Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

Sobre as avaliações, sobre os rating, sobre os professores no reino da Numerolândia, no reino da Eurolândia, no reino da AQ17PAH. - por Júlio Marques Mota

 

Em tempos idos  pensava que o neoliberalismo  não avançava tão rapidamente na sociedade portuguesa como o está a fazer actualmente  no ensino, mesmo quando o sistema dá sinais evidentes de estar quase defunto. Feita  a reforma do ensino superior, dita reforma de Bolonha, pensava eu, ingenuamente,  que algum pudor haveria em avançar com mais reformas antes de estabilizar esta  e portanto que se passaria primeiro por uma análise em profundidade desta reforma,  na óptica de quem a lançou no terreno, neste caso na óptica de Mariano Gago e de quem   o acompanha, de quem o defende,  de quem  o serve ou de quem é obrigado a servi-lo. Mas não, mais uma vez me enganei. O ritmo de reformas avança, e agora é a avaliação dos docentes que avança, é o sentido da classificação,  da quantificação da qualidade que se pretende, pretende-se assim o impossível  mas como não é crível que intelectuais e técnicos assumidos andem a trabalhar para querer o que toda a gente sabe que é impossível, então o objectivo é outro,  para mim é certo de que  o que se pretende é garantir, agora ou depois, um certo  ritmo da desclassificação, um certo ritmo de redução de custos.  De resto, agora nem  sequer se fala em promoções. Então avalia-se para quê? Alguém é capaz de me dizer? Penso ter razão e, se  assim é, ninguém mente  pois nos tempos  de crise que se vivem   em que todos os cofres estão vazios,  promover, significa agora despromover, e é disso que se anda à procura.  Evita-se a mentira de o dizer.

 

 

publicado por Carlos Loures às 17:00

editado por Luis Moreira às 15:42
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Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

Reflexões sobre a economia global em crise: migrantes, cidades, mercados, governação

O grupo de docentes da FEUC dinamizador e organizador do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, este ano intitulado Reflexões sobre a economia global em crise: migrantes, cidades, mercados, governação, vem com o presente texto dar a conhecer o programa da primeira sessão do Ciclo com o tema específico Para uma redefinição da união económica e monetária europeia: da crítica dos seus fundamentos à crítica da crise actual e que se realizará nos dias 10, 11 e 12 de Outubro de 2010. Aproveitamos ainda para expor algumas das razões que levaram a optar por este tema logo na sessão de abertura.

Esta sessão tal como é habitual, incluirá conferências e a projecção de um filme/documentário. Quanto às conferências, o leque de temas e de conferencistas fazem com que desta vez haja dois painéis em dias diferentes, um no dia 11 de Outubro, Segunda-feira, e o outro no dia 12, Terça-feira. Ambos os painéis decorrerão na sala Keynes, na Faculdade de Economia, às 15 horas. Estarão presentes, Achim Truger, (Dusseldorf), Andrew Watt (Bruxelas), Mário Nuti (Roma), François Morin (Toulouse), Javier Navascués (Sevilha), John Grahl (Londres), José da Silva Lopes, João Ferreira do Amaral, José Reis, João Sousa Andrade, Adelino Fortunato. Em relação ao filme/documentário, foi escolhido O Cerco - a Democracia nas malhas do neoliberalismo, de Richard Brouillette, Canadá, 2008 (legendado em português). A extensão do filme leva a que seja projectado em duas partes, a primeira no Teatro Académico de Gil Vicente, no dia 10 de Outubro, Domingo, pelas 21h e 15min, enquanto a segunda será na Faculdade de Economia, no Auditório, no dia 12 de Outubro, Terça-feira, pelas 10 horas.

