Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Ainda a Irlanda, ainda a União Económica e Monetária (2)

(Conclusão)


Marc Roche

(Texto enviado por Júlio Marques Mota)

Nem sabemos por que partitura devemos começar para apresentar Sean FitzPatrick, o homem orquestra deste banco que se tornará em 2007 o primeiro banco do país em termos de capitalização bolsista? Pelas pratos da história atormentada desta terra céltica, pelos címbalos da bolha imobiliária ou pelo violino deste que pretendia enganar o seu destino de contabilista? Este filho de pequeno agricultor, jogador e grande adepto do jogo do rugby na sua juventude, confundir-se-ia.


Com um diploma no bolso de estudos comerciais do University Colégio de Dublim, Sean Fitz Patrick entra em 1976 como tesoureiro para um pequeno banco de negócios, o Irish Bank of Commerce. Passa rapidamente a figura dominante neste banco . No fim de uma série de fusões-aquisições audaciosas, nasce, uma década mais tarde, Anglo Irish Bank na sua forma actual.


A obsessão deste personagem estranho , pequeno em estatura e de sorriso malicioso, era a de alcançar o pelotão da frente. Na ausência de uma rede de balcões não pode fazer forte concorrência aos dois mastodontes locais, Bank of Ireland e Allied Irish Bank, como banco comercial. Sean FitzPatrick atira-se de frente para o sector do imobiliário , ferro de lança da formidável expansão da economia irlandesa. O estabelecimento bancário financia-se junto do mercado interbancário.


Para satisfazer as necessidades dos promotores apressados, o Anglo Irish concede os seus empréstimos em poucas horas enquanto que os seus rivais exigem várias semanas de reflexão. Para este negociador impar com uma moral de aço, só o resultado conta, disposto a sacrificar as verificações habituais . O dinheiro brilha.


O microcosmo de Dublin olha para com ironia para a carreira deste outsider que não quer continuar a sê-lo. Porque Sean Fitz Patrick anda mesmo à procura de respeitabilidade. Este sujeito exuberante por vezes incómoda, “Seanie”, que não actua nem com discrição nem de luvas brancas está totalmente sintonizado com os seus mais fortes clientes , uma dúzia de promotores do imobiliário. “Self-made-men reaccionários, filisteus cúpidos, novos ricos no pior sentido do termo”, martela Frank McDonald, jornalista do Irish Times.


A elite financeira tira-lhe o seu chapéu. Acedendo em 2000 à presidência da associação bancária irlandesa, Sean FitzPatrick torna-se uma das peças soberanas deste famoso triângulo tóxico que compreende banqueiros, profissionais da construção e políticos. O patrão de Anglo Irish Bank joga evidentemente com mestria o jogo dos pequenos truques e das cunhas que são a norma nesta sociedade clânica onde todos se conhecem. Administrador da Dublin Docklands Development Authority, a organização responsável pela renovação dos estaleiros da capital, nomeia o presidente desta instituição para o seu conselho fiscal.


Autoritário, o patrão de Anglo Irish Bank é um adepto do exercício solitário do poder. A direcção oferece-se a si-mesma salários e bónus exorbitantes, vantagens em espécies e em planos de reforma colossais sem sequer informar a Administração . Este decepador de cabeças rebeldes neutraliza os controladores de riscos. A imprensa é silenciada pelos rendimentos em publicidade da bolha imobiliária. Irish Times, o jornal diário de referência, que investiu maciçamente num site de anúncios imobiliários, passa sob silêncio as advertências dos raros peritos que gritam à avisar dos perigos de sobreaquecimento, da bolha..






Luxuosos escritórios de representação são abertos nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Suíça, a fim de financiar grandes obras à Nero. Um departamento de fusões-aquisições, a actividade de cambista, a gestão de tesouraria e um banco privado são assim criados para oferecer toda a gama dos serviços aos promotores. Se tal loucura das grandezas houve, esta foi claramente inspirada e incentivada pela explosão das actividades financeiras . Anglo Irish Bank sonhava simplesmente imitar Goldman Sachs. É de resto o responsável das actividades americanas, David Drumm, que Sean FitzPatrick escolhe, em 2005, para lhe suceder na Direcção-Geral. Um delfim de 38 anos não fará sombra àquele que se tornará o presidente não executivo.


