Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Os Navios - Konstandinos Kavafis

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Hoje falamos de...A viagem da Imaginação

  

Konstandinos Kavafis

Konstandinos Petros Kavafis (1863-1933) ainda que nascido em Alexandria (Egipto) era grego dado a sua família pertencer à colónia grega existente na cidade. Haveria de adquirir, mais tarde, a nacionalidade inglesa, tendo, no entanto, lutado convictamente pela devolução dos Mármores do Parthénon à sua pátria de nascimento. A partir de 1911 a sua poesia ganhou crédito, considerando-se ele próprio poeta só desde então. Tanto Lawrence Durrell como E.M. Forster nunca se esqueceram de nomear aquele que foi considerado  O Poeta de Alexandria sempre que as suas obras com ela se relacionaram. Kavafis também se aventurou na prosa e é um desses textos que aqui apresentamos.

 

 

Konstandinos Kavafis  Os Navios

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis) 

 

Da Imaginação até ao Papel. É uma difícil passagem, é um perigoso mar. A distância parece curta à primeira vista, e embora seja assim quão longa viagem é, e quão prejudicial por vezes para os navios que a em­preendem.

 

O primeiro prejuízo provém da natureza assaz frágil das mercadorias que os navios transportam. Nos mercados da Imaginação a maior parte das coisas e as melhores são fabricadas de vidros finos e de cerâmicas transparentes, e com todo o cuidado do mundo muitas se partem no ca­minho, e muitas se partem quando as desembarcam para terra. E todo o prejuízo deste género é sem remédio, porque é impensável que o navio volte atrás para recolher coisas da mesma forma. Não há hipótese de en­contrar a mesma loja que as vendia. Os mercados da Imaginação têm lo­jas grandes e luxuosas mas não de duração longa. As suas transacções são curtas, arrematam as suas mercadorias rapidamemte e liquidam de seguida. É muito raro para um navio voltar e encontrar os mesmos

 expor­tadores com os mesmos géneros.

 

Um outro prejuízo provém da capacidade dos navios. Partem dos por­tos dos continentes prósperos sobrecarregados, e depois quando se  en­contrarem no alto mar vêem-se obrigados a deitar fora parte da carga para salvar o todo. De tal modo que quase nenhum navio consegue levar completos tantos tesouros quantos recolheu. As coisas despejadas são obviamente os géneros de menor valia, mas por vezes acontece que os marinheiros, na sua grande pressa, cometem erros e deitam ao mar ob­jectos preciosos.

 

Mal chegam ao porto branco do papel e são precisos outros sacrifícios de novo. Vêm os oficiais da alfândega e examinam um género e pensam se devem permitir o desembarque; recusam deixar que se descarregue um outro género; e de certas tralhas apenas aceitam pequena quantida­de. O lugar tem as suas leis. Nem todas as mercadorias têm a entrada li­vre e é estritamente proibido o contrabando. A importação de vinhos é impedida porque os continentes de que vêm os navios fazem vinhos e ál­coois de uvas que crescem e amadurecem a temperatura mais generosa. Os oficiais da alfândega não querem para nada estas bebidas. São dema­siado embriagadoras. Não são propícias para quaisquer cabeças. Para além disso existe uma companhia no lugar que tem o monopólio dos vi­nhos. Fabrica líquidos que têm a cor do vinho e o sabor da água, e deles se pode beber o dia inteiro sem que subam à cabeça. É uma velha compa­nhia. Goza de grande reputação, e as suas acções estão sempre sobrevalorizadas.

 

Devemos, porém, ficar satisfeitos quando os navios entram no porto mesmo que seja com todos estes sacrifícios. Porque ao fim de contas com vigia e com muito cuidado limita-se o número dos recipientes partidos e atirados ao mar durante a viagem. Também, as leis do lugar e as normas alfandegárias são tirânicas em grande medida mas não de todo proibiti­vas, e grande parte da carga

desembarca-se. Nem os oficiais da alfândega são infalíveis, e alguns dos

géneros impedidos passam dentro de caixas fraudulentas em que se escreve uma coisa por fora e por dentro se tem outra, e importam-se alguns bons vinhos para banquetes excelentes.

 

Triste, triste é outra coisa. É quando passam alguns navios enormes, com joalharias de coral e mastros de ébano, com grandes bandeiras des­fraldadas brancas e vermelhas, cheios de tesouros, que nem sequer se aproximam do porto quer por todos os géneros que levam serem proibi­dos, quer por o porto não ter bastante profundidade para os acolher. E seguem o seu caminho. Vão de vento em popa sobre as suas velas de se­da, o sol fulgura na sua figura de proa em ouro, e afastam-se tranquila e majestosamente, afastam-se para sempre de nós e do nosso porto constrito.

 

Felizmente são muito raros estes navios. Apenas vemos dois, três du­rante a nossa vida inteira. E rapidamente os esquecemos. E depois de passarem alguns anos se algum dia — quando estamos inertes olhando a luz e ouvindo o silêncio — por acaso voltarem aos nossos ouvidos men­tais algumas estrofes entusiásticas, de início não as reconhecemos e ator­mentamos a nossa memória para recordar onde as tínhamos ouvido an­tes. Dificilmente acorda a antiga memória e recordamos que estas estrofes são do cântico que salmodiavam os marinheiros, belos como heróis da Ilíada, quando passavam os grandes, os excelsos navios e avançavam indo — quem sabe para onde.

 

(in Poemas e Prosas, Relógio d'Água)

 

 

 

 

 

 

 

 

Alexandria

 

 

publicado por Augusta Clara às 14:00
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