Com esta sessão, pretendemos colocar no centro do debate a crise económica actual e, com ela, os contornos específicos que esta assume na união económica e monetária europeia, os fundamentos desta e os limites da sua própria construção. Porque inerente a este debate, discutir-se-ão também as respostas da União Europeia à crise, respostas estas que se têm caracterizado pela sua submissão à tirania dos mercados (monetários e financeiros), para utilizar a feliz expressão de Henri Bourguinat utilizada já há quase quinze anos. A partir daqui, analisar-se-ão igualmente vias alternativas de se enfrentar a situação presente.

A submissão à ditadura dos mercados não é nem política, nem económica nem socialmente aceitável e o seu rasto de destruição maciça é bem evidente na queda de produção, do investimento produtivo, no aparecimento de milhões de desempregados de curta e de longa duração e pior ainda, como assinala a OCDE e a OIT, na criação de uma geração perdida para o mercado de trabalho, perdida para a sociedade, a dos jovens de hoje entre os 16 e os 24 anos. Vale a pena então perguntar: o que está por detrás de tudo isto? Para quê tudo isto?

A realidade actual impõem assim que se faça um verdadeiro debate democrático quando às opções de política económica possíveis. Como se assina num recente manifesto intitulado “Os Economistas Aterrados”, lançado em França:

A maioria dos economistas que intervêm no debate público fazem-no para justificar ou racionalizar a submissão política aos requisitos dos mercados financeiros. O programa neoliberal continua ainda a ser o único reconhecido como legítimo, apesar dos seus falhanços bem evidentes.

Como economistas, estamos aterrados ao ver que essas políticas ainda estão na ordem do dia e que os seus fundamentos teóricos não estão a ser postos em causa. Os argumentos avançados desde há trinta anos para orientar as escolhas das políticas económicas europeias estão postos em causa pelos factos. A crise pôs a nu o carácter dogmático e injustificado da maior parte das pretensas evidências repetidas à saciedade, ad nauseam, pelos decisores políticos e pelos seus assessores. Quer se trate de eficiência e da racionalidade dos mercados financeiros, da necessidade de reduzir as despesas públicas para reduzir a dívida ou para reforçar o "Pacto de Estabilidade", devem-se questionar estas falsas evidências e mostrar a pluralidade de escolhas possíveis em política económica. Outras escolhas são possíveis e desejáveis.

Neste sentido, o grupo de docentes responsável pelo Ciclo de Cinema Debates e Colóquios na FEUC decidiu assim iniciar o Ciclo no presente ano lectivo com um debate alargado, que se quer profundo, sobre a União Europeia, sobre os seus fundamentos, o seu modelo económico, as suas opções presentes de resposta à crise económico-financeira. Em suma, perguntar então: o que está por detrás de tudo isto? Para quê tudo isto?
Perguntas que devem ser feitas, respostas que devem ser discutidas na Faculdade de Economia e no Teatro Académico de Gil Vicente, nos dias 10, 11 e 12 de Outubro (para mais pormenores ver programa abaixo).

A importância do tema e os conferencistas justificam a sua divulgação e a presença também, razão pela qual estou a dar conhecimento desta iniciativa e para a qual conto com o seu apoio.


Pela Comissão Organizadora


Júlio Marques Mota
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Auditório, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra Documentário: O Cerco - a democracia nas malhas do neoliberalismo (2.ª Parte)

Debate com François Morin, Javier Navascués, John Grahl


15 horas

Sala Keynes, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

François Morin: Finança global, Europa e cenários de saída da crise

John Grahl: A União Europeia e a crise financeira

Javier Navascués: Problemas e saídas para os países da periferia da UE: uma visão a partir de Espanha

Comentários de José da Silva Lopes e Adelino Fortunato

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publicado por Carlos Loures às 19:30
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Sábado, 24 de Julho de 2010

Reflexões sobre Bolonha-2

Júlio Marques Mota*


(Continuação)

