Sábado, 16 de Outubro de 2010

Leva da Morte – 16 de Outubro de 1918

Carlos Loures




Local onde ocorreu a chacina da "Leva da morte"

92 anos depois, há quem queira descrever o consulado sidonista como um oásis de ordem no meio do caos da I República. Esquecem-se, entre outros actos de despotismo, os que pretendem branquear o sidonismo, do sinistro episódio da «Leva da Morte», ocorrido em 16 de Outubro de 1918. No ano anterior tinham acontecido muitas coisas – em Janeiro partira para França a primeira brigada do Corpo Expedicionário Português. Portugal entrava na Grande Guerra. Os contingentes continuariam a seguir para a frente de batalha. Em 25 de Abril formou-se o terceiro governo de Afonso Costa. Em Maio noticiavam-se as primeiras «aparições» de Fátima, logo aproveitadas pelas forças conservadoras.

O pano de fundo, eram os motins, as greves, mas esse caos social, económico e político serviu de trampolim ao major e professor Sidónio Pais que, mobilizando algumas unidades militares e, sobretudo, os cadetes da Escola de Guerra, e com algum apoio popular, desencadeou em 5 de Dezembro uma revolta. Mais uma. Afonso Costa foi preso, o ministério demitiu-se, o presidente Bernardino Machado partiu para o exílio. Instaurou-se uma ditadura militar, apoiada pelo Partido Unionista. O Congresso foi dissolvido, destituído o presidente da República, a constituição alterada. Instalou-se um regime presidencialista – aquilo a que se veio a chamar o sidonismo. A Sidónio, muitos chamavam o «Presidente-Rei». Era a «República Nova».

Os decretos eram publicados a velocidade estonteante. A máquina administrativa, a lei da imprensa, o ensino, tudo ia sendo reformulado. Foram restabelecidas as relações com o Vaticano e restituído ao clero privilégios que a República lhe retirara. As sucessivas revoltas contra a ditadura sidonista iam sendo dominadas. Em Janeiro de 1918, foi neutralizado um levantamento de marinheiros da Armada. Em 28 de Abril houve eleições presidenciais. Sidónio, único candidato, foi eleito. Em La Lys, as tropas portuguesas sofreram uma pesada derrota o que reforçou a germanofobia do presidente e dos seus apaniguados. A direita rejubilava - em Julho surgia a «Cruzada Nun´Álvares» formada por monárquicos e sidonistas católicos com o objectivo de unir a direita anti-republicana.

Tudo isto ocorria sem que os problemas fulcrais do País se resolvessem – continuava a miséria, a carestia da vida, o racionamento de bens essenciais… O descontentamento, mesmo dos que tinham saudado o aparecimento de Sidónio, reavivava-se. Recomeçavam as greves, os motins, os levantamentos populares. O benefício da dúvida terminara. Sidónio apenas resolvera problemas da hierarquia da Igreja, de terra-tenentes e industriais. O povo não figurava nos seus planos. Gente ligada ao Partido Democrático, agitava-se. As prisões enchiam-se de opositores ao «presidente-rei». A «lei-da-rolha» estendia-se a todos os domínios. Tudo estava tão mal como antes, só que agora nem sequer se podia protestar. E chegamos ao 16 de Outubro de 1918.

Uma revolução constitucionalista eclodiu em Coimbra na manhã de 12 de Outubro. O comandante da Divisão sediada na cidade foi preso pelos revoltosos e o alferes Sidónio Pais, o filho do presidente, perseguido pela cidade. Em Lisboa e no Porto, o movimento não encontrou eco, a revolta foi jugulada Face à rebelião que alastrava por todo o País, o governo decretou o estado de sítio. As prisões encheram-se de presos políticos, gente do Partido Republicano Português na sua generalidade.

Às 3 da tarde, não cabendo mais presos nos calabouços do Governo Civil de Lisboa, foi decido transferir parte deles para os fortes do Campo Entricheirado – São Julião da Barra, Alto do Duque e Caxias. O comboio especial que os iria transportar, sairia às 18 horas do Cais do Sodré, sendo a partida adiada para as 21 horas. Ao cair da tarde, 153 detidos foram concentrados no pátio central do Governo Civil e, rodeados por 253 guardas sairam do edifício. Pormenor bizarro - o cortejo era aberto por corneteiros e tambores.

