Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Angela Merkel, “o homem doente” do euro - Jean Quatremer, Coulisses de Bruxelles,

 enviado por Júlio Marques Mota

 

“Se a chanceler  alemã, Angela Merkel, tivesse afirmado  em Dezembro de 2009 a sua solidariedade para com a Grécia,  teria marcado o fim da crise”, afirmou ainda há  pouco, Jorgo Chatzimarkakis, em Bruxelas, aquando de uma conferência de imprensa. No entanto, este deputado europeu alemão é membro do FDP, o partido liberal que, na Alemanha, considera que Merkel é demasiado frouxa na crise grega e que considera também que há muito tempo que se deveria ter deixado  Atenas ir para a falência. O facto de este deputado criticar assim abertamente Angela Merkel, mostra que o vento está a talvez a mudar em Berlim perante a desastrosa gestão da crise pelo governo conservador-liberal (CDU-CSU/FDP). Na maior parte dos países da zona euro, a exasperação está já no seu máximo: “instilando a dúvida sobre a pertença da Grécia ao euro, criou-se a crise na qual estamos agora ”, assim martelou Guy Verhofstadt, o presidente do grupo liberal e democrata do Parlamento Europeu.

 

A França sabe melhor que todos os outros a que  ponto a zona euro, por várias vezes esteve à beira da catástrofe, como sabe tanto quanto a  Alemanha de Merkel se tem tornado europeia. “Nicolas Sarkozy tudo tem feito para trazer  Angela Merkel para a embarcação europeia quando esta tinha apenas um desejo que era dela  saltar”, afirma-se nos corredores do poder . “ Podem  acusar-nos de estar colados  à posição alemã desde há dezoito meses, mas era o preço a pagar de modo que a Alemanha permanecesse a bordo e aceitasse participar no salvamento do euro e posso dizê-lo e reconhecê-lo  que tudo isto não é nada  evidente. Nicolas Sarkozy absteve-se com cuidado de toda e qualquer declaração pública sobre o assunto para evitar quebrar a relação franco-alemã, a única coisa que poderia  permitir à zona euro sair da situação”. Mas, longe de tirar as lições das falsas operações passadas, Berlim continua a alimentar a fogueira , como se Berlim não consiga  pensar para além dos seus problemas de coligação e dos seus períodos eleitorais.

 

Nestes últimos dias, mesmo a França sentiu fortemente a gravidade da situação  e opôs-se frontalmente à Chanceler alemã. Desde algumas semanas, esta, face à  impossibilidade da  Grécia voltar aos  mercados em 2012 como o esperava, a melhoria das suas contas públicas sendo mais longa do que previsto, a Chanceler exigiu que o futuro plano de ajuda à Grécia implicasse desta vez  o sector privado. Por outras palavras, Merkel  apoiada pelo seu ministro das finanças, Wolfgang Schäuble,  no entanto muito europeu, quis  obrigar os bancos e as outras instituições financeiras a subscrever novas obrigações gregas para substituir as que se estavam a vencer e, de passagem,  alongar para  sete anos a sua data de vencimento, para que não seja só o contribuinte a suportar a carga da dívida  grega. O que representa uma situação de incumprimento, de default,  porque a situação dos credores é degradada em relação a que era antes…

 

Imediatamente, os investidores que se julgavam ao abrigo de qualquer incumprimento , como se o tinham assumido  os  governos da zona euro, entraram em pânico  e daí , então.  o brutal agravamento da crise: as taxas de juro sobre a dívida grega, mas também a irlandesa ou a portuguesa, espanhola ou  italiana dispararam . Porque, se se está a implicar  o sector privado na reestruturação da dívida grega, não se será o mesmo  caso depois para com os outros países em dificuldade? O Banco Central Europeu, apoiado pelo Bundesbank ou ainda pelo FMI, opôs-se violentamente à esta ideia, da mesma maneira que a França e a maior parte dos países da zona euro (fora da antiga “zona marco”, Áustria, Países Baixos, Finlândia).