A reforma de Bolonha é ela desde o seu princípio inscrita na mesma lógica de redução de despesas e do papel do Estado, mas tal como com a crise, o melhor é pensar que se algo está mal na Universidade está algures e não na reforma de Bolonha imposta pelo neoliberalismo, não no sistema que gera a situação de crise económica ou no sistema que gera a crise dos saberes e das aprendizagens. De novo a analogia da eficiência dos mercados financeiros com Bolonha é imediata. Que sentimos nós com estes três anos de Bolonha? Que trabalhamos muito mais, mas mesmo muitíssimo mais, e com uma certeza, ensinamos muito menos e os estudantes, esses, inegavelmente aprendem muito menos. Ensinamos menos. É então disso que se deve falar. E a que assistimos nós? À discussão sobre a aplicação de novas metodologias dentro de Bolonha, ou então à discussão sobre a reestruturação dos saberes, antes de se definir de que saberes é que estamos a falar ou, ainda melhor, de que aquisição de saberes é que queremos para os filhos deste país. Tal como na crise, estamos a passar ao lado do que é fundamental e, neste caso, pensamos que o que é urgente é a desconstrução da reforma de Bolonha. Só assim, cremos, se pode redefinir a Universidade de hoje para um melhor ensino de amanhã. Aproveito então para apelar que se faça e com urgência uma profunda reflexão sobre os impactes da reforma de Bolonha na qualidade do ensino que hoje é prestado nas Universidades.


Adicionalmente, devemos encarar a hipótese de que Bolonha seja em si um absurdo se considerarmos que as sociedades modernas são cada vez mais globais, estão cada vez mais assentes no conhecimento de que emergem a seguir as competências. Bolonha inverteu a lógica do conhecimento e da aprendizagem. A redução de Bolonha a um nível de três anos (a licenciatura) depois mais dois (mestrado) e eventualmente mais três (doutoramento) é caricata e vejamos porquê. Bolonha, inicialmente falava de dois níveis de ensino. Vejamos então um excerto do texto da Convenção de Bolonha:

“Adopção de um sistema baseado essencialmente em duas fases principais, a pré-licenciatura e a pós-licenciatura. O acesso à segunda fase deverá requerer a finalização com sucesso dos estudos da primeira, com a duração mínima de 3 anos. O grau atribuído após terminado a primeira fase deverá também ser considerado como sendo um nível de habilitações apropriado para ingressar no mercado de trabalho Europeu. A segunda fase deverá conduzir ao grau de mestre e/ou doutor, como em muitos países Europeus”.

Então Bolonha propõe, e o texto é claro: “O grau atribuído após terminado a primeira fase deverá também ser considerado como sendo um nível de habilitações apropriado para ingressar no mercado de trabalho Europeu”. Propõe que, em vez de um ensino em profundidade, com uma base de conhecimentos que permitam com pouco custo a sua renovação ao longo do tempo, ao longo da vida, e que hoje necessariamente deveria ser assim, se faça um ensino com base em formações curtas, em formações profissionais facilmente desvalorizáveis. No primeiro caso, o do ensino em profundidade, há uma exigência, a de os estudantes que aprendem a saber, aprendam também a rapidamente serem capazes de fazer, e há também uma certeza, a de que o saber teórico tem também uma eficácia na prática. Por outras palavras, não há competências se não houver conhecimento . Conhecer é o dado fundamental para se aprender a fazer, para se adquirirem competências. Bolonha, em vez disso, vem inverter a situação: primeiro, o saber fazer, depois o aprender a saber, a conhecer ! O drama é que esta segunda fase é diminuída pela pressão da primeira e depois, num país de fracos recursos, ou não se tenta a segunda ou, quando se tenta, para muitos deles, já é tarde, muito tarde mesmo. Por isso, muitos dos efeitos nefastos de Bolonha são irreversíveis, marcam a geração que os sofre e que com eles foi criada. Bolonha esquece e com ela grande parte dos professores que esse esquema defendem, que o saber , enquanto que abstracto, teórico, é também saber gerador de eficiência, é saber gerador de capacidades para na prática trabalhar com os dados da realidade e de ser capaz de a transformar. Bolonha ignora que não há competências ganhas fora do conhecimento, do saber. Por isso há quem diga que Bolonha não é só a inversão dos planos é também a inversão de funções, uma vez que faz das Universidades apenas apêndices das empresas. Para os críticos de Bolonha, entre os quais me situo, as Universidades têm como missão a de ensinar a aprender, enquanto as empresas tem uma outra função, complementar, que é a de ensinar a fazer. Creio mesmo que agora até há Universidades ou Faculdades que agora fazem essa função das e para as empresas, relegando nas suas funções o ensino de construção reconstrução da formação intelectual e técnica de base, das suas licenciaturas. Aqui e de novo, mais uma confusão de papéis: as empresas são insubstituíveis nesta função, a de ensinar a fazer.

