Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Prémio Camões 2011 atribuído a Manuel António Pina

 

Manuel António Pina  ganha Prémio Camões 2011

 

 

O Jardim publica hoje um capítulo do livro Os Papéis de K.

 do escritor premiado, para aguçar a vontade de ler, na íntegra, 

a bela prosa do, também, ficcionista. para além de poeta e cronista.

 

 

 

Michiko

 

 

 

Agnes calou-se. «Desculpa, não queria dar-te uma aula... Tudo isto é também muito confuso para minm...» Mudando de tom: «Entretanto perdi-me... Onde é que ia?

 

«No momento em que o original falava da menina nas­cida em... já não me lembro quando...»

 

«Ah, sim... Em 1936», precisou Agnes.

 

«Chamava-se Michiko», prosseguiu, acendendo mais um cigarro. «Fazia 9 anos em 9 de Agosto de 1945. Estava, na escola, em Nagasaki, a escrever uma redacção, no momento em que foi lançada a bomba atómica.»

 

«A bomba atómica...?», disse eu, surpreendido. «E a criança daquela fotocópia que... daquela redacção...?»

 

«Sim», respondeu Agnes, sem me fitar.

 

«Era... ela a menina descendente de... Sesshu, do assassino?!»

 

«É o que diziam os papéis de K.», continuou hesitantemente Agnes, com os olhos postos em algum ponto inde­finido para lá do pára-brisas do automóvel.

 

Começara a amanhecer. Talvez fossem cinco ou seis da manhã. Não dera conta da passagem das horas. Olhei para o relógio. Agnes olhou também para o seu.

 

«É muito tarde, desculpa.»

 

Fez menção de abrir a porta, mas eu segurei-a pelo braço.

 

«Não. Por favor, conta-me o resto...»

 

«Acabaram-se-me os cigarros», disse ela.

 

Eu levei a mão ao bolso. «Fuma um dos meus.»

 

Agnes pegou no maço que eu lhe estendi e, depois de tirar um cigarro e de o acender, disse:

 

«Demorei-me muito em pormenores, desculpa. Vou ser mais rápida. O meu avião é daqui a três horas, já não vou poder dormir.» E encarando-me: «Nem tu...»

 

«Não faz mal», disse eu, ansioso. «Continua...»

 

«Como te disse, K. guardava na pasta a fotocópia dessa folha do caderno da pequena Michiko. O caderno está no Museu da Bomba Atómica, em Nagasaki. Foi encontrado no meio das ruínas da escola de Shiroyama. Quando estive com K. no Japão visitámos o museu. É impressionante. Existe lá também uma parede com o vulto de um corpo desintegrado, que ficou desenhado na pedra. Era um sol­dado, talvez urna sentinela. Vêem-se a sua espingarda, a tiracolo, e uma escada de madeira, ambas também desinte­gradas e inscritas na parede...»

 

«Mas — interrompi-a — como chegou K. a essa menina...?»

 

«No não-tempo dos kami», continuou Agnes, «e no antes e depois do tempo dos homens, foi-se lentamente conjugando, por acção... é o que dizia o manuscrito...» — Agnes falava a medo, como se estivesse assustada, ou como se receasse que eu não acreditasse no que me contava — «... por acção do kami cristão... toda a cadeia de aconteci­mentos que conduziu à morte de Michiko, enquanto os outros kami procuravam, em vão, detê-lo. Terá sido o kami cristão quem — no xintô, as acções dos homens são inspi­radas pelos kami; os homens são, como também, por exem­plo, na Ilíada, ou na Odisseia, instrumentos da vontade dos kami... — inspirou a Otto Hahn, dois anos depois do nas­cimento de Michiko, a descoberta do processo de cisão nuclear do urânio e, no ano seguinte, a Einstein, a carta que escreveu a Roosevelt e esteve na origem do Projecto Manhattan de construção da bomba atómica. Como terão sido os bons kami quem levou, depois, outros cientistas envolvidos no projecto a tentar evitar que a bomba fosse lançada. Toda esta parte do manuscrito é muito perturba­dora... Eu...» Agnes hesitou de novo. «Guardei esse capí­tulo... São três páginas em francês. Foram as únicas que não consegui queimar. Queria, julgava eu, ficar com uma recordação de K.. Agora sei que as guardei porque... por­que queria ter a certeza...»

 

«Guardaste partes do manuscrito?!», perguntei, estupe­facto.

 

«Sim», disse Agnes, desviando os olhos dos meus. «Depois li vários livros sobre o Projecto Manhattan. Foi tudo como K. escreveu!»

 

«Tudo... o quê?»