A partir daí, em meados de 2007, a máquina ganha embalagem . Sob o efeito do rebentamento “da bolha”, as cotações na Bolsa caem a pique . Anglo Irish Bank jura alto e bom som que não há fogo no lago e que o Banco sairá das suas dificuldades: Mas o contribuinte deve levar a mão à carteira. Em Dezembro de 2008, Sean FitzPatrick e David Drumm são forçados à demissão.






De um dia para outro, os ídolos dos jovens diplomados irlandeses tornaram-se uma caricatura dos novos ricos . Os grandes conversadores como são as gentes de Dublin diziam mal deles nos pubs com o mesmo ardor com que os elogiavam ainda há pouco tempo antes . Cada um se interroga sobre a atitude incompreensível dos revisores de contas e auditores que não deram nenhum sinal de alarme quando ainda era tempo, sobre a carência das autoridades de tutela que nada foram capazes de prever e enfim sobre a forma ligeira dos políticos que fecharam os olhos .


Sobretudo, um dos mitos fundadores da República do Sudeste ganhou nesta tormenta: o acesso à propriedade. Na National Gallery de Merrion Square, um quadro de Erskine Nicol datado de 1853 mostra uma família de roupa esfarrapada que carrega com os seus magros haveres a lançar um último olhar para a exploração agrícola de que acabam de ser expropriados. “Como a fome e as perseguições, a proibição aos católicos de comprar um bem imobiliário imposta pelo colonizador britânico até 1882 permaneceu no imaginária de um povo durante muito tempo oprimido”, insiste o senador independente David Norris, professor de Literatura comparada.


“A casa de um Irlandês é o seu castelo ”, tinha-se o costume de dizer aquando do triunfo do Tigre céltico, parafraseando a obsessão dos vizinhos britânicos em tornarem-se proprietários. Nestes dias, os muros do Shelbourne Hotel, lugar diariamente frequentado por James Joyce, ressoam com a advertência de Finnegans Wake, um das suas obras-primas: “A casa de um irlandês é o seu caixão“.


(Marc Roche, Anglo Irish Bank - Un scandale irlandais, Le Monde, 19.12.2010 )

















publicado por Carlos Loures às 22:00
link | favorito
Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

Nós e a Irlanda

Carlos Mesquita


O texto de sábado, de Marc Roche, sobre os bancos Irlandeses serem os responsáveis pela crise do “Tigre Celta”, suscita – me duvidas. Já antes os defensores do modelo económico Irlandês tinham vindo justificar a crise, dizendo que ela nada tinha a ver com as opções de política económica dos governantes; era fruto da gestão imprudente dos banqueiros e gestores financeiros. A minha primeira observação é se esses irresponsáveis apareceram por “geração espontânea”, ou são fruto da doutrina económica dominante nos últimos quase 30 anos. Foram formados para actuar no sistema da liberdade plena de mercado (como todos os que saem das Universidades) e aproveitaram; o governo irlandês acompanhou porque não o fazer era optar por outro modelo económico, e os irlandeses em geral também usufruíram da riqueza virtual, uma vez que o PIB per capita na Irlanda (o dobro do português para metade da população) não correspondia à economia real irlandesa.

A atractividade da Irlanda para captar investimento estrangeiro, era por um lado devido às taxas reduzidas comparativamente a outros países, mas igualmente pelos bons resultados (como refere o texto) da praça financeira na administração de hedge funds – que por definição são desregulados. Também nesse caso é desnecessário culpar a falta de regulação; essa falta faz parte do sistema e da doutrina das restrições à intervenção estatal sobre a economia.

A corrente económica e ideológica que vigora é absolutamente contra qualquer controle dos Estados, apesar de em 2008/2009, os Liberais perante a patente falência da sua teoria, terem admitido alguma regulação. Já esqueceram, estão quase recompostos, e as alternativas não conseguiram impor-se.
A Irlanda, antes de rebentar a bolha imobiliária interna, esteve exposta ao “sub prime” dos Estados Unidos através de produtos “derivados”, vários bancos europeus (incluindo portugueses) investiram na praça irlandesa devido à sua rentabilidade; à imagem da corrida às recompensas do BPP. Como todos os investidores querem ser pagos e o governo irlandês assumiu a 100% a cobertura bancária, só resta aos irlandeses pagarem os devedores incumpridores e as falcatruas dos financeiros; melhor seria terem feito umas sumptuárias auto-estradas.

