Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (34)

Perspectivas Sobre a Comuna e a 1ª Internacional em Portugal


Jacinto Rodrigues


Lisboa, 1976

Um ano depois, em 1869, em Basileia, surge a controvérsia com Bakunine. Este, embora seja colectivista, e portanto se oponha ao individualismo da propriedade, apoia os prodhonianos no que nestes havia de anti-estatal. Daí que a sua problemática o obrigasse a um ultra-democratismo utopista sem base ofensiva. O idealismo levou-o a propostas do tipo da «eliminação imediata do direito de herança». Como Marx bem observa, Bakunine tomava o efeito por causa, pois que o direito de herança não passa de uma consequência jurídica da organização económica duma sociedade baseada na propriedade privada.
Como vemos, a linha definida por Marx encontrava dificuldades em romper com o confucionismo pretensamente radical das outras tendências. Estava-se em vésperas da instauração da Comuna.

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Pessimismo Nacional


Manuel Laranjeira

Lisboa, 1985

Decerto: numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade, onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos o diagnóstico impõe-se de per si. O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E, à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida, em Portugal, parece ser cada vez mais fúnebre …

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Polémicas

Raul Proença

Publicações Dom Quixote, 1988

O carácter abertamente polémico da obra de Raul Proença é conhecido dos estudiosos da sociedade portuguesa do presente século. Porém, a sua amplitude é bastante maior do que é de consenso geral. Neste livro estão reunidas 51 polémicas que aquele pensador manteve com jornalistas e intelectuais da sua época. Como enquadramento às referidas polémicas, foi elaborada uma cronologia da vida e da obra de Raul Proença, que poderá proporcionar novas perspectivas para a compreensão mais ampla das suas teses. Uma extensa bibliografia sobre a sua obra fecha a presente antologia.
Neste trabalho, apresentam-se os seguintes inéditos que se encontram no espólio daquele escritor, depositado na Biblioteca Nacional: uma carta de Ana de Castro Osório sobre a lei do divórcio, uma de Afonso Lucas sobre política geral e uma terceira de Carlos Bana, sobre a forma que o Estado republicano deveria assumir.

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publicado por Carlos Loures às 18:00
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Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (7), por José Brandão

Cartas de Manuel Laranjeira


Relógio d’Água, 1990

Foi Laranjeira quem me ensinou a ver a alma trágica de Portugal, não direi de todo o Portugal, mas do mais profundo, do maior. E foi ele quem me ensinou a ver não poucos recantos dos tenebrosos abismos da alma humana. Era um espírito sedento de luz, de verdade e justiça. Matou-o a vida. E ao matar-se, deu vida à morte.

O seu livro «Comigo (Versos de Um Solitário)» dá-nos toda a sua alma. O seu pensamento está aí demasiado concentrado Era preciso ouvi-lo falar. E como nas suas cartas fala, creio ser o epistolário o que melhor nos revela a grandeza da sua alma.

Iluminou a cabeça, que era poderosíssima a pensar, com a chama do seu próprio coração ardente. Poucos homens conheci que tenham juntado a uma inteligência tão clara e penetrante um sentimento tão profundo. Nele, como em Antero, a cabeça e o coração travaram renhida batalha.

MIGUEL DE UNAMUNO

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Cartas I


[1852] – 1881

Antero de Quental

Editorial Comunicação, 1989

Antero de Quental é porventura a personalidade mais fascinante que alguma vez surgiu no panorama literário e cultural português um dos nossos raros heróis culturais, chamou-lhe Eduardo Lourenço.

Em 1858, recém-chegado de «uma ilha remota e imersa no seu plácido sono histórico», lidera a juventude universitária coimbrã em todos os conflitos que surgiram entre o conservadorismo académico e o espírito revolucionário estudantil.

Em 1864, aos 23 anos, a hegemonia pseudocultural de Lisboa é abalada com o seu folheto Bom Senso e Bom Gosto que transforma a polémica literária conhecida por Questão Coimbrã numa luta pela independência intelectual e liberdade de opinião.

Dotado de um carácter superior e de uma vigorosa personalidade, a admiração, o respeito e o ascendente que exerceu sobre os seus contemporâneos foram unanimemente…

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Cartas II

1881 – 1891

Antero de Quental

Editorial Comunicação, 1989

Diante de nós vai desenrolar-se a evolução de toda uma vida onde o despojamento e a procura consciente da perfeição constituem a característica dominante. «Propus-me uma coisa muito difícil porque vou vendo que se parece muito com santidade», escreverá um dia a Germano Meireles.

