Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 15, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 


 

(Continuação)

 

O crime de Afonso Ribeiro

 

Eu não queria; não era nas minhas intenções. Mas sinto que devo contar tudo a Vossa Senhoria que me permitiu, escutando-me com tanta bondade e sabedoria, saber sempre mais ainda das minhas coisas. Por isso vou contar pela primeira vez, talvez até para mim mesmo, a razão da minha perdição e porque o meu Senhor e Soberano me tirou para sempre da terra de minha mãe, condenando-me a não saber por certo aonde estou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O meu foi um grande crime, ainda que resultado do amor que sempre tive pelo meu Senhor e Protetor, o nobre Sebastião Telo e por sua família. Nela entrara muito jovem deixando minha doce mãe e a minha terra amada. Muito cresci sob a infinita bondade do meu Protetor. Ele me ensinou tudo e logo fui feito seu pagem. Muitas vezes saímos de seu magnífico Palácio por Portugal e Espanhas, sendo o meu Senhor o mais amado de seus embaixadores pelo Rei.

 

Assim cheguei aos vinte anos, feliz e certo da vida.

 

Comigo cresceu, quase que paralelamente, Constança, a filha menor do meu Protetor. Ela era radiosa nos seus dezesseis anos. Bela, bondosa, gentil com todos. Parecia uma flor e o seu perfume. Não sabendo e não querendo, descobri o meu amor por Constança. Mas o mantinha escondido no mais profundo do meu coração.

 

Eu e ela éramos muito amigos. Estávamos juntos por muitas horas do dia. Belo então era passear pelo imenso jardim do Palácio ou pelas margens do Tejo que banhava as terras do Conde, meu Senhor.

 

Constança falava e ria sempre nesses passeios e eu me deixava levar pela sua voz e pelo seu riso cheio do sol que o rio refletia no nosso passear. Constança era a minha doce perdição.

 

Muitas vezes o Conde me comandava a missão de acompanhar Constança e suas duas amas no Paço. Aí mudávamos nos nossos gestos e eu me sentia como em solidão, ferido no coração, sem saber claramente porque. Na verdade, Constança não mudava em nada para comigo. Quando me via entristecido vinha ao meu encontro com a doçura de seu riso e de sua voz. Afonso, Afonso! Era doce sentir o meu nome na sua boca.

 

Vivia imaginando que Constança sabia do meu sentimento e que o correspondia. Então eu sonhava, sonhava coisas impossíveis.

 

Uma tarde de quase quatro anos atrás, que me parece a eternidade, me perdi para sempre. Eu estava na praça do Paço passeando e divagando na espera do momento de retornar ao Palácio. Era quase o entardecer pois se podia ver o sol que começava a esconder-se no longe, enquanto o marulhar das águas do Tejo se perdia numa luz sempre mais fraca de momento a momento.

 

Eu não tinha pensamentos, vagueava. Foi então que percebi um grupo de quatro jovens nobres, de mim conhecidos, que riam alacremente no meio da praça. Quanto mais eu me aproximava deles, mais alcançava os ditos que provocavam tantos risos. Foi quando escutei da boca do jovem D. Fernando de Castro o nome de Constança. Ele contava aos três amigos suas aventuras da Corte, rindo e provocando grandes risos. Então escutei o que contava de Constança, da minha doce e pura Costança, "esta é a mais disponível a doar as suas belezas que, em verdade, são tantas. Não nega nada e tudo dela se pode desfrutar".

 

Fiquei cego e acometi com furor o jovem Castro. Ele não teve nem mesmo o tempo de usar o seu espadim, nem os seus amigos de defendê-lo, que eu usava o meu para ferí-lo e defender a honra de Constança e de sua Casa.

 

Foi assim que tudo terminou para mim.

 

A minha perdição como assassino é como um naufrágio.

 

Toquei as areias dessas praias, mas nela cheguei sem forças com o medo de saber se realmente tudo fosse real ou se ainda me encontrasse perdido em meio às ondas sem fim.

 

F I M

 

Agora contei quase tudo da minha história, mas ela não acabou. Depois de quanto já sabe Vossa Senhoria, eu vos pergunto com todo o respeito: qual é o verdadeiro fim da história? Eu vivi tudo isso e mais o que a memória não soube retratar. Passando por uma tão viva experiência eu fiquei sendo alguém não de um mundo, como toda a gente, mas de dois: o de lá e o de cá.

 

Muitas vezes, como muito bem percebeu Vossa Senhoria que muito sabe, eu estava no mundo de cá, mas preso ao de lá; outras, não mais me lembrava da triste dualidade. Acabei por ficar quase sempre no plano do aqui, com suas descobertas. Vossa Senhoria perdoe o esdrúxulo do meu modo de dizer as coisas.

 

Agora sei que posso retomar o caminho do lá, pela infinita graça do meu Rei e Senhor. Porém, com os olhos no mar, tomado pelo infinito de um olhar branco, sem limites, de repente sinto a necessidade de voltar-me e procurar o perdido do sertão.

 

Para onde devo ir? Já estou caminhando para o meu distante lá quando duvido, ou estou preso para sempre por este cá de que duvido?

 

Tudo me está a memória retratando. Eu não sei quem sou e para onde vou. Estou só e cheio de companheiros que me parecessem surgir não do passado, mas do futuro.

 

Vossa Senhoria pode muito, pois vindes de longe e de outras terras.

 

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Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 14, por Sílvio Castro

 

 

(Continuação)

 

Tainá IV

 

Vossa Senhoria de certo já entendeu como Tainá é importante para o meu encontro com essa vida que o fado quis me dar. Eu e ela desde aquele primeiro dia de encontro nas águas quase mornas do fim de tarde no rio não mais nos afastamos um do outro. Com ela aprendi quase tudo, certamente aqueles outros conhecimentos que não recolhi da sabedoria de Coaracy. Posso dizer que Tainá deu realidade às lições de seu pai. Principalmente depois que deixei a cabana que dividia com José Pacheco e João Osório e com ajudas de toda a aldeia construi uma nova cabana, a nossa, aonde fomos morar juntos com a aprovação de Coaracy. Tudo foi muito simples: Coaracy me disse esta é Tainá, minha filha menor cuide bem dela e da cabana de vocês. Tainá deixou a cabana grande do pai e caminhou junto comigo para a nossa nova morada, enquanto a gente da aldeia nos rodeava com cantos e bailes. Foi muito bela aquela primeira noite na cabana. No dia seguinte, ao aparecer do sol, estávamos de pé. Eu estava para sair com os outros homens para a caça e a pesca; Tainá começou a preparar a casa, recolheu frutas, preparou um suco muito doce e confortante de uma fruta daqui que eu gosto muito, maracujá, e de tudo me serviu cantando uma canção que eu não conhecia. Tainá me servia e cantava a sua canção. Eu saia e logo Tainá se preparava para receber as suas muitas amigas que já apareciam na soleira da cabana.

 

Devo dizer a Vossa Senhoria que para mim foi muita novidade aquele primeiro dia. Eu nunca tivera uma casa junto com uma mulher; entretanto posso vos dizer que não senti qualquer embaraço, era como se assim tivesse vivido sempre. A presença de Tainá era para mim um sentir mais profundo do estar na casa. Por isso vos dizia que ela muito me ensinou, pois foi a partir daquele dia que muitas coisas da minha nova existência entraram definitivamente na minha consciência: o comer o beber o preparar-me para sair o preparar as coisas em casa o encontrar ali os lugares convenientes para as coisas o admirar a aldeia da soleira de minha cabana o encontrar os outros e com eles começar o dia.

