Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Manuel Rodrigues Lapa e a Galiza (2), por Carlos Loures

  

 

 

 

 

 

 

Nos anos que se seguiram, prosseguiu infatigavelmente a sua tarefa de pedagogo, saindo textos seus na Seara Nova, na

 Revista  Portuguesa de Filologia, de Coimbra, na revista Anhembi, de São Paulo, no Diário Carioca, do Rio de Janeiro, nos Cuadernos de Estudios Gallegos, de Santiago de Compostela, na revista Romania, de Paris. Em 8 de Agosto de 1954, foi a São Paulo onde participou no Congresso Internacional de Escritores, na companhia de Adolfo Casais Monteiro e de Miguel Torga. Deu lições na Universidade e conferências na Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Regressou a Lisboa e prosseguiu a sua batalha, publicando a comunicação ao congresso de São Paulo – Das origens da poesia lírica medieval portuguesa. Na Anhembi publicou Galiza e Portugal; aspectos da cultura galega.

 

O ar de Portugal tornava-se irrespirável. A ditadura não lhe dava tréguas (e ele também ia dando bastante trabalho a censores e polícias…). Chegara o momento de partir. Em Maio de 1957 fixou residência no Brasil, em Belo Horizonte. Leccionou Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e intensificou a colaboração em jornais e revistas do Brasil, sem deixar de colaborar na «sua» Seara. Em Portugal, Salazar decidiu afastar Craveiro Lopes e as suas veleidades «de esquerda» e promover Américo Tomás. Mas não contou com o furacão Delgado. Nas eleições presidenciais de Junho, Humberto Delgado ganhou nas urnas, mas Tomás foi eleito. O Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escreveu uma carta aberta ao ditador, defendendo a abertura do regime. Salazar «abriu-lhe» a porta de saída, retirando-lhe a diocese e obrigando-o a exilar-se. Manuel continuou no Brasil, ensinando, publicando, lutando. Em 1960, na revista Grial, de Vigo, saiu uma recensão sua ao livro de Luciana Stegagno Picchio In margine all’edizione di antichi testi portoghesi.

 

Em Dezembro de 1962 resolveu vir a Lisboa. Preso pela PIDE à chegada, foi solto no mesmo dia. Decidiu ficar em Portugal, apesar de tudo. Em 1964 leccionou um curso na Universidade de Santiago de Compostela e a revista Grial, de Vigo, dedicou-lhe um dos seus números. Entre outras publicações deste destaca-se, no Jornal de Letras e Artes, de Lisboa, o artigo Castelão: um grande artista galego. Em 1965, ano em que voltará ao Brasil, publicou Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos Cancioneiros medievais galego-portugueses. (Editorial Galáxia, Vigo). Com uma emocionada dedicatória: «À Galiza de sempre, raiz anterga da nosa cultura, adico afervoadamente iste libro». Em edição do Instituto Nacional do Livro, do Rio de Janeiro, saiu a sua primeira Miscelânea de língua e literatura portuguesa medieval. Em 1967 publicou na Seara um artigo de homenagem a Raul Brandão, no centenário do seu nascimento – O «Balanço à Vida» na obra de Raul Brandão.

 

Em 1968, a Seara Nova, nos seus números de Maio, Junho, Julho, Agosto e Setembro, homenageou Rodrigues Lapa, que completou 70 anos em Abril, com textos e depoimentos de, entre outros, Orlando Ribeiro, Vitorino Magalhães Godinho, Lindley Cintra, Sophia de Mello Breyner, Ruy Luís Gomes, Mário Sacramento… Em Agosto, Salazar caiu da cadeira sendo substituído por Marcello Caetano. A «primavera marcelista», a promessa de uma liberalização do regime, revelou-se uma falsa esperança – continuou a Guerra Colonial e a repressão política.. Em 1969, Manuel, a convite de Mário Sacramento (entretanto falecido em Março), participou no II Congresso Republicano de Aveiro, presidindo a algumas sessões de trabalho.

 

Em 1971 participou na organização de uma Semana Cultural Galego-Portuguesa, em Coimbra, proferindo a palestra A Galiza, o Galego e Portugal. Em Fevereiro de 1973, substituiu Augusto Abelaira na direcção da Seara Nova. Ainda em 73, publica A recuperação literária do galego, única colaboração que teria na revista Colóquio-Letras, com uma resposta-comentário do escritor catalão, e seu amigo, Fèlix Cucurull (1919-1996).

