Na sala vazia sentaram-se os quatro.
E os quatro ficaram olhando, no fundo,
A mancha de luz do pequeno teatro.
─ o dono do teatro ─ um vagabundo
que trouxera o teatro do outro lado do mundo ─
por trás das cortinas puxava os cordéis …
Puxava os cordéis aos fantoches, fiéis
aos seus dedos infiéis de vagabundo.
…………………………………………………………
Dos quatro meninos, um deles voltou,
e, tanto viu, que decorou
as falinhas mansas e a maneira
invertebrada dos fantoches de feira.
De dois dos meninos ninguém mais falou,
(e o outro é Poeta e ninguém lhe perdoa…)
Mas do menino-fantoche como é bom falar…
─ porque o menino-fantoche é hoje a pessoa
mais importante do lugar.
Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!
(1914 - 1986)
Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!
Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!
Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!
Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!
Não espereis de mim a paz!
Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer – ai dos vencidos! –
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!
- (Foi jeito que me ficou
não me sei desinteressar
do jogo que me jogar.)
Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!
Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!
(Este poema de 1941 foi retirado da edição do Novo Cancioneiro da Caminho, de 1989, com prefácio, organização e notas de Alexandre Pinheiro Torres.)
Apresentamos novamente este texto para recordar o centenário deste grande poeta, com uma obra escassa, mas que merece ser lembrada.
João Machado
No corrente ano de 1911 faz cem anos que nasceu Políbio Gomes dos Santos. No mesmo ano nasceram Manuel da Fonseca e Alves Redol, conforme já foi lembrado aqui no VerbArte. Políbio Gomes dos Santos faleceu em 1939, de tuberculose. No mesmo ano concorrera aos Jogos Florais Universitários de Coimbra, vencendo o prémio António Nobre, com um volume de poemas que mais tarde foi incluído no Novo Cancioneiro, e publicado em 1944. Esse volume tomou o título de Voz Que Escuta, de um dos poemas nele incluídos. Políbio Gomes dos Santos publicara anteriormente, em 1938, As Três Pessoas, outro livro de poemas, que Alexandre Pinheiro Torres, na apresentação que faz do poeta e da sua obra, incluída na edição da Caminho do Novo Cancioneiro saída em 1989, considera indispensável ler para se poder apreciar inteiramente o segundo volume da obra.
Apresento-vos a seguir Poema da Voz Que Escuta, para recordarmos Políbio Gomes dos Santos e a sua obra, neste ano em que se completa o centenário do seu nascimento:
Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
Passagem de Nível
Em 1942, apareceu o oitavo livro do Novo Cancioneiro, Passagem de Nível, de Sidónio Muralha. À edição da Caminho, de 1989, organizada por Alexandre Pinheiro Torres, fui buscar o poema que deu o nome à colectânea.
Velho dos dias sem sol e das noites sem estrelas
que passas junto a mim apregoando,
apregoando cautelas,
- até quando?
Menina da casa estreita e sem janelas
que vives trabalhando, trabalhando...
- quando virá o Dia, quando?
Quando vier, eu que estou à sua espera
hei-de sentir na minha poesia
um hálito de primavera...
Mas não a primavera dos sonetos de almanaque,
encarcerada em versos bafientos,
em que um sujeito de fraque
desfiava pensamentos...
Meus versos serão límpidos, correntes,
porque se beijam na rua os namorados
e não são indecentes nem decentes
- são simplesmente apaixonados.
Verei janelas rasgadas, fatos limpos,
mãos dadas numa franca simpatia,
- e hei-de sentir a primavera
a desprender-se da minha poesia...
Até lá, um rio de raiva rola, ecoa
nos meus versos, rebenta no meu coração...
E aquele que não me perdoa
que saiba que eu não peço o seu perdão!
Políbio Gomes dos Santos
(1911-1939)
Voz Que Escuta
João Machado

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