Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

O Terramoto de Lisboa - 5 - O sismo e a cultura em Portugal

(Conclusão)

Carlos Loures



Em Portugal, com a Inquisição a ser usada pelo marquês como polícia política, fiava mais fino. Em todo o caso, publicaram-se numerosas obras sobre a catástrofe. A maioria delas, descritivas, sem grandes incursões no território perigoso das razões filosóficas ou religiosas, tanto mais que o marquês depressa fez saber a sua opinião através de um panfleto que foi profusamente distribuído – o sismo fora motivado por causas naturais, não haviam intervindo forças sobrenaturais. Ponto final.

Um dos mais elucidativos exemplos desta forma prudente de abordagem é a de Paulino António Cabral, Abade de Jazente com «Ao Terramoto do Primeiro de Novembro de 1755. Romance Fúnebre!»:

«Um só momento, um só, porém terrível

Abre, rompe, destrói, faz em pedaços

Os doces lares, as sublimes torres,

Os Templos Santos, e os Palácios altos.

A rude queda das paredes rotas

Devora vidas mil por modos vários;

Pois sendo um só destino, é bem diversa

A morte que resulta dos acasos.»

É uma reflexão filosófica sobre o efeito que «um só momento» pode ter no frágil mundo dos humanos e a imponderabilidade do destino. Muitos outros livros houve, como por exemplo a «Nova e Fiel Relação do Terremoto, que experimentou Lisboa e todo Portugal no 1º de Novembro de 1755», de Miguel Tibério Pedegache, ou, de D.J.F.M., Teatro Lamentável, Cena Funesta: Relação Verdadeira do Terremoto do primeiro de Novembro de 1755», ambos publicados em 1756. A lista completa de títulos é grande e, para o que pretendo dizer, inútil.

Entre as excepções à onda descritiva ou meramente oratória, refiro duas das transgressivas – a do padre Malagrida e a de Cavaleiro de Oliveira. Que não tiveram um final feliz, diga-se. Francisco Xavier Oliveira, o famoso Cavaleiro de Oliveira, com o seu «Discurso Poético sobre as Calamidades presentes sucedidas em Portugal. Seguimento do Discurso Patético, ou Resposta às Objecções e aos Murmúrios que esse escrito sobre si atraiu em Lisboa», dirigindo-se a D. José, afirmava que ignorando a palavra de Deus e perseguindo tantos inocentes, os «culpados habitantes de Lisboa» tinham atraído a ira divina. E desenvolvia o mote, acusando implicitamente de ateísmo, com referências pouco discretas, Voltaire e, mais grave, o marquês de Pombal.

O mesmo e pouco original motivo, foi o introduzido pelo padre jesuíta Gabriel Malagrida (1689-1761), um pregador de origem italiana, que esteve como missionário no Brasil durante mais de trinta anos. O seu opúsculo «Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto que Padeceu a Corte de Lisboa no 1º de Novembro de 1755» considerando que a catástrofe era um castigo divino para os desmandos humanos. Já após o terramoto de 1531, clérigos e frades apontaram a mesma causa. Cavaleiro de Oliveira e Malagrida cometeram o erro de contrariar frontalmente o conteúdo do tal folheto que o marquês encomendara e no qual se afirmava que o terramoto era um fenómeno natural, nele não intervindo qualquer força sobrenatural. Ausente de Portugal, Cavaleiro de Oliveira não foi atingido pelo braço da Justiça. Malagrida foi desterrado para Setúbal, mas sendo depois envolvido no processo dos Távoras, entregue à Inquisição acusado de ter produzido afirmações heréticas, foi condenado à morte, estrangulado, o corpo queimado e as cinzas deitadas ao rio. Contrariar o marquês não era nada bom para a saúde. Cavaleiro de Oliveira foi, nesse mesmo auto-de-fé, queimado em efígie.