 

A partir de então intensa foi a minha vida com Tainá. Tamanhamente, que estou pensando de contar a Vossa Senhoria uma coisa que em verdade não contei nem a mim mesmo. Não sei se ouso, mas depois que Vossa Senhoria, escutando-me como me tem escutado, me permitiu que eu tomasse consciência das muitas minhas coisas pensadas e vividas, acredito que será bom que o conte.

 

 

 

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Domingo, 3 de Abril de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 

(Continuação)

 

Lenda de adugo, o jaguar

 

Num dia quente de grande sol, Tainá me disse sabe? para mim você é adugo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tinha uma vez no tempo mais antigo dos tempos um índio que caminhava na floresta na procura de uma boa gameleira. Queria tirar muito leite dela para com ele amolecer o urucu que lhe serviria para as festas que suas gentes faziam naqueles dias. Ele caminhava e sonhava as cores mais belas para enfeitar-se. Estava finalmente recolhendo o leite da gameleira quando foi atacado por uma onça enorme. Grande e longa foi a luta entre eles, por todo o dia, desde as primeiras luzes do amanhecer até aquele momento em que o sol começa a cair por detrás dos montes e colinas. O guerreiro se sentia já sem forças e então disse adugo, adugo, deixa-me livre, já não posso mais. Está bem, te deixo livre, mas deves prometer que me darás tua filha por mulher. O guerreiro exausto e vencido prometeu assim fazer. Tendo recebido a promessa, adugo disse ao futuro sogro deves dizer a tua filha que moro nesta floresta, mas muito longe, na última caverna. Quando ela para lá for, primeiro vai encontrar o buraco da irara, preta ao longo do corpo, mas branca no peito, e de focinho cinzento; logo depois será a vez do gato do mato, aimeareu, de listas pretas transversais; depois dele, ela vai se embater na jaguaterica, de pele manchada de escuro; estará quase chegando à última caverna, onde eu moro, mas antes encontrará aigo, a onça parda e muitos mais.

 

O homem vencido voltou para a sua taba e tudo contou à filha. Então a bela rapariga partiu para dar-se em esposa a adugo. Entrou na floresta e depois de muito caminhar encontrou a dona do mel, a irara, que lhe perguntou onde vais, bela rapariga? vou a procura de adugo sou eu e ainda que comece a escurecer, como bem podes ver as minhas patas e minhas costas são pretas. Depois de assim dizer levou-a para a caverna e ali passaram a noite. Ao amanhecer a irara disse à jovem agora ficas aqui à minha espera enquanto eu vou caçar. Então a bela jovem poude vê-lo bem e saber que não era adugo. E fugiu para dentro da floresta, quando mais adiante e já se fizera quase noite, encontrou aimeareu, o gato do mato, este lhe perguntou onde vais? vou ao encontro de adugo para com ele me casar ah! mas não vês? sou eu adugo não enxergas as minhas garras agudas a minha cara e meu pelo? Já que era então noite fechada ela não podia dizer que tudo era mentira e foi com aimeareu para a sua caverna e ali passaram a noite. Agora que é dia ficas aqui vou procurar comida para nós e volto logo. Mas a moça não esperou porque reconhecera a mentira. Então ela se pôs a caminhar a caminhar sempre a caminhar pela floresta quando de novo chegou a noite e ela encontrou okwa e com ele passou a noite, mas no dia seguinte dele fugiu, vendo-lhe o rabo fino. E assim também aconteceu na noite seguinte quando urie saiu da caverna para caçar e ela viu as suas patas negras, de novo escapou para a floresta. Cansada, a bela rapariga já não sabia como encontrar adugo; entreviu aipobureu e ainda uma vez aconteceu a mesma coisa e depois se confrontou na noite escura com a onça parda, aigo. Onde vais? vou casar com adugo bem! sou adugo podes vir para a minha caverna que ali está. Assim foi, mas chegada a manhã ela viu que aquele não era adugo o seu prometido. Fugiu correu, caminhou caminhou, quando de repente depois da viagem longa encontrou adugo onde vais? vou à procura de adugo para ser sua mulher eu sou adugo. Ela reconheceu que era adugo mesmo e se casaram.

 

Você, Afonso, para mim é adugo.

  

 

 

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Sábado, 2 de Abril de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 12, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Tainá II

 

Coaracy foi e tem sido o meu grande mestre no conhecimento da língua. Porém, desejo que Vossa Senhoria que me escuta com tanta atenção saiba que Tainá foi quem me fez sentir como participante vivo com a nova voz que desde então me quero dar. Não sei bem como explicar o que digo, mas vou tentar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde aquele dia mágico em que eu me uni diretamente com Tainá nas águas frias do nosso rio, ela passou a ser para mim fonte de revelações. Naquele encontro, como já contei, de certa maneira superei com ela as angústias sobre o meu corpo e o dos outros. Vendo-a e a tomando para mim, compreendi o que antes não sabia sobre o corpo da mulher. Repito ainda uma vez a Vossa Senhoria que aqueles momentos foram como encontrar-me comigo mesmo, com alguém que eu sabia existir, mas não identificava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde então Tainá passou a ser o meu elo com as coisas e o mundo. Sua voz, inicialmente uma doce mistura de sons indistintos, pouco a pouco se clareou no meu entendimento. Muitas vezes bastava ouvi-la e eu a fixava para além da direta significação do que ela me dizia. Eu a compreendia, ainda que não distinguisse o significado de todas as palavras pronunciadas por minha companheira. Quanto mais eu me enriquecia com as lições de língua e de conhecimentos de Coaracy, mas conseguia tornar distinta a voz de Tainá. Assim foi a longo; e a cada dia e a cada encontro com Tainá, mais.

 

Agora conto a Vossa Senhoria o momento de maravilha.

 

 

 

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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 11 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 


 

(Continuação)

 

Antônio Fragoso I

 

 

Vossa Senhoria, é muito difícil falar de Antônio Fragoso, pois não consegui jamais saber o que se passava com ele, quais eram os seus pensamentos. A única verdade é que ele não queria viver conosco, já que vivia como se odiasse o mundo inteiro. Antônio Fragoso, agora que tudo acabou e já nada pode ser feito por ele, sempre viveu fechado em si mesmo. Por isso, seu rosto era de uma dureza que não se entendia e seus olhos pareciam sempre acesos. Se o demônio alguma vez conseguiu possuir um homem, ele tomara conta de Antônio Fragoso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Talvez a melhor maneira para procurar dar um retrato verdadeiro dele a Vossa Senhoria será retomar na recordação mais isenta possível os seus comportamentos diante das duas questões que logo abalaram a nós todos nesta terra nova, a nudez da gente e a liberdade da pratica do amor por parte das raparigas daqui.

 

Ah! Vossa Senhoria quer saber dessas mesmas coisas também quanto a José Pacheco e João Osório? Está bem; responderei à vossa justa curiosidade. Porém, como sou lento no pensar e relembrar, e preciso de Vossa Senhoria para compor todo esse enredo que está tomando corpo, responderei com ordem. Primeiro cuido de Antônio Fragoso.

 

Logo naquele primeiro dia do nosso exílio, ele mostrou-se como era e sentia. Eu ficara na praia chorando na solidão em que me encontrava e minhas lágrimas aumentavam com o lento diminuir das naves de Pedro Álvares no horizonte sul. Por horas ali fiquei assim chorando, rodeado por dezenas e dezenas daqueles novos companheiros de uma vida não procurada e que agora corriam alvoroçados, com cantos e risos, por todas as direções.