 

Finalmente, na sexta-feira, Nicolas Sarkozy teve êxito a trazer à razão o seu homólogo alemão, abalado pelo levantamento de mecanismos de protecção  que a sua ideia tinha suscitado: a participação do sector privado  sim,  mas se e só se for  “voluntária e informal”, o que evitará a situação de incumprimento  (os credores não estarão mesmo  reunidos em torno  de uma mesa para discutirem a sua participação). Aquando do Eurogrupo de Domingo à noite, no Luxemburgo,  o director associado do FMI pediu aos Europeus que parassem com as suas discussões “improdutivas” sobre a reestruturação da dívida grega. Jean-Claude Juncker, o primeiro ministro do Luxemburgo e o presidente do Eurogrupo, chamou à atenção  contra “o efeito de contágio das más decisões; corremos o risco de atear  o fogo à zona euro”. Mas o mal está  feito: os mercados, já nervosos, mais uma vez foram abalados e interrogaram-se se a zona euro é capaz superar a crise.

 

Os parceiros da Alemanha estão enervados ainda mais quanto este  passo em  falso não é único, é apenas  o último de uma muito longa série, a  ponto de que alguns se interrogam já “se há ainda alguém que na Alemanha que compreende os mercados financeiros” quando são eles os actores essenciais da crise actual. Assim, é Berlim que transformou pelas suas hesitações a crise da dívida grega, que começou em Dezembro de 2009, em crise da zona euro. Após ter acarinhado a ideia, durante cinco meses,  de deixar a Grécia entrar e assumir  a sua situação de  falência, ou mesmo de a  levar  a deixar a zona euro, a chanceler  alemã, Angela Merkel, acabou  por se  deixar  convencer por Paris e Bruxelas que vieram em seu  socorro, no dia 1 Maio de 2010. Mas  com o respeito pelas  suas condições: exigiu que os países da zona euro emprestassem  os 80 mil milhões de euros prometidos à Grécia (mais 30 mil milhões emprestados pelo FMI) com taxa de juro duas vezes mais elevada que a do FMI para não dar a impressão à sua opinião pública, já fortemente agastada  por uma imprensa popular resolutamente anti-Grécia,  que não se estava a fazer nenhum “presente” à Atenas: a Grécia não respeitou o regulamento de co-proprietária  do euro, deixando derivar as suas finanças públicas e então deve por isso mesmo  ser “punida” ( esclareça-se que esta remuneração não cai nos bolsos dos investidores, mas nos orçamentos dos Estados credores).

 

Resultado: em Março de 2011, foi necessário diminuir em situação de catástrofe esta taxa de juro antes sem dúvida,  em breve,  de a levar aos níveis de  taxa do mercado, porque estas condições draconianas agravam a carga da dívida grega…

 

Mas o pânico já tinha alcançado  os mercados persuadidos que estes já estavam de que a zona euro ia explodir. Uma semana depois do salvamento da Grécia, a 10 de Maio de 2010, foi necessário criar e com grande urgência  um Fundo europeu de estabilidade financeira (FEEF) dotado de 440 mil milhões de euros (mais 60 mil milhões que pode emprestar a Comissão, mais 250 mil milhões que poderá emprestar o FMI)… A zona euro esteve  muito perto da explosão. Mas este FEEF, sujeito ao veto de cada Estado membro, como  o exigiu os Alemães, realmente não convenceu os mercados, porque deve ser activado  caso a caso, situação a situação,  e não por um organismo federal como a Comissão. E as violentas críticas do Presidente  do Bundesbank, Axel Weber, contra a decisão do BCE  estar a comprar dívida pública  grega no mercado secundário, o da revenda,  não contribuiu para tranquilizar os investidores sobre a determinação alemã de salvar a Grécia. A situação por conseguinte continuou tensa todo o verão.