Entre os presos, destacava-se a figura enorme de Francisco Correia Herédia, um sexagenário forte e combativo. Fora deputado e fizera, antes do Regicídio, parte do grupo da dissidência Progressista, liderado por José Maria de Alpoim. Estava filiado no PRP de Afonso Costa e voltara ao Parlamento, agora como deputado republicano. Deixara de usar o título de visconde e usava apenas o nome civil. Os guardas armados, apontando as armas aos curiosos, gritavam:

- Fechem as janelas! Afastem-se das ruas!

Quando o cortejo, vindo da Rua Serpa Pinto, atravessando o Largo da Biblioteca e chegando a cabeça da coluna à Rua Vítor Córdon soou um tiro. Estabeleceu-se o pânico e desencadeou-se um forte tiroteio com os guardas a disparar quase à toa em todas as direcções. Quando a calma e o silêncio se restabeleceram a rua estava juncada de mortos e de feridos, alguns agonizantes. No rescaldo, apuraram-se sete mortos, seis presos e um guarda, sessenta feridos, sendo trinta e um preso e vinte e nove guardas. Entre os mortos, na valeta junto à Rua Vítor Córdon, estava o visconde de Ribeira Brava, degolado pelo que parece ter sido um golpe de baioneta.

No dia seguinte, o Governo emitiu um comunicado em que se dizia que tudo começara quando Francisco Herédia disparou sobre os guardas, tentando evadir-se. A disparatada versão pormenorizava que a pistola entrara na prisão dentro de um tacho de açorda! - a pistola nunca foi encontrada. Dizia-se também que dos bordéis da Calçada do Ferragial tinham sido disparados tiros contra a polícia. Foi preso um garoto de 12 anos, acusado de cumplicidade no ataque. No entanto, a versão em que toda a gente acreditou era a mais óbvia: o massacre fora preparado pela polícia sidonista. Os insólitos tambores e cornetas abrindo o cortejo foi interpretado como uma forma de referenciar a marcha da coluna aos olhos de quem do exterior iria intervir.

No sábado, 14 de Dezembro de 1918, regressando o ditador de uma viagem ao Norte, foi abatido a tiro na Estação do Rossio por um atirador que, ao que parece, não fazia parte de qualquer grupo político. Um tal José Júlio da Costa que, apesar de todos os esforços da polícia, do avultado número de prisões efectuado, nunca se provou estar organizado fosse em que partido fosse.

A chamada República Nova morrera com Sidónio. Nunca se diga que os doze meses da ditadura sidonista foram um hiato na violência e no caos da I República. A «Leva da Morte», episódio ocorrido faz hoje 92 anos, foi apenas um dos muitos crimes cometidos pelas autoridades nesse período.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 1 de Agosto de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 92 e 93 (José Brandão)


Lápides Partidas

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrand, 1969

A acção decorre no período em que a velha estrutura monárquica ia definitivamente cair e, caldeada de idealismos e esperanças, iria ser proclamada a República. «Foi essa uma viragem substancial, que eu pretendi traduzir», diz Aquilino Ribeiro, «o conflito visto não da crista da vaga, mas no seu recesso, lame de fond, anotando as reacções de uma personagem que entrava na constituição do magma revolucionário, a massa de fusão. Libório Barradas é um produto do meio, condicionado por ele, sua emanação, digamos.

Em 1906 Aquilino Ribeiro vai para Lisboa, onde a sua congénita personalidade de inconformado se adapta na perfeição ao ambiente revolucionário da capital nas vésperas da instauração da República. Em 1907 é preso e no ano seguinte evade-se, fugindo para Paris.

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A Leva da Morte

Artur Villares

Livros Horizonte, 1988

Há precisamente 70 anos Portugal fazia a primeira experiência totalitária da República, o Sidonismo, verdadeiro balão de ensaio do futuro consulado salazarista. Símbolo primeiro desse regime, Sidónio Pais dominou a época, as consciências e as pessoas.

Penetrando no dia-a-dia desse período, Artur Villares, sob a forma de memórias redigidas em 1933, cruza a realidade histórica com a ficção e relembra Fátima e o anti-clericalismo, a Grande Guerra e o dilema dos portugueses, a República e a Monarquia, o Poder e a violência, numa palavra, a Vida e a Morte entre 5 de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918.

70 anos depois, a crónica do Sidonismo, do Poder e da Ilusão, num texto emocionante, numa plena capacidade de comunicação, no limiar da Realidade e da Ficção.

publicado por Carlos Loures às 18:00

editado por João Machado em 03/05/2011 às 00:35
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