 

Antônio Fragoso entretanto não ficara na praia. Taciturno como sempre, ele entrara pelo bosque a dentro. Somente mais tarde, quando a gente nos recolheu e nos conduziu para o interior da aldeia, é que ele se mostrou vivo. Juntou-se, arredio, ao nosso grupo, e quando nos indicaram no final da aldeia a cabana que a partir de então seria a nossa casa, foi logo entrando nela, sem esperar por mim e pelos jovens aventureiros, Pacheco e Osório.

 

Antônio Fragoso entrou na cabana e tomou para si a melhor rede, nela logo distendendo-se. Assim ficou por longo vasto tempo, sem nos falar e nem mesmo dignar-nos de um olhar.

 

A nossa cabana era igual a todas as demais, somente um pouco menor. O chão batido era muito limpo, como se tivesse sido vivido pouco antes por outras pessoas. O frescor da terra se irradiava do chão e se filtrava pelas paredes e pelo teto recoberto de palmas. No centro da cabana, uma grossa haste de sustentação do teto liga-se a outras hastes menores colocadas nos ângulos da habitação. As redes partem da haste central e se dirigem para as diversas hastes menores. Cada um tomou para si uma rede. São feitas - não sei se Vossa Senhoria já as observou bem - de finos vegetais, muitas vezes parecidos com o linho - bem trabalhados, entrelaçados e firmes. Os entrelaçados que formam essas redes fazem pensar a quanto tempo levam as mulheres para as fazerem. Na rede tudo acontece e quando deve servir a um casal, são mais largas. Tudo aqui é muito interessante, pois tudo é de todo o mundo e ninguém briga por um objeto, nem para comer mais da caça ou da pesca. O dar as coisas é a regra.

 

Antônio Fragoso desde o primeiro dia pouco se unia a nós. Preferia viver isolado, sempre escondido ou a passear sem rumo aparente pela mata. O seu modo de viver logo surpreendeu aquela gente, pois eles não compreendem a escolha da solidão por parte de alguém que vive na aldeia. Antônio Fragoso se esquivava de todos e de tudo, mas era sempre visto a espreitar em meio ao cerrado das árvores e das plantas. Assim fazia principalmente junto dos rios onde tomavam banhos homens e mulheres. Muitas vezes ele era visto que surdia de um cerrado como se escapasse de alguma coisa. Depois se via que de lá também saia uma das raparigas da aldeia. Ele não a esperava jamais.

 

Era muito estranho Antônio Fragoso. Pouco falava com os homens jovens e até mesmo parecia que os evitava. Assim também com as mulheres velhas, das quais escapava como se delas tivesse um grande medo. Mas via-se que ele não sabia e nem podia sofrear a curiosidade pela nudez das raparigas. Essas, no início, riam muito da insistência de Antônio Fragoso e com ele muitas vezes brincavam com evidentes alaridos. Porém, com o passar do tempo e com a insistência que depois se fazia prepotência, elas passaram a fugir dele.

 

 

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Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 10 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 



(Continuação)

 

Tainá I 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como Vossa Senhoria já deve ter podido observar, a gente daqui a cada momento entra nos rios ou no mar para banhar-se. Não só os jovens, mas também os velhos e principalmente as crianças.

 

Tomar banhos, além de ser sempre festa, parece ser também a maneira que têm para manter a pele continuadamente fresca e bela. Os banhos fazem com que todos fiquem mais coloridos e se estão pintados, como muitas vezes acontece com homens e mulheres, ficam mais belos ainda nas várias cores que usam. O vermelho que se distingue do bronzeado natural deles se mostra então vermelho rutilante. O violeta usado pelas mulheres jovens toma matizes que parecem muitas cores numa só. E o preto que os homens gostam muito de aproximar ao vermelho se faz talvez a mais bela cor que exista. Crianças, homens e mulheres passam horas e horas a nadar em meio aos cantos dos pássaros e ao calor do sol.

 

Os banhos não têm hora, mas aquele do entardecer, o último para todos, é o que reúne mais gente. Então quase toda a aldeia se dispersa nos vários braços em que se divide o rio, mas muitos nadam na água salgada do mar, correndo pelas praias de areia branca e fina.

 

Eu sempre preferi os rios. Gosto de entrar num braço tranquilo, com a água que me chega ao peito e na qual boio como se fosse tranquilo nessas água tranquilas. Mas me lembro sempre do Tejo quando estou nessas águas, ainda que essas daqui onde sonho se movam com a suavidade que embala as minhas saudades. Assim estou quando a tepidez inicial das águas cai diante da brisa da tarde. Então tenho a sensação de um frio que não é frio, mas que faz correr mais veloz o sangue nas veias e serenar os pensamentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu vi Tainá que nadava nas águas de um braço de rio. Mais uma vez eu caminhava pelas margens, absorto, perdido na contemplação desse mundo sempre novo para mim. Verdadeiramente não fui eu que a vi primeiro, foi ela que me viu. Senti uma voz de mulher que me chamava e meu nome vinha das águas com aqueles sons novos que já me acostumara a distinguir nas bocas de meus amigos. No início eu não conseguia perceber se de certo era o meu nome ou um outro. Não captava então os sons que me pareciam desconhecidos. Então, eu procurava olhar com mais atenção para a boca, a cara amiga que me falava. Mas nem sempre eu era capaz de saber que palavra era aquela, ainda que parecesse o meu nome. Pouco a pouco comecei a captar melhor os sons pronunciados pelos meus amigos e a partir de determinado momento me acostumei com muitos deles. Já agora sentia uma voz jovem, doce, alegre e gentil que vinha das águas do rio e chamava por mim A o n s o o! A o n s o o o! Como acontecia com todos, a rapariga que me chamava não dizia Afonso, mas me recordava sons que eu escutara nas Espanhas, alguma coisa que era um som e ao mesmo tempo não o era, como um respiro provocado. Invés de Afonso quase como se fosse A h onso. Assim me chamava Tainá, a filha mais nova de Coaracy, convidando-me para que eu também entrasse n'água. Não sei porque, me surpreendi contemplando a rapariga que nadava alegre e feliz, e me chamava. Ela não estava pintada, mas sua pele banhada reluzia. Também não sei porque recordei-me de um dia quando Coaracy me fez ver todos os seus seis filhos, três homens e três raparigas. Então ele mostrou a mais nova, uma rapariga bela como as outras duas, porém mais ainda: Tainá. Seus longos cabelos pretos caiam nas costas e alongavam seu corpo jovem. Os olhos eram brilhantes, de luz constante, e os dentes eram brancos, mais do que o branco branco das areias das praias daquele mar. O pescoço de Tainá era redondo, mas ao mesmo tempo como que longo; a boca, cheia e graciosa; os seios pequenos e firmes, pareciam duas lanças que a projetavam ereta para a frente. Tal como ainda é hoje.

 

Tainá saiu da água enquanto eu recordava o primeiro dia que a vira e agora queria que eu nadasse com ela nas águas tranquilas que a esperavam sempre.

 

Aconteceu então uma coisa importante - digo a Vossa Senhoria -: eu nunca tomara até então um banho em companhia; mas, vendo Tainá assim naquela tarde, pela primeira vez eu me despi todo e nadei por longo tempo, num banho que me parecia o mais belo jogo da minha vida.