Aliás, há dias numa troca de correspondência com Martin Wolf , a propósito de um seu artigo, pedi-lhe a demonstração de uma das suas conclusões e a razão era muito simples: não tinha dúvidas quanto ao que ele afirmava, mas queria passar o seu texto aos meus alunos e fazê-lo só tinha sentido se estes fossem capazes de reconstruir, desde a base, o seu raciocínio, o raciocínio do autor. Essa é a função também do professor e, como tinha dúvidas sobre a via que este tinha seguido e quanto à referência bibliográfica utilizada, solicitava que me esclarecesse. Mas isto não tem nada, mas nada a ver com formação profissional, ainda por cima, com as formações curtas agora aplicadas, tem a ver sim, com o sentido de Universidade. De uma outra maneira, tem a ver com a criação de inteligência e essa, que me desculpem os arianos deste país, também se “produz”, desde que dêem às Universidades, os meios financeiros porque os meios os humanos, os professores, e “a matéria-prima”, os alunos, para a sua “produção” tudo isto existe mas agora, a degradar-se pela má utilização, pela má definição dos objectivos que são inerentes a Bolonha.

Mas levemos a lógica um pouco mais longe, não é preciso muito: como é possível ter ciclos de mais dois anos e com muita qualidade, também eles curtos em horas de ensino, pois os alunos até já são mestres, se não pode haver ensino de profundidade dado o nível de saída do primeiro ciclo, a licenciatura, e dado o pouco tempo de que se dispõe, menos que antes, quando a base de partida era muito mais sólida em conhecimentos e em maturidade. Questão tanto mais enigmática quando uma regra de ouro preside a todo o ensino: só se ensina, de facto, o que alunos estão em condições de poder aprender. Por isso, duas perguntas aqui deixo: qual a filtragem na saída no primeiro e no segundo Ciclo, qual a filtragem na entrada para o Ciclo seguinte? Respostas difíceis, porque agora, em diversas Faculdades, as pautas já não são públicas, cada aluno recebe apenas por email a informação da sua nota e apenas da sua, como se o aluno na sua relação com a sua faculdade não seja membro de um colectivo, em que neste assume particular relevo a sua inserção nas turmas de que fez parte, e que agora, na lógica do neoliberalismo e do individualismo que o caracteriza, deixa de existir e passando a ser proibido que o aluno nesse colectivo se reveja.

É por estas razões que não vejo saída da crise no quadro do modelo que ampliou a crise no ensino em Portugal: o quadro de Bolonha.


Nesta linha, tomo a liberdade de aqui colocar alguns pequenos textos meus em que expressei o que ia pensando e sentido com a reforma de Bolonha. São textos despretensiosos, feitos na urgência dos sentimentos nos momentos em que foram escritos e nada mais do que isso. Assim, em anexo, junto aqui os seguintes textos:

(1) Uma reflexão sobre a reforma de Bolonha, antes de esta começar a ser aplicada. Será curioso questionar a realidade de hoje com o que aí se afirma. Texto inserido como Nota Prévia de um texto de apoio à disciplina de Economia Internacional de que sou o autor.