Os acontecimentos importantes da sua vida, aqueles que o catapultaram para a ribalta das letras ou da política, têm nestas cartas tratamento muito desigual. Assistimos assim à pouca ou quase nenhuma importância que a Questão Coimbrã lhe mereceu, e ela foi, no que lhe diz respeito, uma violentíssima explosão de indisciplina criativa e revolucionária. Dir-se-ia que os folhetos Bom Senso e Bom Gosto e a Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais haviam esgotado todo o assunto que não seria digno de ser discutido na intimidade.

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Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal (José Brandão)

Manuel Fernandes Laranjeira (1877-1912) - IX

Manuel Fernandes Laranjeira nasceu no lugar de Vergada, freguesia de Moselos, concelho de Vila da Feira, em 17 de Agosto de 1877.

A família é pobre e a marca das pestes físicas e espirituais da época pobreza, analfabetismo, alcoolismo e tuberculose deixou as suas sequelas, através do desaparecimento do progenitor e de cinco dos seus filhos (quatro rapazes e uma rapariga), guiando manifestamente os percursos do futuro médico de Espinho

É graças à herança recebida depois da morte de um tio brasileiro que Manuel Laranjeira prossegue estudos e consegue formar-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

Em 1904 concluiu as cadeiras do curso de Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, apresentando a sua dissertação de licenciatura três anos mais tarde, trabalho a que deu o título algo invulgar de A Doença da Santidade — Ensaio Psicopatológico sobre o Misticismo de Forma Religiosa.

Anteriormente publicara na revista «O Porto Médico» o seu primeiro trabalho de índole científica: Nirvana — Interpretação Psicológica de um Dogma.

Posteriormente fixou-se em Espinho, de onde nunca mais sairia, onde exerceu clínica e prosseguiu uma constante actividade como periodista.

Médico, autor de uma obra diversa nos domínios do teatro, poesia, diário, cartas e jornalismo, em parte apenas conhecida após a sua morte, Manuel Laranjeira relacionou-se com algumas das principais figuras culturais do início do século XX, como António Patrício, António Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso ou o filósofo espanhol Miguel de Unamuno, de quem foi correspondente.

A obra de Manuel Laranjeira transmite-nos a sensibilidade profunda de um sonhador que percorre o seu tempo em constantes batalhas interiores, desesperando com as inúmeras leituras desconcertantes e desencantadas das realidades que os seus olhos identificam como produto do meio envolvente.

A uma poesia disciplinada pelo sentir do seu tempo, opõe-se uma prosa livre e circunstanciada pela pressão dos acontecimentos. A um teatro, humanamente problematizado como espelho dos dramas, risos, virtudes e desfavores da sociedade de então, surge-nos, em paralelo, o ensaio penetrante e demonstrativo de um espírito efervescente e rebelde de um oposicionista às situações impostas aos homens.

Interessou-se vivamente por estudos sobre diversos ramos da ciência, sobretudo Biologia, e escreveu com alguma regularidade sobre assuntos tão variados como Literatura, Crítica Literária, Arte, Estética, Filosofia Social e Pedagogia. Neste último domínio teve à época alguma ressonância o seu opúsculo sobre o valor educativo do método de João de Deus, A Cartilha Maternal e a Fisiologia, onde procurava relacionar aspectos do pensamento de Spencer e Felix Le Dantec com o método pedagógico do poeta do Campo de Flores.

A sua preocupação com a divulgação das ideias políticas, sociais e científicas modernas levou-o a proferir conferências, de que vale a pena destacar as que tiveram lugar na Universidade Livre do Porto, sob o tema «A Vida», em 1906, ano em que desenvolveu actividade bastante intensa e, um ano antes da sua morte, no Teatro Aliança de Espinho, sobre a protecção da vila contra as investidas do mar, que bem reflecte a sua preocupação com problemas de ordem social imediata.

