Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

Três textos - apresentados por Júlio Marques Mota

 

Uma pequena compilação de textos, de Michel Rocard, Os europeus votaram para que a crise continue, de Robert Castels (já publicado há dias mas que, pela sua importância, repetimos), Trabalhar mais para ganhar o quê, e de Jean-Claude Millner, Depois da crise que revolução, que revoluções ?, sobre o papel  do trabalho e sobre os direitos do trabalhador nas sociedades neoliberais. Chamo a atenção para a posição exposta no texto de Milner,  o texto final desta pequena série de três artigos :

 

(…)um recurso natural chamou bem à atenção. Através das técnicas de terror ou de necessidade, este pode ser mesmo muito barato; é renovável e é extremamente produtivo. Refiro-me à força de trabalho. Este é o principal recurso natural de que a China dispõe e ela explora-o intensivamente, sem problemas de consciência.

Do  outro lado do sistema, diz-nos Milner :

Desde então, uma ilusão necessariamente se impõe como quase inevitável. Uma aplicação financeira traduz-se sempre numa transferência de dinheiro; se o investimento é benéfico, o movimento parece em si mesmo gerador de lucro. Desta ilusão, tira-se uma conclusão ao mesmo tempo perfeitamente lógica e perfeitamente ilusória, ela também: uma vez que o deslocamento do valor cria por si só valor, é então suficiente multiplicar as deslocações de dinheiro. Quanto mais sinuoso for o percurso de cada produto financeiro mais os lucros crescerão. Eles crescem, na realidade, a cada passo, a cada movimento. Labirintos e rizomas produzem, por si mesmos, um ouro sempre a jorrar. Os modelos matemáticos utilizados pelos operadores financeiros servem para os construir.

Técnicas de terror, na China, técnicas da necessidade e da precariedade na Europa, como se tem estado a ver na Itália, na Espanha, algures por essa Europa neoliberal  fora ou como se viu ainda hoje, em Portugal. A esta situação diz-se, na China,  que se trata de um capitalismo de Estado de características chinesas, de acordo com o líder da Nova Esquerda, Wang Hui, aqui os neoliberais chamam-lhe ou chamavam-lhe ditadura de Estado,  e a esta mesma situação, no Ocidente, em que  claramente os resultados são os mesmos sobre a força de trabalho e sobre a multiplicação “dos pães” para o capital,   para o caso da Itália os intelectuais italianos chamam-lhe  “equivalente funcional” com o fascismo, e por cá e para cá, como se pode chamar?  Deixo a questão em aberto e responda quem puder ou souber.

Stéphane Hessel dá-nos, sobre esta matéria,  uma sugestão: “os responsáveis políticos, económicos, intelectuais e o conjunto da sociedade não podem demitir-se nem se deixar impressionar  pela actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaçam a paz e a democracia.”  As instituições regionais e internacionais, assim como os  governos, temo-lo visto e muito, têm-se submetido a essa ditadura, mais ainda , têm-se mostrado  e bem como sendo o seu braço legal, dando ou impondo aquelas aos quadros legislativos nacionais uma tipologia no plano político que ainda não tem nome mas que claramente se afasta do que entendemos por democracia real e que de democracia já está a ter  muito pouco. Face à demissão dos Estados, ou melhor face à sua subordinação à ditadura dos mercados financeiros  cremos que cabe a todos nós, a sociedade civil, ainda na linha proposta por Hessel, um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos do Homem, agarrar o sentido da história, agarrar o sentido dos seus desafios na sua marcha para a liberdade do homem, questão hoje tanto mais séria quanto a ameaça da barbárie fascista, ainda hoje,  “ não desapareceu completamente”.   

Júlio Marques Mota.

 

 

Os europeus votaram para que a crise continue

 

Há algo de surpreendente no actual debate sobre a situação económica. Todo o mundo admite que há crise. O debate incide apenas sobre o problema de se saber se já se atingiu o fundo e assenta depois em torno do provável momento de uma eventual retoma, no Outono ou em 2010. Afinal, por que não? O espantoso é o conteúdo: estamos perante prognósticos alternativos de peritos sobre os períodos temporais mas quase nenhuma informação factual para se ter uma ideia sobre a questão de se procurar saber se sim ou não estamos a sair da crise


Esta constatação tem algumas excepções no campo das finanças e da banca. Os factos são claros: os bancos dominantes pouco a pouco tem-se restabelecido, deixou de haver mais receios de falências neste importante sector, a transmissão de falências por efeito de contagio parece estar ultrapassada segundo a opinião geral dos considerados peritos. A confiança interbancária está pois em vias de restabelecimento lento, o que é, naturalmente, uma das condições para a recuperação.