(2) Excerto de uma carta enviada a um antigo ministro da tutela do Ensino Superior e grande especialista em questões de ensino.

(3) Pequeno texto enviado à direcção do jornal Público.


(Continua)

* Docente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 15

Carlos Leça da Veiga

A educação e a cultura, por força das exigências orçamentais exógenas já nem sequer conseguem satisfazer a modéstia dos objectivos constitucionais portugueses. Na realidade, a Constituição da República Portuguesa, nos números 2 e 3 do seu Artigo 73º, mostra a sua indigência ao bastar-se em só falar que “O Estado promove a democratização da educação …..” e, também, que “O Estado promove a democratização da cultura….”. Assim com a pobreza duma simples promoção, para mais a cargo de incertos, a Lei Fundamental, lamente-se, não vai, como devia, ao ponto de apresentar-se com a determinação estratégica declarada, firme, resoluta, prioritária e impositiva de obrigar-se a provocar, incentivar e ampliar as políticas públicas de educação e de cultura que essas sim, mais que quaisquer outras, estão aptas a suscitar os melhores ímpetos democráticos da população e uma predisposição adquirida para a inovação, logo para o desenvolvimento. Estar-se-á a viver melhor?

Outro aspecto, impossível de deixar de acrescentar-se á lista das más consequências sociais das políticas parlamentares e governativas em curso corrente é o da fragilização dos serviços públicos de saúde. Como os seus tradicionais mas, ressalve-se, inevitáveis défices financeiros teriam de ter repercussão muito negativa, com significado amplo no aumento do orçamento das contas públicas, o que a União Europeia não autoriza, a solução é a de entregar instituições de acção médica, tanto hospitalares como ambulatórias, aos interesses dos grupos económicos privados e, deste modo, o Governo não só alivia o défice das contas públicas como considera ter realizado mais uma das suas tão exaltantes e exaltadas reformas sociais. Abandonar as suas responsabilidades, como está a acontecer, é querer regressar a tempos político-sociais já imemoriais. A doença, como é bem sabido, para além do sofrimento causado, nunca deixou de ser um indesejável dispêndio financeiro a tal ponto que, na gíria popular portuguesa, sempre foi dito que em caso de doença vão-se os anéis mas ficam os dedos. É uma sentença que nada significa para quem dirige a tutela nacional da Saúde e um desrespeito pela tradição cultural nacional, muito mais solidária com o sofrimento que quanto qualquer Governo exibe. Muito mais que impedir-se a satisfação imensamente necessária duma exigência básica da população, tem sido manifesta a insensibilidade governamental e legislativa para, por um lado, impedir que as instituições públicas de saúde, nos seus vários níveis de intervenção, deixem de estar habilitadas a dar respostas, cabais e atempadas, à generalidade dos cidadãos que, assim, têm de fugir para os serviços privados como, por outro lado, permitem dar azo a que essas instituições públicas – na sua generalidade – não alcancem um bom nível de aperfeiçoamento na prestação das suas actividades de assistência, de docência e de investigação, designadamente, aquelas indispensáveis nos hospitais públicos nacionais tornados, por fim e por consequência da má política, em organismos cientificamente muito menos diferenciados de quanto, indubitavelmente, podem sê-lo. Deste modo, por força da redução obsessiva da despesa do estado, que a Europa de Bruxelas não deixa de exigir, as carências do sector evidenciam-se, as suas equipas de gerência exorbitam numa tecnocracia despropositada e desumanizada, há uma desorganização profissional consentida, há uma insatisfação laboral sentida e, como assim, não só ficam abertas as portas aos negócios rendíveis dos hospícios privados como, também, as instituições públicas de saúde ficam impedidas de desempenhar, com a diferenciação sucessivamente mais exigível, o seu exercício nas áreas das educações técnica, científica e humanista do pessoal das várias profissões que integram o sector público da saúde. Estar-se-á a viver melhor?