Procurei, de forma quase telegráfica, abordar muito pela rama as repercussões profundas que o grande terramoto de 1755 e o impacto da destruição da grande cidade de Lisboa, provocaram numa Europa onde a Luz abria temerosamente caminho entre as trevas de ancestrais ignorâncias. Tema que daria para vários volumosos livros.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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Domingo, 31 de Outubro de 2010

O Terramoto de Lisboa - 4 - O sismo e a cultura europeia da época

(Continuação)

Carlos Loures



Em textos anteriores, vimos já que se perdeu muita coisa importante no Terramoto de 1755 – os seis hospitais da cidade, incluindo o de Todos-os-Santos, 33 palácios da grande nobreza, o Palácio Real, a Patriarcal, o Arquivo Real, a Casa da Índia, o Cais da Pedra, a Alfândega palácios, igrejas, bibliotecas, a faustosa Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes… Na «Gazeta de Lisboa» do dia 6 de Novembro, afirmava-se que «O dia primeiro do corrente mês ficará memorável pelos terremotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade». Diga-se, de passagem, que a «Gazeta» nunca interrompeu a sua publicação devido ao sismo, constituindo uma importante fonte de informação sobre o que aconteceu.

O que se ganhou, também sabemos: uma cidade nova, muito moderna para a época em que foi construída e, pormenor importante, edificada de acordo com um sistema anti-sísmico – a famosa estrutura flexível de madeira dos edifícios, «em gaiola». Como disse José Augusto França, a nova Lisboa saída do inspirado traço de Eugénio dos Santos, surge como uma autêntica «cidade das luzes», uma obra emblemática do espírito do iluminismo.

Dada a necessidade de uma reconstrução rápida, optou-se por uma tipologia despojada de ornatos, um estilo que resulta de uma mistura de elementos que, segundo o Professor Nelson Correia Borges, se inspira « num passado arquitectónico, recente ou longínquo, de Lisboa, numa combinação de maneirismo revivido com alguns pormenores empobrecidos do barroco e do rococó». Em todo o caso, apesar desse despojamento formal que caracteriza o «pombalino», a reconstrução deu - nos uma praça de beleza ímpar, à maneira das «praças reais» europeias – o Terreiro do Paço (uma das derrotas do Marquês, que quis crismar o largo como Praça do Comércio, nome que ainda hoje figura nas placas toponímicas).

Mas não só na arquitectura houve ganhos – o grande sismo e a destruição de Lisboa, tiveram repercussões na cultura da segunda metade do século XVIII. Numa época em que os filósofos punham em causa princípios considerados até então intocáveis, uma tal catástrofe, destruindo em minutos uma das maiores cidades da Europa, que tantas centenas de anos levara a edificar, dava que pensar. Era a insustentável fragilidade da condição humana face à incomensurável grandeza… de quê? De Deus? Da Natureza?

Diversos vultos da cultura europeia lhe dedicaram escritos. A catástrofe foi motivo para equacionar questões importantes que mexiam com a religião, com os conceitos filosóficos, com o papel atribuído ao homem no palco do mundo. As grandes interrogações que se punham, pelo menos na Europa das Luzes, poucas décadas antes da Grande Revolução de 1789, eram a prevalência (ou não) da vontade divina e a margem de manobra que o homem tinha para decidir o seu devir. Em síntese – Deus e o homem – quem decidia o quê.

Tudo isto (principalmente aqui, com a Inquisição de ouvidos espalhados por toda a parte) tinha de ser dito com cuidados funambulescos, avançando-se sobre um estreito arame de conceitos, não fosse no meio das deambulações filosóficas escapar-se alguma heresia e cair-se em cima da fogueira. como iremos ver, às vezes acontecia.

Sobre o que se escreveu, Europa fora, acerca do terramoto, os exemplos mais citados são «O Poema sobre o desastre de Lisboa», escrito em 1756 por Voltaire (1694-1778) e a consequente «Carta a Voltaire» de Jean-Jacques Rousseau (1712- 1778), os «Escritos sobre o Terramoto de Lisboa», de Immanuel Kant (1746-1781) e palavras de Goethe (1749-1832) que, dissertando sobre a catástrofe, disse "porventura em algum tempo o demónio do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e rapidez, o arrepio do medo". O poema de Voltaire tem como “subtítulo” ou “título alternativo” as palavras que se seguem: «Ou exame do axioma “"Tout est bien quand finit bien"». Voltaire contraria o pressuposto de que o mundo criado por Deus, está de tal maneira bem organizado que, quando ocorre um «mal necessário», a Divina Providência logo compensa os homens com um «bem» que supera esse mal. Utiliza o terramoto que destruiu Lisboa como um argumento que contraria aquele conceito optimista e conducente ao fatalismo que não deixa margem de manobra à intervenção humana. Digamos que a reflexão voltaireana introduz o determinismo como elemento a tomar em consideração.