Uma primeira impressão resultante da leitura do Diário e das Cartas dá-nos um Laranjeira céptico, fechado em si mesmo, descrente já da possibilidade da melhoria da mentalidade nacional e afastado da procura de soluções para os grandes ou pequenos problemas da sociedade portuguesa de então. É por isso um pouco difícil imaginar o homem que vamos encontrar por detrás da escrita ora amargurada ora entediada do Diário ser eleito Presidente da Comissão Municipal Administrativa de Espinho e exercer cargos públicos como o de Administrador do Concelho ou andar pelas ruas a abraçar efusivamente os amigos no dia da implantação da República.

Ainda no tocante à sua actividade literária temos notícia de um espírito interessado pelo teatro e possuidor de uma grande cultura teatral; faz crítica de teatro e escreve, influenciado por Ibsen, Strindberg, Hauptmann e Drieux o prólogo dramático ...Amanhã, publicado em 1902 e representado em Lisboa, dois anos depois, na récita inaugural do grupo «Teatro Livre» que tomou como modelo o «Théatre-Libre» de Antoine.

Este prólogo tem sido considerado, apesar de muitas imperfeições a melhor obra cénica da escola naturalista. Escreveu ainda o drama em um acto Às Feras, também representado pelo «Teatro Livre», em 1905; a farsa em um acto Naquele engano d’alma, igualmente representada e deixou inacabada a peça Almas Românticas, as três últimas ainda inéditas.

No domínio da poesia uma única incursão: o livro Comigo (versos dum solitário), publicado no Porto muito pouco antes da sua morte, em Janeiro de 1912, e que, com uma ou outra passagem de maior interesse pelo radicalismo invulgar com que os assuntos são tratados, é uma obra formalmente tradicionalista que se perde entre tantas outras colectâneas de poemas surgidos por esse tempo.

Esmagado pelo peso de uma «melancolia venenosa» que vai degenerando na apatia dum tédio irreversível de que darão conta as páginas do seu Diário Intimo e das Cartas, divide-se entre o várias vezes referido dever de apoio e assistência à família com que vive, e sobretudo a sua mãe, que parece ser tudo o que lhe resta duma infância sempre velada de que se sente nostálgico, e uma ânsia de evasão para algo indefinido, ambiguamente chamado Ideal, que nunca se determina, sendo raríssimas as vezes em que dá mostras de acreditar na possibilidade de sair da monotonia em que se sente submergido.

Os momentos de entusiasmo e de relativa crença são raros. O cepticismo e o tédio vão minando aos poucos o seu pensamento. Os últimos anos aceleram o processo de crise constante da sua vida. Em 1909 rompe a sua ligação com a sua companheira Augusta, que povoa as páginas do Diário e é motivo para muitas e reveladoras reflexões que nele encontramos.

Um ano depois, a Implantação da República não será senão o começo de um lento desmoronar de sonhos, planos e expectativas. O agravamento da doença ajuda a fenecer o ânimo e Laranjeira junta o seu nome à lista dos suicidas como Camilo, Antero, Soares dos Reis e outros que, com «a morta» de que nos fala no Diário, exerceram sobre a sua sensibilidade um ambíguo mas persistente apelo e reforça assim o mito unamuniano da «raça de suicidas». Unamuno, seu companheiro de conversas e deambulações por Espinho a quem em Outubro de 1908 escrevia amargamente a propósito de Portugal: «Neste malfadado país tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.»

Manuel Laranjeira seguiu as tendências do seu espírito. Na medicina percorreu os caminhos da nevrostenia, enquanto que na literatura e na palavra jornalística defendeu a ousadia de ser irreverente, imprimindo às suas críticas, à sua conversa e aos seus breves comentários, o encanto de uma vida intensa, o interesse e a paixão pela estética do seu tempo, independentemente se tratasse da cor de um risco de pincel ou de um conceito fulgurante de uma frase.

O poeta entrou no grande mistério pela mesma “porta” que Antero e Camilo, suicidou-se, ou por outras palavras, procurou encontrar a sua última verdade. Aquela que, nas suas próprias expressões, é descrita como o desmanchar da última ilusão, a ilusão da imortalidade.

A medida que lemos as linhas convulsionadas que vai escrevendo quotidianamente surge no nosso pensamento, ressuscitado das brumas espessas dessa praia do norte, uma figura indecisa, mal caracterizada que amamos e detestamos como tudo o que há de muito profundo em nós. Poderia ter sido um mito vivo, espécie de «escritor maldito» caseiro, não fosse ter-se suicidado num país que prefere alimentar o seu imaginário de poeirentos cavaleiros bélicos e desajeitadas sombras políticas.