O que está em causa é saber se devemos olhar para as micro razões que num ou noutro país concorreram para criar crises especificas, ou se o Liberalismo económico contemporâneo junto com a Globalização, que criou fluxos de capital inversos aos previstos (das economias emergentes para os países ricos) não irá no futuro obrigar o mundo a viver em permanente crise. Nada está a ser feito ao nível das instituições, do G20 à União Europeia, para repensar a corrente ideológica dominante, contrária à construção de “Estados de bem-estar social”.

Portugal que entrou no Euro com o escudo sobrevalorizado, que apesar dos imensos fundos estruturais não reformou nem formou, tem dificuldades adicionais para crescer em tempo de austeridade. Por isso devemos estar atentos a cada medida de economia política, e tentar perceber se ela vai no sentido de recuperar a economia ou de contribuir para aprofundar a depressão económica e social.

O que está agora em cima da mesa é o aumento do salário mínimo.
publicado por Carlos Loures às 11:00
link | favorito
Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Os bancos irlandeses serão eles os responsáveis pela crise?

Está a terminar a nossa Semana da Economia,. Apresentámos, no passado dia 3, a versão original deste artigo de Marc Roch que trazemos hoje na tradução do Professor Júlio Marques Mota. São do Professor estas palavras que consigo transportam o repto de um debate. Debate que, na sequência de algumas das ideias aqui lançadas, seria útil e, por certo, esclarecedor.

Face ao descrito no texto que se segue e face às medidas impostas pela União Europeia e pelo FMI deixamos como interrogação: como é possível explicar aos nossos alunos e aos nossos netos, no quadro de sociedades estruturalmente desenvolvidas, as razões, os mecanismos e as respostas sobre a crise que estamos a passar, que estamos a viver, que estamos a sofrer ? Como é possível que os nossos alunos e os nossos filhos expliquem às gerações futuras o roubo que às gerações presentes é feito do seu próprio futuro e, de novo, roubo que é suposto ser feito, ele também, no quadro de sociedades consideradas altamente desenvolvidas ? Como questão final e face ao descrito no texto como se compreende, ainda no quadro de sociedades altamente desenvolvidas, que a União Europeia e o FMI sancionem os roubados da Irlanda, o seu povo, e não aqueles que o roubaram. Quem souber que responda.


E por esta via talvez abram o debate e que seja duro


Terão eles sido bem controlados?

Não terá A UE feito vista grossa durante muito tempo?

Todas as descrições que desde há vários anos ouvimos e lemos sobre o Tigre Celta, como foi a Irlanda baptizada devido às suas taxas de crescimento equivalentes às taxas dos Tigres Asiáticos (daí o nome) começavam invariavelmente por um sedutor paradoxo. E o paradoxo era a metamorfose das terras pantanosas, sem nada semeado, em altas torres todas elas de vidro e aço em movimento perpétuo.
A elite bancário estiveram no centro da transformação de um país rural e profundamente religioso num laboratório prodigioso do sector terciário. Mas, como o ilustra bem o actual colapso económico da Ilha Esmeralda, “os escândalos” acabaram por juntar um mundo financeiro em profundo conluio com os promotores do sector imobiliário e com e os políticos. Um triângulo tóxico...

"Desconfiem dos grandes bancos dos pequenos países que privados de iniciativas locais dignas deste nome, se sentem, naturalmente, levados a crescer para além da sua base de partida, correndo fortes riscos...": como o afirma um operador da City, o naufrágio irlandês encarna até ao limite máximo possível o que foi a corrida louca de cada banco local para aumentar a dimensão.

O milagre da Irlanda. Como na da Bélgica, Islândia ou na Escócia, o sector financeiro irlandês está organizado em oligopólio. Três grandes bancos de retalho (Bank of Ireland, Allied Irish Banks e Anglo Irish Bank), assim como duas de crédito repartem entre si o essencial de um mercado interno de 4,4 milhões de pessoas.