 

No entanto, em Setembro, Berlim, apesar das advertências do BCE, recomeçou nas suas exigências. Berlim pediu oficialmente que a reestruturação das dívidas soberanas possa ser automática no caso um Estado-Membro da zona euro beneficiar  de uma ajuda pública. “Merkel tem que tranquilizar a sua opinião pública: não é  agradável para  os contribuintes que sejam eles a pagar para um país, devem ser esses malditos  banqueiros”, explica-se  em Paris. “Mas sobretudo, esta não quer se trate  de uma União de transferências: teme que no  final, a dívida grega, por exemplo, seja detida inteiramente pelos parceiros de Atenas e que estes sejam  forçados a  anular uma parte depois”. Em suma, que se transfira  uma parte dos rendimentos de um Estado para um outro Estado, o que  representaria de facto estar a criar  um orçamento federal.

 

Os mercados (principalmente os bancos e organismos financeiros privados da zona euro) entenderam a mensagem: a Alemanha quer reestruturar a dívida grega e por conseguinte procuraram desfazerem-se desta dívida o mais rapidamente possível, o que fez disparar  as taxas de juro (e conduzir as agências de notação a degradar de novo a Grécia). Paris, inquieta-se, compreendeu que se  tratava  de um ponto duro para Berlim, mas teve êxito em  limitar os estragos aquando da cimeira de  Deauville de Outubro de 2010 obtendo que a automatização seja excluída da mesma maneira que a nova negociação das obrigações de Estado subscritas antes de Junho de 2013. Mas o compromisso foi mal explicado , os mercados entraram de novo em pânico . Na data do Conselho Europeu dos chefes de Estado e de governo que se seguiu, Jean-Claude Trichet suplicou aos Europeus que não pronunciassem  a palavra “reestruturação”, em vão. O compromisso de Deauville foi assim adoptado pelos Vinte e sete. Os mercados não se calmaram, como o tinha predito  Trichet, o  que provocou de seguida a queda da Irlanda  e depois, na passada , a queda de Portugal, dois países frágeis eles também doravante colocados sob o  guarda-chuva europeu.

 

Em resumo, relançar regularmente o debate da implicação do sector privado é suicida, como se explica  em Paris. “É a mudança constante de doutrina que preocupa os mercados: não se pode dizer um dia, não haverá reestruturação, seguidamente não haverá  reestruturação antes de Junho de 2013, seguidamente,  reestruturam-se todas as dívidas ”, explica um responsável francês. É  necessário seja  reestruturar imediatamente ou alternativamente nunca querer  reestruturar. “ Está-se exactamente na situação de  Lehman Brothers”, o banco de negócios cuja falência, a 15 de Setembro de 2008, provocou uma crise financeira e económica mundial. “Lehman não era um banco sistémico. O que bloqueou o sistema, é o facto de a administração Bush ter primeiro  salvo a AIG e Bear Stearns o que persuadiu o sector financeiro que os grandes estabelecimentos seriam  ajudados. Mas deixando abruptamente cair Lehman, mais ninguém emprestou dinheiro, porque se tinham  dúvidas sobre o estado de saúde real de cada um dos bancos  e cada um interrogava-se qual  seria o próximo ter o mesmo destino”… Didier Reynders retomou por  sua conta, na segunda-feira, o espectro novamente  de um Lehman Brothers europeu: “Se tivéssemos que deixar  partir um país para uma situação de incumprimento , sabe-se muito  bem que o contágio seria da mesma amplitude, e não somente como se crê  em alguns países: nestes incluindo o meu país, o Benelux, a França, a Alemanha, ver-se-iam  as consequências como se viram há já   três anos ".

 

Em suma, se aceitarmos  que a Grécia falte sobre a totalidade ou em  parte da sua dívida, apesar do compromisso político da zona euro de a apoiar, os investidores arriscam retirarem-se não só  da Irlanda e de  Portugal, mas também dos mercados julgados frágeis, da Espanha, da Itália, da Bélgica, etc., precipitando assim a sua queda. Além disso, uma situação de incumprimento ultrapassaria  também os bancos deste país e obrigaria  sem dúvida a uma recapitalização dos bancos e dos estabelecimentos expostos às dívidas dos Estados em falta  uma vez que  o mercado da dívida é muito integrado na zona euro (o que permite na passagem beneficiarem  de taxas baixas). Sem estar a levar em conta  a activação dos CDS, estes seguros contra as situações de incumprimento de um devedor   de que ninguém  pode predizer os seus efeitos  sobre a esfera financeira… Todo o sistema ficaria, por conseguinte, completamente desestabilizado e  uma recessão mundial não seria então de excluir como o acaba de reconhecer  Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva federal americana.