 

 

 

 

 

 

 

Em 18 de Abril de 1974 foi ao Brasil, pois ia ser condecorado pelo Governo de Brasília. Foi, pois, no Brasil que soube que no dia 25 o odioso regime, que tanto o perseguiu a ele e a todos os democratas, caíra finalmente. No dia 29, regressou a Portugal. Prosseguiu a sua actividade, publicando textos na Seara Nova e na Vértice, principalmente. Em 1976, no dia 5 de Outubro, foi condecorado pelo Governo português com a comenda de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

 

Em 22 de Abril de 1977 completou 80 anos. No mês seguinte, a classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, sob a presidência do professor Jacinto do Prado Coelho, aprovou um voto de saudação pela passagem do seu octogésimo aniversário. O académico Norberto Lopes recordou a obra «de um dos mais fecundos e brilhantes escritores e investigadores linguísticos, figura cimeira do ensino universitário e combatente valoroso da luta pela liberdade que se travou neste País». Em 1979, publicou Estudos Galego Portugueses: por uma Galiza renovada. Quando a Associação Galega da Língua (AGAL) se constituiu, em 1981, Manuel Rodrigues Lapa foi membro de honra, e figura, com Ricardo Carvalho Calero, Jenaro Marinhas e Ernesto Guerra da Cal, como uma das suas mais ilustres figuras.

 


Em Junho de 1981, como já disse, foi a Santiago participar no lançamento de um livro de Carvalho Calero. No n.º1 da Revista da Biblioteca Nacional, saiu um texto autobiográfico – Um rapaz curioso na velha Biblioteca Nacional, no qual após tecer diversas considerações sobre as opções que fez na vida, concluiiu em jeito de balanço final: «escolhi sempre a via libertária. Apesar de alguns contratempos e desilusões, posso afirmar que ainda me não arrependi».

 

Em Julho de 1982, na Universidade de Aveiro, proferiu uma conferência – O problema linguístico da Galiza; sobre cultura e idioma na Galiza. Em 1983, mais homenagens – destacamos a que, realizada na Biblioteca Nacional, foi presidida por Tito de Morais, presidente da Assembleia da República, em nome do chefe de Estado, Ramalho Eanes. De realçar um impressivo discurso da professora Maria de Lurdes Belchior. Numa homenagem do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, sairam dois volumes do Boletim de Filologia, com uma nota introdutória dos professores Lindley Cintra e Maria Elisa Macedo de Oliveira. O volume é composto por 55 textos de 58 autores de diversas nacionalidades. Nos anos seguintes, não pararam nem as homenagens nem a publicação de textos e a reedição de obras de Rodrigues Lapa. Em 27 de Março de 1989, a menos de um mês de completar 92 anos, o nosso Manuel morreu, às onze da noite, no Hospital José Luciano de Castro. Um acidente vascular cerebral foi a causa do óbito.

 

Termino com palavras do professor Vitorino Magalhães Godinho: «Portugal não quis, ou não soube aproveitar a pleno Rodrigues Lapa. A amargura oprime-nos, ao pensar nos irreparáveis desperdícios de valores autênticos, daqueles que, mais do que quaisquer outros, estavam preparados para trabalhar pela pátria, enriquecendo o seu património pela criação com categoria internacional».

_______

Nota: para realização deste texto, utilizei várias fontes. A principal foi o trabalho de José Ferraz Diogo Manuel Rodrigues Lapa Fotobiografia (1997)

publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures às 09:08
link | favorito
Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Manuel Rodrigues Lapa e a Galiza (1), por Carlos Loures

 

 

 

 


 

 

 

 

Nas comemorações do centenário do nascimento de Ricardo Carvalho Calero, não podia deixar de recordar um dos seus amigos portugueses – Manuel Rodrigues Lapa, um dos homens que, do lado de cá da fronteira mais se empenhou na reabilitação do galego e na sua reintegração no tronco comum do galego-português. Em Agosto de 1932 fez a sua primeira viagem à Galiza para participar numa homenagem a Castelão. Foi um marco importante da vida de Rodrigues Lapa, pois o seu amor por aquela nação irmã, acompanhá-lo-ia para sempre. Em Junho de 1981, fez uma última viagem à «sua» Galiza. Foi a Santiago de Compostela para participar no lançamento de um livro de Carvalho Calero - Problemas da Língua Galega. A ligação ao berço do idioma, foi uma constante na sua vida: «Nunca deixei de me ocupar da Galiza, que é para mim um vício e uma necessidade»., disse. A Galiza foi uma das maiores paixões da sua vida. Façamos, pois, uma síntese da sua biografia e dessas relações com os irmãos do Norte.

 

Manuel Rodrigues Lapa, nasceu em 22 de Abril de 1897 na Anadia, no extremo Sul do antigo reino da Galiza. Em 1919 licenciou-se em Filologia Românica e em 1929 entrou no corpo docente da Faculdade de Letras de Lisboa como assistente, indicado por José Leite de Vasconcelos. Bolseiro em Paris (1929-1930), doutorou-se com a dissertação Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média. Em 15 de Fevereiro de 1933, proferiu no Salão da Ilustração Portuguesa, uma conferência que daria brado e iria marcar para sempre a sua vida – A política do idioma e as Universidades. O texto da palestra foi publicado na Seara Nova. Para entender a celeuma provocada, é preciso que nos situemos historicamente.