  

Tainá II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como acontecia com todas as raparigas, Tainá passava muitas horas do dia na "casa das mulheres". Era uma cabana grande que se abria nas primeiras horas do dia e se fechava à noite. Nela as mulheres, em geral aquelas que não tinham mais maridos e de filhos já grandes que viviam nas próprias cabanas, essas mulheres recebiam em custódia as meninas-moças que começavam a idade de mulher. Essas meninas passavam, nos primeiros tempos, todo o dia na "casa das mulheres". Depois de um certo periodo, elas saiam pela primeira vez e a gente da aldeia as festejavam. Pareciam outras, como se se tivessem feito definitivamente mulheres. Depois deste primeiro tempo, as raparigas continuavam a frequentar a "casa das mulheres", porém já livres de viverem também na cabana paterna. E a partir de então eram muito livres na escolha de seus companheiros. Mas, quero dizer a Vossa Senhoria, ainda que muito livres, não são lascivas e luxuriosas. Eles aqui amam com a mesma naturalidade com que fazem tudo: brincam, jogam, cantam, dançam, choram, riem, comem, dormem.

 

É muito difícil compreendê-los também nessas práticas. As jovens mulheres são livres e assim vivem mesmo diante de estranhos como nós; os homens não cuidam da liberdade usada pelas mulheres; não pretendem nada delas que já não sejam escolhas delas. Os homens daqui, ao contrário de nós, são sempre muito gentis com as mulheres e elas com eles. Disso no início muito me surpreendi; mas aprendi como eu sempre fora de uma natural violência com as mulheres da minha terra natal, mesmo com aquelas que eu pensava de amar.

 

(Continua)

 

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Quarta-feira, 30 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil)- 9 - por Sílvio Castro

(Continuação)

 

Coaracy VI 

 

 

Um dia contei a Coaracy que eu tivera um sonho que me apavorava e que não conseguia esquecer. Eu sonhara que caminhava sozinho pela floresta que era aquela nossa e ao mesmo tempo era uma outra. Era uma floresta que se abria sempre aos meus passos e não se fechava jamais. Mais eu andava, mais a selva se ampliava, as árvores se abriam em passagens largas e as flores se multiplicavam. Mas eu não me sentia bem naquela selva; era como se por detrás de tudo certa mão conduzisse plantas e folhas para me atirarem a um lugar aonde eu não queria chegar. Mais caminhava, mais me sentia asfixiado pelo caminho que se abria silencioso e frio. Assim foi por um tempo que parecia não acabar jamais e eu corria corria corria e as plantas e as flores e as cores me asfixiavam cada vez mais. Até que na corrida louca gritei alto e me senti cair num precip¡cio que não tinha fim.

 

 

Coaracy me escutou tranquilo e me disse que não era assim que se devia sonhar. O sonho não deve vir sem ser chamado; devemos sempre chamá-lo. Assim fazendo o nosso sonho chega e cobre o nosso sono. Coaracy me disse que eu devia chamar o sonho que caira no precipício e com ele retomar o caminho que eu desejava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vossa Senhoria tem muita paciência em escutar esses meus contos e me deverá perdoar se muitas vezes me ausento enquanto conto. Não é por falta de respeito, pois Vossa Senhoria me mereceu desde o primeiro momento que a vi tantos e tais que não posso senão dizer que me sinto feliz em demonstrá-los. Mas, algumas vezes me é impossível evitar de perder-me nas brumas das lembranças das coisas que me mudaram do que eu era para o que sou agora. Quando isso me acontece, parece que saio de mim mesmo e aquele que sempre fui pode ver de fora o que sou, mesmo quando esse novo eu tem somente a consistência do fumo, da brisa, das sombras.

 

Por isso tudo quero vos falar de uma experiência que foi essencial nessa minha nova vida e que me abriu novos caminhos. Não só para o novo ser que lentamente se criou em mim, mas também para avivar e esclarecer aquele que antes eu era.

 

A nudez dessa nova gente que encontramos desde o primeiro dia revelou-se como um choque que eu não sabia como explicar. Quando o nosso esquife se aproximava da praia e o nosso Capitão gritava entre as ondas altas aos homens na praia para que deitassem por terra suas armas, devo confessar que eu não distinguia bem essas armas, como o fazia Nicolau Coelho. Eu via muitos homens em pé, rijos, mas ao mesmo tempo tranquilos. Via-os como se apresentavam, completamente nus. Nesse primeiro conhecimento eu começava a viver a experiência que por longo tempo me atordoou.

 

 

 

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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 8 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Coaracy III

 

A sabedoria de Coaracy não está ligada a uma só coisa, mas a muitas. Sempre que falo com ele, eu aprendo não só sobre a sua sabedoria e a de seu povo, mas sobre mim mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde que o conheço me parece de conhecer mais a vida. Se posso dizer a Vossa Senhoria, que muito sabe, com Coaracy de certa maneira e modo mudei meu pensamento. Não sei explicar bem isso, como queria, mas posso dizer que tudo se passa como seu eu tivesse despertado depois de muito dormir. Principalmente quanto às coisas da natureza e de minha idéia dela. Antes de conhecer Coaracy, até então eu sempre me senti como que sentado fora das coisas da natureza. Agora era diferente. Por exemplo, se eu entrava num bosque ou numa selva eu me preocupava mais de mim em relação ao ambiente, aos ruidos, às sombras, aos caminhos desconhecidos; se me abeirava a um rio, ou me jogava a nadar num desejado banho rápido, ou somente passava ao lado dele, procurando não cair em um buraco, com o medo de afogar; se eu vinha surpreendido pela noite ainda na estrada jamais explorada, logo me assaltava um tremor pela escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois Coaracy me falou muito das coisas, dos animais, das plantas, até mesmo das pedras, de todas as coisas que estão em toda parte e de como tudo isso, sejam os animais que as plantas, os caminhos, as pedras, os cheiros, os odores, os perfumes, o calor, o frio, o fogo, a água, tudo ‚ era uma só coisa. Diante da natureza, sentindo assim, não sentes mais a diferença das coisas, nem a tua separação em relação a tudo. É por isso que podes caminhar no mato com os pés descalços e os espinhos não te machucam, nem as pedras.

 

Eu escutava quanto me dizia Coaracy e lentamente passei a sentir-me menos isolado das coisas. Até que um dia, eu passeava no mato já distante da aldeia, acompanhando das margens baixas o correr das águas de um rio. Meus passos se repetiam e, de repente, eu já não escutava o ranger das minhas botas que amassavam as folhas secas ou tropeçavam nos galhos ca¡dos. As águas corriam sempre e eu olhava para o rio como se tratasse não de uma superf¡cie l¡quida, mas de uma estrada luzente que me permitia de nela caminhar para onde quisesse e como. Eu caminhava, caminhava, e de repente fiquei fixando o rio e o mato e muitas horas se passaram assim no caminhar e o sol começava a cair por detrás de uma colina. Voltei para trás, como havia caminhado, procurando chegar de retorno à aldeia. Quando, tranquilo, vi de longe os fogos da aldeia porque começavam as primeiras sombras da noite, eu sorri comigo mesmo e corri alegre para a minha cabana de palhas.

 

Coaracy IV

 

Coaracy me disse que tudo vinha da natureza. Tudo. Porém, inicialmente eu não compreendia como ele via tudo isso, porque quanto mais eu dizia que poucas coisas eram boas, e más a maioria delas, ele me olhava e sorria. Eu não entendia porque Coaracy não fazia grande diferença entre as coisas que eu considerava más e as boas. Ele me fazia compreender que no mato existiam espíritos maus, mas o dizia como se isso não fosse perigoso, como se gostasse também dos espiritos maus. Os nossos entendimentos, que aumentavam sempre com o passar dos dias, quase nunca chegavam a boa coincidência sobre essas coisas. Eu não entendia do porque de Coaracy que sorria mesmo quando tratava dos espíritos maus.