Outro problema de gravidade extrema e, também, conexo com os anteriores, é o da sobrevivência dum sistema judicial muito mais lento do que quanto a imaginação possa conceber e, regra geral, processualmente incapacitado ou deformado para possibilitar a apresentação, em tempo oportuno, de resultados animadores sobre a sua qualidade. Sem Justiça célere e sem o resguardo convincente da boa qualidade das garantias processuais, nenhum Estado consegue vingar. A Justiça tem de deixar de estar conspurcada, como está, pelo imiscuir impróprio, das outras funções do Poder do Estado, as Legislativa, Executiva e Presidencial que, ao arrepio do mais exigível, a Constituição continua a permitir. Entre nós, a sombra da justiça está tornada tão escura que nela a população tem visto esconderem-se com facilidade, sob pretextos processuais, uma variedade de irregularidades em cujos envolvimentos figuram demasiadas personalidades, regra comum, apontadas como, diz-se, serem peças preponderantes da organização económica, financeira e política nacional. Assim, como as coisas estão, estar-se-á a viver-se melhor?


Quanto ao funcionamento do aparelho estatal só pode dizer-se ser reconhecido como muito deficiente, claramente serôdio e, também, bem pode acusar-se de estar bem armadilhado seja por interesses inconfessáveis, seja por uma burocracia tornada muito conveniente para as facilidades a quem, bem colocado, espera poder contar com elas e fazê-lo tanto em seu favor como, por igual, para prejuízo de eventuais concorrências. É uma máquina complicada, pesada, dispendiosa e morosa que emperra, desmotiva ou liquida iniciativas produtivas, porquanto, na prática, com satisfação para os maiorais do capital de fora e de dentro, acaba por ajudar a desempenhar-lhes, sem sujarem as mãos, o papel interesseiro e discriminatório que, no salazarismo, cabia ao ferrolho do condicionamento industrial. À medida que a doutrina neoliberal de “menos estado” vai avassalando a sociedade, o estado abandona, por negócio – mau negócio – os seus empreendimentos e os seus consequentes resultados de exploração. O aparelho estatal perde o que restar-lhe-ia de serviço público com utilidade reconhecida para cingir-se a ser um mero aparelho burocrático substancialmente virado, directa ou indirectamente, como convêm ao neoliberalismo, para a prática dos labirintos escuros da burocracia e, sobretudo, das exacções fiscais sobre as pessoas singulares e colectivas. A burocracia, na senda das malfeitorias asfixiantes e omnipresentes impostas por Bruxelas, passa a ter, como nunca, apenas, o valor duma arma repressiva face aos cidadãos aos quais já só sabe impor-lhes alcavalas para salvaguarda do estado, já que a decrepitude da economia e dos seus correspondentes contributos fiscais, para encontrar alguma compensação, necessita de recursos financeiros que, qual xerife de Nothingam, sob a permissão do parlamento, a fiscalidade governativa extorque ao cidadão contribuinte. Viver-se-á melhor?

Não menos importante que as acusações anteriores há, também, a permanente insuficiência do investimento na investigação científica, uma actividade estratégica nacional que não pode compaginar-se com aumentos tímidos com cujos, não haverá qualquer progresso sustentável. As restrições financeiras estatais que as determinações alienígenas de Bruxelas não dispensam sejam feitas, antes forçam, tomam a dianteira e emperram o sector da investigação pelo que este bastião do desenvolvimento fica muito limitado na sua manutenção e, sobretudo, no crescimento do capital mais precioso de que o país necessita que é, bem sabido, a sua massa crítica. A teoria que determina a sujeição da investigação científica às supostas necessidades da economia é mais outra evidência da ingerência das forças do mercado, das internas mas, sobretudo, das externas, em desfavor duma investigação científica praticada, no mais essencial, ao sabor das necessidades inerentes do saber que este só por si, permite proporcionar. Estar-se-á a viver melhor?

