Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Israel Cohen responde a Adão Cruz

 
Israel Cohen responde a Adão Cruz
 
(Adão Cruz)
 
(publicamos  hoje, embora atrasada, a carta que Israel Cohen, cardiologista, enviou ao seu e nosso amigo Adão Cruz, igualmente cardiologista, em resposta ao artigo do Adão que foi publicado na Revista da Ordem dos Médicos e, também, aqui no Estrolabio)
 
Artigo do Adão: http://estrolabio.blogs.sapo.pt/1070073.html 
 
 
Amigo Adão
 
Acabo de ler a tua"OPINIÃO" na Revista da O.M. sobre Materialismo e Espiritualismo. Gostei do texto,acho-o claro e conciso, concordo inteiramente com o que dizes e senti que o escreveste com entusiasmo.
 
Curiosamente, acabei de ler o livro de A. Damásio "O Livro da Consciência". Pelas tuas palavras, na introdução e em algumas passagens do texto, chego a pensar que o possas ter lido tambem.
 
Li os três anteriores livros dele publicados cá e gostei muito...mas este último torna-se, talvez mais pela forma do que pelo conteudo, muito complexo   e vou ter que o ler de novo, desta vez talvez com fichas e esquemas... Tal como está escrito, traz-me à cabeça duas citações: "...Tive pouco tempo para escrever menos...", eu diria tambem "melhor", e outra, que nunca mais esqueci, que foi dita por um Prof. meu da Faculdade: "Inteligência é saber explicar um assunto, por mais complexo que seja, de maneira que até um guarda republicano o consiga entender!". Neste caso, o guarda republicano sou eu...confesso que nunca soube muito de anatomia (cartografia) cerebral para conseguir entender muito do que foi escrito nesse livro, mais ainda quando se descrevem as numerosíssimas conecções e relações existentes entre todas essas estruturas.
 
Na realidade sabemos que a cartografia cerebral está em grande parte feita, que a fisiologia dos neurónios e seus componentes é já bastante conhecida, que a neuro-química e a neuro-biologia estão em boa parte desvendadas, que muitos circuitos intra e extra-cerebrais já foram convenientemente percorridos, que muito se sabe já da formação e mapeamento das imagens, quais as estruturas muito presumivelmente responsáveis pelo aparecimento e evolução do proto-eu, do eu nuclear e do eu auto-biográfico, da mente e da consciência, dos sentimentos e das emoções, que há já portanto um longo e meritório caminho percorrido,que a genética, os ambientes físico e cultural são palavras-chaves em tudo isto de que estamos a falar, que a neuro-ciência e a psiquiatria terão cada vez mais tedência para se tornarem indistintas, provavelmente com o nome justamente de neuro-ciência... o que, até este ponto do conhecimento, possivelmente faltará...será resumir tudo isto de uma maneira simples, de modo a ser bem entendido por uma pessoa "mediana", até porque é um assunto muito sério e de gande utilidade para uma visão correcta de nós próprios e de tudo o que nos cerca...Não digo que seja fácil. Digo que é importante.
 
Penso sinceramenta que neste livro o António Damásio complicou as coisas e não deu a oportunidade a muita gente de ficar, tanto quanto possível, esclarecida.
 
Acho que, se ele escreveu só para neuro-investigadores, terá sido "curto", e se escreveu para pessoas "normais", não atingiu, de todo, os seus objectivos...
 
E o mais curioso é que na FNAC e em outras livrarias, este livro se manteve durante imenso tempo e ainda se mantem nos Top Ten...será que o público português está tão culto???!!!, ou serei eu que sou de uma enorme ignorância?
 
Bem, desculpa este desabafo...por teres escrito um bom texto, claro e simples, não merecias levar com isto tudo em cima.
 
Um abraço.
 
Israel Cohen
 
publicado por Augusta Clara às 19:00
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Domingo, 18 de Julho de 2010

Materialismo e Espiritualismo

Adão Cruz

Conheço Jean-Pierre Changeux desde a década de oitenta, não pessoalmente, embora tenha assistido a uma conferência sua, nessas alturas, em Paris, salvo erro. Mas conheço-o através de alguns dos seus livros, como “Homem Neuronal” de 1980, e “Razão e Prazer”, livros que li e reli. Muita vontade tenho de ler outras obras suas como “Fundamentos naturais da ética”, “A verdade e o cérebro”, “O que nos faz pensar”, etc., mas não consigo a benevolência do tempo. Hei-de conseguir.

“Homem Neuronal foi, na altura, um best seller, muito contestado e muito controverso nos meios conservadores. Hoje, felizmente, os tempos são outros, e todas as mentalidades abertas se deliciam com os maravilhosos resultados da investigação neurobiológica e com o manancial de descobertas no campo das Neurociências.

