Domingo, 17 de Outubro de 2010

Noctívagos, insones & afins: Nazim Hikmet - um poeta no coração do seu povo

Carlos Loures






Em 1943, em plena Guerra Mundial, um jovem investigador turco chegou a uma aldeia isolada numa região montanhosa e descobriu que as canções de um grande poeta que ali recolheu, as quais «enterneciam as mais altas montanhas e os mais duros rochedos», supostamente um poeta popular muito antigo, eram afinal de um poeta contemporâneo. No entanto, os camponeses afirmavam que já seus pais e avós sabiam aquelas poesias. Como era possível que, sem jornais, sem rádio, os versos de Nazim Hikmet tivessem chegado a tão recôndito lugar e se instalassem de maneira tão profunda entre os hábitos ancestrais dos aldeãos? E quem era este Nazim Hikmet?

Nazim Hikmet Ran nasceu em 20 de Novembro de 1901 em Salónica, na altura integrada no Império Otomano. Foi membro do TKP (Partido Comunista da Turquia), sendo desde muito jovem perseguido pela polícia do sultão. Entre 1922 e 1925, exilou-se na União Soviética, estudando em Moscovo. A Revolução de Mustafa Kemal Atatürk, em 1923, não melhorou a sua situação, mantendo-lhe a condição de proscrito. Morreu em 3 de Junho de 1963. Só recentemente, em 5 de Janeiro de 2009, quase 46 anos após a sua morte, o governo de Ancara aboliu por decreto a decisão que em 1951 retirou a nacionalidade ao maior poeta turco do século XX. Mas voltemos a 1943 e ao trabalho do folclorista universitário.


A aldeia a que o investigador chegara, era um aglomerado de quarenta casebres, com tectos de terra batida. Os aldeãos viviam em condições de extrema pobreza. A povoação mais próxima ficava a 14 horas de marcha, por acessos difíceis, estreitos carreiros talhados no flanco das rochas. Na aldeia, uma rapariga disse saber «belas canções de um grande poeta, com força para «enternecer as mais altas montanhas e os mais duros rochedos». E começou a recitar versos que o investigador se apressou a anotar. Ao cabo de momentos, foi tomado de uma grande surpresa – os poemas que a camponesa sabia de cor, eram versos de Nazim Hikmet. – Quem foi o poeta que compôs estas canções? - perguntou. - «Foi um grande poeta» - responderam os aldeãos -«Os seus versos são mil vezes por nós repetidos. Os nossos pais e os nossos avós já os cantavam também. Vieram-nos dos nossos antepassados. Como podemos saber quem os escreveu?»


O jovem ficou estupefacto. Como era possível que os poemas de Hikmet, escritos poucos anos antes, tivessem podido chegar até àquela longínqua aldeia da Turquia asiática e enraizar-se no coração dos seus habitantes, misturando-se com as odes dos bardos tradicionais da Turquia, como o lendário Korkout ou o sublime Younous? Um dos poemas recitados pela aldeã fora escrito poucos anos antes numa cela da prisão de Brousse. Como pudera Hikmet misturar a sua voz com as obras dos velhos cancioneiros populares? Voltou mais vezes à aldeia para tentar decifrar o enigma - recebeu sempre a mesma resposta: «- É um grande poeta, um grande homem. Recebemos os seus versos dos nossos pais, que os receberam dos seus pais…» Nunca conseguiu descobrir como os poemas de Hikmet viajaram até àquela aldeia e se incrustaram entre a poesia ancestral.


A modernização da língua turca muito deve a Hikmet. Os grandes mestres estavam imersos em total esquecimento. Ninguém descobrira que o turco podia ser uma linguagem poética, literária no melhor sentido e, ao mesmo tempo, terna e vigorosa. Foi Hikmet que lhe conferiu essa característica ao abandonar cânones empolados, só entendidos por eruditos, e ao adoptar a linguagem do povo, vinculada à realidade quotidiana, ao trabalho, à rudeza da vida.


