Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

As Mulheres Que Não Existem - Augusta Clara

O artigo do Prof. Boaventura de Sousa Santos, aqui publicado no passado dia 11, deu-me vontade de voltar a trazer à estampa o meu próprio artigo escrito no dia 17 de Dezembro de 2010. Aqui vai ele.

  Augusta Clara  As Mulheres Que Não Existem

(ilustração de Adão Cruz)

Em Ciudad Juárez, no norte do México, perto da fronteira com os EUA, há mulheres que são mortas e vão para o lixo como os cães e os gatos atropelados.

O escritor chileno Roberto Bolaño, no seu monumental “2666”, reservou 300 das páginas do livro só para fazer um relato pormenorizado das mortes e desaparecimentos de muitas dessas mulheres. E descreveu coisas abomináveis.

Mas não é para falar do livro de Bolaño que escrevo. Refiro-o para elogiar um autor que teve a lucidez e a generosidade de abdicar dum tão grande espaço da sua obra para denunciar factos a que o resto do mundo não dá a menor importância.

Actualmente a comunicação social referiu com abundância as mortes resultantes de guerras entre os grupos de narcotraficantes que dominam a sociedade mexicana. Mas onde é que se ouve falar das mulheres de Ciudad Juárez? A identidade de muitas delas nunca foi reconhecida. Era gente de existência nula, na verdade considerada menos que gente, circulando entre os países da região ou regressada clandestinamente dos EUA onde fora em busca de algum sonho. Se calhar, muitas até já nem queriam ser belas, muito felizes ou muito amadas. Queriam, talvez, ter apenas uma vida própria e em paz. Mas, um elevado número não teve outra hipótese do que regressar para se prostituir ou para trabalhar em bares de frequência duvidosa, o que vinha a dar no mesmo.

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publicado por Augusta Clara às 19:00
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Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

As Mulheres Que Não Existem

Augusta Clara de Matos


Em Ciudad Juárez, no norte do México, perto da fronteira com os EUA, há mulheres que são mortas e vão para o lixo como os cães e os gatos atropelados.

O escritor chileno Roberto Bolaño, no seu monumental “2666”, reservou 300 das páginas do livro só para fazer um relato pormenorizado das mortes e desaparecimentos de muitas dessas mulheres. E descreveu coisas abomináveis.

Mas não é para falar do livro de Bolaño que escrevo. Refiro-o para elogiar um autor que teve a lucidez e a generosidade de abdicar dum tão grande espaço da sua obra para denunciar factos a que o resto do mundo não dá a menor importância.

Actualmente a comunicação social referiu com abundância as mortes resultantes de guerras entre os grupos de narcotraficantes que dominam a sociedade mexicana. Mas onde é que se ouve falar das mulheres de Ciudad Juárez? A identidade de muitas delas nunca foi reconhecida. Era gente de existência nula, na verdade considerada menos que gente, circulando entre os países da região ou regressada clandestinamente dos EUA onde fora em busca de algum sonho. Se calhar, muitas até já nem queriam ser belas, muito felizes ou muito amadas. Queriam, talvez, ter apenas uma vida própria e em paz. Mas, um elevado número não teve outra hipótese do que regressar para se prostituir ou para trabalhar em bares de frequência duvidosa, o que vinha a dar no mesmo.

No México, os narcotraficantes gozam do estatuto de gente importante que, eles próprios, se impõem mas conferido, também, por sectores da sociedade mexicana, por medo ou conivência. Conivência que se estende à troca, entre todos, dessas mulheres que, ao tornarem-se inúteis, vão para o lixo. São menos que zero. Servem, apenas, para satisfação dos “guerreiros” do narcotráfico e de toda a imensa nuvem que os esconde. Animam a luta, dão sangue novo. Depois, são abandonadas como os caçadores abandonam os cães, terminada a época da caça.

Quem se indigna pelo destino dessas pobres mulheres? Quem as considera gente como nós, com as nossas vidas cheias de direitos e de objectivos? Praticamente ninguém. E Bolaño fê-lo. Já gostava da sua obra. Agora não perco um livro. Infelizmente, Bolaño morreu precocemente e, qualquer dia, já não tenho nenhum para ler.

No Darfur as mulheres fogem, despojadas de tudo, apenas carregando os filhos, à frente das milícias que, a soldo do poder ou com a sua falsa cegueira, as violam a elas e às filhas ainda crianças, torturam e matam, à sua frente, os filhos e outros familiares.

Mesmo quando as víamos nas reportagens televisivas que, entretanto, parecem ter cessado, as suas faces eram o silêncio, o silêncio dos grandes dramas e das grandes tragédias a que falta o coro. Mas, para os grupos editoriais da comunicação social, as mulheres do Darfur não dão lucro. O seu sofrimento não dá notícias que alimentem a mediocridade intelectual reinante, como dão as intrigas palacianas que nos martelam a cabeça dia após dia.

