Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Manuel da Fonseca, um grande poeta português, no Terreiro da Lusofonia. O Adriano Correia de Oliveira também veio

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Loures

 

 

 

 

Na voz de Adriano Correia de Oliveira, escutámos um poema de Manuel da Fonseca – «Tejo que levas as águas» («Poemas para Adriano». 1972), com música do próprio Adriano.

 


Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém em 1911 e faleceu em Lisboa em 1993. Fez parte do grupo do «Novo Cancioneiro». Na sua valiosa obra destacam-se-se «Rosa dos Ventos», uma colectânea de poemas, (1940), o livro de contos «Aldeia Nova»(1942), «Fogo e as Cinzas» (1953) e os romances «Cerromaior», «Seara de Vento» (1958), «Poemas Dispersos» (1958). É considerado uma das figuras cimeiras do movimento neo-realista. No entanto, na sua escrita, particularmente na poesia, existem ressonâncias de um gongorismo que o aproxima de Federico García Lorca e mesmo dos poetas surrealistas.

Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta instituição atribuiu o Grande Prémio da Novelística a Luandino Vieira pelo seu livro «Luuanda», facto que determinou o encerramento, por parte das forças policiais, da SPE (que viria depois a ser refundada sob a designação de Associação Portuguesa de Escritores).

Dos seus «Poemas Dispersos», escolhemos este:

Solidão

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!

Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)

 


Este "post" foi elaborado pelo Carlos Loures, que o inseriu no Estrolábio em 10 de Julho de 2010. Reproduzimo-lo hoje, no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do Manuel da Fonseca.

publicado por João Machado às 16:00
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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Luiz Pacheco - Um libertino passeia pela vida - 4 - por Carlos loures

(Continuação)

 

O Caso do sonâmbulo chupista, logo seguido pelos «Clandestinos».

Pacheco acusara Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», a «Aparição» de Vergílio Ferreira. A acusação dá lugar a uma acesa controvérsia. Namora ameaça-o com um processo (mais um!). Em «O caso do sonâmbulo chupista», Pacheco faz uma pormenorizada comparação entre os dois romances onde destaca o, quanto a ele, descarado plágio, «uma grande filha-de-putice», como diz numa entrevista para a televisão. Noutra entrevista a Guilherme Pereira, diz: «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura…» Acrescente-se que Pacheco abomina o neo-realismo e que, para ele, Fernando Namora é um paradigma de escritor neo-realista. Aliás, Pacheco não tem em grande conta o chamado meio literário. Numa entrevista de Guilherme Pereira diz: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. , andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.»

Em 1972, Namora lança um novo romance «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria que a editora tem na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.

- Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Com a sua egocêntrica tagarelice Lyon de Castro continua, dizendo algo que repetira já a numerosas pessoas: - Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… - por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto – Ah sim?  Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Naturalmente que se tratou de uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zanga-se com o editor e passa a ser autor da Bertrand.

Como conheci Pacheco


 

 

 

publicado por Carlos Loures às 02:00

editado por Luis Moreira em 10/01/2011 às 00:55
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

João Machado

 

 

Álvaro Feijó, de seu nome completo Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó,  nasceu em Viana do Castelo, em 1916. Morreu em Coimbra em 1941, vítima de tuberculose. Oriundo de famílias de estrato social elevado, era estudante de Direito na capital do Mondego. Desde a adolescência que praticava a poesia, sem dúvida que sob a sob a influência do tio-avô, o diplomata e poeta António Castro Feijó. A influência romântica, com relevo para António Nobre, terá sido grande na sua obra. O conhecimento da vida e da sociedade fez-se sentir decisivamente na sua obra, apesar de tão curta, e fê-lo aproximar-se do neo-realismo. Publicou Corsário, em 1940. Os Poemas de Álvaro Feijó integraram o Novo Cancioneiro, tendo sido publicados em 1941, poucos meses depois da sua morte. Leiam a seguir dois poemas deste poeta que foi tão significativo, apesar da sua vida tão breve:

