Quarta-feira, 30 de Março de 2011

A Grécia terá ela meios para reembolsar a sua dívida? (2) - Marie de Vergès

Júlio Marques Mota  Nota de introdução

 

 

A crise está para ficar, está para durar e tanto mais será assim quanto se continuar a querer geri-la no quadro das práticas que a criaram. Procurar soluções neste quadro é impossível. A recente cimeira mostra-o à evidência, mas desta falaremos mais tarde. Por agora e nestes próximos dias iremos olhar para a situação actual dos países ditos periféricos, onde a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia, FMI) já está instalada no quadro da pressuposta resolução da crise, a Irlanda e Grécia.

 

 Depois de com os trabalhos de Sterdyniak e dos Economistas Aterrados, publicados na íntegra pelo Estrolábio, termos percebido o quadro em que se movimentam as Instituições Europeias, o seu quadro de análise e o conjunto de instrumentos de política económica de que se serve e que só servem para piorar a situação, depois de termos percebido com estes mesmos textos quais deverão ser os caminhos a percorrer, olhemos então para as consequências da aplicação dos remédios que a Comissão Barroso tem vindo a aplicar. A Irlanda, a Grécia, aos nossos olhos, portanto.

 

Uma pergunta vos deixo, aos visitantes de Estrolábio, na sequência  da leitura destes textos: da crise seremos nós apenas os agentes portadores, ou seremos nós os seus actores e os seus autores, por interpostos agentes, as Instituições Europeias, ao permitir que os instrumentos de política por aquelas utilizados sejam afinal os que têm conduzido à situação presente? Se assim é, outra consciência em política se exige. Que esta se ganhe, então.

 

 

 

 Marie de Vergès  A Grécia terá ela meios para reembolsar a sua dívida? [1]

 

 

Decididamente, nada está feito. Apesar dos esforços do governo de Georges Papandréou para colocar o país sobre os carris, investidores, analistas e economistas altamente colocados continuam a duvidar da capacidade de reembolso da Grécia muitíssimo endividada. “Não haverá forma de escapar a uma reestruturação" da dívida, assim afirmou Otmar Issing, o antigo economista‑chefe do Banco Central Europeu (BCE), numa entrevista, segunda-feira 21 de Março, à revista alemã Der Spiegel.

 

A afirmação não é passível de contestação, na mesma altura em que os dirigentes europeus acabam de melhorar as condições da ajuda financeira concedida em Maio de 2010 a Atenas. A 11 de Março, aceitaram reduzir a taxa de juro exigida e prolongar a duração dos empréstimos realizados a fim de dar mais tempo ao país para restaurar a sua credibilidade. Uma lufada de oxigénio bem-vinda mas que, de acordo com numerosos especialistas, não dispensará o país de uma re-negociação com os seus credores. O sentimento dos operadores financeiros é extremamente pessimista: de acordo com um inquérito do banco Barclays Capital feito junto de um milhar de investidores, são cerca de 70% deles que acreditam no cenário de uma reestruturação de dívida na zona euro nos três próximos anos.

 

À beira da insolvência? A análise é rapidamente feita: a austeridade a que se está a obrigar Atenas, de acordo com as recomendações dos Europeus e do Fundo Monetário Internacional (FMI), incide negativamente sobre o crescimento. E muito fortemente. As baixas de salários e os aumentos dos impostos afectam o poder de compra das famílias. A Grécia não pode mesmo contar com a arma da desvalorização para estimular as suas exportações.

 

O produto interno bruto (PIB) diminuiu 4,5% em 2010. Deverá ainda diminuir 3% em 2011 enquanto a taxa de desemprego atinge os cerca de 15%. Sempre no capítulo das más notícias, o governo tem dificuldade em melhorar as receitas de impostos. Resultado, o défice aumenta e a dívida pula. Aproxima-se dos 150% do PIB, um nível recorde na zona euro!