Também, mais outro aspecto concreto da vida portuguesa e que merece reprovação sentida é a aceitação pelas autoridades da farsa e do negócio vergonhoso das formações profissionais, vulgo novas oportunidades, sem mérito técnico-científico que a própria União Europeia, sempre ela, não só promoveu – o prato das lentilhas tinha de ser grande e alargado – mas a que, por igual, soube fechar os olhos. Basta-lhe alimentar uma multidão de formadores, quantos sem formação – mais outros rapazes de Bruxelas – e, também, como expediente pouco abonatório, conseguir disfarçar o volume do contingente dos desempregados. Os resultados conhecidos e sentidos da formação profissional, em conjunto com os das demais deficiências e insuficiências nacionais não são nada animadores. Viver-se-á melhor?

Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril, servindo-se das portas abertas por esta data ilustre da História nacional, só quem, desde então, tem imposto o percurso histórico dos portugueses é que, pelo certo, pode vislumbrar e proclamar que o viver dos portugueses tem melhorado. Para encostar à parede essa legião de energúmenos ter-se-á de perguntar-lhes se, alguma vez, o país já esteve tão próximo do precipício. Estar-se-á a viver melhor?

Por fim, como mais um exemplo obrigatório de condenação veemente, é a manifesta e permanente impossibilidade de não conseguirem ser detectadas, impedidas e punidas as negociatas chorudas e escuras, sucessivamente trazidas a público que, para mais e por fim, quantas das vezes, cúmulo dos cúmulos, os prejuízos financeiros causados pelas suas tratantadas acabam ressarcidos, por ordem do Executivo Nacional, forte descaramento, à custa do dinheiro dos contribuintes. Estar-se-á a viver melhor?

É bem conhecido que há quem queira tentar tapar o Sol com uma peneira e, como assim, mercê da alienação semeada, tente abrir caminho para que a população portuguesa aceite a adopção passiva, pacifica, sem sobressaltos, sem reclamação, com indiferença plena e sem qualquer referendo a aceitação dum estatuto constitucional europeu destinado a roubar o pouco que já resta da Independência e da Soberania Nacionais. Ficar-se-á a viver melhor?

Se desde a chegada ao governo do cavaquismo que o retrocesso económico, cultural e social dos portugueses, paulatinamente, não parou de avolumar-se – a fachada não basta para fazer o edifício – o socratismo, com a sua pequenez cultural, a sua pobreza intelectual, a sua pesporrência incontida e uma subserviência evidente aos ditames do capitalismo burocrático neoliberal, limita-se a reforçar as malfeitorias herdadas, uma coisa feita à custa da encenação saloia do seu triunfalismo bacoco que, a todo o instante, perante o espanto generalizado, tal o desaforo, anuncia vencer todas e quaisquer deficiências das muitas sentidas pela população. De vitória em vitória, até à derrota final. De promessa em promessa ate à mentira final! Um desemprego como nunca houve é toda a resposta que os próceres do regime podem dar.

Viver-se-á melhor?
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Domingo, 9 de Maio de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 1

Carlos Leça da Veiga


O que leio e ouço na comunicação social; a censura só mudou de traje!

Na realidade, no viver cultural, social e político português, são de sobra os escritos estritamente políticos vindos à luz do dia que, quase sem excepção, não passam de meras caixas de ressonância dos vários directórios partidários ou, pressente-se, têm o visto favorável dos grupos económicos decisores.

As suas essência, mira e alcance – permito-mo dizê-lo – nada têm de feliz, bom grado terem a chancela de políticos ditos de nomeada ou, também, a de comentadores considerados de vulto, uns e outros, conhecidos como profissionais do ofício político com emprego destacado tanto no sector institucional público, nele incluso o partidário, como, também, no empresarial privado sem que neste deva esquecer-se e destacar-se, por entre tantos escribas em actividade, aquele grupo imensamente prolifero, o jornalístico, que – salvam-se as excepções honrosas – não prima por impor a sua necessária autonomia e, como assim, dada a sua responsabilidade pública, não é exemplo duma boa cidadania.