 

 

 

publicado por João Machado às 23:55
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Domingo, 2 de Janeiro de 2011

Políbio Gomes dos Santos







Políbio Gomes dos Santos
(1911-1939)
Voz Que Escuta

João Machado


No corrente ano de 1911 faz cem anos que nasceu Políbio Gomes dos Santos. No mesmo ano nasceram Manuel da Fonseca e Alves Redol, conforme já foi lembrado aqui no VerbArte. Políbio Gomes dos Santos faleceu em 1939, de tuberculose. No mesmo ano concorrera aos Jogos Florais Universitários de Coimbra, vencendo o prémio António Nobre, com um volume de poemas que mais tarde foi incluído no Novo Cancioneiro, e publicado em 1944. Esse volume tomou o título de Voz Que Escuta, de um dos poemas nele incluídos. Políbio Gomes dos Santos publicara anteriormente, em 1938, As Três Pessoas, outro livro de poemas, que Alexandre Pinheiro Torres, na apresentação que faz do poeta e da sua obra, incluída na edição da Caminho do Novo Cancioneiro saída em 1989, considera indispensável ler para se poder apreciar inteiramente o segundo volume da obra.
Apresento-vos a seguir Poema da Voz Que Escuta, para recordarmos Políbio Gomes dos Santos e a sua obra, neste ano em que se completa o centenário do seu nascimento:
Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
publicado por João Machado às 23:55
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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

O meu amigo Romeu Correia



Carlos Loures

A revista “Nova Síntese” (Edições Colibri), publicou no seu número 4, dedicado ao tema “O rural e o urbano no neo-realismo”, um texto do Professor Alexandre Castanheira, com o título “Romeu Correia, um neo-realista esquecido”. O texto começa com uma citação do crítico literário João Gaspar Simões que, no jornal Sol de 21 de Maio de 1949, dizia sobre “Trapo Azul”, o romance de estreia de Romeu Correia: «Um jovem cheio de talento que insuflou ao “neo-realismo” decrépito uma vida que o “neo-realismo” nunca tivera entre nós».


Não vou referir-me hoje ao magnífico texto de Alexandre Castanheira, nem dissecar esta precipitada notícia necrológica de Gaspar Simões, crítico inteligente, mas controverso, que considerava decrépito um movimento que ainda mal ensaiara os primeiros passos. Basta consultar as datas de publicação de grandes obras de Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, para verificar que as grandes obras do neo-realismo não tinham ainda sido publicadas em 1949. Mas o texto incentivou-me a escrever hoje sobre Romeu Correia.



Conheci-o pessoalmente pelo final dos anos 50, acabara de publicar a sua peça “Sol na Floresta”. Travámos uma amizade duradoura, embora nunca nos tratássemos por tu (era quase da idade do meu pai). A verdade é que eu o «conhecia» já há uns bons dez anos. Quando em 1948 saiu o seu livro “Trapo Azul”, um vizinho, morador na Baixa, mas nascido em Almada, em conversa com os meus pais, a que eu assistia (mas com dez anos não podia intervir na conversa dos adultos) disse que tinha saído um livro cheio de calúnias para com as gentes daquela vila, hoje cidade.


Era uma coisa tão miserável que, dizia ele, pela primeira vez na vida tinha rasgado um livro, deitando-o fora a seguir. Como quem não quer a coisa, eu perguntei o nome do livro e quem era o autor. Os meus pais olharam para mim com ar apreensivo. O meu vizinho dignou-se responder-me: «”Trapo Azul”, de um tal Romeu Correia». Isto foi a um serão em nossa casas e no dia seguinte convenci a minha mãe, que também ficara curiosa, a irmos comprar o livro. Foi na Férin, salvo erro, que o encontrámos. E lá o trouxemos para casa. A minha mãe lia-o primeiro e, depois, logo se via se eu o podia ou não ler. Aceitei o acordo.