Jean-Pierre Changeux é professor no Collège de France, e no Instituto Pasteur, onde dirigiu, desde 1967, um laboratório de Neurobiologia Molecular. As suas principais contribuições e descobertas no decurso dos últimos 37 anos estão centradas no tema geral dos mecanismos celulares e moleculares de reconhecimento e transdução de sinal, também conhecido como mecanismo receptor, principalmente no sistema nervoso.

Na sequência dos meus dois artigos anteriores sobre Materialismo e Espiritualismo, atrevo-me a escrever um terceiro. Porquê? Porque Jean-Pierre Changeux esteve há poucos dias em Lisboa, na Gulbenkian, e deu uma entrevista a Ana Gerschenfeld, que veio no “Público” do dia 13 deste mês. Aliás, foi também Ana Gerschenfeld quem entrevistou Tom Insel há uns meses atrás.

E porque é que Jean-Pierre Changeux me levou a escrever estas linhas? Porque a sua entrevista é, por assim dizer, uma espécie de cereja no modesto bolo dos meus artigos anteriores, cozinhado no forno do meu pensamento.

Este grande cientista da França e do mundo diz taxativamente que quanto melhor for o conhecimento do nosso cérebro humano, através das neurociências, maior será a nossa abertura em relação à espécie humana. E diz mais uma verdade, que a mim me parece irreversível e entusiasmante: já lá vão os tempos em que estas coisas eram um anátema, afirmando que é possível construir uma neurociência da pessoa humana global. O sentido moral e a espiritualidade são hoje, incontestavelmente, objecto biológico das neurociências, em razão de uma longa evolução. Por volta dos anos setenta, os progressos da biologia molecular permitiram uma primeira revolução fantástica, ao fazer sentir a necessidade de juntar áreas de estudo tão diversas como psicologia, sociologia, anatomia cerebral, fisiologia cerebral, farmacologia, genética etc.

A fisiologia cerebral começou a enraizar-se de tal modo na biologia molecular, que só assim foi possível começar a relacionar os comportamentos com estados fisiológicos de conjuntos neuronais. Através das novas tecnologias começou-se a perceber que a relação entre a actividade dos conjuntos neuronais do nosso cérebro e os estados psicológicos era um facto dificilmente contestável. Já não estamos no domínio do discurso teórico quando dizemos que as relações das neurociências com a ética, a estética, a moral e a epistemologia, não pertencem ao domínio da filosofia, sem demérito desta, mas sim aos intermináveis horizontes da experimentação e da procura de dados objectivos.

Muito mais poderíamos dizer à volta do que em mim criou a leitura desta entrevista de Jean-Pierre Changeux, se não corrêssemos o risco de alongar este artigo e torná-lo fastidioso. Fiquemos apenas com algumas conclusões:

A chamada epigénese, isto é, aquilo que se adquire e que se estrutura para além do que é genético, através do ambiente familiar, escolar, social, cultural e religioso vai criar na nossa organização neuronal aquilo que podemos designar por circuitos culturais. Aprendizagens que criam marcas mais ou menos profundas, mais ou menos indeléveis. Estas marcas culturais cerebrais, segundo Changeux, são muito pouco reversíveis. As bases neuronais destas diferenças culturais apenas serão reversíveis, se o forem, na geração seguinte, através da educação. Se formos capazes de entender a educação, agora digo eu, não como a construção de esquemas cerebrais irracionais, mas como processo de higiene mental do ser humano na sua mais nobre conquista, a liberdade. É por isso que é muito importante que a educação seja laica, diz novamente Changeux, permitindo a cada um ter os seus sistemas linguísticos e de crenças.

Termino, lembrando que todo o proselitismo é inaceitável, como é inaceitável chamar prosélita à magnífica função da ciência, o caminho mais racional do conhecimento para a abertura da mentalidade humana e para a conquista da verdade.
publicado por Carlos Loures às 11:00
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Domingo, 11 de Julho de 2010

Materialismo e Espiritualismo

Adão Cruz

O mal do homem não está em pensar e ter ideias, o mal do homem está em não pensar e não ter ideias.

Por isso, na sequência de um artigo anterior aqui publicado, sinto necessidade de correr um pouco mais atrás de ideias e de fazer mais algumas reflexões em relação a este tão aliciante tema. Os que acham que sou tolo e desprovido de senso têm uma solução fácil, não leiam. Mantenham as suas valiosas ideias fechadas no cofre do deixa andar e não te rales.

Costuma dizer-se que a ciência é um cemitério de hipóteses e eu concordo. No entanto, cada hipótese perdida é um degrau de acesso à hipótese situada acima, e no meio desse cemitério de hipóteses a ciência vai-se consolidando e conquistando verdades que ganham raízes bem fundas no conhecimento humano. Se, por exemplo, as conclusões de uma sonda espacial dizem que provavelmente não há água em Marte, e as conclusões de uma sonda enviada posteriormente dizem que provavelmente há água em Marte, a primeira hipótese não foi negativa nem inútil, pois sem ela, com certeza, não se chegaria à segunda hipótese.