O acordo também parece estar adquirido sobre a razão de fundo para este resultado positivo. As autoridades públicas, ao contrário da crise de 1929-1932 em que a sua estupidez cumulativa tudo complicou, têm agido com rapidez, convergência intelectual e considerável poder. Se o contribuinte não vier a pagar todo esse esforço, ainda é ele que, na sua infinita bondade, forneceu a garantia e, eventualmente, assumiu uma parte significativa dos encargos. Não é nada evidente que esta questão coloque à profissão bancária um problema ético de  considerável dimensão.



A impressão do fim das tensões e do reiniciar parcial da actividade é tão clara neste sector do que a profissão bancária, em toda a parte, iniciou campanhas activas para evitar os controlos, a regulação, e manter a opção de pagar aos sua gestores e aos seus operadores sobre títulos, os traders, as suas habituais remunerações extravagantes. A atmosfera estranha de saída da crise, mantida conjuntamente pelos governos, banqueiros e pela imprensa, contribuíram grandemente para minimizar a importância dos problemas.


Assim, a City, a praça financeira londrina, contribuiu para uma ofensiva, nestas últimas semanas, com a finalidade de desestabilizar Gordon Brown, o Primeiro-Ministro britânico culpado de querer muita ordem no sistema. O Presidente Barack Obama está claramente em luta contra os seus banqueiros e senadores sobre o mesmo assunto. O debate é menos veemente em França e na Alemanha, mas é o mesmo.


A precaridade do emprego

 

Parece que a tendência geral é para um - leve?- colocar à distância os paraísos fiscais, para os discursos simbólicos sobre as remunerações, e para o status quo, para a manutenção da situação no que diz respeito aos instrumentos derivados. Se isso finalmente acontecer, ter-se-á mantido o sistema, preservando simultaneamente os seus factores de forte instabilidade.

O detonador financeiro poderá explodir uma vez mais, dentro de alguns anos. Afinal, desde há vinte anos que o mundo tem estado a enfrentar uma grave crise financeira mais ou menos em cada cinco anos... A partir disto, tentar-se reduzir o volume insensato de actividade financeira quando comparado com o nível de produção, é tentar impedir a ganância colectiva que faz derivar o essencial desta profissão para a imoralidade, vai apenas um passo que não se quer dar. E, depois, tudo recomeça de novo.


Mas não é claro que o pior esteja aqui. As economias dos países desenvolvidos estão quase todas em recessão neste momento. Mais do que uma recessão, que pode ser curta, é a situação do desemprego que justifica o uso generalizado da palavra crise. Mas nesta área, a actual taxa de aumento do desemprego é assustadora - a França espera ultrapassar os 10% num ano, os Estados Unidos os 8%, e é quase o duplicar do desemprego em três anos - e as perspectivas são muito preocupantes. Ainda neste domínio, o do enfraquecimento do consumo, o principal componente é menos o desemprego do que a precariedade do trabalho. Neste contexto, todas as economias desenvolvidas atingiram desde há mais de quinze anos percentagens de trabalhadores precários entre os 15% e os 20%. Os trabalhadores  precários consumem tão pouco quanto lhes for possível. Em toda a parte, a recente crise, veio agravar ainda mais o seu número.


Mas, curiosamente, as estatísticas oficiais e os governos são muito discretos em relação a este ponto. Acompanha-se mal a sua evolução. Toda a gente sabe que, no entanto, na América do Norte, na Europa e no Japão, mais de um quarto da população está numa situação precária, desempregados ou pobres. Um quarto: 70 milhões de pessoas na Europa, 40 a 50 milhões nos Estados Unidos, talvez trinta no Japão é obviamente enorme para o dinamismo do consumo.

De facto, em trinta anos, de forma lenta, a parte dos rendimentos salariais e de protecção social nos respectivos PIB diminuíram entre 7% a 10%. Este indicador é contestado devido à baixa visibilidade do período de referência e às diferenças no método de cálculo aqui e ali. Mas a massa de desempregados, trabalhadores eventuais e os pobres, são estatisticamente encontrados, e esta reflecte uma série redução da velocidade de crescimento e do consumo.


Compreende-se assim melhor que, se o capitalismo desenvolvido teve em toda a tríade (América do Norte, União Europeia e Japão) um crescimento económico médio de  4,5% a 5% entre 1945 e 1970, hoje, antes da crise, tem tido muita dificuldade em tentar alcançar os 2,5% a 3% de crescimento, sem verdadeiramente o conseguir. Na medida em que o indicador da crise é do mercado de trabalho, a crise é, sobretudo, isto. Esta situação reflecte o facto de o detonador financeiro (aumento de preços de matérias-primas relacionadas com os produtos derivados, depois as subprimes, depois a titularização parcialmente fraudulenta e a cadeia de falências) ter atingido economias em situação de anemica, sem capacidade de resistência. Desta situação ninguém fala e ninguém mostra interesse em dar-lhe resposta. Mas o fundamental da crise é isto.