 

Quando chegavam as trovoadas e as grandes chuvas, meu amigo me acenava ao trovão que espoucava de longe, que se aproximava, que estrondava sobre as nossas cabeças e mirava o lampejar faiscante dos raios mantendo sempre a constante serenidade. O demônio do trovão estava presente trazendo todos os perigos, decepando árvores com o cair fuzilante dos raios e inundando os espaços abertos diante das cabanas, mas Coaracy falava dele com o mesmo sorriso que tinha quando contava dos quarenta demônios da mata. Debaixo dos trovões e da chuva que caia incessante podia-se escutar os berros e ú¡vos dos cinquenta e seis bichos grandes que habitam a selva.

 

 

 

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Segunda-feira, 28 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 7 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 

(Continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coaracy I

 

Gostaria de poder dizer com clareza a Vossa Senhoria quanto foi importante para mim o conhecimento de Coaracy. Será difícil, mas tentarei. Difícil não porque eu não saiba quem é Coaracy e da sua natureza de homem sábio. Pero Vaz é um homem sábio, ah! se o é! Pedro Álvares, o grande capitão, é um homem sábio e todos o confirmam; como eles, outros homens sábios existem, mas Coaracy é um homem sábio como só ele sabe ser.

 

Isto eu descobri logo no primeiro dia que o vi. Melhor, naquele dia que ele me viu com a sabedoria de seu olhar. Recordo bem: estávamos tomando os primeiros contactos com a terra nova; cada vez que um esquife vinha preparado para descer à praia, era um alvoroço para todos, um misto de entusiasmo e medo. Ainda que muito armados, o encontro com o desconhecido provocava profundo tremor nos corações. Eu fui logo mandado pelo Comandante para as expedições exploradoras, seja com Bartolomeu Dias, seja sob as ordens de Nicolau Coelho. Somente nós dois, Pero Vaz e eu, participávamos de todas as explorações. O bom Pero Vaz recolhia informações de cada coisa e de todo evento para as suas crônicas; mas, eu, por que isto comigo? Logo assentei no meu coração exaltado pelo medo de tudo - do mar, das descidas dos esquifes, do silêncio que vinha da praia e da floresta que lhe estava atrás e que eu via nos esquifes que rompiam as ondas em direção da terra; medo de pisar a terra e da gente que nela nos esperava; de seus rostos impenetráveis, seus olhos de olhar profundo; medo dos gestos que não faziam; de suas armas, grandes arcos e flechas que traziam a tiracolo; medo que tudo aquilo, o silêncio, os olhares, o murmúrio assustador das águas, das vozes da floresta, caísse de repente sobre mim.

 

Estava eu assim perdido dentro de mim em meio ao movimento de trezentos trezentos e cinquenta, quando retorno à consciência de tudo que me rodeava ao sentir nos ombros o contacto de duas mãos serenas: era Coaracy que tomado de compaixão da minha angústia muda me conduzia na praia à sombra de um palmeira.

 

Eu vi Coaracy quando tive coragem de olhá-lo sem medo. Ele me sorria sem falar, enquanto caminhávamos na areia branca da praia e a algazarra geral se atenuava na distância. Eu via um homem sem idade, alto, da minha altura, ainda que um pouco curvado; os cabelos grisalhos cobriam a cabeça que se movia como acompanhando os olhos e todo o corpo, em harmonia. Tudo em Coaracy se mostrava em harmonia. Até mesmo a sua mão direita que não deixava os meus ombros me dava uma sensação de serenidade. Eu me apoiava naquele gesto e, pouco a pouco, passava a não sentir mais medo. Sentados à sombra de uma grande árvore, Coaracy e eu olhávamos para todo aquele mundo de festas e não sentíamos o passar do tempo. Acredito que Coaracy não sofria em momento algum o passar do tempo. Depois Coaracy me mostrou as primeiras coisas de seu mundo. Me deu uma espécie de manto de penas, ao mesmo tempo quente e fresco, feito da leveza de vôos passados por pássaros multicoloridos. Provei grande alegria com o presente de Coaracy e logo procurei alguma coisa entre as minhas pobres riquezas que lhe pudesse agradar. Eu não tinha quase nada. Ele sorrindo com os olhos profundos que me olhavam protetores dizia que não importava. Eu queria dar um presente rico a Coaracy. Foi quando, de retorno, nos encontramos com o grupo de Bartolomeu Dias que retomava o caminho das naves, pois se fizera tarde. O capitão me deu algumas carapuças bem jeitosas e uma bacia, com pentes e outras coisas, dizendo-me de dar aos nossos novos amigos. Eu peguei de tudo aquilo e entreguei a Coaracy que sorriu.

 

Coaracy II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A sabedoria de Coaracy era ligada a todas as coisas, aos homens, animais, plantas, à terra e às estrelas; ao viver e ao pensar; à realidade e aos sonhos. Mas isso eu não compreendi logo; levei muito tempo. Em determinado momento, quanto mais eu entendia da sabedoria dele, mais eu me perdia, pois seguindo-o como uma revelação constante, a maior parte das vezes eu não era capaz de compreendê-lo completamente. Porém, sempre ansiava por fazê-lo e Coaracy usava de toda paciência para seguir-me.

 

Foi muito importante, desde o início, a sua voz. Eu seguia a voz de Coaracy como um rumo. Não era uma voz qualquer, era uma espécie de farol. Naturalmente no início eu não compreendia as palavras que saiam da boca de Coaracy; mas, acompanhando-as como eu fazia, mesmo não as entendendo, eu sempre tive a sensação que me dissessem coisas que eu recolhia. Eu escutava a voz de Coaracy, fixava a sua boca, seus olhos, e os gestos dele então se transformavam pouco a pouco em palavras recebidas. Escutando Coaracy, eu fixava pedaços de sons que se uniam e me faziam pensar de poder compreender o que o meu velho amigo continuamente me dizia sem cansar-se. Então eu também falava na minha língua e tantas vezes o meu entusiasmo era tamanho que chegava a encobrir a voz de meu amigo. De repente, todavia eu saia do meu palrear inconsciente porque o sorriso silencioso de Coaracy era de uma grande eloquência...

 

Conversamos sempre muito. De manhã, de tarde, perto dos rios, na praia, diante das cabanas ao entardecer. Eu decorava as palavras de Coaracy.

 

Um dia, era de primavera, tive a sensação de entender tudo de uma estória que Coaracy me contava. Era a estória da inundação grande que cobriu todo o mundo e que acontecera em tempos muito distantes. Contava a estória: como se fazia sempre para as grandes pescas da aldeia, uma dela armara num rio uma armadilha para recolher os peixes que por ali passavam. Decorridos alguns dias um dos homens, o melhor pescador daquela aldeia, foi ver. Chegado à boca do rio, ele viu perto da armadilha o espírito mal da cor amarela e, com muita atenção, flechou-o. O espírito amarelo zangou-se muito e para castigar o homem mandou subir as águas. E as águas cresceram e começaram a cobrir tudo, planície, árvores, montes. O pescador apavorado correu para a aldeia e gritava para a gente que o seguisse. Mas, ninguém o seguiu e logo as águas cobriram a aldeia e as outras e todas as outras. O pescador corria para longe, para o monte mais alto que podia e via que as águas destruiam e matavam tudo no seu caminho sem fim, plantas, animais, gentes. O pescador corria sempre para salvar-se, sempre tendo na mão o tição de fogo que recolhera de sua cabana.