O que fazer com esse dinheiro, que de repente fluía para os seus cofres no final dos anos 90, como resultado do nível de vida e de bem-estar, com uma saúde de autêntico cavalo? Uma política fiscal agressiva, especialmente a baixa de impostos sobre as empresas o que atraiu empresas estrangeiras, uma praça financeira em pleno desenvolvimento e especializada na administração de hedge funds e mão-de-obra formada e barata foram estes os elementos que alimentaram o milagre da Irlanda.

Para os bancos em busca de investimentos altamente rentáveis, para este maná de liquidez, a solução é óbvia: investir pesadamente no sector imobiliário, principalmente na parte comercial e escritórios. Os bancos de Dublin financiam de olhos fechados promotores imobiliários e empresas de construção . Enquanto isso, às famílias, muitas delas nem sempre solváveis, eram-lhes oferecidas a compra de casas com hipotecas a 100% ou mesmo mais, sem sequer confirmarem os rendimentos familiares, nem ao menos o recibo de pagamento salários .

À frente dos bancos, uma nova geração de dirigentes megalómanos substituía os antigos banqueiros prudentes e conservadores . Demasiado pequena para eles, a Irlanda: estes precisam da Ásia, do Reino Unido, da América! Abriram filiais luxuosas em todos os cantos do globo. Tanto quanto o pagamento de dividendos era grande, os accionistas não tinham nada a criticar quanto às anomalias dos balanços, os bónus de fim de ano eram miríficas, o estilo de vida era luxuoso, era sim para os senhores do dinheiro.

Além disso, no interior dos bancos, o nepotismo é a regra. Os princípios da boa gestão são alegremente ignorados. A casta dirigente na frente e por trás dos auditores dos auditores desviava dezenas de milhões de euros para financiar a compra de vivendas de luxo, iates e carros desportivos de topo de gama.

Clientelismo, elevador social desligado e as maquinações. Como é possível explicar tais derrapagens, dignas de uma república das bananas? Em primeiro lugar, neste pedaço de terra, neste pequeno país, onde todos os decisores se conhecem, a nomenclatura financeira vive em completa simbiose com o mundo político e industrial.

Desde a independência em 1921, a vida pública é dominada por dois grandes partidos, o Fianna Fail e Fine Gael, que se situam... ao centro. Sobre as questões económicas, não há diferença de substância. O clientelismo, o desligar do elevador social e as falcatruas são a norma. Parlamentares, financeiros e magnatas da construção frequentam os mesmos clubes de golfe ou os mesmos círculos hípicos e entendem-se tão bem como os ladrões de feira.

Essa ligação umbilical explica que no Outono de 2008, Brian Goggin do Bank of Ireland, e Eugene Sheehy, do Allied Irish Banks, conseguem mesmo impor ao novo ministro das Finanças, Brian Lenihan, que proporcionasse uma protecção a 100 % aos depósitos bancários como aos créditos concedidos, de má qualidade, créditos hoje denominados tóxicos. Essa decisão só veio piorar as coisas.

Até à data, apesar das graves vigarices comprovadamente feitas, nenhum banqueiro foi colocado para lá das grades, na prisão. Os promotores no centro do escândalo puderam emigrar com toda a impunidade. Outros transferiram a propriedade dos bens ilicitamente adquiridos para o nome das suas mulheres para os colocar ao abrigo de qualquer confiscação. "Este país permanece um clã, unido, parece quase uma máfia. O poder é patrimonial", diz-nos um observador indignado, perplexo, com a inércia da justiça e da polícia. É evidente que, aos olhos dos banqueiros, se o sistema financeiro capotou, a culpa é da crise de confiança, é dos construtores tubarões, é dos investidores gananciosos... Não é culpa deles.

Controladores pouco experientes. O segundo ingrediente da tragédia que se desenrola hoje é a fraqueza do regulador. Três controladores muito inexperientes foram durante tempo os responsáveis pela supervisão dos dois maiores bancos da ilha. Associados ao Banco Central, o organismo de tutela não fez qualquer esforço para incitar o seu rebanho a minimizar o risco. Além disso, o medo da fuga dos investidores estrangeiros que andam à procura de estabilidade e de benefícios fiscais levou o Tesouro irlandês a abrandar ainda mais as regras.

