Domingo, 6 de Março de 2011

Entre Verdades - Ethel Feldman

Quando tocou a campainha Dulce pediu-me que abrisse a porta. O pedido fez-me sentir íntima da casa.
Do outro lado, um homem com um bigode que não ultrapassava a fronteira das narinas, um chapéu na mão direita, vários embrulhos na mão esquerda, entrou com pressa.
Beijou Dulce, olhou-me de soslaio e fugiu sem explicação.
- João, onde vais?
- Vou ao quarto...
Quando voltou a sala, disse-me
- Conheço-te! Trabalhaste na Loucura...
Respondi logo que não, mas a certeza dele deixou-me insegura.
- Na Loucura?
- Tenho a certeza, tinha lá uma Lexa...
Nunca conheci outra pessoa com o meu nome. Só podia ser eu.
- Mas em que ano?
-1974...
Será que trabalhei na Loucura e não me lembro?
A verdade dele mostra-se mais segura que a minha. Ainda acabo pedindo desculpas pela minha falta de memória.
Algo impede-me de embarcar na segurança de João que esbraceja feito uma borboleta, deixando a minha afirmação fraca e mentirosa.
- Nunca trabalhei na Loucura...
No elevador conto de 1 a 10 para ter a certeza de que ainda sei contar sem tropeçar no intervalo da dezena.
Há dias em que o sublime da vida é saber-me viva, apenas.
 

publicado por atributosestrolabio às 18:00
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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Paladar da Loucura - por Ethel Feldman

 

 

 

Você pediu que contasse como era antes, como foram nossas brigas. Você disse que me revisse como uma transeunte no passeio e confessasse como eram

esses ataques que tenho escondido de todos nossos diálogos.

Uma vez soube de uma mulher que cortou os pulsos, doutra que se encharcou

em comprimidos antes do limite da morte, doutra ainda que se debruçou na janela ameaçando se atirar.


No apartamento de cima ouço uns gritos, que sei que são choro. O porteiro comenta aquele exagero. Ninguém a vê, dela só conhecemos o ruído. Tão altos

os gritos que nos obriga a subir o som da televisão.


São as mulheres histéricas, que num momento de impulso de tanto controle se descontrolam na dor.


Você perguntou o que eu achava dessas mulheres. Sei de quem partiu uma janela, sei doutra que destruiu a casa de banho. Parece - dizem - que são as mulheres do povo, que sem polimento exageram o comportamento.


Soube noutro dia de uma senhora de bem, tão despiu-se na festa. Nua, num choro baixinho, encontrou-se no chão. Os homens - todos eles bem formados - desviaram os olhos.

 


Você nunca pirou?


Não me peça então que conte como foram as brigas, se chorei, se me enquadrei numa noticia de crime.
Me conte você o que fez seu parceiro quando um dia, você minha amiga, perdeu a postura.


Se a laranja for ácida e se a cada gomo as lágrimas te vierem aos olhos, me diga Cleo, se é esse o paladar da loucura.

 

publicado por Carlos Loures às 10:00

editado por Luis Moreira em 24/01/2011 às 23:26
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