Também a filosofia pode ser, muitas vezes, um amontoado de disparates, e não deixa de ser importante e muito útil como pré-ciência, isto é, como proposição, umas vezes credível outras não, em que a investigação científica, sem qualquer preconceito, assenta muitas vezes os pés. Veja-se, por exemplo, o caso, muito actual, de Espinosa e António Damásio.


Sempre que um assunto é complexo, temos uma tendência generalizada a abordá-lo de forma complexa, confusa, metendo os pés pelas mãos e embrulhando-nos em labirintos onde as contradições aparecem a cada esquina. Sempre me recusei a complicar ainda mais o que, com boa vontade e necessidade de aprender, pode ser analisado de forma simples, sem ser simplista e irresponsável, dentro da complexidade fenomenológica de qualquer tema. É um pouco como explicar a um doente a sua doença por mais complicada que seja. Tudo pode e deve ser explicado a um doente, conquanto o façamos com boa vontade e interesse de o esclarecer, numa linguagem que para ele seja entendível. Nunca por nunca dizer: não posso explicar-lhe porque você não entende.

Vem isto a propósito de um tema actualíssimo, um tema que nos absorve a todos nós, os que lidamos com a vida, com a ciência médica e os que consideram o pensamento como um metabolito essencial da existência. E o tema é aquilo que pode ser designado, abusivamente ou não, por “Biologia do Espírito”, isto é, a doutrina filosófica que admite como realidade apenas a matéria, negando a existência da alma e do mundo espiritual como pertencente ao sobrenatural ou ao divino. A velha questão Materialismo- Espiritualismo, em que o Materialismo não nega a existência do “espírito”, da vida dita psíquica, igual à do espírito do espiritualista. Simplesmente, ela decorre de uma complexa e ainda pouco conhecida actividade cerebral, ainda assim dificilmente contestável pela razão e pela ciência, e não de uma concepção imaterial, sobrenatural, do domínio da crença, como acontece no Espiritualismo. A matéria é a substância de todas as coisas. A geração e a degeneração do que existe, dentro do pensamento racional, obedecem a leis físicas. A matéria encontra-se em permanente transformação, faz parte da natureza e obedece às suas leis.

Já aqui falei, em artigo anterior, de Thomas Insel, mais conhecido por Tom Insel. Tom Insel dirige, desde 2002, a maior agência de financiamento público da investigação em saúde mental do mundo: os National Institutes of Mental Health (NIMH) dos EUA, com um orçamento anual de 1500 milhões de dólares. Psiquiatra de formação, Insel já foi investigador - estudou a neurobiologia e a genética de comportamentos complexos, como o amor e os laços sociais -, mas agora diz que o seu papel consiste em "falar sobre maneiras radicalmente diferentes de pensar a doença mental" para fomentar a "inovação disruptiva" nesta área.

E ele diz peremptoriamente: “A menos que levemos em conta a biologia das doenças mentais, não há tratamento para essas doenças. Para se conseguir um dia diagnosticar a tempo e tratar eficazmente as doenças mentais vai ser preciso encará-las, não como doenças puramente comportamentais, mas como doenças cerebrais, abrindo assim a psiquiatria às neurociências e à genética”. Por isso, diz ele, a tendência hoje é acabar com a distinção entre disciplinas como psiquiatria e neurologia e fundi-las naquilo que podemos designar por Neurociências.

As lesões em muitas doenças, ditas orgânicas, como o cancro da mama ou um enfarte do miocárdio são visíveis, palpáveis, objectivas, noutras nem tanto, é necessário recorrer a análises sofisticadas e marcadores indirectos. Nas doenças cerebrais, também há lesões que são facilmente observáveis do ponto de vista orgânico e que levam a doenças mentais, de cuja origem na lesão detectada ninguém duvida. Mas as doenças mentais propriamente ditas causam alguma perplexidade quanto à sua natureza física e material, pelo simples facto de não vermos e de não conhecermos, por enquanto, a lesão ou alteração que está na sua origem. Mas, a despeito do muito que já se sabe neste campo, será lógico pensar que há uma alteração funcional, uma ou várias lesões celulares, uma ou várias alterações dentro dos milhões de neuro-transmissões do complexo mundo neuronal do nosso cérebro, igualzinho no materialista e no espiritualista, responsável quer no materialista quer no espiritualista, por toda a nossa vida psíquica, por todos os nossos pensamentos, emoções, sentimentos e afectos. Responsável por toda a nossa vida global, pelo todo da nossa vida, por mais que a queiramos cindir, fatiar e hipotecar ao que quer que seja.
publicado por Carlos Loures às 22:30
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