Depois, confrontado com a atracção de altos salários na praça financeira ou nos gigantes de equipamentos eletrónicos, a função pública bem se esforça para poder recrutar os melhores elementos. É por isso que o governo tomou como adquirido a subavaliação do financiamento do “buraco” bancário, como foi expressa pelo seu banco de consultoria, a Merrill Lynch, escolhida por causa de sua origem irlandesa. Depois disso, não houve nenhum controle quanto á utilização de 50 mil milhões de euros injectados pelo governo de Dublin desde 2008 no sector financeiro.

Os irlandeses estão agora a sofrer a ressaca e interrogam-se . Para sair da rotina, os seus bancos, de facto em falência e nacionalizados, devem rapidamente aliviar-se mesmo depreciados dos seus activos periféricos ou dispositivos externos. A prioridade consiste agora em se concentrarem no mercado interno desvalorizado durante a última década a favor da expansão no exterior, a favor do boom no mercado imobiliário ou dos pequenos génios dos mercados de produtos e dos produtos miraculosos. Como diz Byron a propósito de Itália, os bancos irlandeses não são mais do que a "a triste mãe de um império morto"...

Marc Roche (correspondente em Londres), "Les banques irlandaises sont-elles responsables de la crise? ", Le Monde, 26 de Novembro de 2010.

publicado por Carlos Loures às 21:00
link | favorito
Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Les banques irlandaises sont-elles responsables de la crise ?

Marc Roche
(Londres, correspondant)




Ont-elles été bien contrôlées ?

L'UE a-t-elle trop longtemps fermé les yeux ?

ous les récits consacrés il y a quelques années au Tigre celtique, comme avait été baptisée l'Irlande en raison de ses taux de croissance à l'asiatique, commençaient invariablement par un séduisant paradoxe. Celui de la métamorphose des terres à nu des tourbières en un skyline de tours de verre et d'acier en mouvement perpétuel.

Les élites bancaires se sont trouvées au coeur de la transformation d'une nation rurale et bigote en un prodigieux laboratoire du secteur tertiaire. Mais comme l'atteste la déconfiture économique de l'île d'Emeraude, les « affaires » ont fini par rattraper un monde financier de mèche avec les promoteurs immobiliers et les milieux politiques. Un triangle toxique...

« Méfiez-vous des grosses banques de petits pays qui, privées demarché local digne de ce nom, se sentent tout naturellement obligées de croître au-delà de leur base de départ en prenant des risques... » : comme l'indique un opérateur de la City, le naufrage irlandais incarne jusqu'à la caricature la folle course à la taille des banques locales.

Le miracle de l'Eire Comme en Belgique, en Islande ou en Ecosse, le secteur financier irlandais est organisé en oligopole. Trois grandes banques de détail (Bank of Ireland, Allied Irish Banks et l'Anglo Irish Bank), ainsi que deux caisses hypothécaires se partagent l'essentiel d'un marché domestique de 4,4 millions d'âmes.
Que faire de cet argent qui afflue subitement dans les coffres à la fin des années 1990, conséquence de l'élévation du niveau de vie et d'une santé économique de cheval ? Une politique fiscale audacieuse, en particulier l'impôt bas sur les sociétés qui attire les entreprises étrangères, une place financière en plein essor spécialisée dans l'administration des hedge funds et une main-d'oeuvre formée et bon marché alimentent le miracle de l'Eire.

Pour les banques à la recherche de placements hautement rémunérateurs pour cette manne, la solution est évidente : investir massivement dans l'immobilier, surtout commercial et de bureaux. Les établissements dublinois financent les yeux fermés promoteurs et entreprises du BTP. Parallèlement, les ménages, certains pas toujours solvables, se voient offrir des prêts hypothécaires à 100 %, voire au-delà, sans même qu'un bulletin de salaire leur soit réclamé.