 

Para o centro Bruegel, um instituto de investigação de grande influência na Europa, o país “roça claramente a insolvência". Assim, de acordo com os cálculos deste think tank, para que Atenas chegue a trazer a dívida pública para a barra dos 60% do PIB daqui até 2035, ser-lhe -ia necessário alcançar anualmente um excedente primário - sem o serviço da dívida - de 6% do PIB. “É uma tarefa de Hércules, indica André Sapir, professor na Universidade Livre de Bruxelas e investigador em Bruegel. O único caso no conjunto dos países da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico) com tais excedentes, é a Noruega, mas é graças aos seus rendimentos do petróleo. “

 

A Grécia conta voltar aos mercados a partir de 2012. Mas a sua dívida continua a negociar-se sempre a taxas proibitivas. “No mercado dos CDS (títulos de seguro com os quais é suposto proteger-se contra o risco de incumprimento de um emitente), a Grécia é julgada de mais risco que o Iraque!“, ironiza Jean-François Robin, estratega no Banco Natixis. De acordo com este analista, esta avaliação é insensata. Mas, sublinha, que se os investidores exageram ou não, o certo é que “se as taxas permanecem onde estão, isto não é sustentável".

 

As razões para esperar. Acontece que a Grécia, o FMI e as Instâncias Europeias afastam a opção de uma reestruturação e alegam que o quadro está longe de ser muito negro: o governo efectua as suas reformas a um ritmo impressionante. Conseguiu reduzir o seu défice orçamental de 6 pontos de percentagem num ano, fazendo-o descer de 15,4% do PIB em 2009 para 9,4% em 2010. Para aumentar as suas receitas, Atenas além disso decidiu realizar um plano de privatizações de 50 mil milhões de euros. O objectivo é ambicioso. Se for atingido, do que duvidam certos peritos - o governo poderia dispensar-se de impor novos aumentos de impostos que correm o risco de enfraquecer ainda mais o crescimento económico.

 

Para toda a gente, é urgente esperar. As razões são bem compreendidas. Porque se a Grécia reconhecesse que não pode reembolsar as suas dívidas, isto constituiria um perigoso precedente: “Não se tem nenhum outro exemplo na história recente da Europa Ocidental, sublinha Jean-Michel Six, chefe economista na Europa de Standard & Poor’s. Não se conhecem, portanto, antecipadamente quais as consequências. Estas tanto poderiam ser relativamente benignas como extremamente graves", refere.

 

O perigo é o de um contágio aos outros países vulneráveis da zona euro. Os investidores, inquietos que um mesmo cenário se repita com a dívida irlandesa ou portuguesa, prefeririam largá-la. O sector bancário seria sujeito a uma muito dura prova, nomeadamente os estabelecimentos bancários alemães e franceses, muito expostos. "Muitos dizem “não agora” por medo de provocar a faísca de uma crise sistémica na zona euro", explica André Sapir.

 

Para uma reestruturação negociada. Os economistas do centro Bruegel julgam inevitável que Atenas venha a passar por uma redução de 30% da sua dívida negociável, calculada em 290 mil milhões de euros. Mas preconizam então que antecipadamente o sector bancário europeu seja saneado financeiramente e capitalizado

 

Seja como for, a Grécia não procederia a uma declaração de incumprimento unilateral que tomasse os seus mutuantes de fundos desprevenidos. Os peritos crêem antes no cenário de uma reestruturação negociada, que lhes permita obter uma dilatação dos prazos de pagamento e uma baixa das taxas de juro. A Europa parece estar a preparar o terreno. Primeiro, por ter aceite um reescalonamento dos seus próprios créditos concedidos a Atenas, depois, porque esta decisão está ligada  com a de ter diminuido a taxa de juro. E, sobretudo, ao poder vir a reflectir-se sobre o mecanismo de resolução das crises após 2013, data em que expira o actual Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FESF).

 

É este um dos desafios da cimeira que reúne os dirigentes da zona euro a 24 e 25 de Março em Bruxelas. No futuro, a assistência financeira da Europa será condicional. Implicará uma participação dos investidores privados a partir do momento em que o país em dificuldade será considerado insolvente. Ninguém duvida que esta situação se colocará primeiramente para a Grécia se esta não recuperar a sua sustentabilidade daqui até 2013.

 

Marie de Vergès,  La Grèce a-t-elle les moyens de rembourser sa dette ?, Le Monde, 24 de Março de 2011.

 

 



[1] Tradução de Júlio Marques Mota, revisão de António Gomes Marques.

publicado por Augusta Clara às 20:00

editado por Luis Moreira em 02/04/2011 às 02:02
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