Ela leu o livro duma assentada e de manhã deu o veredicto. Era um bom romance, mas não era próprio para mim. Claro que mais não foi preciso para que uma grande curiosidade me assaltasse. Manhoso, fingi-me completamente desinteressado e fui observando que a vigilância ao volume ia sendo cada vez mais descuidada, deixou de estar fechado à chave numa gaveta e semanas depois já ninguém se lembrava daquele perigo para a minha educação.


Quando sabia que ia estar uma hora ou mais sozinho ia lendo, memorizando a página em que interrompia a leitura e deixando-o tal e qual na posição em que o encontrara dentro da gaveta. E assim o consegui ler em relativamente pouco tempo. Esse exemplar não o encontrei entre os livros de minha mãe e o que tenho foi-me oferecido pelo autor ao qual contei as minhas aventuras para ler o seu livro.


Mas voltando a esse primeiro encontro com Romeu Correia, foi (se a memória não me falha) no segundo piso do Café Avis, nos Restauradores do lado do Eden, Era um café estranho – no primeiro piso era frequentado por gente de extrema-direita, legionários, inclusive, ali levados pela grande cruz de Avis em néon que brilhava sobre a porta principal. No piso superior, era para a malta de esquerda. Disseram-me ser ali que o Amílcar Cabral dava explicações de Matemática.


Parava também por aquele segundo piso um grupo heterogéneo onde se incluía o Renato Ribeiro e sua mulher, a Fernanda Barreira, o Manuel de Castro, o Manuel de Seabra, o Romeu Correia que trouxe um dia a Maria Rosa Colaço, e este vosso amigo. O estranho é que os legionários nos viam passar e se faziam comentários era em voz baixa. Nunca houve ali provocações. Um dia hei-de escrever um texto sobre «os meus cafés». Muitos.


Os cafés do Romeu Correia eram outros. Ao Avis só ia para se encontrar comigo, com a Maria Rosa, com o Renato… À noite vinha de Almada no barco e parava na Coimbra, da Alexandre Herculano num grupo de que o Namora e o Bernardo Santareno faziam parte (uma vez que fui lá para o encontrar, eles estavam lá) e, à hora do almoço podíamo-lo, sempre sozinho, encontrar no café Bom (trabalhava na sede do Banco Ultramarino, na Rua do Ouro). O Café Bom ficava na Rua da Betesga em frente à cervejaria Mó, que ainda existe. Ali estava ele, preenchendo com a sua letra grande e irregular folhas soltas de páginas brancas. Era mais um romance em gestação.


Romeu Correia falava de uma forma apaixonada, revivendo as suas histórias e emocionando-se com as recordações. Não raro, fechava os olhos para que a memória lhe fosse mais fiel. Numa noite de Verão, creio que em 1959, numa esplanada da Avenida descreveu-me a Amália gravando «O Céu da Minha Rua», tema musical da série que a RTP produziu a partir do seu romance homónimo. Não saiu bem durante uma série de tentativas e quando o realizador queria desistir, às quatro ou cinco da manhã, Amália fez uma última tentativa, rasgando as meias com as unhas enquanto cantava. E saiu bem. «Uma mulher muito inteligente e cheia de raça», concluiu.

Romeu e Almerinda Correia

Noutra das suas descrições, esta feita no Avis, contou-me como, ainda no início da sua carreira no BNU, fora cobrador. Por vezes ia almoçar a casa, a Almada, se tinha alguma cobrança na margem esquerda. Naquele dia após uma cobrança de uma avultada importância, chegou a casa e encontrou Almerinda, sua mulher, profundamente adormecida. Jovem e bonita, era atleta de alta competição, descansava de horas de treino e de trabalhos domésticos. Resolveu fazer uma brincadeira poética, uma homenagem – cobri-la de ouro . colocou-lhe sobre o corpo notas de mil escudos, centenas delas. E depois acordou-a.


A surpresa de Almerinda, a sua expressão ao ver o dinheiro foi uma coisa linda, disse ele. Eram pobres e ela nunca vira tanto dinheiro na vida. Mas depressa percebeu o que se passava e disse-lhe «arruma lá toda esta porcaria!» e ajudou-o a recolocar as cintas nos maços e a metê-los na mala.