Tornou-se óbvio desde logo que, na mira de Voltaire, estavam os postulados metafísicos de Leibniz (1646-1716) segundo os quais o nosso mundo é o melhor, pois foi o escolhido e criado por Deus. Na «Teodiceia», Leibniz atacava frontalmente todas as tentativas filosóficas para contrariar a religião. Voltaire, no poema, perguntava ironicamente como é que a bondade de Deus permitiu uma tal tragédia. Em Candide, ou l'optimisme (1759) o terramoto de Lisboa é também referido como negação desse optimismo defendido por Leibniz.

Por seu turno, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) 1756, na sua “Lettre sur la Providence” (1756), contraria a posição de Voltaire, sem contudo apoiar a teodiceia leibniziana. Segundo Rousseau, a culpa do que ocorreu em Lisboa, não seria de Deus, nem o drama terá decorrido de causa natural. Os motivos da tragédia teriam de ser procurados na corrupção da «integridade» dos homens, provocada pela degenerescência social, pela usura, por aquilo que Marx no século seguinte definiria como a vertigem da acumulação do capital. Como exemplo, Rousseau, referia o facto de em Lisboa haver cerca de vinte mil casas com seis e mesmo sete andares, o que era contrário à Razão. A cupidez, a ânsia de lucro, a corrupção da natureza humana que Deus atribuiu aos homens, eis a causa da tragédia.

Kant, por sua vez, diz nos seus «Ensaios»: «A história não regista outro exemplo de uma agitação das águas tão grande e tão extensa numa tão larga superfície da Terra». E, mais adiante, referindo-se à generalidade das pessoas: «Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que não se podem minorar por qualquer precaução e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina».

Houve também os que não especularam e se limitaram a descrever. Um bom exemplo desse formato é o de J.R.A. Piderit (1710-1791), que diz em «Freye Betrachtung über das neuliche Erdbeben zu Lisabon» (Marburgo, 1756, citado por Isabel Barreira de Campos em «O Grande Terramoto -1755», Lisboa, Parceria, 1998): «As nossas casa tremiam como folhas das árvores, e os nossos corações como as nossas casas. Imaginai, ó vindouros, o pavor com que o ranger e o ribombar da queda dos edifícios, que ruíam em massa, nos abrasava, como um fogo, até à medula dos ossos. Aqui uma caterva de gente contorcia-se sob os escombros, nas mais cruenta agonia. Além gritos lancinantes de morte coavam através das pedras e da terra, e a ninguém era possível acudir aos desventurados que se debatiam sozinhos. Mas além um desgraçado rasgava as unhas e a carne até aos ossos, a fim de salvar a sua pobre vida de uma cova – tal, porém, para nada mais lhe valendo senão para se tornar em coveiro de si mesmo, porquanto, com suas mãos, preparava o próprio túmulo».

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 35

Carlos Leça da Veiga

(continuação)

Fosse o atraso material do país duma dimensão despropositada e houvesse legítimas acusações de ordem vária impossíveis de calarem-se, a verdade é que, mau grado tanto de desfavorável, não parece correcto, muito menos justo, ser-se tão verrinoso, como aconteceu, na avaliação do estado do país.

A decadência e o desencanto com a parca evolução material do país, passaram a ser e mantiveram-se como a tónica maioritária e mais fundamental do pensamento político e cultural português o que, em grande medida, haveria de ajudar a consubstanciar a formação da resposta nacional mais comum, por desígnio, a de querer copiar, à viva força, sem as bases mais fundamentais, quanto progresso material a Europa Central já tinha conseguido.


Nos dias de hoje, a triste realidade – a imposta pelos grupos sociais dominantes – por mau agoiro, continua a dizer que a busca das respostas mais necessárias prossegue, como sempre, centrada na apologia franca e entusiástica, embora um tanto possidónia, das virtudes atribuídas aos desenvolvimentos materiais e culturais estrangeiros, de sobremaneira os centro-europeus, uma particularidade indesejável mas que, lamente-se, pela mão do oportunismo político, ganhou influência decisiva, porém malsã, no dirigismo político nacional português posterior ao 25 de Abril. O próprio universalismo português – uma velha genuinidade mundial, virtuosíssima e incomparável – passou a ser entendido, na sua essência actuante como resumido à ligação submissa aos interesses da Europa, os continentais, em especial. Os saloios estão no poder!