O poeta em particular, e o escritor em geral, têm de estar no cerne da vida. Hikmet compreendeu isso e rapidamente ganhou um lugar no coração do seu povo, lugar mais importante do que mil cadeiras de academias. Como um subtil, mas impetuoso, lençol subterrâneo de água, impregnou a alma do povo turco. Esta a explicação para o folclorista surpreendido, sem compreender como é que aquela gente ignorante, analfabeta na sua maioria, recitava poemas que estavam proibidos. Naqueles anos 40, a posse de um texto de Hikmet era punida com cinco a dez anos de prisão, a sevícias e a tortura.


Numa outra realidade, menos dramática, não foi isto que se passou em Portugal com as canções de José Afonso? Muitas pessoas sem cultura formal ou consciência política cantavam as suas canções e recitavam os seus versos. Nem a repressão policial, nem os elitistas preconceitos intelectuais, conseguem fechar o coração de um povo à poesia, à música, à arte com que a sua alma se identificar. Muito do que o hoje se celebra como grande literatura, por exemplo, morrerá logo que se extingam os temporais conceitos que servem de pedestal a essa suposta grandeza. Só sobreviverá o que for genuíno e intemporal. Foi assim com Nazim Hikmet. E, entre nós, Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Fernando Pessoa, não terão, também eles, descoberto uma chave secreta para os nossos corações?


Será por isso que perduram? Acho que sim.


Deixo-vos com um belo poema de Nazim Hikmet:


Ao partir, ficam-me coisas por acabar,
ao partir.
Salvei a gazela da mão do caçador
mas continuou desmaiada, sem recuperar os sentidos.
Colhi a laranja do ramo,
Mas não consegui tirar-lhe a casca.
Reuni-me com as estrelas,
mas não as consegui contar.
Tirei a água do poço
mas não pude servi-la nos copos.
Coloquei as rosas na bandeja,
mas não pude esculpir as taças de pedra.
Não saciei os meus amores.
Ao partir, ficam-me coisas por acabar,
ao partir.


Junho de 1959


Traduzido por Carlos Loures da versão castelhana de Fernando García Burillo dos "Últimos poemas 1959-1960-1961"
(Ediciones del oriente y del mediterráneo -Madrid 2000)


A meninaSou eu que bato às portas,
às portas, umas após outras.
Sou invisível aos vossos olhos.
Os mortos são invisíveis.



Morta em Hiroxima
há mais de dez anos,
sou uma menina de sete anos.
As crianças mortas não crescem.

Primeiro arderam os meus cabelos,
também os olhos arderam, ficaram calcinados.
Num instante fiquei reduzida a um punhado de cinzas
que se espalharam ao vento.

No que diz respeito a mim,
nada vos imploro:
não podia comer, nem sequer bombons,
a criança que ardeu como papel.

Bato à vossa porta, tio, tia:
uma assinatura. Não matem as crianças
e deixem-nas também comer bombons.


(Tradução. de Rui Caeiro)



Não nos deixam cantar
Não nos deixam cantar, Robeson*
meu canário com asas de águia
Meu irmão negro com dentes de pérola
Não nos deixam cantar as nossas canções.
Têm medo, Robeson
medo da aurora, medo de olhar
medo de ouvir, medo de tocar.
Têm medo de amar,
medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.
(Decerto que também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como é que tu lhe chamas, Robeson?)
Têm medo da semente e da terra,
medo da água que corre,
medo da lembrança.
A mão de um amigo que não deseja
nem desconto nem comissão nem moratória
igual a um pássaro quente
não apertou nunca a sua mão.
Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Têm medo, meu canário com asas de águia,
Têm medo das nossas canções, Robeson…
*Este Robeson é o Paul Robeson, o celebérrimo cantor (baixo) americano, perseguido pelo macchartismo, o que prejudicou
gravemente a sua carreira de cantor lírico. Gravou também muitas
.canções de resistência dos trabalhadores americanos.



(Tradução de Rui Caeiro)

_________________

Publicaremos em breve mais poemas de Nazim Hikmet. O nosso amigo Paulo Rato vai publicar aqui uma série de traduções de poemas do grande poeta turco.
publicado por Carlos Loures às 03:00
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Os poetas: ladrões de fogo ou artífices do verbo?