 

Passado algum tempo, no alto de sua colina, até onde chegara a água, mas não superara o cume, o pescador repousava olhando a imensidão das águas. E viu que o tição a partir de determinado momento, quando ela, a água, já parara na sua subida, começou a fazer evaporá-la. E a água que descia descia descia: até se enxugar. O pescador então deixou o refúgio da colina e começou a procurar a gente; mas não encontrou ninguém. Assobiava daqui e dali, e ninguém respondia. Até que de repente, por detrás de uma moita, veio ao seu encontro uma cerva muito jovem e bela. Você se salvou? sim, me salvei das águas e não sabia mais para onde ir. Então o pescador casou-se com a jovem bela cerva e tiveram muitos filhos. Os primeiros tinham cara e patas de cervos e eram pelosos. Depois os demais nasceram com cara e pés de homem e poucos pelos. O pescador então decidiu dividir a nova gente em dois grupos e que homens e mulheres do segundo grupo se casassem com homens e mulheres do primeiro e que depois esses com homens e mulheres do segundo. Assim foi feito e se faz até hoje.

 

(Continua)

 

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Domingo, 27 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 6 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


(Continuação)

 

Quero confessar a Vossa Senhoria uma coisa que me inquieta. Uma coisa importante. Até agora eu não sabia que era assim, que sentia assim, mas agora sei. Me parece que isto seja o conto, foi o conto que de certo tirou de dentro de mim e me esclareceu este meu certo sentimento. Desde que vos estou contando as minhas estórias passei a compreender essas coisas escondidas que agora vos tento revelar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este meu novo mundo desde logo me incutiu um grande medo. Não era, depois de um primeiro momento de indecisão, o medo de sofrer dores, violências. De morrer. Em verdade a minha vida me parecia tão miserável que a morte era pouca coisa diante dela. Era um outro medo. Tudo me era desconhecido e ao mesmo tempo se revelava com clareza espantosa a cada momento. Tudo me parecia como que a perda do que eu era, e quanto mais eu entrava no contacto e no conhecimento das coisas e da gente, mais me sentia perdido. Mesmo quando a bondade de Coaracy procurava ligar-me a tudo aquilo que era o contrário da minha vida, mesmo assim a cada momento mais se fazia indefinido o meu dia, o meu ver, escutar, gostar, o meu ser todo. Eu agora sei que me confrontava a cada dia com as novas coisas e me atormentava porque ao mesmo tempo queria e não queria participar delas. Me encontrava com a gente, e não queria, como queria, conhecê-las, estar com elas. Mais ainda era silenciosa a dor quando aquele mundo parecia de repente, por tantas suas coisas, se transformar dentro de mim numa adesão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lembro-me que um dia caminhara longamente pela floresta e me perdera sem pensar no tempo. Assim fui a longo, com os pensamentos que não se fixavam em nada, mas que se ligavam como coisa física com aquelas árvores, cores, sons, e que não se perdiam, mas me encaminhavam com tranquilidade na floresta encantada de cantos e calores. Assim eu ia quando, de repente, senti que estava muito longe da aldeia e que ela, com a sensação de uma grande distância, crescia dentro de mim como uma ausência dolorosa. Então eu voltei atrás, rapidamente, cada vez mais velozmente, até que vi, entre os ramos das árvores, aparecer os vultos das primeiras cabanas.

 

Vê-las me encheu de surpreendente alegria. Então fiquei de longe a contemplar a aldeia e não sabia o que sentia. Agora sei. Eu começava a conhecer o mundo, pois começava também a saber-me perdido. Meu antigo sentimento das coisas natais não morriam, de certo, mas eu acrescentava a ele a novidade da descoberta de mim fora das minhas alegrias juvenis. Minha mãe me apareceu então mais uma vez, muito junto de mim. E ela me contemplava como que feliz. Eu tinha medo de fixar os seus olhos, mas ela me sorria e me acariciava. Diante de seu sorriso amoroso eu pude olhá-la sem medo enquanto caminhava alegre na direção da aldeia. Por que será que agora essas coisas me começam a ser claras, Vossa Senhoria me pode explicar? Será porque contar‚ escrever, nomear o mundo? Eu sei somente que agora não sinto mais a necessidade que tinha antes de apropriar-me das coisas que o novo mundo me revelava.

 

Eu sentia sempre, cada vez que me confrontava com as coisas novas, uma necessidade absoluta de tomá-las para mim, dispor delas, usá-las e quase sempre negá-las. Eu queria apropriar-me sempre das coisas que se me revelavam, mas não porque era feliz por conhecê-las, mas porque elas me levavam a comparar o que vivia com o que antes havia vivido. Eu não queria que as novidades cobrissem o sentimento de minha terra, de minha gente, de meus sonhos, e temia que assim fosse. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não podia ignorar as novas coisas. Então sentia uma intensa vontade de dar-lhes os meus nomes, mudá-las e chamá-las com as palavras que minha mãe me ensinara. Assim eu vivia em inquietude. Agora sei de tanto desconcerto, porque conto. O que será, afinal, este meu contar?

 

 

 

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Sábado, 26 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 5 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 (Continuação)

 

O novo amanhecer.

 

 

Uma noite, não esquecerei jamais, eu não conseguia dormir, me levantei e saí da cabana. A penumbra ainda era forte, com uma cerração fria que antecipava a alva vizinha. Tudo era silêncio na aldeia e eu me encaminhei lentamente na direção da floresta. Nela também tudo era submerso pela penumbra noturna e se percebia apenas o estalar das árvores, o sutil movimento dos insetos noturnos, o ciciar quase apagado da brisa que começava a levantar-se, o murmúrio distante de águas. Quanto mais eu caminhava, deixando o bosque para internar-me na floresta, mais a penumbra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Parei em um dado momento porque, por entre a penumbra que coava em meio aos galhos das árvores cerradas, surgiam raios da luz embaçada do sol que se dissolvia na luz ainda imperceptível do alvorecer e os sons se movimentavam. Caminhando eu percebia tudo de longe e me internava não só naquele espaço de sombras, mas ia comigo mesmo, rememorando e ao mesmo tempo despojado de qualquer pensamento.

 

Parei em um dado momento porque, por entre a penumbra que coava em meio aos galhos das árvores cerradas, surgiam raios da luz embaçada do sol que ainda não se via, mas que estava subindo lentamente no nascente, diante de mim e de todo aquele mundo novo que eu desconhecia. Saído de mim, parei num espaço da floresta mais aberto e ali fiquei, como diante do mundo. Então, devagar, muito devagar, os ramos cerrados deixaram passar mais luz e a penumbra começou a iluminar-se e a brisa a refrescar com mais vigor ainda, como se recolhece das árvores, de todo aquele mar verde, o orvalho e o espalhace por todos os lados, num toque de carícias desconhecidas. Longe, a pouca luz se fazia mais intensa e de repente eu vi o sol que subia no horizonte. Como se me estivessem seguindo e aos meus sentimentos daquele evento, os seres e coisas da natureza começaram a levantar-se e a mostrar-se. No meu espanto sem nenhum temor eu vi então definirem-se os contornos das árvores; as menores mais próximas de mim deixavam espaços para que outras maiores se mostrassem e essas se prologavam nos longes em toda uma densa floresta que se descobria novamente verde, todos os verdes, na luz sempre mais intensa do sol. Eu seguia o caminhar da luz nas copas e ramos e percebia igualmente o despertar dos pássaros, infinitos pássaros escondidos que partiam de acordes indefinidos, para quase logo chegarem a um coro que aumentava, aumentava, e se fazia uma única mas variada voz. Eu estava dentro dos muitos verdes e das vozes, procurando descobrir o sentido delas, e logo do verde me chegavam aos olhos outras cores amarelo vermelho branco azul roxo verde verdevermelho verdeazul verderoxo vermelhoverde vermelhorosabrancoamarelo.