A Liberdade reconquistada com o 25 de Abril não tem sido bem aproveitada e, muito menos, bem direccionada. Veja-se como a própria História nacional, com a imensa multiplicidade dos seus ensinamentos, continua sem receber um trato político à altura mais merecida.

Que foi feito da tríade estratégica da Democratização, Descolonização e Desenvolvimento?

Em nome da Democracia quanta perversão política e, desgraça a nossa, uma subserviência máxima às vontades dominadoras dos interesses políticos e económicos dos estados centrais europeus, por exacto – é bom apontá-los – as do germânico e do franco, a aproveitarem a ausência, em crescendo, da intervenção ianque, hoje em dia, mais virada para o Pacifico, conforme com as suas exigências estratégicas.

Nos dias que correm, o queixume antigo pelo atraso material português que só via resposta favorável na subserviência ao que pela Europa era feito, agora, mesmo sem ter deixado de fazer sentir-se com o negativismo tradicional nem, tão pouco, receber uma resposta diferente, por mero oportunismo político, tem-se mostrado menos quebrantado e por precaução, hipocrisia e vileza política aparece exposto numa versão que, para além dum tanto possidónia, é apresentada – um péssimo disfarce – não como um desejo de copiar os centroeuropeus nem, tão-pouco, estar a aceitar uma qualquer subserviência às suas intenções políticas mas sim – imagine-se o descaramento – como expressão duma necessária convergência política, económica, cultural e social dos estados europeus. Porquê? Para quê?

Perguntas, uma e outra, que, com toda a clareza, não têm resposta válida que não deixe de ser a aceitação da estratégia das potências continentais centro-europeias desejosas de aumentar o número dos seus súbditos/consumidores.

Como é repetido à exaustão, trata-se – dizem – duma saudável contribuição nacional para a construção dum estado europeu, afinal um anseio político jamais reclamado pela população portuguesa, enfim, uma matéria em que, tão-somente, por conveniências políticas consertadas no segredo dos deuses, a nossa nação eleitora nunca foi ouvida nem achada.

Não deve ser assim. Há responsabilidades históricas carregadas de muito significado estratégico que não devem abandonar-se, antes sim, preservar-se senão mesmo dilatar-se.

Tem de reconstruir-se, em força, o pensamento universalista português que, mau grado muitos desaguisados históricos, nunca claudicou tanto quanto os seus adversários e os seus maus interpretes sempre desejaram ou tentaram. Há um mundo bem conhecido dos portugueses que, de facto, é muito mais promissor que a decadente Europa.

Embora frutos do passado – e não há futuro sem passado – na história portuguesa, há momentos importantíssimos cujo significado não pode desprezar-se, pelo contrário, devem ser colocados, com o destaque mais devido, numa linha de pensamento promotora duma intervenção política internacional, independente e universalista que, nessa, Portugal deve ter forte empenho por, para isso, hoje em dia, fruto da descolonização – ao invés de quanto é propagandeado – ter razões de peso com feição ímpar e muito promissora.

Havia, e têm de manter-se vivos, alguns exemplos excelentes e muito significativos da História do país que, só por si, permitiam e permitem, apesar de tudo, não ser necessário brindar-se o país com epítetos tão gravosos como quantos foram e têm sido ouvidos. Tinha de haver – tem de haver – outra atitude já que, como sentenciou De La Rochefoucauld, nos anos sessenta do século XVII, a alternativa era dever pensar-se que “Nunca somos tão infelizes como supomos, nem tão felizes como havíamos esperado”. Por cá, com bom senso e uma justa noção das medidas, era e é, o que bem podia dizer-se e devia repetir-se.

Era possível, como é, dever insistir-se numa visão da História portuguesa em que, para além de todas as acusações possíveis de assacar aos seus maus acontecimentos e, por igual, aos percalços infelizes do seu caminhar, em sua contradita, levasse em conta, como continua a não fazer-se, alguns dos seus méritos notabilíssimos e, também, muito importante, muitas das suas potencialidades próprias, com destaque para as que, necessariamente, advêm da descolonização, um episódio notabilíssimo da História mundial – repete-se, mundial – que, mau grado a sua grandeza e significados imensos, prossegue sujeito às acusações mais inconsequentes, provocatórias e torpes mas, também – e pior que tudo o mais – sem dar, como devia, os frutos internacionais mais vantajosos.