 

É verdadeiro que cada vez, o governo alemão volta para a fila  e participa no salvamento da zona euro. Assim, Berlim renunciou na segunda-feira  no  Luxemburgo a que o futuro Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) dotado de 500 mil milhões de euros e que se sucederá ao FEEF em 2013 tenha as categorias de credores seniores e juniores no caso de uma situação de incumprimento  de um Estado afim de aí  também querer agora  tranquilizar os investidores privados que serão colocados ao mesmo nível  que os estados subscritores de MEE… Os Alemães também tinham aceite, em Março passado, que o MEE   pudesse adquirir  directamente empréstimos de Estado junto dos países em dificuldade, o que seria um primeiro passo para as obrigações europeias (recusando ao mesmo tempo o resgate no mercado secundário…). Mas o preço a pagar é cada vez mais elevado.

 

Na mesma proporção que Berlim, em vez de negociar secretamente com os seus parceiros  Timothy Geithner, secretário do tesouro dos Estados Unidos  multiplica-se em  declarações públicas bastante ruidosas e ainda há pouco  chamou os Europeus à razão: “ penso que seria muito útil que a Europa fala de só uma voz, e com uma voz clara, sobre só uma estratégia. É muito difícil  para as pessoas  que investem na Europa compreenderem  qual é a estratégia quando se  tem   tantas vozes diferentes”. Não é seguro  que a chanceler  alemã  esteja em condições de ouvir e compreender  esta mensagem como o tem  estado a demonstrar  desde  há dezoito meses.

 

Hoje, “os Alemães definitivamente compreenderam  que não se podia deixar cair a Grécia, porque isso  ameaçaria o euro e admitiram que tinham necessidade da moeda única”, suspira-se  em Paris. Mas é necessário agora  ir mais  longe  e sair da política de mais remendos, sendo bem claro que esta  política  de remendos nada  tem regulado (muitíssimo pouco e sempre demasiado tarde): “basicamente, a questão  é ou o federalismo ou então a  falência”, resume um responsável europeu. Mas aqui está, “ não sei o que  os Alemães escolherão, e prefiro não lhes fazer a pergunta”…

 

Uma coisa está certa: se Helmut Kohl tivesse manobrado  assim, aterrorizado pela sua opinião pública, nunca o euro teria visto a luz do  dia.

 

Angela Merkel na verdade tornou-se  uma das verdadeiras incógnitas da equação europeia.



Jean Quatremer, Coulisses de Bruxelles, UE, Angela Merkel, « l’homme malade » de l'euro, Liberation, Paris,21 de Junho de 2011.

publicado por Luis Moreira às 23:45
link | favorito
Sexta-feira, 14 de Maio de 2010

Carta aberta a Angela Merkel

Carta aberta à Chanceler da República
Federal da Alemanha, Dra. Angela Merkel

“A estratégia sem táctica é o caminho mais lento para a vitória.Táctica sem estratégia é o ruído antes da derrota.”
Sun Tzu (544 – 496 A.C. – General chinês e um dos maiores estrategas militares de todos os tempos e autor de “A arte da guerra”)

Cara Sra. Merkel,

A situação no país, na União Europeia e no mundo, torna-se cada vez mais
confusa. As velhas regras deixam de estar em vigor e as novas ainda não
nasceram. A ameaça de que as coisas fiquem fora de controlo é cada vez maior e a
perda de poder da Pax Americana – god’s own country and his partners in
misleadership, a UE, nós – torna-se cada vez mais óbvia. Basta pensarmos como
há pouco, em Copenhaga, os líderes do sistema de líderança da Pax Americana,
incluindo o Presidente Obama, foram afrontados e humilhados. Um acontecimento
ultrajante que, no futuro, deverá repetir-se cada vez com mais frequência – se não
agirmos.

