Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

Compostagem, minhocas & companhia.

Carlos Mesquita

Falemos do aparelho digestivo das minhocas, que decompõe os nossos lixos e fornece um composto útil. Os restos orgânicos são mais de metade do lixo doméstico, geram gás metano e chorume ácido que contamina cursos de água; as minhocas ao alimentarem-se desses detritos transformam matéria poluente em nutrientes assimiláveis pelas raízes das plantas. Sempre o fizeram na natureza, os agricultores sabem que terras com minhocas são terras boas, Cleópatra legislou para proteger as minhocas, responsáveis pela fertilidade do Vale do Nilo, e Charles Darwin dedicou-lhes um tratado científico. A compostagem induzida pelo Homem, reproduz a degradação da matéria orgânica morta na natureza, a vermicompostagem com minhocas e outros vermes, acelera e optimiza o processo.

Iniciei a compostagem com minhocas vai para 16 anos. Não foi para resolver o problema ambiental do planeta e dar destino ecológico aos resíduos caseiros. A vermicompostagem foi a solução barata para resolver o problema de ter umas terras pouco férteis e sem húmus. É um bom negócio mesmo na dimensão doméstica, e é preferível abordá-la na perspectiva económica pois o facto de ser uma prática ambientalmente correcta vem por acrescento. Faço esta introdução, porque não há paciência para ouvir que já andam a medir a “pegada ecológica” duma consulta na Internet, ou aqueles programas de TV que terminam com a patetice do consumo de carbono gasto para os produzir. Consciência ambiental é salutar, o terço ecológico ao pescoço sufoca.

Quem chegue à compostagem através da “literatura” torce o nariz, tal a quantidade de parâmetros físicos e químicos a monitorizar, por isso é bom começar na escola, fazendo e corrigindo, enquanto se ensaiam na horta ou jardim da escola, a evolução das espécies vegetais plantadas na terra enriquecida com o composto. Os mais velhos têm o quintal ou até onde a dimensão os levar.

A minha experiência: Para o compostor pode-se construir uma caixa, há também contentores em plástico à venda. Eu, porque trabalho com gráficas, consegui gratuitamente uns tambores em plástico preto, que serviram de embalagens de cola (de 50Kgs); fiz meia dúzia de furos (12mm) no fundo em contacto com o chão, e logo acima no rebordo do tambor, que com mais 4 na zona das pegas, servem para arejamento e entrada de animais convidados para o festim. Como comecei com dois e terei uns dez não tenho problemas de seleccionar os restos, divido-os por todos, uma vez que quanto maior for a diversidade de detritos, mais rico é o adubo. Como colocar os resíduos? Primeiro, no fundo do compostor colocam-se uns pauzinhos seguidos de um jornal já lido, amarrotado e humedecido. Depois os detritos são colocados em camadas, o principio é verdes e castanhos intervalados, como tenho muitos restos verdes de jardim, optei por a cada palmo de verdes pôr uma camada de 2 cm de terra humedecida, baixa a temperatura e é um refugio para as minhocas que morrem acima dos 35 graus (no Verão os compostores têm que estar à sombra, os meus estão junto a um muro debaixo de dois marmeleiros). Para além das sobras vegetais da cozinha, tenho enchido os compostores com folhas caídas no Outono, ervas daninhas arrancadas com raiz, materiais tenros de podas verdes como quivis e videira, e as plantas que já produziram, como favais e tomateiros, tudo cortado em pequenos pedaços; do que a terra exportou boa parte é devolvido, pronto a comer pelas novas plantas. O tempo necessário para obter o composto final será de 3 a 8 meses, como no meu caso o composto sai por onde entraram os detritos, esvazio os compostores a cada 6 meses e da pilha de terra de cada um, separo o composto formado, (terra escura, sem cheiro ou excesso de temperatura) de algum que ainda não tenha atingido a maturação. Esse volta aos compostores, mais as minhocas que facilmente se caçam na pilha, voltando a iniciar-se o processo.

Uma nota para dizer que é com desgosto que se vêm escolas pioneiras em projectos ambientais a abandonar tais iniciativas. Numa que conheço deixaram secar a horta pedagógica, e a noticia que uma professora deu dos compostores antes existentes, foi que tinha visto um aluno a fazer escorrega com a última tampa.
publicado por Carlos Loures às 11:00
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