Sair desta situação não é fácil. Relançar exclusivamente o consumo não tem sentido, pois importar-se-ia mais, sobretudo, da China e da Índia. É necessariamente pelo investimento que o ciclo virtuoso tem de ser reiniciado, principalmente através do investimento em energias renováveis, tecnologias e produtos biológicos. E é este arranque que pode, a seguir, conduzir ao aumento do poder de compra e do consumo.


Ora, o investimento na indústria, serviços, e até mesmo na agricultura e no sector agro-alimentar, é severamente prejudicado por duas razões. Em primeiro lugar, todas as grandes empresas no mundo desenvolvido viram num ou em dois anos os activos financeiros do seu balanço perderem uma boa metade do seu valor ; a redução do valor dos activos no balanço diminui evidentemente as oportunidades de investimento. Em segundo lugar, a recuperação de relativa fragilidade do sector bancário é também claramente acompanhada de um drástico agravamento das condições de crédito. Obrigam-se a conceder crédito com muito mais cautela. Uma "recuperação económica" é pouco provável no curto e a médio prazo, por ausência dos factores que a esta são necessários. A saída da crise exige que, após o arranque através do investimento, que se encontre um mecanismo de ligação entre os salários e os ganhos de produtividade.

Nestas condições o prognóstico é de uma estabilização entre 5% e 10% abaixo do nível de produção anteriormente alcançado e, em seguida, por um crescimento quase nulo ou muito lento para os próximos três ou quatro anos.


Isto significa colocar em dificuldade a coesão social, significa governos fracos, significa o aumento do populismo. Se o detonador financeiro - uma vez que se está a querer preservar o sistema bancário, incluindo os seus factores de desequilíbrio – volta a explodir daqui a alguns anos, ele vai reencontrar as economias ainda mais fragilizadas, mais anémicas. Tem que haver preocupação com o que fazer, peço desculpa de não o saber esconder.

Em trinta anos, uma revolução no interior do capitalismo que foi feita e para o pior. A razão para esta grande mudança é simples: no mundo da banca, a avidez é desmedida, sem limites, uma orientação visceral, orientação para a procura do enriquecimento rápido, o que explica tanto a expansão vertiginosa dos produtos financeiros derivados como os inverosímeis níveis de remuneração como a tendência evidente para a vigarice e para a imoralidade bem patente nas subprimes e na titularização de créditos de cobrança difícil, de créditos mal parados.


Na economia real, é o endurecimento da pressão do “accionista”, praticamente inexistente até 1980 e, em seguida, organizada pelos fundos de pensões, de investimento e de arbitragem, depois reforçada pela tomada do poder ou pela formação de minorias de blocagem por todos estes fundos, em todas as grandes empresas ou quase. Quer-se ganho de capital, mesmo triturando a lógica empresarial. Todos se lembram da louca referência aos 15% de rentabilidade financeira exigida em certa altura por estes tipos de fundos.


O diagnóstico é claro: a classe média alta nos países desenvolvidos está em vias de renunciar à esperança de alcançar um bom nível de vida pelo procurando sim substitui-la pela esperança de fazer mais-valias rápida e maciçamente, em suma de enriquecer rapidamente. Este comportamento sociológico é incompatível com o bom funcionamento e, sobretudo, com a estabilidade do sistema. A social-democracia internacional explica desde há mais de meio século que os mercados não são de equilíbrio automático, que se dever regular a economia e a finança e lutar fiscalmente contra as desigualdades. Os factos, e esta crise, dão-lhe tragicamente razão. Ela acaba ainda agora de perder maciçamente as eleições europeias em todos os paises.


Votando por toda a parte pelos partidos conservadores, votando em toda a parte pelas forças que nos trouxeram a crise, os eleitores têm mostrado a sua preferência, o seu empenho, no modelo de capitalismo financeirizado, o capitalismo em que os mercados financeiros são dominantes. A esperança de ganhos na bolsa, da riqueza, tornou-se esmagadora. O resultado deixa pouco lugar para se esperar que haja um tratamento político sério da anemia económica actual. Quantas crises será necessário haver para que as pessoas se convençam? De toda a maneira, o mecanismo da sua repetição parece já estar desencadeado.

 

Michel Rocard, Les Européens ont voté pour que la crise continue, Peuples et gouvernements esquivent le fond du problème, Le Monde, 7 de Julho de 2009.

 

A SEGUIR: Trabalhar mais, para ganhar o quê? - por Robert Castel

publicado por Carlos Loures às 21:00
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