E não é só pelo país fora que isto se sente. Também pelo aspecto cansado da
senhora se pode notar que luta, cada vez mais em vão, contra os mecanismos de
correcção cibernéticos da natureza – invisible hands de sinais contrários –, contra
os quais não pode ganhar. Sobretudo se continuar a dispersar-se perdidamente e a
atacar todos os problemas materializados individualmente, em vez de identificar e
resolver o problema central – com a “espada” e não mais com os “dedos”.
Aumentar a quantidade das suas queridas mensagens sms? Esqueça, isto só iria
piorar a situação ainda mais.
Que tal se experimentasse quebrar finalmente o seu tabu férreo e tentasse uma
simples mudança de estratégia?

Em 26 de Agosto 2007 escrevi-lhe – e ao mesmo tempo ao Sr. Barroso – sob o
assunto “Um “New Deal” para o Terceiro Mundo, a União Europeia e a Alemanha
― três grandes objectivos que se excluem?”, uma carta pessoal na qual, entre
outros, lhe chamei a atenção para o seguinte problema central: a estratégia linear,
e por isso errada, da União Europeia e, naturalmente, a dos seus mandantes nas
capitais europeias – sem os quais o Sr. Barroso não dá nenhum passo para a frente
e prefere concentrar-se em coisas tão importantes como a poibição de venda de
lâmpadas incandescentes e foscas.
Acerca do referido problema central que faz estagnar a UE, escrevi-lhe:
“Para isso, é preciso admitir primeiro, com toda a sinceridade, que o objectivo da
agenda de Lisboa de Março 2000 ―“tornar a UE no espaço económico mais
dinâmico e competitivo do mundo, baseado no conhecimento e capaz de garantir
um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos e maior
coesão social” ― está errado. Errado, porque constitui um objectivo primariamente
introvertido e egocêntrico, cuja perseguição conduz a efeitos e resultados errados,
por não ser recompensado pelo meio envolvente em que a Europa se insere.” Com
efeito: "Se o objectivo principal for de definição errada, também todos os
posteriores passos dirigidos na direcção daquele objectivo o são, mesmo que
fossem correctos se dirigidos na direcção de um objectivo diverso. O facto de se
poder alcançar sucessos passageiros com o consequente uso de vistas curtas, não
altera nada na sua nocividade a longo prazo", ensinou-me o meu professor, o
investigador de sistemas Prof. h.c. Wolfgang Mewes, criador da “Teoria da Gestão
Cibernética (EKS)”E depois o princípio de aproximação à solução do problema: „... O novo objectivo poderia ser: “...tornar-se (a UE), através dos seus Estados membros, de perfis e de know how social e técnico diversos e multíplices, (tal como um canivete suiço multifunções), a preferencial parceira e solucionadora de problemas para os países do mundo menos desenvolvidos, contribuindo para desenvolvê-los sistematicamente em virtude de um New Deal...“

Infelizmente a minha carta caiu, juntamente com o meu esboço estratégico – New
Deal –, nas mãos de um dos seus assesores na Chancelaria, o qual não foi capaz de
distinguir uma matéria de importância para o patrão, de um assunto de chacha.
Talvez na altura a hora ainda não tivesse chegado, mas com a rapidez com que as
coisas actualmente se precipitam, muito em breve até propostas de solução de
problemas totalmente disparatadas e descabeladas – talvez um qualquer „metodo
de borras do café“ !? – poderão passar o referido „filtro“.
E tinhamos ainda a Europa, a Europa dos objectivos sublimes e nobres de outrora,
que eu conhecia na minha juventude e defendia com fervor, recomendando-a
também desde 1964 aos meus amigos na minha segunda pátria – Portugal. Que
aconteceu com esta Europa? Ora, depois de três décadas de comportamento linear
e de crescente falta de liderança, o sistema se encontra de candeias às avessas.
Em vez de avançar com o topo da pirâmide, tenta avançar com a base, através de
esforços cada vez mais sobrehumanos e vãos. E depois dos europeus – os seus
líderes impotentes e sem rumo agarraram-se ferreamente ao comportamento linear
– terem perdido a capacidade de superar a unidade polar entre espírito e matéria,
indispensável para garantir o equilíbrio do sistema, o espírito esgueirou-se. O que
restou foi mera matéria – dinheiro! “O espírito que se dane, venha cá o “cacau” de
Bruxelas ou a Alemanha e o resto é conversa”, é o que hoje porventura pensa a
maioria do povo. É por isso que agora o “cacau” começa a mirrar.