Recordem-se os aspectos muito positivos, imensamente frutuosos, com que a História portuguesa ajudou, de sobremaneira, à evolução progressista da Humanidade e disso destaque-se o seu pioneirismo prodigioso no fenómeno actualíssimo da globalização; enalteça-se a saga heróica dos descobrimentos e do seu armamento científico tão original quanto inovador; defenda-se que, de facto, o começo da Era Moderna foi a obra portuguesa alcançada com a passagem arrojadíssima do Cabo Bojador e não a queda de Constantinopla; assinale-se o mérito da autonomia do movimento independentista do sebastianismo popular seiscentista; exalte-se a continuidade afoita dos vinte e oito anos da guerra difícil mas vitoriosa contra o revanchismo castelhano; rememorem-se as notabilíssimas recuperações territoriais brasileiras e angolanas cometidas após a Restauração; recordem-se as consequências imensamente benéficas para toda a Europa, conseguidas pela vitória portuguesa, em 1717, na Primeira Batalha do Cabo de Matapan; valorize-se o sentido construtivo e progressista do reformismo regalista de Pombal; saúde-se a manobra inteligente do recuo, para o Brasil, da Corte do Rei João VI; vitorie-se a iniciativa popular de combate ao invasor francês e a contribuição militar nacional para expulsá-lo, persegui-lo e derrotá-lo; reavive-se o significado político da arrancada constitucional do vintismo quando em plena dominação europeia da reaccionária Santa Aliança; louve-se a iniciativa independentista do Brasil, politicamente muito bem preparada e consubstanciada na criação do único estado americano com origem e vivência directa numa super estrutura política europeia; comemore-se o sucesso científico novecentista das expedições arrojadas, esclarecedoras e inovadoras aos interiores africanos; aplauda-se o vigor da resposta da população portuguesa, ao arrepio daquela do aparelho do estado, a quando do ultimato da “pérfida Albion”; glorifique-se – não há outro termo – o sacrifício digníssimo, senão heróico, da saga dos mais anónimos, abandonados que foram nos terrenos da Flandres; homenageie-se a audácia da primeira travessia aérea do Atlântico conforme instrumentação científica de invento nacional; celebre-se a saga mantida de milhões de emigrantes espalhados pelo mundo fora ou, até – há muitos que não gostam de ouvir – reavive-se com vigor a resposta democrática, decisiva e inesquecível que a população portuguesa soube e quis dar à vitória militar do 25 de Abril.

Deve, ou não, revisitar-se a História nacional para melhor reencontrar-se um rumo político mais acertado?

O universalismo português deverá deixar-se enlear nas malhas duma política europeia ao serviço exclusivo dos interesses das potências continentais, as centro-europeias de sobremaneira?

Quem sempre apostou na tese europeísta não acertou. Bem podem dizer o contrário que os resultados estão à vista. Será que desta vez, por conveniências estranhas, a objectividade – aquela dos números e das percentagens – funciona ao contrário?

Será justo que o país esteja entregue nas mãos da hipocrisia política?

Enquanto que a população portuguesa está a ver-se confrontada com uma crise política, económica, cultural e social de gravidade extrema e que nada de bom augura, as direcções políticas das forças partidárias, depois de terem entregue Portugal ao expansionismo centro-europeu, numa ânsia de salvação, enredam-se num discursar sem sentido com que julgam conseguir desculpar-se do mal já feito.

Agora, como convêm aos interesses económicos dos possidentes portugueses, o atraso nacional, autentico como poucas vezes – a tal decadência – está a ser apresentado – um mau disfarce – como coisa já muito mitigada – nada do que foi no passado – tudo graças à salvação conseguida pela ligação orgânica à Europa, uma aliança que, como reafirmam, foi de grande genialidade política e utilidade inquestionável.

A poder verificar-se algum atraso nacional, é dito à população, nada mais é que uma coisa diminuta que só fica a dever-se às consequências duma crise “financeira” internacional que, conforme repetido, irá resolver-se! Não fora assim como, doutro modo, conseguiriam explicar o que têm feito nos últimos trinta anos de governações, coisa que, com toda a objectividade, feitas bem as contas, prima por um dilapidar generalizado de todos os patrimónios públicos nacionais e pelo enriquecimento desmesurado duns tantos privados. Há uma evidência de injustiça social que, sem sucesso, tem sido tentada esconder, à custa dos derrames abundantes e bem badalados, tanto do alcatrão como do betão.

