Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

O Black Panther Party e o seu pintor revolucionário, Emory Douglas, na Galeria Zé dos Bois

 

Com a devida vénia ao Passapalavra.info e ao José Mário Branco, reproduzimos aqui este artigo. 

A galeria-associação Zé dos Bois, em Lisboa, inaugurou uma exposição importante sobre o movimento revolucionário negro nos EUA, com a presença do seu emblemático pintor. Artigo de José Mário Branco, publicado em Passapalavra.info.

O Black Panther Party e o seu pintor revolucionário,          Emory Douglas
"Afro"

 

Foi inaugurada em Lisboa, na sexta-feira 4 de Março, na galeria-associação Zé dos Bois, uma exposição notável – All power to the people [que se mantém até 4 de Junho]. Então e agora – que abarca, ao mesmo tempo, dois aspectos política e historicamente relacionados: por um lado, o movimento negro radical dos EUA dos anos 60 e 70, consubstanciado no Black Panther Party (Partido dos Panteras Negras) [BPP], com a mostra de inúmeros originais e alguns facsimiles de fotografias, livros, revistas, jornais, comunicados, panfletos e até documentos internos do partido; por outro lado, o papel artístico que nele teve o então seu “ministro da Cultura”, Emory Douglas, que desde então para cá sempre continuou pintando e desenhando e já foi objecto de importantes exposições pelo mundo fora. Emory tem agora 67 anos de idade.

 

A equipa da galeria, com a ajuda de um grupo de estudantes das Belas-Artes, reproduziu nas paredes dos vários andares do edifício uma série de grandes pinturas murais de Emory. Pelas muitas salas podiam ver-se, em vitrinas resguardadas ou nas paredes, os materiais históricos do BPP, alguns deles relativos a campanhas internacionalistas do partido a favor dos povos do Vietname ou nas colónias portuguesas, então em guerra contra os seus ocupantes estadunidenses e portugueses.

 

Naquele bairro (Bairro Alto) hoje, sem trânsito de automóvel, quase inteiramente consagrado à “noite” lisboeta, muitas centenas de pessoas, jovens e não só, acorreram à inauguração da exposição, na qual esteve presente, além de Emory Douglas, o único dos “3 de Angola” já libertado, Robert King, de 69 anos, que até 2001 passou 29 anos em isolamento na prisão de alta segurança daquela cidade, numa cela de 6 por 9 metros, acusado de um crime que nunca cometeu (os outros dois continuam presos, há 38 anos, nas mesmas condições; publicaremos em breve um outro artigo sobre este caso dos “Angola 3”). Ambos se faziam acompanhar por Billy X Jennings, historiador e responsável oficial do legado do BPP, e principal animador do site itsabouttimebpp.com.

 

A convite de Natxo Checa, um dos animadores daquele espaço, fui conviver ao jantar com os três representantes do BPP, e depois cantar para eles e para o público presente. Uma canção esteve na origem deste convite. Em 1972, durante o meu exílio em Paris, eu tinha participado como compositor e cantor no espectáculo Libérez Angela Davis tout de suite! [Libertem Angela Davis já!], criado por uma companhia dos arredores da cidade. Desse espectáculo, que contava a perseguição, a prisão e a acusação forjada contra essa professora de filosofia e assumida militante comunista, fazia parte uma canção ilustrativa da história de George Jackson, jovem negro preso por um incidente de bairro que, na prisão, adquiriu consciência política e se tornou escritor e uma figura emblemática do BPP, depois assassinado dentro da prisão com 28 anos de idade. O essencial do espectáculo está registado num álbum de vinil com o mesmo título.

 

Quase 40 anos depois, disse-me Robert King ao jantar: “Eu era pouco mais novo do que Jackson, mas tinha por ele uma admiração sem limites. Era um exemplo, um caso igual ao de milhares de outros jovens negros dos bairros, que foram presos, perseguidos e assassinados e que, como ele, ganharam consciência política nas prisões. Chorei muito quando o mataram. Pouco antes, tinha-lhe escrito uma carta onde lhe dizia: ‘George, tens muitos filhos cá fora’. Foi o caso dele que me fez acordar para a luta.”