Foi já desde o início dos anos 90 que adverti os meus amigos portugueses, e não
só, contra as consequências dessa falta de estratégia, em cartas, conversas, mails
e artigos de jornal, reafirmando sempre de novo: “... quando uma União Europeia
às avessas, que de outrora extrovertida e alterocêntrica virou introvertida e
egocêntrica, chegar ao fim da linha, serão os seus subsistemas menos
desenvolvidos os primeiros que terão que passar pelas armas”. A título de
prevenção – de Bruxelas, já na altura sem perfil nem liderança – não vieram sinais
nenhuns, já então recomendava aos portugueses no meu artigo de 1997 “Porque
vale a pena apostar em África” , que criassem, finalmente, um claro perfil sócio-
económico de país solucionador de problemas para um determinado grupo-alvo no
mundo e que desenvolvessem e executassem neste sentido uma estatégia,
independentemente de Bruxelas. Eles um dia viriam a precisar disto urgentemente.

Todavia, as minhas repetidas advertências e os meus postulados não foram
percebidos nem seguidos. Pois é, tal como já sabia Friedrich von Schiller é “contra
os subsídios que até os próprios Deuses lutam em vão” – ou terá dito “contra a
estupidez?”
Infelizmente o meu vaticínio cumpriu-se e a primeira vítima, Grécia, já se encontra
no trampolim de dez metros, debaixo de si uma piscina sem água. E Portugal já
vestiu o calção de banho, também a Espanha já anda à procura dele, na esperança
desesperada de não precisar dele. Who is next?
Diga-me, cara senhora Merkel, já alguma vez reparou que também a Alemanha,
um dos principais co-responsáveis desta marcha sem rumo, se encontra na mesma
fila, só um pouco mais atrás? Já reparou que nos encontramos à beira de uma
negativa reacção social em cadeia, capaz de pôr fim a toda esta fantochada? Como
física doutorada, certamente tem conhecimentos de cibernética – pequenas causas,
grandes efeitos. Mas sabia que também em sóciosistemas valem essas mesmas leis
da natureza? Já teve a ideia de que em todos os sistemas naturais é sempre a
estratégia que determina tudo – “Structure follows strategy”- S.C.Chandler – e que
a actual estratégia, a nível supranacional da UE e aos níveis nacionais, pode estar
totalmente errada?

Seria bom que pensasse sobre estas coisas. E particularmente sobre o facto de que
a senhora é, em Berlim, a responsável principial e em Bruxelas a principal co-
responsável, por um sóciosistema outrora aberto e bem sucedido que pouco a
pouco se transformou num sistema fechado, já não receptivo a sinais externos e
em vias de fracasso, que só funciona quando alguém entra com um cheque sempre
que a crise aperta?

Com efeito, não são a Grécia, Portugal e outros os responsáveis pelo desastre que
se vislumbra. Pelo contrário, os responsáveis são aqueles que durante décadas
perderam oportunidades de efectuar mudanças de estratégias eficazes em
Bruxelas, ou mesmo as impediram por motivos egocêntricos e delegaram o governo
em gente medíocre. Ambos os referidos países, e outros, puderam fazer o que
fizeram porque tiveram o poder para tal, precisamente porque Bruxelas anda sem
liderança e sem rumo. Ora, os referidos países naturalmente são co-responsáveis,
pois houve certamente uma altura em que tiveram a oportunidade de criar, eles
próprios, e mediante uma mudança de estratégia auto-responsável, aquilo que o
Prof. Hans-Werner Sinn, Director do ifo-Institut de Munich, numa recente entrevista
em SPIEGEL-Online designou de um “modelo de negócios” (inexistente). É pena,
pois em caso de sucesso até poderiam ter emitido um sinal positivo a nível da UE,
promovendo uma mudança.