Na História portuguesa já terá havido uma tão acentuada rendição aos interesses estrangeiros?

Na Europa, disso não deve duvidar-se, já está em marcha a opressão dum IV Reich.
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Domingo, 20 de Junho de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 34

Carlos Leça da Veiga

(Continuação)

As culpas da não modernização do país, sem que, por regra, até hoje, para contrariá-las, tenha conseguido vingar uma proposta válida e verdadeiramente nacional – como nem o Regalismo nem a Regeneração conseguiram – foram e são lamentadas com constância e, também, atribuídas, com maior ou menor justiça, ao secular obscurantismo imposto pela vontade despótica da hierarquia religiosa romana, às exigências e às soluções menos correctas das várias governações monárquicas, aos vestígios mantidos do empedernido conservantismo dos possidentes, às peripécias políticas que o jacobinismo maçónico impôs à Primeira República, à inconsequente aventura belicista nas tormentas da Flandres, às aberrações ditatoriais dos cinquenta anos do salazarismo, ao absurdo e às inconsequências políticas das guerras coloniais e, já no fim desta longa lista, ao “revanchismo” das facções políticas da reacção nacional, sempre em oposição às transformações sociais conseguidas no tempo posterior à vitória inesquecível do 25 de Abril.

Todos estes acontecimentos, ou cada um, na conformidade das maiores conveniências da época – oportunistas nunca nos faltaram – não escaparam à acusação de terem sido os autores do atraso material do País, ou seja, por seu intermédio, terem conseguido impedir o país da guindar-se para a galeria cimeira dos Estados do centro europeu.


Na realidade, as forças político-sociais que por séculos, com maior ou menor presença, têm dominado a vida portuguesa, para além duma lamentável e constante submissão política às determinações alienígenas – as excepções só confirmam a regra – só optaram por querer impor políticas tímidas, recuadas, estáticas e apáticas, senão mesmo retrógradas, exactamente como aconteceu com a generalidade dos sucessivos governantes que, quase sempre, desde a Restauração até hoje, outra coisa mais não permitiram deixar fosse feito ou, muito mais desconcertante, pelo certo, muitos deles, não deviam saber como não fazê-lo.

Se o atraso e a decadência nacional eram evidentes e se nisso não só a coroa, a cúria, o jacobinismo e o salazarismo – estes, pelo menos – por evidência mais que sobeja só podem receber responsabilidades indesculpáveis importa, também, dever ter-se presente e levar-se em linha de conta, para melhor compreensão da História nacional que, sucessivamente, sobre o passado português posterior a 1580, caíram um sem número de transtornos políticos de grande monta a que nem o consulado reformador, autoritário em excesso, do regalismo de Pombal, bom grado tentasse, não conseguiu deitar mão inclusive dominar com a suficiência mais desejável. Em Portugal, na segunda metade do século XVIII, mesmo após as reformas conseguidas por esse consulado pombalino, o pensamento oficial “nunca ousou pôr em causa a verdade e a validade da revelação cristã, nem afirmar a superioridade da razão sobre a fé, antes sempre havendo proclamado a harmonia da razão e da religião, pois que de Deus e da razão divina ambas promanam” conforme, sobre o assunto, escreveu o Professor Doutor Brás Teixeira.

Sessenta anos de dominação da coroa castelhana com a perda consequente de muitas fontes de riqueza colonial; vinte e oito anos duma guerra de Independência que exauriu o tesouro nacional; alianças internacionais de triste memória e piores resultados; um terramoto urbano de proporções e prejuízos gigantescas; os retrocessos impostos pela “viradeira”; a ausência forçada para o continente americano da chefia do Estado e dos seus dez mil acompanhantes; as devastações criminosas, a brutalidade inesquecível e os roubos sistemáticos das três invasões francesas; os atropelos inadmissíveis duma outra inglesa; os sucessivos desaguisados e investidas do absolutismo miguelista; os efeitos indesejáveis duma guerra civil de dois anos; a perda do Brasil; a presença influente, constante e asfixiante duma cúria romana retrógrada e intolerante; a incapacidade política “com rei mas sem roque” duma monarquia em fim de estação; a pusilanimidade dominante duma Primeira República, desta feita, “sem rei, nem roque” que, por isso mesmo, nunca conseguiu impor a estabilidade precisa para que, depois, na sua sequência desastrosa, para maior castigo da população, sobreviesse uma ditadura cinquentenária que primou pela imposição do obscurantismo ao deliberar enveredar pela ordem internacional fascista. Quaisquer destes acontecimentos só podiam ter dado um contributo muito negativo para o acentuadíssimo desgaste nacional e, como assim, para a manutenção do estado de atraso material do país.