Uns e outros, tantos e todos com estatuto de notabilidade mas, salta à vista, com a necessária e manifesta subserviência ideológica, têm de viver – raríssimos não o farão – no resguardo duma mesma sombra de protecção, sombra que, a qualquer instante, poderá faltar-lhes caso as baias impostas por esse poder, o «poder invisível» apontado por Norberto Bobbio, reajam com desagrado bastante – um desagrado temível e terrível – a qualquer temática menos conforme as intenções fundamentais do «Grande Irmão». Quem quer que seja, dentre quantas figuras a comunicação social tenha promovido à categoria de notável, “muito democraticamente” será levada a sair de cena caso possa atribuir-se-lhe o azar dum qualquer deslize doutrinário, a infelicidade duma falha reverencial, o menosprezo por alguma figura cimeira, um panegírico menos encomiástico, uma explicação politica menos conseguida, uma qualquer pouco convincente, seja o que for, porém, quanto baste para, num mínimo, mesmo sem acinte, poder ofuscar, prejudicar ou obstar à manobra do sistema económico-politico reinante.

Acima de tudo exige-se aos fabricantes da opinião pública que nunca deixem de glorificar as virtudes do mercado, do seu fundamento neoliberal e dos seus valores sacrossantos.

A doutrina em curso – oficiosa como terá de ser – manda que todo o procedimento político, nele subentendido qualquer comentário ou opinião, para poder ser rotulado como responsável, credível e recomendável tem de ser realizado conforme os ditames pressupostos pelo tal poder invisível (mas que, como muitos o sabem, não custa a apontar-se) e deverá pautar-se, com obediência plena e com rigor muito cuidadoso, por coisas mínimas como sejam as de estar-se atento aos pressupostos mais recomendados para, de facto, sine qua non, conseguir subir-se na vida.

Entre esses pressuposto, há exemplos a não esquecer, seja na escrita, seja no discorrer e, como assim, torna-se fundamental a inclusão de algumas passagens que são chave decisiva para as bênçãos da situação política em curso. Assim, dentro esses exemplos, para além dum acendrado e bem demonstrado compromisso com discurso ianque do anti terrorismo – recorde-se o “acendrado patriotismo” tão citado nos tempos salazaristas – há outras certas frases absolutamente necessárias, dum escrúpulo respeitoso e que poderão ser, «na União Europeia tem de ser deste modo», «Bruxelas decide e bem», «conforme a civilização ocidental», «de acordo com a democracia representativa» «a administração norte-americana salvaguarda», «firmeza e prioridade no combate antiterrorista», «as virtudes excelsas do mercado», «o alcance histórico do tratado de Lisboa», «os grandes valores da democracia», «nada melhor que a flexisegurança», «bem vindo o tratado constitucional europeu», «a retoma económica não terá grande demora», «a crise económica em Portugal é um reflexo da internacional» e, amiúde, nunca esquecer de referir «os direitos humanos», em particular na sua mais recente interpretação ianque, Guantanamo inclusive.

Como convêm, como muito convêm, para conseguir revelar ter-se um situacionismo indefectível – sejam quais forem os seus próceres – nunca deixar de inquirir-se, sobre quem quer que seja, «se é dos nossos» ou elucidar «que é dos nossos», todo e qualquer que dê nas vistas para, se o não for, de imediato, passarem a encomendar-se e a ouvirem-se os desagrados indispensáveis. Com efeito, disso não deverá haver dúvidas e, também, não parece nada exagerado, é ter de reconhecer-se que, entre nós, nos tempos que correm, todo o poder está nas mãos da hipocrisia, uma coisa malsã alimentada às mãos cheias por obra dos maiorais da alienação política partidocrática, da subserviência aos ditames do exterior e da aculturação alienígena do que, no seu conjunto, são intermediários destacados!
publicado por Carlos Loures às 21:43
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