 

Como uma cobra que despisse a pele, a Ditadura Nacional ia dando lugar ao Estado Novo. Em Março, conciliando as diversas correntes de opinião coexistentes no seio da Ditadura, realizou-se um plebiscito para aprovar a Constituição da República. Com «vitória» neste plebiscito, onde a liberdade de expressão e de voto estiveram ausentes, ficou consolidado o edifício jurídico-institucional que, com uma ou outra mudança de pormenor, iria vigorar por mais de quatro décadas. Por isso, as críticas de Manuel não passaram em claro – foi afastado da docência universitária e – vitória da sabujice – o Conselho Escolar aprovou por unanimidade uma censura às suas palavras. Porém, nem tudo era cinzento – a juventude reagiu: 74 alunos prestaram-lhe homenagem junto de sua casa. No Ministério da Instrução Pública, os jovens entregaram um protesto pelo afastamento «do insigne medievalista que é o Prof. Rodrigues Lapa». Nove alunos foram suspensos.

 

Salazar continuava a montar o seu sistema. Em Agosto foi criada a Polícia de Vigilância do Estado, PVDE,  antecessora directa da PIDE. No mês seguinte, surgiu outro importante instrumento do regime – o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro. Porém, apesar de o clima repressivo se ir adensando, Manuel não desarmou e repetiu a sua polémica conferência na Associação dos Artistas, em Coimbra. Em Outubro, voltou a dar aulas num liceu, desta vez no de Viseu. No mês seguinte, prestou provas para professor auxiliar (com o Livro de Falcoaria de Pero Menino), sendo aprovado por unanimidade. Em Dezembro, saiu no Diário do Governo, o decreto da sua nomeação. No dia 30 recomeçou a leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, de onde fora irradiado meses antes.

 

Em 1934 foi editada uma das suas mais emblemáticas obras – Lições de Literatura Portuguesa: época medieval – com dez edições até 1981.. A sua actividade como publicista prosseguiu – recensões, ensaios, iam sendo publicados em jornais e revistas de Portugal e do estrangeiro. As coisas pareciam tomar um ritmo normal. Porém, Salazar estava atento e desencadeou uma das primeiras grandes purgas – Em Maio de 1935, demitiu compulsivamente Rodrigues Lapa, impedindo-o (por decreto-lei) de aceder a qualquer cargo público. Na mesma altura outros 32 funcionários civis e militares foram demitidos, entre eles, Norton de Matos, Abel Salazar, Carvalhão Duarte. A carreira universitária de Manuel em Portugal chegara ao fim.

 

Na Universidade, Hernâni Cidade defendeu Rodrigues Lapa, lamentando a «perda de uma colaboração utilíssima». Em Outubro, voltou ao ensino, leccionando agora no Colégio Ulissiponense, em Lisboa. No mês seguinte começou a dirigir o semanário cultural O Diabo, substituindo Ferreira de Castro. Em Julho de 1936, eclodia a Guerra Civil de Espanha, facto a que Rodrigues Lapa não poderia ser alheio. Vejamos este vídeo:

 

 

 

 

Em Fevereiro de 1937 iniciou a publicação da colecção Clássicos Sá da Costa. Dirigiu também a colecção de Textos Literários da Seara Nova. Em Julho, Salazar escapou de um atentado à bomba, levado a cabo por anarquistas. Em consequência desse atentado e também devido à Guerra Civil espanhola, a repressão acentuou-se. Porém, Manuel prosseguiu a sua tarefa de ensaísta, em prol da língua portuguesa e dos direitos de cidadania. Em 1939, traduziu e apresentou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

 

Em 1941, Manuel continuou dirigindo as colecções da Sá da Costa e da Seara Nova. Em Janeiro, morreu o seu mestre José Leite de Vasconcelos e, em Abril, Salazar proferiu o famoso discurso Todos não somos demais para continuar Portugal. Em Maio, foi a vez de falecer Raul Proença. Em 1945 publicou na Seara Nova a sua obra de maior êxito editorial – Estilística da Língua Portuguesa (até 1984 foram publicadas oito edições em Portugal e três no Brasil). Em 1949: o general Norton de Matos candidatou-se pela Oposição democrática às eleições para a presidência da República. Manuel, numa entrevista ao Diário de Lisboa, não teve papas na língua - «É chegada a oportunidade de acabar, sem sobressalto, com este estado de coisas, que nos envergonha como europeus»: referindo-se, obviamente, à ditadura salazarista. No dia seguinte foi preso em sua casa. Esteve sete dias detido no Aljube «ouvindo bimbalhar os sinos da Sé de Lisboa e vendo as pombas revoar livremente no céu azul.» Passados dias foi solto, mediante caução – a ficha da PIDE diz que foi preso «por atentar contra o brio e decoro nacionais e injúrias ao Governo da Nação» - Manuel não se atemorizou – em O Estado de São Paulo publicou uma série de seis artigos sob o título genérico de Em prol da democracia.

 

(Continua)

publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures às 09:41
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links