Outra recordação que o fazia vibrar era a do seu trabalho como artista de circo. Boxeur amador, com campeonatos ganhos, fazia um número em que com a ajuda de um projector, num jogo de luz e sombra, lutava consigo próprio.


Já nos anos 70, quando voltei a Lisboa, reatei a amizade que fora mantida com uma outra carta e no convívio durante as férias de Verão. Romeu e Almerinda passavam quinze dias todos os anos na Colónia de Férias da FNAT e, em Agosto, eu estava por ali perto, em Santo António ou, posteriormente, em São João da Caparica com a minha mulher e os dois filhos. Encontrávamo-nos sobretudo no cinema da colónia, pois éramos todos apaixonados por cinema.


A última vez que estive com ele foi no lançamento de um livro da Maria Rosa, no forum municipal de Almada que hoje se chama Forum Romeu Correia. Foi pouco tempo antes de ter falecido, notava-se já que estava doente, mas tendo ficado ao meu lado enquanto o livro da nossa amiga era apresentado, falou-me com entusiasmo de uma História da Incrível Almadense que andava a preparar.


Um bom escritor e um grande amigo. Um homem cuja vida daria um romance. Aqui fica uma resenha biográfica.


Romeu Correia, (17 de Novembro de 1917- 12 de junho de 1996) nasceu e faleceu em Almada. Escritor, ficcionista e dramaturgo, foi colaborador de diversos jornais e revistas, nomeadamente da Vértice. Em Outubro de 1942, casou com Almerinda Correia, que viria a ser campeã nacional de atletismo. O próprio Romeu Correia foi atleta de alta competição e campeão nacional de boxe amador. A sua obra está traduzida em numerosas línguas e tem sido objecto de teses académicas, em universidades portuguesas e estrangeiras.


Recebeu, em 1962 e 1975, o prémio Casa da Imprensa; em 1984, o Prémio de Teatro 25 de Abril, da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro; e, pela peça O Vagabundo das Mãos de Oiro (1962), o Prémio da Crítica. Em 1958, a sua peça Céu da Minha Rua foi transmitida em directo pela RTP com Amália Rodrigues no papel principal.


Escreveu: Sábado sem Sol (contos, 1947), Trapo Azul (romance, 1948); Calamento (romance, 1950); Gandaia (romance, 1952); Casaco de Fogo (teatro, 1953); Desporto-Rei (romance, 1955); Céu da Minha Rua (Isaura) (teatro, 1955); Laurinda (teatro, 1956) Sol na Floresta (teatro, 1957); O Vagabundo das Mãos de Oiro (teatro, 1960); Bonecos de Luz (romance, 1961); Bocage (teatro, 1965); Jangada (teatro,1966); Amor de Perdição (teatro, 1966) 3 Peças de Romeu Correia: Laurinda, Sol na Floresta e Céu da minha rua (teatro, 1968); O Cravo Espanhol (1970); Roberta (1971); Francisco Stromp (biografia, 1973); José Bento Pessoa (biografia, 1974); Um Passo em Frente (contos, 1976), Os Tanoeiros (nova versão de Gandaia)(romance, 1976); Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada - nas artes nas letras e nas ciências (história, 1978); As Quatro Estações (teatro, 1981) Jorge Vieira e o Futebol do seu tempo (biografia, 1981) Tempos Difíceis (teatro, 1982); O Tritão (romance, 1982),; Grito no Outono (teatro, 1982); O Andarilho das 7 Partidas (teatro, 1983); O 23 de Julho (narrativa, 1986) Portugueses na V Olimpíada (ensaio, 1988); Cais do Ginjal (novela, 1989); Palmatória (1995)







(Este texto, com ligeiras diferenças, foi publicado antes no blogue Aventar)
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sábado, 10 de Julho de 2010

Manuel da Fonseca, um grande poeta português, no Terreiro da Lusofonia. O Adriano Correia de Oliveira também veio



Na voz de Adriano Correia de Oliveira, escutámos um poema de Manuel da Fonseca – «Tejo que levas as águas» («Poemas para Adriano». 1972), com música do próprio Adriano.


Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém em 1911 e faleceu em Lisboa em 1993. Fez parte do grupo do «Novo Cancioneiro». Na sua valiosa obra destacam-se-se «Rosa dos Ventos», uma colectânea de poemas, (1940), o livro de contos «Aldeia Nova»(1942), «Fogo e as Cinzas» (1953) e os romances «Cerromaior», «Seara de Vento» (1958), «Poemas Dispersos» (1958). É considerado uma das figuras cimeiras do movimento neo-realista. No entanto, na sua escrita, particularmente na poesia, existem ressonâncias de um gongorismo que o aproxima de Federico García Lorca e mesmo dos poetas surrealistas.

Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta instituição atribuiu o Grande Prémio da Novelística a Luandino Vieira pelo seu livro «Luuanda», facto que determinou o encerramento, por parte das forças policiais, da SPE (que viria depois a ser refundada sob a designação de Associação Portuguesa de Escritores)
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Dos seus «Poemas Dispersos», escolhemos este:

Solidão

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!

Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)
publicado por Carlos Loures às 08:00
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Domingo, 4 de Julho de 2010

Francisco Relógio no Terreiro da Lusofonia


Francisco Relógio é o artista plástico que hoje trazemos ao Terreiro da Lusofonia. Cores e formas de Portugal, portanto. Nasceu em Beja em 1926 e faleceu em Lisboa em 1997. Pelo final dos anos 40 estava ainda ligado ao movimento neo-realista, seguindo depois por uma linha mais ligada ao surrealismo. Senhor de um traço muito característico, talvez inspirado nas pinturas aztecas, Relógio foi, sobretudo um grande desenhador. Além da pintura, realizou belos cenários para diversas peças de teatro e cultivou também a cerâmica, o desenho e o azulejo. Existem vários painéis seus de azulejos em Lisboa, mas o mais conhecido é o que se encontra no edifício do Banco Nacional Ultramarino de Maputo (cuja fotografia podemos ver acima).

publicado por Carlos Loures às 08:00
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Sábado, 3 de Julho de 2010

Luís Veiga Leitão no Terreiro da Lusofonia


Hoje desce ao Terreiro um poeta português - Luís Maria Leitão (Moimenta da Beira, 1912 — Niterói, 1987), conhecido sob o pseudónimo de Luís Veiga Leitão. Poeta e artista plástico, foi um dos fundadores do grupo literário Germinal. Activista político, antifascista, esteve preso em 1952. Dessa experiência resultou a colectânea poética Noite de Pedra, apreendida pela censura Com Egito Gonçalves, Daniel Filipe e outros, criou as Notícias do Bloqueio, uma série de fascículos publicada no Porto, entre 1957 e 1961, onde se reunia a criação poética de diversos autores. Foi colaborador das revistas Seara Nova, Vértice, entre outras. Poeta neo-realista, os seus poemas incorporam linguagens e técnicas subsidiárias de outras correntes, tais como o surrealismo. Em 1967 foi para o Brasil, onde viveu até 1977 e onde morreu.

Obras principais: Latitude (1950); Noite de Pedra (1955); Ciclo de Pedras (1964); Longo Caminho Breve. Poesias Escolhidas (1943-1983); Biografia Pétrea, (1989); Rosto por Dentro (1992); Linhas do Trópico (1977); Livro de Andar e Ver (1976); Livro da Paixão (1986); Obra Completa, (1997). De Ciclo de Pedras seleccionámos este poema:

A uma bicicleta desenhada na cela

Nesta parede que me veste
Da cabeça aos pés, inteira,
Bem hajas, companheira,
As viagens que me deste.