Comecemos uma aproximação de Manuel Laranjeira antes de mais imaginando o seu retrato físico.

Alberto de Serpa imaginou-o assim:

« (...) carregado de fumo de tabaco e sonho, chegava a figura do suicida, trazida pelos passos incertos de tabético. Tomava uma das suas posturas descompostas: o tronco de magricelas desequilibrado na cadeira, a tombar sobre o mármore sujo de bebidas e cinzas, que enodoava mais a vestimenta desleixada; as pernas estiradas, em cruz nos joelhos inseguros; o chapéu mal sustido na floresta negra da cabeleira; a bengala em riste, a marcar o compasso dos pensamentos sem ou com ordem. Na face de prognata e tuberculoso hereditário, urna barbita rente sempre mal rapada, bigode fecundo que rimava com a cabeleira, olhos negros, enormes, avelulados. E bebia e fumava...»



Laranjeira sofria de tuberculose que provavelmente o acabaria por vitimar em pouco tempo, como aconteceu a seu pais seu irmão e outros familiares, se não se tivesse suicidado. Sofria também acentuadamente de tabes, doença que se caracteriza por urna ataxia progressiva dos membros locomotores. Encontram-se ainda nos seus escritos referências à sífilis.

Existem vários indícios de que a morte, longe de ter sido um acontecimento de último momento ou de gesto repentino foi, antes, uma atitude pensada e gerida num tempo mais ou menos longo.

O escritor sentir-se-á como mais um filho de uma pátria moribunda, onde a realidade vivida perdeu o significado e qualquer tipo de atracção.

Se se tivesse acomodado à ordem da cidade jacobina talvez houvesse conseguido uma cadeira nas «constituintes, com alguma dificuldade – mas sempre possível – uma «pasta» num ministério qualquer, apesar de tudo conseguiria com maior facilidade as gorjetas da propaganda, que distribuíam alguns lugares de destaque intermédio no aparelho de Estado e nas administrações de bancos, empresas públicas, governos das colónias. Porém, o médico de Espinho, tal como mostrara os punhos indignados à Monarquia, insistira em dizer do seu desdém intelectual pelos corifeus do novo regime. A República tinha pois que o marcar pela indiferença.

Fidelino de Figueiredo dirá dele:



«(...) em Espinho principalmente, viveu de 1877 a 1912 um homem de aguda sensibilidade intelectual e brava independência de carácter, o médico Manuel Laranjeira, curta vida de luta e amargura — luta com uma doença nervosa de quem quer viver em harmonia com a sua concepção da vida e esbarra em obstáculos intransponíveis. Ao seu drama não deveria ter sido estranha uma certa abulia mórbida. Não era um homem de laboratório. Era um amigo das ideias gerais e um curioso dos aspectos dramáticos da existência. A medicina proporcionou-lhe materiais para a sua interpretação pessimista do homem: um escravo das suas míseras limitações físicas; o seu temperamento pessoal e a exacerbação da doença explicam o resto: a coragem triste do suicídio».



Tomando o fio de Unanumo, seguindo a interpretação de Fidelino de Figueiredo, teremos um Manuel Laranjeira que procurava viver em harmonia com a sua concepção de vida, à qual não faltava a sensibilidade intelectual, portanto, um grande pensador e, por acréscimo, um grande «sentidor».

O que nem um nem outro disseram é que Manuel Laranjeira procurou viver de harmonia com a pátria que sentia doente e, por essa mesma razão, foi aos poucos sofrendo ele próprio os sintomas dessa doença, como se ela se houvesse corporizado em si. Poderia ter emigrado, exilar-se, mas não parece ter pretendido sobreviver. Procurou no suicídio terminar com a «doença de pátria» que em si corporizou uma doença física, real?

Em 1908, comunica a Unanumo a existência do império mental da morte: «Em Portugal chegou-se a este princípio de filosofia desesperada — o suicídio é um recurso nobre, é uma espécie de redenção moral. Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa». Na terra das amarguras só tinha então curso a carreira suicidária. Unanumo ficou pois informado de que em Portugal só haveria triunfo para o «canalha»:

«Chegámos a isto amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós, porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram — de crer.» Disto só se poderia sair arrancando-se à vida: «Crer...! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeitar é a crença na morte libertadora/E horrível, mas é assim.»