No Sudão, o presidente, acusado de genocídio pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), foi reeleito e não se prevê que a protecção de que tem gozado abra brechas não mudando, assim, nada para essas mulheres cuja vida continuará a ser uma fuga permanente não se sabe para onde, até que alguma poderosa organização internacional resolva agir, tarde e mal, e as proteja se, nessa altura, as mulheres do Darfur ainda forem gente ou já só farrapos humanos.

Quereriam, apenas, poder viver nas aldeias, onde habitavam e de onde foram expulsas, com as suas famílias.

E as de várias etnias africanas a que costumes ancestrais, perfeitamente ignorados pelo colonialismo – como não, se já os elementos masculinos das etnias eram cidadãos de segunda ou terceira classes? -, submetem a mutilações sexuais ainda crianças, a fim de que nunca sejam mulheres de corpo inteiro, nunca possam sentir prazer no sexo, reservando-as à exclusiva tarefa da procriação? O que fizemos nós, os civilizados, em prol do desenvolvimento dos povos, tão apregoado como obra nossa, durante os séculos de colonização para que, com a chegada da independência, estas práticas não tenham desaparecido?

Aqui chegados, é oportuno pensar no papel que a religião tem tido na penalização das mulheres.

A Igreja católica iniciou a saga com o convite que Eva fez a Adão para saborearem a maçã que lhes abriria os olhos do conhecimento. A maldição que esse Deus de fúria, por esse gesto, sobre ela lançou perpetuou-se pelos séculos nesta sociedade judaico-cristã que, para sempre, marcou o mundo ocidental. Fomos as bruxas queimadas nas fogueiras, e assim consideradas por motivos vários, escondidos sob a premeditada falsidade dos senhores da igreja, tantos deles tão venais como muitos outros, sempre com o objectivo da manutenção de poderes seculares.

Por todo o mundo e em todos os tempos fomos troféus de guerra. Com a anuência dos seus superiores, as tropas de todos os exércitos, quando vitoriosas, tinham o direito de pilhagem das terras conquistadas e as mulheres sempre fizeram parte desse pacote. Não há muito tempo, no fim do século XX, nem muito longe de nós, na Bósnia Herzegovina, em pleno continente europeu, argumentos político-religiosos deram origem às maiores humilhações da população feminina do país.

Fomos as intelectualmente superiores cuja obra, em séculos anteriores, nunca veio à luz do dia. Poucas figurámos na História oficial mas a maioria nunca lá foi referenciada, tal como os negros de África. Fomos as Camille Claudel de todos os séculos, a quem restaram, após ter destruído, em fúria, grande parte da sua obra, os últimos trinta anos de vida internada num hospício para loucos. Camille de quem alguém disse ter uma obra tão ou mais valiosa do que a de Rodin que ela amou e a quem fez de modelo.

No mundo muçulmano não é melhor a situação das mulheres. E mesmo quando muitas delas aceitam deixar reduzir as suas liberdades fora de casa a pretexto de se sentirem confortáveis e livres dentro das tradições do seu país e da sua religião, eu permito-me discordar. Os seres humanos são todos iguais e obrigar determinada percentagem de um povo, por exemplo, a esconder-se atrás dum véu quando os restantes podem sentir o sol, a brisa, a chuva tocar-lhes a face, o que é senão violar os direitos que a todos assistem de acordo com a Declaração Universal desses mesmos direitos? Para já não falar nessas mulheres do Afeganistão e do Irão, cuja infelicidade atingiu um grau tal que não é possível qualificar. No primeiro caso, não há guerra em prol da civilização que as livre da barbárie da própria família: Bibi Aisha apareceu na capa da “Times Magazine” sem orelhas nem nariz. Uma vingança de honra que a permanência dos exércitos ocidentais naquele país não serviu para eliminar. O que acontece às mulheres é coisa de segunda linha, de somenos importância nas estratégias mundiais.

No Irão, passa-se o mesmo: por pouco Sakineh Mohammadi-Ashtiani não viu o seu rosto desfeito à pedrada, após ter sido chicoteada por adultério. Apenas a pressão internacional a salvou. Mas quantas mais mulheres iranianas salvará? Mais: quem, invocando falsamente estas agressões, imaginará outras em grande escala? E nada disto é político?