 

 

 

 

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Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 4 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 


 

(Continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bem, agora posso de novo contar tudo com clareza a Vossa Senhoria. Já não me sinto na grande confusão de antes. A viagem continua, o medo do naufrágio continua. Vossa Senhoria acredita possível o naufrágio para um que está na terra e não no mar? Quero confessar um coisa muito absurda, eu me sinto como um náufrago na terra. Me debato com as coisas e não consigo tocar a praia. Meu corpo exausto se consome e eu não sei onde chegar. Mas de certa maneira desde aquele primeiro dia de contacto com a gente nova e a terra, me sinto mais sereno, não que o tremor me haja abandonado ou o medo do desconhecido, desaparecido. Mas‚ como se tudo se tivesse transformado em um sonho, medo e tremor, esperanças e inseguranças, desconcertos e encontros.

 

O nobre Pedro Álvares Cabral nos levou, no dia seguinte, numa grande procissão pela nova terra achada. Éramos uma multidão, com o grande Comandante à frente, nas mãos a Cruz de Cristo. O Comandante, os doze capitães, os sacerdotes, os nobres do séguito, a gente toda, caminhávamos por aquelas praias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chegado a um ponto saliente da terra, Pedro Álvares parou e fincou ali o marco da conquista de Portugal. A nova terra encontrada era consagrada ao nosso Soberano. A grande procissão retomou a marcha na direção de uma ilhota, onde foi dita missa solene. A tudo isso assistiam aqueles da terra, homens e mulheres. Muito curiosos e por nada temerosos, eles acompanhavam todos os nossos passos e gestos. Não demonstravam senão curiosidade. Por tudo.

 

Depois da missa, que muitos deles assistiram de longe, a grande comitiva se espalhou pela praia, criando-se grupos dispersos dos nossos e de muitos deles. Alguns marinheiros se apartaram além do rio com jovens nativos e entre eles muitas moças. Os grupos festejavam e se tocava música com gaitas e tambores, chocalhos e pandeiros. Ao longo da praia a nossa gente cantava e bailava com os nativos, como se se conhecessem desde sempre e fossem amigos desde há muito. Eu me apartava vendo tudo isso. Pero Vaz se aproximou de mim e me perguntou por que te apartas, Afonso? não vês que eles são nossos amigos? ou temes de não seres da mesma maneira deles?

 

 

 

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Quinta-feira, 24 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 3 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 (Continuação)

 

 

 

 

Vossa Senhoria me deve consentir: eu sei que o vosso desejo agora é que eu conte todo o resto do encontro, mas creio que preciso visitar todas as minhas lembranças dos eventos, pois de repente já não sei se cheguei ou se estou ainda na viagem. Parece que estou ainda na navegação; é noite e na tolda da capitânea se representa um auto, com tochas e belos movimentos de cena. Como em geral acontecia com as festas do nosso Comandante, essa era muito bela. O auto,  muito bem representado, com todos os aparatos, como se fosse num teatro de Lisboa. Vejo tudo como se ainda estivesse ali. Contando, é como se o tempo fosse um só e eu me sinto sempre em viagem. Pero Vaz acaba de me dizer que amanhã logo cedo baixaremos à terra, e em quanto o escuto, como fiz por muitas vezes na navegação, é como se navegasse junto com Pero Vaz. Ele, como eu, não é prático de navegação, mas é um homem sábio e logo o mar não lhe tem mais mistérios. Eu temo tudo, o abandonar da minha terra, o encontro com novas. Estou sempre por naufragar, mas sinto que nenhuma praia me poderá recolher das águas. Pero Vaz diz que devo ter esperança, pois tudo se acerta. Iremos até as Índias, lá criaremos uma vida, para maior glória do Rei nosso senhor. Tudo se acerta. Mas sinto que o meu naufrágio é certo, ainda que as palavras de Pero Vaz sejam boas. O mar é longo e estou preso nele. Olhe as estrelas, me diz Pero Vaz, como são belas e como nos indicam os caminhos. Preciso falar todas as noites com as estrelas, me diz Pero Escobar, pois as estrelas são ruas dentro do mar. O piloto maior fala muito assim com Pero Vaz.

 

Agora estou de novo no dia 22 de abril. Amanhã iremos encontrar a terra pela primeira vez. O que está por detrás dessa penumbra e do meu constante tremor?

 

O esquife comandado por Nicolau Coelho, outro grande capitão como Bartolomeu Dias, estava pronto. Nele estávamos também Pero Vaz, que desde então devia, por ordem do nosso Almirante, recolher todas as notícias para mandá-las a El-Rei; o Mestre João que devia fixar os acidentes da terra; o piloto Afonso Lopes, homem vivo e competente nas suas artes, além de dez marinheiros muito armados. Quanto mais o esquife se aproximava da praia, mais crescia o meu tremor. Já distinguíamos a praia e a floresta que lhe estava por detrás.

 

 

 

A distância de menos de cinquenta metros, com as ondas mais baixas, podíamos ver bem a terra. Na praia estavam muitos homens nativos. O esquife avançava e nós víamos os homens que seriam mais de trinta, armados de arcos e flechas. Nicolau Coelho gritava do escaler e lhes comandava de deitar as armas por terra. Os homens nos fixavam curiosos e o capitão continuava a gritar. Alguns deles, depois de pouco tempo, deitaram arcos e flechas. Logo em seguida a maioria deles fez o mesmo. Alguns mantinham as armas nas mãos, incrédulos dos gritos de Nicolau Coelho. O esquife agora já está a poucos metros da praia. O capitão ordena ainda e com voz mais forte. Os últimos desses nativos deitam as armas por terra. Descemos. Logo alguns deles vieram nos ajudar a arrastar o esquife. Nicolau Coelho procurou falar com eles, mas não nos compreendíamos senão por gestos. Eles falavam uma língua desconhecida para todos nós e por isso tivemos muito pouca possibilidade de nos compreender. O nosso capitão falou então com um deles que parecia o chefe. Não é que este se distinguisse muito dos outros, pois todos estavam completamente nus, e se misturavam nos movimentos de encontros e desencontros que tínhamos. Porém, este para o qual Nicolau Coelho se dirigia mais diretamente era mais altivo e tinha uma fisionomia forte e clara. O nosso capitão ofereceu-lhe prendas, pequenas quinquilharias, que ele muito apreciou. Os outros logo se aproximaram para ver aquilo e em seguida demonstraram que também queriam receber daqueles presentes. O primeiro tirou da cabeça uma espécie de chapéu de penas de aves, muito coloridas, e com muita dignidade as ofereceu a Nicolau Coelho. Desta maneira começaram os nossos encontros.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 2 - por Sílvio Castro

 (Continuação) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Falando com Vossa Senhoria percorro com uma nova tranquilidade as minhas experiências. Como se pudesse retomar a caravela que partia do Restelo naquele dia já distante; como se fosse alguma coisa de outra pessoa, não minha. Vossa Senhoria quer saber como foi a viagem? Será preciso que eu retorne não somente ao meu barco, mas também aos sentimentos que me acompanhavam então. Se Vossa Senhoria me permitir, nada direi sobre a razão da minha pena. A culpa que carregava e que levara o meu nobre senhor Sebastião Telo a conduzir-me ao tribunal, eu a reconheço. Principalmente porque o meu senhor merecia toda a minha fidelidade e eu jamais desejaria ofendê-lo. Eu o ofendi e à sua casa com o crime da minha ira inconsciente, mas eu também sei que o fiz por muito amá-lo. Já não poderei jamais caminhar com ele pelas aléias de seu jardim, não mais acompanhá-lo nas suas viagens por Portugal e Espanhas. Não mais usufruirei de seus conselhos paternos, nem da estima que ele me concedera quando entrei na sua casa ainda adolescente. Ele me salvou da morte, mas me conduziu para o definitivo degredo. Quero dizer a Vossa Senhoria, que é um homem de grande compreensão, que não sei se não morri evitando a morte.

