Sábado, 16 de Abril de 2011

Sobre a democracia representativa - 4- Carlos Loures

 

(Continuação)

 

 

 

 

Nesta série de pequenos textos sobre a democracia representativa, vamos continuar com Karl Popper na sua conferência em Lisboa (em Outubro de 1987) . Ele enumera as objecções que são levantadas á democracia parlamentar e vai rebatendo as objecções. Eis a primeira:

 

«Primeira objecção: um tal sistema impede a formação de outros partidos.

Eu admito isso. Mas nós vemos mudanças consideráveis no interior dos dois maiores partidos ingleses e americanos. O impedimento ao aparecimento de novos partidos não significa, portanto, uma negação da flexibilidade.

 

O ponto é que, num sistema bipartidário, o partido vencido tem que levar muito a sério a sua derrota eleitoral; pode procurar uma reforma interna dos seus objectivos, ou seja uma reforma ideológica. Se o partido sofre duas ou mesmo três derrotas sucessivas, a busca de novas ideias pode tornar-se frenética, o que obviamente, é uma consequência. E isto pode acontecer mesmo quando a perda de votos não tiver sido excessiva, mas apenas de uma pequena percentagem.

 

Mas num sistema com muitos partidos e com coligações tal não acontece. Uma pequena perda de votos, nomeadamente, não provoca quaisquer preocupações pois, não tendo os partidos responsabilidades bem claras, é tomada como fazendo parte das regras do jogo. As perdas diminutas não são encaradas a sério nem pelos chefes partidários nem pelo eleitorado: ninguém se alarma.

 

Mas uma democracia precisa de partidos que sejam mais sensíveis e, se possível, que vivam em clima de alerta permanente. Só dessa maneira podem ser levados a fazer a sua autocrítica. De resto, a tendência para a autocrítica depois de uma derrota eleitoral é muito mais pronunciada em países com sistemas bi-partidários do que em países onde existem diversos partidos. Assim, a minha resposta à primeira objecção é que, contrariamente ao que pode parecer à primeira vista, um sistema bi-partidário tende a ser mais flexível do que um sistema multipartidário.

 

A segunda objecção é a seguinte: a representação proporcional permite o aparecimento de novos partidos, possibilidade que, sem ela, fica muito diminuída; a simples existência de um terceiro partido pode melhorar grandemente a actuação dos dois grandes partidos.

 

A minha resposta: reconheço que pode muito bem ser assim. Mas o que acontece se aparecerem cinco ou seis desses novos partidos? Outra resposta é que se corre o risco de um pequeno partido ser investido num poder desproporcionado, se puder ele próprio decidir a qual dos dois grandes partidos se juntará para formar um Governo de coligação.

 

A terceira [objecção] que gostaria de discutir é a seguinte: o sistema bipartidário é incompatível com a ideia da Sociedade Aberta – com a abertura a novas ideias e com a ideia de pluralismo.

 

A minha resposta é que tanto a Grã-Bretanha como os Estados Unidos são nações muito abertas; que uma abertura completa seria obviamente autodestrutiva, tal como o seria uma liberdade completa; que abertura cultural e abertura política são coisas diferentes; e que a atitude certa perante o Dia do Juízo político pode ter muito mais valor em política do que um debate sem fim – e certamente muito mais do que uma conferência sem fim!

 

Obrigado pela vossa atenção e agora fico à espera dos vossos severos ataques à minha argumentação. »

 

 

Estes excertos da conferência foram transcritos da obra  EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR,( Editorial Fragmentos, 3ª edição (Novembro de 1992), págs. 226 e seg.)

 

(Continua)

 

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links