Em Portugal – estamos no mundo ocidental, o tal mais desenvolvido do que as outras áreas geográficas -, as mulheres que não existem andam entre nós, na rua, nos transportes, nos locais de trabalho. Ninguém lhes corta o nariz nem as orelhas mas, às muçulmanas ganharam a cínica vantagem de não terem que esperar que qualquer tribunal especial decrete a sua morte. Um homem rejeitado as pode executar a tiro, em qualquer casa, em qualquer rua. Onde lhe aprouver aplicar a sua justiça por um direito que não consegue admitir que não lhe assiste: impedir a liberdade de escolha de quem se quer ou não amar.

Estas diversas mas convergentes realidades do mundo em que hoje vivemos deitam por terra a convicção dos que afirmam não terem nada a ver com a política. Estão enganados. Todos temos.
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Adão no Paraíso

Carlos Loures

Carlos Fuentes é um escritor mexicano que, ou me engano muito, ou se arrisca a ganhar um dos próximos prémios Nobel da Literatura. Aliás, os critérios da Academia de Estocolmo, são inescrutáveis. Não se compreende como é que o argentino Ernesto Sábato, o peruano Mario Vargas Llosa, o mexicano Carlos Fuentes não obtiveram ainda o galardão. E falo só de alguns dos que, felizmente, estão vivos. Jorge Amado foi um caso de evidente injustiça, se de justiça se pode falar ao evocar o Nobel. Naturalmente que falo apenas no plano literário, como se não soubesse que outros factores entram na ponderação dos académicos suecos. Adiante. Hoje é para falar do grande escritor mexicano Carlos Fuentes.

Uma muito breve resenha biográfica – nasceu no Panamá, filho de um casal de diplomatas, 1928. Estudou na Suíça e nos Estados Unidos. A itinerância profissional dos pais, obrigou-a a viver em diversos países – Equador, Uruguai, Brasil, Estados Unidos, Chile, Argentina… Voltou ao México onde permaneceu até 1965. Licenciado em Direito, tem desempenhado diversos cargos oficiais, sendo, entre 1972 e 1976, o embaixador do México em França.

É uma figura nuclear da moderna novelística em língua castelhana. Lembro apenas as suas obras mais importantes: A morte de Artemio Cruz (1962), Agua quemada (1981), O Velho Gringo (1985). Agora, editado pela Alfaguara, acaba de lançar Adán en Edén »Uma comédia em que o humor foi substituído pelo horror», para usar a definição do autor numa entrevista concedida ao El País. Horror que é o do México minado e dominado pelo narcotráfico.


Com 82 anos, afirma «Estou vivo, porque tenho livros para escrever». E tem alguns já escritos e inéditos – um volume de pequenas novelas, bem como um longo ensaio sobre o grande romance latino-americano – Das crónicas das Índias à actualidade – que será editado em primeiro lugar nos Estados Unidos. Tem em esboço mais três ou quatro livros. Por isso pede que «lhe sejam concedidos» mais dez anos.

Nessa entrevista, diz também: «Pensei: o tema é tão trágico que é melhor começar como uma comédia, ou seja, contar a história de um homem que acaba no tráfico de drogas porque as circunstâncias a tal o arrastaram». Mas foram., sobretudo, as declarações que produziu sobre o tráfico de drogas, que despertaram a minha atenção.

Reconhecendo que a polícia foi, em grande medida, cooptada pelas redes de traficantes e que o Exército é mais fraco do que os «narcos», sugere a criação de uma polícia específica, uma força de contra-ataque, treinada para enfrentar inimigos implacáveis e fala na aceitação de mercenários franceses, alemães israelitas… Quando o jornalista lhe coloca a questão da soberania nacional, que seria afectada por esses corpos de polícia integrados por estrangeiros, respondeu: «Vivemos num mundo globalizado: Além disso, não teria que se saber, São actos de Estado, de um Estado que se defende a si mesmo». E acrescentou; «Esses mercenários actuam em todo o mundo e ninguém sabe da sua existência. Não se metem em nada em que não possam meter-se. Estão ali para desempenhar um papel: enfrentar uma força criminosa:»

Mas a sua declaração mais forte é quando, quando o jornalista lhe pede uma solução, Fuentes responde: «A solução? Despenalizar paulatinamente as drogas». Sabe-se como esta tão polémica solução corta os caminhos do negócio aos traficantes. Porém, discutível no plano moral e de saúde pública, eficaz no combate ao tráfico, esta medida poderá ser implementada num México apertado entre os tentáculos do polvo da corrupção? Os traficantes e os seus aliados, espalhados pelo aparelho de Estado, pela Igreja, por toda a sociedade mexicana, usarão tudo, desde o assassínio às campanhas de opinião que , em nome da moral e dos valores cristãos, se oporão a que tal medida seja concretizada.

Vou ler Adán en Edén logo que o consiga obter.

Carlos Fuentes é um dos maiores escritores da actualidade. Há que estar atento ao que ele escreve.









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publicado por Carlos Loures às 12:00
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