 

«A descoberta de Otto Hahn, em 1938, a carta de Einstein, as petições de outros cientistas ao presidente Truman para que não lançasse a bomba. Até o que K. diz depois, no final do capítulo, as dúvidas dos outros físicos, até de Oppenheimer e de Fermi... K. estava convencido de que os kami travaram, quando a bomba ficou pronta, uma batalha terrível no coração dos cientistas... E que foi aí, no seu coração, que o destino de Michiko se decidiu.»

 

«O manuscrito era, afinal, sobre essa Michiko...», comentei eu.

 

«Sim, julgo que sim...»

 

«Mas... tanta coisa... uma bomba atómica... apenas para matar uma menina de 9 anos?», estranhei, céptico.

 

«Sim», respondeu Agnes. «Os kami — era outra ques­tão que atormentava K. — não têm o sentido da medida e da desmedida que têm os homens... A picada de uma víbora ou um dilúvio de sangue, a espada de um inimigo ou uma tempestade, uma derrota militar ou a loucura, têm a mesma grandeza para os kami e todos são igualmente apropriados à consumação dos seus propósitos. Também a moral dos homens lhes é alheia. Os kami são apenas von­tade. E, do mesmo modo que os homens não alcançam nos seus desígnios, também eles não alcançam nos limites e nas reservas dos homens. Um dos últimos capítulos do manus­crito é dedicado a essa recíproca e impenetrável — K., lem­bro-me perfeitamente, hesitou muito nas palavras; primeiro tinha escrito "recíproca e opaca", depois mandou-me alte­rar para "recíproca e impenetrável"... — incompreensão, que, se é uma insuficiência dos homens, é igualmente uma insuficiência dos kami...»

 

«De qualquer modo», disse eu, «custa a compreender que...»

 

«Não é possível compreender», disse Agnes. «Não tem compreensão. Nem extensão.»

 

«Nem a imaginação de K. ...», ironizei.

 

«Sim», disse ela em voz baixa. «Se (sublinhou este "se") K. imaginou tudo. Às vezes interrogo-me se ele não era um místico, um kami menor, se não se encontrou, por um momento, entre o humano e o inumano. E se não foi aquilo que viu, e não o cancro, ou o coração, o que o matou. A sua imaginação, se não foi antes uma visão, se ele não era um visionário, tentava, acho eu, agarrar-se aos fac­tos e aos documentos como um náufrago afogando-se. Julgo que, por qualquer motivo, ele se sentia perdido com o que julgava ter descoberto, e que procurava através de todos os documentos que foi reunindo, mais do que con­vencer quem o viesse a ler, satisfazer a sua própria razão, convencer-se a si mesmo. Era um historiador, um cientista, e estou certa — tenho pensado muito nisso — de que seguiu estritamente o método científico... Primeiro obser­vou algo que o perturbou, provavelmente no tal Congresso de 1958, quando descobriu as suas origens judaicas; depois, ao longo dos anos, foi formulando uma hipótese espantosa; e passou o resto da vida a tentar verificar angustiadamente essa hipótese. A conclusão a que chegou era intolerável, des­truiu-o... K. citava frequentemente Meneio, um filósofo chinês, que disse: "Quando os homens perdem as suas gali­nhas ou os seus cães, sabem muito bem onde procurá-los mas perdem a alma e não sabem reencontrá-la..."»

 

«Uma hipótese? Que hipótese?», perguntei eu.

 

Agnes calou-se por momentos.

 

«Ainda não te disse tudo», murmurou. E, depois de nova pausa: «A menina de Nagasaki, Michiko, era a filha única de K. ...»,

 

(in Manuel António Pina, Os Papéis de K., Assírio & Alvim)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

.

publicado por Augusta Clara às 16:00
link | favorito

Manuel António Pina recebe o Prémio Camões 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem, anunciaram no Rio de Janeiro que foi atribuído o Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina. Jornalista durante trinta anos do Jornal de Notícias, é um cronista de grande fôlego, e autor de histórias infantis, em que procura usar o humor e o absurdo para explicar o mundo ás crianças, e segundo alguns, também aos adultos, pois não visaria propriamente nenhuma faixa etária na sua ficção. Também é poeta e autor teatral, assim como tradutor. Estrolabio apresenta aqui os seus parabéns a Manuel António Pina, que muito tem feito para divulgar a língua e literatura portuguesas.

 

 

 

Ao longo da sua carreira recebeu vários prémios de poesia. Convidamo-vos a que leiam a seguir um dos seus poemas.

 

 

A um Jovem Poeta

 

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

publicado por João Machado às 15:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links