Um cadáver adiado perfila-se. Manuel Laranjeira pretenderia autopsiar antecipadamente aquilo que já lhe parecia estertor do moribundo. O sentimento difuso da responsabilidade republicana escondeu-se muita vez atrás do sofrimento destes inquietos, cobrindo-os com o seu manto indiscriminadamente, como se todos eles fossem seus filhos legítimos.

A natureza da crise colocaria sobre os ombros destes inquietos um peso que eles consideravam insuportável. Era a revolta dos que se recusavam a ser escravos do meio ambiente e se apresentavam como gladiadores na Arena política, julgando que fugiam, assim, à planificação mortal. Manuel Laranjeira respeitava, portanto, o suicídio enquanto derradeiro grito libertador e regulador do que havia de melhor na constituição dos portugueses.

Manuel Laranjeira encontrava os talentos enferrujados devido à falta de carácter e, simultaneamente, os caracteres fortes a deixarem avançar a doença devido à falta de vontade para levarem a fundo a única revolução verdadeiramente importante. Daí desenvolvia o seu conceito moral de história, oposto à interpretação da política dinâmica do jacobinismo. A mudança de regime não pareceu curar os doentes nem salvar a pátria da derrocada.



«O mal da minha terra, amigo, não é a demagogia: é a inépcia. Em Portugal não há demagogia: falta-nos fanatismo cívico para isso. Em Portugal o que há é uma inverosímil colecção de idiotas.»

Para ele a qualidade da mudança centrava-se na transformação das mentalidades: «Fez a revolução. Foi uma verdadeira revolução? Não; foi apenas um povo que mudou de traje. Por dentro estamos na mesma.».



A mudança de regime não trouxera nada segundo Manuel Laranjeira alvitrava.

Após a implantação da República declarou-se que o país estava curado, o doente agradeceu a ideia, como quem aceita uma mentira piedosa, mas sabia que não estava definitivamente restabelecido. Os jacobinos afirmaram que a pátria convalescia. Manuel Laranjeira não se adaptou às convenções que esta mentira impunha. Em vez de fazer política, defendeu com independência o seu parecer sobre o estado do país. As suas ideias tornaram-se subversivas: «(...) É preciso refazer tudo, refundir a sociedade portuguesa de baixo para cima, incansavelmente, obstinadamente.».

O médico de Espinho recusava-se a encarreirar no rebanho republicano. Então, a República marcou-o e, mais do que isso, quando a sua voz se tornou impertinente, sem o perseguir nem perder tempo com avisos, votou-o à liquidação pela indiferença, procurou queimá-lo pelo desdém.

Em torno de Manuel Laranjeira traçou-se um círculo de silêncio, uma terra de ninguém povoada de vazio. A sua inquieta e preocupada visão do apocalipse lusitano tinha um cunho intervencionista demasiado vincado: a autoridade jacobina não era poupada. Para o médico de Espinho, ao envergonhar-se de confessar que errara, tanto mais errava o republicanismo ao dissimular os seus erros.

Portugal, sumindo-se, apagando-se na dispensa de se reformar em grande e profundo, obrigava Manuel Laranjeira a apagar-se também.

O crente na religião patriótica, ponderando sobre o estado de sítio, raciocionando, palpando as partes doridas da alma enferma, não poderia deixar de avaliar os progressos do mal. Pátria-hospital. Pátria-enfermaria, finalmente pátria-morgue, sem corpo clínico que a vigiasse, sem especialista que lhe identificasse a doença. Era pois um doente que tinha de experimentar, descobrir a terapêutica adequada. Um doente que se reflectia no país, por simpatia e solidariedade para com os outros. Deste paradoxo resultavam as inquietações do médico de Espinho.

Paulatinamente, vamos assistindo ao funeral da pátria, O cortejo funerário de Manuel Laranjeira tem todos os adereços da cena trágica. Com a pátria que se finava terminavam os seus dias meia dúzia de coisas que lhe serviam de amparo.

A doença predispô-lo para a solidão e para o pessimismo, manifestos numa visão trágica da existência e numa atitude de ensimesmamento, com explosões de revolta e desespero, de cepticismo e niilismo, culminantes no suicídio.



«Na noite de quinta-feira última, cerca das 23 horas, faleceu o dr. Manuel Laranjeira. Martirizado por horrível e desesperante sofrimento, o dr. Manuel Laranjeira pôs termos à existência, desfechando um tiro de revólver na cabeça!