Aqui,
Onde o dia é mal nascido,
Jamais me cansou
O rumo que deixou
O lápis proibido…
Bem-haja a mão que te criou!
Olhos montados no selim
Pedalei, atravessei
E viajei
Para além de mim.
publicado por Carlos Loures às 08:00
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Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

História, romance, história em "A Sinfonia da Morte", de Carlos Loures


Sílvio Castro

Quase certamente, como é de conceito praticamente generalizado depois da lição de Lukács e outros, na literatura contemporânea não mais existe a possibilidade do género chamado “romance histórico”, de origens scottianas. Porém, é igualmente mais que provável que se possa criar ótima obra de ficção a partir de um dado, período ou episódio históricos. Justamente o que acontece com Carlos Loures e seu terceiro romance, A Sinfonia da Morte.

Carlos Loures, ao tomar como referência central para o seu texto o episódio do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, no qual morreram o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, Luís Filipe, preanúncio do fim iminente do regime monárquico português, com a consequente proclamação da República (1910), conhece coerentemente as normas que impedem a um escritor moderno a projetação do romance histórico. Porém, ao partir de um episódio fundamental da história de Portugal, ele está igualmente convicto de que realiza uma operação criativa baseada em normas e princípios teóricos os mais atualizados. Bem como que completa sua operação consciente dos recursos retóricos e linguísticos com que trabalha.

Loures, antes de tudo, concebe sua operação literária integrada na mais viva consciência do valor específico da linguagem. A partir dela se confronta com a matéria aparentemente absurda aos seus fins artísticos, matéria que retira da história nacional contemporânea e a faz própria, integrando-a com grande consciência técnico-literária nas invenções dramáticas com que se propõe recriar tão diversos mundos. Assim agindo, o romancista revela o adequado conhecimento daquele elemento técnico que mais claramente revela a impossibilidade da realização de um dito romance histórico: a mais moderna consciência de tempo, tanto na dimensão filosófica, quanto naquela linguística, e a consequente dualidade entre o conceito do tempo pessoal da sincronia e aquele diacrônico a que está preso o episódio histórico enquanto tal. Daí a necessidade, plenamente satisfeita pelo autor, da melhor composição entre tempo diacrônico, aquele histórico, e tempo sincrônico, aquele do narrador que se apropria da história. Assumida esta consciência que se faz metodologia da criação literária procurada, Carlos Loures se mostra pronto para a difícil meta de um texto que, mesmo tendo olhos para outras obras-modelos, em particular as dos grandes mestres do neo-realismo português, aspira a ser pessoal e inovadora.

A Sinfonia da Morte é um romance de rara, mas ao mesmo tempo, absorvida complexidade, de moderna erudição, metodologicamente aplicada; erudição e complexidade essas transmitidas por um processo linguístico realista e claro, o que permite a imediata criação de um quadro de relações entre o autor e o seu público-receptor de imediata eficácia.

Toda a história se desenvolve e cumpre em forma circular - em dosado equilíbrio entre narrativa-ficção e narrativa-ensaio - que, partida do “Prólogo”, corre quase sem empecilhos até o “Epílogo” - feito a semelhança do moderno romance-inquérito da literatura americana – para, já então completado, como que retornar idealmente ao “Prólogo”. Tudo numa sábia operação que convida naturalmente o leitor a duas imediatas leituras do romance, ambas fornecidas de objetivas satisfações.

Carlos Loures se integra no tempo narrativo aberto e desenvolvido pela história de um jovem futuro romancista da província, Jorge, que naquele fim de Janeiro de 1908 parte para Lisboa com empenhos ligados a interesses materiais da família, ao quais deve dar satisfações por encargo que lhe passa o pai. Jorge, negado para a agricultura, fonte da riqueza familiar, mas apoiado na sua fresca formação jurídica realizada em Coimbra, associa o encargo circunstancial ao seu desejo de encontrar em Lisboa aquela Samarcanda propícia a fazer florescer definitivamente seus sonhos literários. Jorge está no começo indeciso de uma primeira novela. Assim, mais com sonhos que com olhos capazes de fixar a realidade, ele parte para a Capital.




