenos gestos de urbanidade do sequestrador para com o sequestrado e cimenta-se durante o processo de libertação por parte das autoridades policiais, em que o sequestrado se identifica com o assaltante no receio de ser vitimado durante a luta.

Uma visão lúcida da realidade é difícil e as pequenas atenções dos bandidos transformam-se, na memória da vítima, em rasgos de bondade. Por outro lado, os sequestrados têm tendência em ser dóceis com os captores, procurando uma fuga a represálias. Uma estratégia de sobrevivência, digamos que dá lugar a uma bela amizade.

A evolução da síndrome é subconsciente, a vítima não tem consciência da progressão do trauma. Por outro lado, esta não afecta todas as vítimas em cativeiro, alguns defendem-se desenvolvendo um ódio, porventura exagerado (mas saudável), aos captores. A síndrome, de espectro abrangente, tipifica também o afecto que muitas mulheres vítimas de violência nutrem pelos maridos agressores.


Em grupos alargados, lugares e transportes públicos, ouve-se, desde que os governos são eleitos democraticamente em Portugal, protestos contra a forma como somos governados. Ninguém parece apoiar o partido que está no poder – fervem as anedotas, os boatos, as acusações… Foi sempre para mim um mistério como é que situações de descontentamento generalizado dão lugar a vitórias, por vezes rotundas, dos partidos que estão por detrás dos governos tão duramente criticados. Outro aspecto interessante da chamada psicologia de massas é, pessoas que votam em partidos de direita e que às vezes até se mostram saudosas da ditadura, quando os seus interesses pessoais são de alguma maneira afectados, invocarem «as conquistas de Abril».

Mas esta é uma questão anedótica e marginal. O mistério que gostava de ver esclarecido é como é que partidos que já se viu como governam continuarem a ter a maioria dos votos dos eleitores. Então surge uma explicação – a síndrome de Estocolmo – reféns do neo-liberalismo, nós os eleitores, cativos do círculo vicioso, ciclo e circo fantasioso, que faz alternar um dos dois partidos no poder – ganhámos afecto aos captores, somos seduzidos pelos pequenos gestos amáveis que travestem a violência de impostos e de medidas lesivas do nosso bem-estar.

Quando faço a pergunta directamente a votantes no PS ou no PSD, as pessoas encolhem os ombros e respondem - «é que os outros não dão garantias de poder governar». Talvez seja verdade. PCP e Bloco de Esquerda talvez até nem fossem capazes de governar e permanecer fiéis aos seus princípios. Talvez se «pragmatizassem». Porém, os dois compadres do bloco central deram já amplas garantias de não conseguirem governar na acepção nobre do termo. Porque «governar-se», perdoe-se-me o chulismo, eles conseguem sempre.

Sofremos colectivamente da síndrome de Estocolmo.

Só essa explicação pode justificar que continuemos a eleger e a confiar em quem faz de nós e dos nossos votos passadeira para satisfazer ambições pessoais, enriquecer o currículo e beneficiar interesses dos grandes empresários, ponte para negociatas obscuras…

Não, não somos nem masoquistas nem tão estúpidos como parecemos; estamos é afectados pela síndrome de Estocolmo.

Isto explica tudo, não acham?.
publicado por Carlos Loures às 09:16
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links