A senhora, a não ser que queira demitir-se, agora tem – do ponto de vista linear –
duas hipóteses: 1) Insiste na sua estratégia, que na realidade não passa de mera
táctica, até ao fim amargo. 2) Insiste, face ao desastre que cada vez mais se
aproxima, numa reforma da UE não baseada em princípios sistémicos-holísticos,
que na realidade não passaria de uma pseudo-reforma (combate aos problemas
singulares que agora surgem em catadupa, com meios materiais-mecanicistas,
continuando a não considerar as suas causas imateriais-psíquicas).

Todavia, ainda existe uma terceira hipótese, a não linear, dinâmica: a senhora
finalmente deixa de brincar às tácticas e começa a introduzir estratégia, a par com
a arte de liderança cibernética. Isto poderá ter lugar reconhecendo primeiro que a
sua estratégia é inexistente ou errada. Seguidamente, começa a planear uma
realização de grande impacto, a qual já em 2005 acariciou (Prof. Kirchhof!?). Na
actual situação, porém, terá que tratar-se de vender algo aos alemães e à UE que
tenha como consequência uma grande realização libertadora: a reorientação da UE
e da Alemanha para objectivos novos, extrovertidos e alterocêntricos no sentido do
meu esboço estratégico do qual, a pedido, lhe poderei enviar um novo exemplar.
Isto seria o “factor mínimo” externo, o decisivo por dizer respeito a necessidades
“candentes” de um determinado grupo-alvo. Lembro, pois, que se trata de eliminar
a armadilha da pobreza do 3º mundo pela qual a UE é uma das principais co-
responsáveis, fazendo com que cerca de 3 mil milhões de recebedores de esmolas
no mundo se tornem os nossos parceiros de trocas e clientes (cf. “New Deal” ).

Que gigantesco desafio para a os povos da UE e que grande oportunidade para todos nós, que hoje só olhamos para os nossos botões, voltarmos a ser úteis. A nossa aconteceria – esta é a notícia menos boa – de maneira tão dura e drástica e no meio de graves turbulências sociais – insurreição! – que a senhora entraria na
história como administradora de declínio, mal sucedida, da Alemanha e da Europa.
Porém, se estiver disposta e na posição de enveredar pelo caminho sistémico-
holístico do são juizo humano, transformando assim o actual sistema fechado
novamente num sistema aberto, criando ainda novo crescimento orgânico, então
causará – repito – nova confiança, fé, entusiasmo e motivação, a par com uma
vibrante atmosfera de alvoroço e de abalada para novos horizontes. O sublime e
nobre espirito europeu, indispensável para o equilíbrio do sistema, então voltaria
retomando a sua acção benéfica de outrora. Tanto a nível da UE, como em Berlim,
Paris, Londres, Madrid, Lisboa, etc. e no mundo.

Cara senhora Merkel, ponha um fim ao „tempo do adiamento, das meias medidas,
dos expedientes apaziguadores e frustrantes, dos atrasos“ – cf. abaixo – dos
últimos anos. Deixe para trás os lugares comuns e palavras ocas, em que já
ninguém acredita. Deixe de reagir e comece finalmente a agir. Pense, face à actual
situação mais que desesperada, no famoso discurso de Sir Winston Churchill de
1936 sobre o appeasement: “O tempo do adiamento, das meias medidas, dos
expedientes apaziguadores e frustrantes, dos atrasos, está a chegar ao fim. No seu
lugar, estamos a entrar num período de consequências.” Está a reconhecer o seu
perfil no discurso? Contudo, pense também, como sinal de esperança, nas palavras
do nosso grande Rei da Prússia, Frederico II: "Quem apelar à fantasia e à mente do
homem, vencerá aquele que tenta apenas influir sobre a razão".
Aja, senhora Merkel! Se agir terá uma boa hipótese de dar a volta por cima às
coisas na última da hora, tornando-se Líder de Renovação bem sucedida – na
Alemanha, na UE e com impactos benéficos em todo o mundo. A decisão é sua –
ainda.
Com os melhores cumprimentos de Estoril / Portugal
Rolf Dahmer
publicado por Luis Moreira às 21:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links