 

 

 

 

 

 

Principalmente quando o meu nobre senhor me entregou ao Almirante naquele dia de definitiva partida no Restelo. Ao entrar na caravela que me levaria para longe, logo soube que comigo iriam muitos outros degredados, todos destinados a ficar nas Índias. Eu me abismava diante de muitos deles, pois não crera jamais que poderia ser um dia como alguns deles, homens violentos, brutos como feras bestiais. Diante deles eu me apavorava e me escondia naquele moço que já fora no Ribatejo, filho de minha mãe, minha doce mãe, que me conduzia pelos caminhos conhecidos, nas tardes de luz transparente, caminhando, caminhando nos prados floridos, entre cantos risos corridas.

 

O nosso Almirante, apenas partida a grande armada de treze naves, me endereçou aos serviços de Bartolomeu Dias. Com ele eu me livrei da presença vizinha dos outros degredados e pude pouco a pouco recuperar tranquilidade. Bartolomeu Dias me aparecia como um ser quase fantástico. Ele era ao mesmo tempo terrível e acolhedor. Suas ordens eram diretas, sua justiça certa. Tudo nele era imediato. O rosto jovem e ao mesmo tempo senhoril incutia obediência. Tudo lhe parecia obedecer. Até mesmo o mar.

 

Quando as vagas se exaltavam, ele estava ali no comando, afrontando tudo, e seus olhos percorriam o ondular violento, sem medo, pronto a dominar. Nós estávamos diante de Bartolomeu Dias e sabíamos com certeza que o mar respeitava o seu comando; que aquele balançar angustiante da nave logo passaria. Com Bartolomeu Dias as tempestades sempre passavam e o mar retomava um vagar que não é pena.

 

Eu servia Bartolomeu Dias e a cada dia da navegação aprendia com ele que o nosso caminhar era de certezas. Assim foi por muitos dias.

 

As treze naus de Pedro Álvares Cabral prosseguiam na direção destinada pelo nosso Soberano, superando o mar, logo perdendo de vista as praias de Portugal. Cedo tocamos as Canárias, viajamos ao longo, sempre mais ao longo, por dias e dias, até que chegamos ao arquipélago de Cabo Verde. Entre aquelas ilhas ficamos por um pouco, com um mar calmo. Depois partimos ainda. Foi então que nos assaltou uma calmaria. Nela restamos, como que caminhando somente com os nossos sonhos ou angústias. O mar não se movia. As velas antes pandas serenavam sempre e a noite as encobria. Era fácil ver os peixes que nadavam em volta das caravelas na calma daquele silêncio imóvel. Então amanheceu e os olhos de marinheiros, viajantes, condenados, procuravam na imobilidade da alva um movimento que poderia vir dos barcos mais apartados. Treze naves viajavam na imobilidade. Então, no alvorecer, correu o pavor de um alarme. Nave ausente! Desaparecera a nau do capitão Vasco de Ataíde.

 

Bartolomeu Dias inventou o vento, mas Vasco de Ataíde não mais foi encontrado.

 

 

 

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Terça-feira, 22 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 1 (continuação) - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma vez, quando a armada do meu senhor Pedro Álvares ainda estava ancorada naquele belo porto que descobrimos no primeiro dia do nosso encontro com esta terra - o mesmo porto seguro que nós dois estamos contemplando neste momento - e Bartolomeu Dias me comandou de passar a noite junto com a nova gente que encontramos e eles não queriam que eu ficasse nas suas cabanas, me vi repudiado de todos e abandonado na praia que se escondia no anoitecer. Naquele momento de abandono eu chorei desesperado. Estar ali, diante daquelas terras sem fins, naquela noite que não me deixava ver e saber nada, a escutar todos os rumores da floresta, rumores novos para os meus ouvidos, continuados e ao mesmo tempo alternados nas vozes escondidas de feras, pássaros, bichos, árvores, ventos, tudo isso me fazia sentir como que perdido para sempre. Então eu chorei, chorei como o fazia quando era pequeno na casa dos meus pais no Ribatejo e sabia que não mais veria minha mãe morta. Chorei como seu eu fosse a única pessoa no mundo e ninguém me visse. Longamente e sem querer parar de chorar. Então senti as mãos de um homem da terra, um homem de cabelos grisalhos e rosto sereno que me abraçava como querendo trazer-me de novo de minha dor solitária para casa. Era Coaracy que me abraçava.

 

Vossa Senhoria se surpreende desses meus contos? Pois saiba que eu então ainda não podia nem mesmo pressentir o muito que viria depois. Sozinho com o meu abandono eu não sabia que mais adiante iria conhecer males e benefícios, assistir a desconcertos que na minha curta mas infeliz existência eu não poderia jamais conceber. Meu nobre senhor, para mim a vida se abria como se fosse um porto indevassável, fechado e perigoso, mas que ao mesmo tempo se mostrava acolhedor e benfazejo. Sim, vos contarei tudo. Espero somente de não me ter perdido em tantas andanças e surpresas da vida; que minha memória possa também imaginar o muito que os meus olhos viram e os meus ouvidos escutaram.

 

Tudo começou de imediato naquela manhã da partida dos meus companheiros de viagem que retomavam o caminho das Índias. Passadas algumas horas, quando o sol já se fazia mais forte e a praia se esvaziara como por encanto das presenças de centenas de naturais da terra, admirados com a partida das naves, a minha dor se atenuara e eu já podia tirar a vista do mar para as coisas da minha nova vida. Sabia que não estava sozinho. Comigo o Almirante comandara que ficasse um outro degredado, Antônio Fragoso. Dele não vos falarei logo porque, voltando àquele primeiro momento, vejo que por detrás de algumas árvores saem dois moços. São dois jovens marinheiros que eu já vira a bordo na nossa viagem que deu nestas terras. Sem mais nenhum medo, seguros diante do horizonte sem velas, eles agora correm pela praia, jubilosos, numa orgia de risos e saltos. Então eu penso como é fantástica a vida, pois eu sofro por estar aqui bandido e sonho a terra que me foi tirada, enquanto os dois moços gritam felizes por não mais lá estarem e confundem seus cantos de alegria com a luz do sol que ilumina esta manhã do nosso novo nascimento. Sim, porque eu sentia tudo como se me encontrasse diante de um nascer. Vossa Senhoria pode sorrir, mas depois saberá que hoje eu já não sou o Afonso Ribeiro que partiu de Lisboa no dia 9 de março de 1500 condenado ao desconhecido, que correu os mares por dias impossíveis, viu naufragar e desaparecer gente companheira, atingiu novo porto depois de tanta navegação e que ficou sozinho diante de si mesmo, como num constante espanto.

 

 

 

 

publicado por João Machado às 21:00
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