Embora esse consumado atraso material fosse, e seja, tanto inegável como indiscutível, isso, embora imensamente lamentável, não podia – nem pode – significar que a sua emenda radical – uma alteração decisiva e imperiosa – dependia, ou dependa, dum mimetismo nada razoável de qualquer modelo político de aparência desenvolvimentista com raiz e metodologia alienígenas oriundos, donde quer que fosse, e, para mais – hoje em dia, como nunca – sujeito a um número considerável de condicionalismos geoestratégicos nada recomendáveis, sejam eles políticos, económicos, militares, culturais ou sociais.

Já nos meados do século XIX, como Portugal não era uma cópia da Europa central – do seu modelo de crescimento material – uma das vozes mais ouvidas e mais influentes na área do racionalismo, por entender o contrário, haveria de endereçar ao seu país o apodo desprestigiante e degradante de “reino cadaveroso” sem, quanto baste, ter apreciado e avaliado que, depois duma grandeza e poderio mundiais indiscutíveis – a evolução toca a todos e a ninguém perdoa – Portugal passou a ser, desde os fins do século XVI, um império numa decadência constante e impossível de sustar. Foi sujeito às perdas coloniais, consequências nefastas da ocupação castelhana; foi imprevidente na aceitação fácil das contrapartidas dos Methuen; foi acossado, e de que maneira, pela perda do ouro e dos diamantes do Brasil; foi dirigido por maus governantes; foi sujeito a uma reacção religiosa implacável; foi vitimado por dois anos duma guerra civil com antagonismos fortíssimos e, por igual, sujeito às depredações que a Europa napoleónica e inglesa – sempre a Europa – insistiu em dedicar-lhe. Com tantas circunstâncias deletérias seria muito difícil que Portugal pudesse estar noutro estado que não fosse o de decadência material acentuada.

O génio dos génios da literatura nacional desse século XIX que, à altura da sua dimensão, inda agora – mau grado o desfavor do poeta Pessoa – não tem émulo conhecido, se não queria dizer como Lorde Beaconsfield “que no mundo só há de verdadeiramente interessante Paris e Londres, e tudo o resto é paisagem”, linhas à frente, bom grado a lucidez saudável e o encanto das suas apreciações enternecedoras sobre a paisagem portuguesa, acabava por não conseguir fugir ao pensar luctíssono daquele Lorde, como fosse ter deixado escrito que “A originalidade viva do universo está em Paris e em Londres; tudo o mais, é má imitação de província.” Ele e muitos outros Homens dum talento enorme, com modos, interpretações e explicações diferentes, no mais essencial, haveriam de tornar-se herdeiros do pensamento de Alexandre Herculano cujo magistério extremamente influente, por erro grave, ainda a ser pago, conseguiria fazer submergir aquele outro diametralmente oposto, duma importância reconhecidamente capital, que foi produzido por Sampaio Bruno. Para este outro vulto nacional, um Homem com presença intelectual e política muito assinaláveis – um activista destacado do 31 de Janeiro – o crescimento material que, ao arrepio, os herculanistas, tal como os sergianos – digam o que queiram dizer – sempre confundiram com desenvolvimento, esse crescimento material não podia ser a tónica política fundamental da análise da História nacional porquanto, como invocava e exemplificava, havia a grande dignidade do aspecto moral do comportamento nacional cujo, fosse como fosse, a todos e a tudo, sobrelevava e tinha de sobrelevar. Esse comportamento, como, mais tarde, asseverou Teixeira de Pascoais, podia e devia opor-se, senão mesmo sobrepor-se, com vantagem indeclinável, ao baixo nível da vida material do país e fazer frente ao gosto doentio, sempre em voga, da cópia, senão mesmo da submissão às imposições da Europa. Nada indica que, nos dias que correm, não deve querer continuar-se com esse ideário, inda agora tão saudável.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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