Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - Max Aub

CRIMES EXEMPLARES


de Max Aub

« - Antes morta! – disse-me. E eu só quis fazer-lhe a vontade!»

«Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer um. Até me atrevo a dizer que sou um bom barbeiro. Cada um tem as suas manias. A mim, incomodam-me as borbulhas.

Foi assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-lhe o rosto com destreza, afiei a navalha no assentador, experimentei a suavidade do fio na palma da minha mão. Sou um bom barbeiro! Nunca desiludi ninguém. Além disso, aquele homem não tinha a barba muito cerrada. Mas tinha borbulhas. Reconheço que aquelas espinhazitas nada tinham de especial. Mas incomodam-me, põem-me nervoso, revolvem-me o sangue. Fiz a primeira passagem, sem problemas; na segunda sangrou um pouco. Não sei o que então me deu, mas acho que foi uma coisa natural, aumentei a ferida e depois, não pude resistir e, de um golpe, decepei-lhe a cabeça.»

«Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido aflorava o bordo do copo, levado pela acção violenta do utensílio de alumínio. (O copo era ordinário, o lugar barato, a colherzinha gasta, roída de tanto utilizada.) Ouvia-se o ruído do metal contra o vidro. Riz, riz, riz, riz. E o café com leite dando voltas e mais voltas, com uma concavidade no centro. Maelstrom. Turbilhão. Eu estava sentado na sua frente. O café estava cheio. O homem continuava a mexer e a remexer, imóvel, sorridente, olhando-me. Algo crescia dentro de mim. Olhei-o de tal maneira que se sentiu na obrigação de explicar:

- O açúcar ainda não se dissolveu.

Para mo provar, deu umas pancadinhas no fundo do copo. Voltou depois com energia redobrada a mexer metodicamente a beberagem. Voltas e mais voltas, sem descanso, e o ruído da colher no bordo do vidro. Raz, raz, raz. Sempre, sempre, sempre sem parar, eternamente. Volta e revolta e volta. Olhava-me sorrindo. Então, puxei da pistola e disparei.»

«Abri-a de alto a baixo, como se fosse uma rês, pois olhava indiferente o tecto enquanto fazíamos amor».

«Íamos como sardinhas em lata e aquele homem era um porco. Cheirava mal. Todo ele cheirava mal, sobretudo os pés. Garanto-lhe que não se podia suportar. Além disso tinha o colarinho da camisa negro de sujidade e o pescoço ensebado. E olhava-me. Uma coisa asquerosa. Ainda quis mudar de lugar. Pode não acreditar, mas aquele indivíduo seguiu-me. Era um cheiro a demónios e pareceu-me ver sair bichos da sua boca. Talvez o tenha empurrado com um pouco de força a mais. Agora não me culpem pelas rodas do autocarro lhe terem passado por cima!»

«Matei-o porque julguei que ninguém estava a ver.»

«Era tão feio, o pobre tipo que, cada vez que o encontrava, era como que um insulto. E tudo tem um limite.»

«Você nunca matou ninguém por tédio, por não saber o que fazer? É divertido.»

«Matei-o porque me doía a cabeça. E ele, zás, falava sem parar, sem descanso, sobre coisas que nada me interessavam. E mesmo que me interessassem. Ainda olhei seis vezes ostensivamente para o relógio: não fez caso. Creio que é um atenuante a tomar em consideração.»

«Era mais inteligente do que eu, mais rico do que eu, mais desenvolto do que eu; era mais alto do que eu, mais bonito, mais esperto; vestia melhor, falava melhor; se os senhores julgam que isto não são atenuantes, é porque sois tontos. Pensei sempre na maneira de me desfazer dele. Fiz mal em tê-lo envenenado: sofreu demasiado. Isso, lamento. Queria que morresse depressa.»

«Se o golo estava feito! Era só empurrar a bola para dentro da baliza, o guarda-redes estava batido… Chutou-a por cima do travessão! E aquele golo era decisivo! Aviávamos os sacanas do Nopalera. Se devido ao pontapé que lhe dei foi parar ao outro mundo, talvez lá aprenda a chutar como mandam as regras.»

«Era a sétima vez que me mandava copiar aquela carta. Tenho o meu diploma, sou uma dactilógrafa de primeira. E uma vez por um ponto final, que ele disse que devia ser ponto parágrafo, outra vez porque mudou um «talvez» por um «quiçá», outra porque trocou um b por um v, outra porque se lembrou de acrescentar um novo parágrafo, outras não sei porquê, o facto é que tive de a escrever sete vezes. E quando a levei, olhou-me com aqueles olhos hipócritas de chefe de administração: “Olhe, menina…”. Não o deixei acabar. Há que ter mais respeito pelos trabalhadores.»

«Matei-o porque não pensava como eu.»

«Matei-o porque me doía o estômago.»

«Matei-o porque lhe doía o estômago.»

«Tinha jurado fazê-lo ao próximo que voltasse a passar-me uma cautela da lotaria pela corcunda».

«Negou que eu lhe tivesse emprestado aquele quarto volume… E o buraco na prateleira da estante, como um nicho…»

«De mim ninguém se ri. Pelo menos esse, já não volta a rir-se.»

«Matei-o porque bebi o suficiente para o fazer.»

«Penso, logo existo, disse o tal homem famoso. As árvores do meu jardim existem, mas não creio que pensem, pelo que fica demonstrado que o senhor René não estava bom do juízo e que o mesmo acontece com outros seres: o meu sogro, por exemplo – existe, mas não pensa. Ou o meu editor, que pensa, mas não existe. E se pomos isto ao contrário, também não fica certo. Não existo porque penso ou penso porque existo. Pensar, pensa-se, existir é um mito. Eu não existo, sobrevivo, porque viver - aquilo a que se chama viver – só os que não pensam. Os que se metem a pensar, não vivem. A injustiça é por demais evidente. Bastaria que pensássemos para nos suicidarmos. Não; senhor Descartes: vivo, logo não penso, se pensasse não vivia, se vivesse não pensava, senhor… etc., etc. Se para viver fosse necessário pensar, estaríamos lúcidos. Mas, enfim, se os senhores estão convencidos de que assim é, estou inocente, completamente inocente, pois não penso nem quero pensar. Logo, se não penso não existo e, se não existo, como diabo posso ser responsável por essa morte?»

(Traduções de Carlos Loures, feitas a partir da edição da Espasa Calpe, Madrid, 1999.)
publicado por Carlos Loures às 01:00
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