A la tête des banques, une nouvelle
génération de dirigeants mégalomanes a remplacé les banquiers prudents à l'ancienne. Trop petite pour eux, l'Irlande : il leur faut le Royaume-Uni, l'Amérique, l'Asie ! On ouvre des succursales luxueuses dans tous les recoins du globe. Tant que le versement de gros dividendes est assuré, les actionnaires ne trouvent rien à redire aux anomalies des bilans, aux primes de fin d'année mirifiques, au train de vie fastueux des seigneurs de l'argent.

Par ailleurs, à l'intérieur des banques, le népotisme est la règle. Les principes de bonne gestion sont allégrement bafoués. La caste au sommet emprunte au nez et à la barbe des commissaires aux comptes des dizaines de millions d'euros pour financer l'achat de manoirs, yachts ou voitures de sport.

Clientélisme, renvoi d'ascenseur et magouilles Comment expliquer de tels dérapages, dignes d'une république bananière ? Tout d'abord, dans ce mouchoir de poche où tous les décideurs se connaissent, la nomenklatura financière vit en complète symbiose avec le monde politique et les industriels de la truelle.

Depuis l'indépendance, en 1921, la vie publique est dominée par deux grands partis, le Fianna Fail et le Fine Gael, qui se situent... au centre. Sur les questions économiques, il n'existe aucune divergence de fond. Le clientélisme, le renvoi d'ascenseur et les magouilles sont la norme. Parlementaires, financiers et magnats de la construction fréquentent les mêmes clubs de golf ou les cercles hippiques et s'entendent comme larrons en foire.

Ce lien ombilical explique que, à l'automne 2008, Brian Goggin, de la Bank of Ireland, et Eugene Sheehy, d'Allied Irish Banks, parviennent à imposer au nouveau ministre des finances, Brian Lenihan, d'offrir une protection à 100 % des dépôts bancaires comme des prêts vérolés. Cette décision ne fera qu'empirer les choses.

A ce jour, malgré les malversations avérées, aucun banquier n'a été mis sous les verrous. Les promoteurs au coeur du scandale ont pu émigrer en toute impunité. D'autres ont transféré à leur épouse la propriété des biens mal acquis pour mettre ceux-ci à l'abri d'éventuelles saisies. « Ce pays reste clanique, quasi mafieux. Le pouvoir est patrimonial », s'indigne un observateur, effaré par l'inertie de la justice et de la police. En clair, aux yeux des banquiers, si le système financier a capoté, c'est la faute à la crise de confiance, aux bâtisseurs requins, aux investisseurs cupides... Pas la leur.

Des contrôleurs peu expérimentés Deuxième ingrédient de la tragédie qui se joue aujourd'hui : la faiblesse du régulateur. Trois contrôleurs peu expérimentés ont été chargés pendant longtemps de la surveillance des deux principales banques de l'île. Appendice de la banque centrale, l'organisme de tutelle n'a fait aucun effort pour pousser ses ouailles à limiter les risques. De plus, la peur de faire fuir les investisseurs étrangers en quête de stabilité et d'avantages fiscaux a poussé le Trésor à assouplir encore davantage les règles.

Ensuite, face à l'attrait des gros salaires de la place financière ou des géants de l'électronique, la fonction publique tire la langue pour recruter les meilleurs éléments. C'est pourquoi le gouvernement a pris pour argent comptant la sous-évaluation par sa banque conseil, Merrill Lynch, choisie en raison de ses origines irlandaises, du « trou » bancaire à financer. Par la suite, aucun suivi de l'utilisation des 50 milliards d'euros injectés par Dublin depuis 2008 dans le secteur financier n'a été assuré.

Les Irlandais ont aujourd'hui la gueule de bois et s'interrogent. Pour sortir de l'ornière, leurs banques, de facto en faillite et nationalisées, doivent dare-dare se délester au rabais de leurs actifs périphériques ou étrangers. La priorité est désormais de se recentrer sur le marché intérieur détrôné, au cours de la dernière décennie, par l'expansion à l'étranger, la ruée sur l'immobilier ou les petits génies des marchés et des produits miracles.

Comme le disait Byron de l'Italie, les banques irlandaises ne sont plus que la « triste mère d'un empire mort »...

(Le Monde - Article paru dans l'édition du 26.11.10)


publicado por Carlos Loures às 21:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links