O narrador (quase)impessoal de A Sinfonia da Morte joga com dois tempos aparentemente conflituais: o dos sonhos de um muito jovem literato em busca de sua identidade e os episódios políticos que estão para se transformar em tragédia. O romance apresenta-se assim com a estrutura formal dos quatro movimentos sinfônicos, onde o primeiro e quarto movimentos são aparentemente autônomos, enquanto os segundo e terceiro são liberados em vibrante simbiose.

A concepção narrativa tem aparentemente fundamentos românticos, mas em verdade se revela de imediato inusitada e plena de impacto. Depois de uma aparente partida compositiva de uma história ainda focada sob o signo da dualidade “amor e morte”, o autor a transforma e conduz na direção de intensa participação com o seu quase revés: “morte e amor”. Enquanto explode no tempo fora do tempo o amor de Jorge e Margarida Diniz, revela-se com intensidade o tempo diacrônico do regicídio.

O romancista supera, de pronto, a operação começada com inevitáveis tendências à predominância de intensificações metafóricas, subordinando-as com grande eficácia ao uso de um criativo processo de linguagem metonímica. Mas. a metonímia não se exime de revelar igualmente, quando conveniente, sua face metafórica.

Como consequência de seu moderno sistema de linguagem, A Sinfonia da Morte cresce com a mobilidade do narrador (quase)impessoal, capaz de movimentos nos mais diversos tempos. Ele guia sempre as operações, mas permite os percursos de outros eu-narradores, através de uma galeria de personagens que enriquecem o romance: antes de tudo, Jorge; depois aqueles mais diretamente ligados ao personagem catalisador da ficção; o anárquico primo Luciano, de certa forma alter-ego de Jorge; o dúbio ex-companheiro da vida boêmia da Coimbra universitária, Fernando Amoreira, agora jornalista em Lisboa; Margarida Diniz, atriz, a reveladora da dimensão amorosa. Todos ligados a outras dezenas de personagens que dinamizam a ação do protagonista, como a muito simples popular Adosinda, criada de Margarida.

Paralelamente decorre a dramática presença dos mais diretos protagonistas do episódio histórico: D. Carlos, o príncipe Luís Filipe, Dona Amélia, D. Manuel, o 33º e último rei de Portugal, nascido quase como preanúncio fatal para os Braganças no dia da proclamação da República do Brasil, 15 de Novembro de 1889. Ao lado deles, a figura central do ditador João Franco, dos monárquicos dissidentes, dos dirigentes da Maçonaria e dos líderes da Carbonária portuguesa. E mais as figuras trágicas dos regicidas reconhecidos, Manuel Buíça e Alfredo Costa, junto aos quais se desenvolve a imagem um inquisidor cedo emudecido pelo poder escondido de muitos poderosos, Abílio Magro.

O romancista movimenta toda a complexidade de um tempo de pavor e violências, no qual vive por anos Portugal, disso dando testemunho a passagem aparentemente meteórica de dezenas e dezenas de nomes que são mais que somente nomes, para transformar-se em elementos da linguagem do autor: intelectuais, escritores, jornalistas, artistas, políticos, visitantes estrangeiros. Todos apanhados numa visão realista.

Somente em poucos momentos o narrador (quase)impessoal, sempre pronto ao encontro dos tempos, faz predominar aquele sincrônico; por exemplo, quando à página 236 se revela isolado num só tempo:

“Foram [Jorge e Margarida] até Algés no eléctrico aberto que tomaram perto do local do regicídio. (… …) Quando chegaram ao então agradável subúrbio, passearam de mãos dadas entre as moradias e chalés de veraneio que bordejavam a estrada asfaltada paralela à praia.”

Com A Sinfonia da Morte, Carlos Loures enriquece o moderno romance português, anunciando um possível tempo pós-moderno que reafirma as conquistas passadas, ao mesmo tempo que propicia aquelas futuras.

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* - Texto publicado no nº4 da revista Nova Síntese.
publicado por Carlos Loures às 00:00
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