Carlos Loures

Definir a natureza da arte poética, é, como poderemos ver no apreciável painel que vamos expor na nossa “maratona poética”, uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, Horácio, Boileau, milhares de filósofos e de poetas discorreram sabiamente sobre este tema. Teremos oportunidade de, nas 24 horas do dia 8 de Setembro, ler 72 textos – poemas, textos poéticos, citações… Uma ampla panorâmica sobre esse tema tão discutido ao longo dos séculos.

“Ladrões de fogo” foi uma designação que usei num texto que publiquei na revista “Pirâmide” , da qual já aqui tenho falado. Nesse texto comparo os poetas a Prometeu. O poeta é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra cria a beleza para a ofertar aos homens. A comparação faz sentido, é sugestiva, mas talvez haja outra, menos bela, mas não menos verdadeira. Vejamos.

O poeta produz esta magia usando palavras comuns e não palavras mágicas. Esta capacidade de, com palavras usadas no dia a dia, construir um poema, pode conduzir-nos à tal conclusão, complementar da primeira – além de mago, o poeta é um artífice.

A comparação com Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou, como também já li algures, com Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso, é muito bonita. Mas equipará-lo a um trabalhador leva-nos a uma imagem , menos “poética” no sentido convencional, mas mais integradora da arte poética no quotidiano.: -o poeta é um artífice. A expressão «artes e ofícios» tem aqui pleno cabimento - o poeta é, portanto, um homem comum, um artista como um sapateiro ou um alfaiate o são. Em vez de cabedal ou de tecido, usa palavras, sentimentos e conceitos como matéria prima. Ofício: poeta. Daria lugar a conversas como esta: - "Ah, sim o Jorge. Olha, foi colocado como poeta na Covilhã".

 Na verdade e humor aparte, a divinização do poeta, isola-o e condena-o ao ostracismo. Ora um poeta, um escritor, um artista deveria ter uma função na sociedade. Como teve. Bem sei que na Pré-História não havia televisão, nem blogues, mas quem, nas sociedades primitivas dispensaria que à noite, acabadas as tarefas diárias, se contassem histórias? Podemos puxar pela imaginação: o fulgor das labaredas das fogueiras cria sombras sinistras nas paredes da caverna. O poeta, o contador de histórias descreve as peripécias da caçada, as crianças aconchegam-se temerosas às mães e as passagens mais excitantes da narrativa são sublinhadas com gritos de medo ou com um rumor de assentimento. Esse contador de histórias, o aedo da Grécia, bardos, jograis, trovadores, tiveram a mesma tarefa de um poeta, ou de um escritor dos nossos dias – efabular a realidade e devolvê-la, valorizada pelo verbo, aos seus protagonistas - os homens comuns.

Vejo, com algum desgosto, persistir um conceito de poesia que nada tem a ver com essa função social, identificando-a com coisas etéreas, devaneios, ideias imprecisas. Ora (e foi isso que tentei dizer com os meus textos anteriores), na minha maneira de ver a poesia nada tem a ver com essa indefinição. Ela  é, tal como o sonho na “Pedra Filosofal” como diz o Gedeão . "uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer” e o poeta, um trabalhador tão necessário como todos os outros. Claro, há grande poesia intimista, que ao dar-nos conta da dor, da angústia do indivíduo que a confessa, nos torna conscientes das nossas próprias dores e angústias. Não estou a querer reduzir o território da poesia.


Não foi por acaso que escolhemos para o arranque da "Maratona Poética" o poema de Fernando Pessoa,
vestindo o seu heterónimo de Bernardo Soares, Autopsicografia. aquele que diz: "O poeta é um fingidor/
Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente... Todos conhecemos esta primeira quadra. Mas há mais duas e, quanto a mim, é na segunda que se encontra a receita poética pessoana: "E os que lêem o que escreve,/Na dor lida sentem bem,/Não as duas que ele teve,/Mas só a que eles não têm."

 Ao fingir as dores que realmente sente o poeta torna quem o lê consciente das dores da Humanidade.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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