O trágico desenlace desse drama acidentado da vida de Manuel Laranjeira deixou nos seus amigos uma nota contristadora de uma tremenda catástrofe. É indizível o espírito de consternação e lancinante mágoa que a todos foi transmitido.»

in «Gazeta de Espinho» 25/2/1912
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Domingo, 16 de Maio de 2010

Manuel Fernandes Laranjeira



António Sales

O homem só chega à verdade pelo caminho da dúvida, escreveu Manuel Laranjeira no artigo “Mocidade Idealista”. Eis como é diferente a filosofia deste pensador do início do século XX de políticos portugueses do início do século XXI. O neo-liberalismo económico e globalização parecem guardar em si todas as virtudes como se tudo já tivesse sido pensado, dito e experimentado. Essa infalibilidade não tem sido uma característica dos portugueses que viveram (e vivem) na dúvida das suas capacidades e qualidades. Salvo casos de afirmativa personalidade de quem “raramente se engana e nunca [tem] dúvidas” ou, como Salazar afirmou num discurso de posse na Sala do Risco, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, o português é dotado de constantes interrogações sobre a sua energia e firmeza em desafiar o futuro.

Foi este o caso do escritor Manuel Fernandes Laranjeira, idealista marcado pelos choques com a realidade, sobretudo com a realidade triste de Portugal, característica dessa época (mas alguma vez a realidade portuguesa deixou de ser triste?). Indivíduo carregado de dúvidas sobre as quais reflectiu com lucidez e inteligência em muitos dos seus escritos, porque o idealismo não o impediu de ser um ensaísta dotado de lógica analítica. Todavia, sobre muitas dessas dúvidas não chegou à verdade, nem podia já que um século depois ainda persistem. E das verdades a que chegou foram bastantes as cruéis que espalharam a viscosa baba do desencanto.

Manuel Laranjeira é um dos escritores que melhor representa o pessimismo lusitano do início do século XX, cuja correspondência com os amigos é bem mais estimulante de ler do que o Diário Intimo. Por aqui vagueia o tédio epicurista, o seu permanente descontentamento face à vida traduzido na indolência nata de um sentimento próximo da tragédia. Ao “Diário” não escapa, como a Pessoa não escapou muitos anos mais tarde, a sensaboria medíocre do seu romance com Augusta que terá contribuído para o seu estado depressivo até porque com as mulheres tinha tendência para o chinelo.

D. Miguel Unamuno, amigo de Laranjeira e por aquele admirado, encontrou nele um representante do que chamou a “alma trágica” de Portugal representada pelo suicídio de alguns dos nossos intelectuais. Aos 27 anos, já depois de terminado o seu curso de medicina, o autor de “Dor Surda” fala da “angústia suicidária”. Essa angústia não o impede de desenvolver uma dramaturgia social (“Amanhã” e “Às Feras”), todavia dolorosa, e o ensaio em termos de uma lógica analítica capaz de colocar de lado aspectos sentimentais. Vive uma sucessão de amores frustrados e a amargura da solidão profunda e perversa é também potenciada pela componente física de um acumular de doenças fatais, como a sífilis medular e a tuberculose de que morre uma irmã e um irmão. Os acontecimentos da sua vida encaminham a sua personalidade literária e de pensador para um decadentismo romântico que viria a contribuir para a tragédia suicida muitas vezes sugerida na sua correspondência aos amigos. Não foi exclusivamente a angústia da sua indiscutível personalidade psicótica a culpada mas também o desencanto e a dor espiritual e física. Sofreu por si e por quanto ia assistindo à sua volta. A sua alma sensível habitava um corpo solitário minado pelo tédio e pela descrença de um homem que “sente um desânimo infinito”.
No Outono de 1911 agrava-se o estado de saúde do escritor acentuando todo o conjunto de dúvidas verdadeiras e verdades duvidosas que acabam por levá-lo ao suicídio, dando um tiro na cabeça aos 33 anos, nas areias da praia de Espinho, no dia 22 de Fevereiro de 1912. Nascera a 17 de Agosto de 1877 no lugar de Vergada, freguesia de S. Martinho de Moselos, Vila da Feira.


Consulta: “Obras de Manuel de Oliveira” – I e II volumes – Edições Asa (Porto) – Abril 1993
publicado por Carlos Loures às 10:00
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