 

Na véspera e no dia seguinte ao nosso encontro, os três companheiros visitaram alguns dos bairros marginalizados da região, em particular a Arrentela, a Alta de Lisboa e a Cova da Moura, convidados e acolhidos por activistas e rappers.

 

Em paralelo com a exposição All power to the people. Então e agora, e em colaboração com a Casa de Serralves, decorreu de 3 a 6 de Março, no Espaço Nimas, uma mostra de cinema documental sobre os Panteras Negras.

 

Ver vídeo com fotos da exposição e do encontro, sobre áudio da canção La chanson de Jackson (no final do artigo).


Artigo de José Mário Branco, publicado em Passapalavra.info.

publicado por João Machado às 09:00
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Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Eu vim de longe, por José Mário Branco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por João Machado às 23:55
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

"Esta noite choveu prata"

é o título de uma peça do dramaturgo brasileiro Pedro Bloch. João Villaret representou-a em 1957; mais recentemente, Nicolau Breyner interpretou este longo monólogo. Esta noite parece que não vai chover prata - mas aqui no Estrolabio temos música românntica, antropologia e os Noctívagos, insones & afins.

E agora temos uma canção pelo José Mário Branco e pelo Sérgio Godinho - "O Charlatão".

publicado por Carlos Loures às 23:55
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Terça-feira, 17 de Agosto de 2010

Viagem entre o sonho e a realidade

Carlos Loures

O poeta António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse no seu «Que Fazer?»: «Se o homem estivesse completamente privado de sonhar, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar com a sua imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, não se me afigura que motivos o obrigariam a compreender e levar a cabo vastas e penosas empresas no terreno das artes, da ciência e da vida prática» […] «O desacordo entre os sonhos e a realidade não produz qualquer dano, desde que a pessoa que sonha creia seriamente no seu sonho, se fixe atentamente na vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, em geral, trabalhe escrupulosamente na concretização das suas fantasias. Quando existe algum contacto entre os sonhos e a vida, tudo vai bem» No mesmo texto dizia ainda: «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar, outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo a tal relação entre a utopia e o mundo real de que fala Lenine. Subitamente, em Abril…

Foi numa tarde do Verão Quente de 1975. A uma janela de uma avenida de Lisboa, via passar uma manifestação onde se gritavam palavras de ordem. Ao meu lado estava um democrata que estivera preso e fora perseguido pela polícia política. Antifascista, ex-membro do Partido Comunista, naquela altura mais ligado ao Partido Socialista, mas homem, por aqueles anos setenta, com grande fortuna pessoal e com uma posição importante. Abanou a cabeça e comentou: «- Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! Não foi por isto que eu lutei e fui perseguido». «Isto», eram os gritos de «abaixo a exploração capitalista», e os graffiti que os manifestantes iam deixando pelas paredes da avenida, como um rasto ou como um eco da sua ruidosa passagem – e também as greves, os saneamentos, o Copcon… Não respondi, pois não havia resposta possível, tanto mais que eu, que também tive os meus dissabores durante a ditadura, sempre pensei que um dia as pessoas se poderiam manifestar livremente. Tinha sido mesmo por «aquilo» que eu tinha lutado. Por aqui se vê, como o termo antifascista é vago, impreciso e ilusório. Mas cada um podia, e pode, sonhar o que lhe aprouver.

Luigi Pirandello, o dramaturgo italiano escreveu uma peça a que deu o título Para Cada Um Sua Verdade. De facto, quando antes da Revolução, falávamos da «unidade dos antifascistas», verbalizávamos uma utopia dando corpo a uma ideia que só podia ter viabilidade no curto-prazo – a unidade de que se falava era a da acção contra a ditadura. Mal a ditadura caiu, a ilusão da unidade caiu com ela – os interesses individuais, de classe, as opções políticas, fizeram ruir essa ficção. Para cada um havia uma verdade. A sua verdade.

Aquela explosão popular que encheu as ruas e que significou o fim da guerra colonial, a concessão da independência às colónias, a criação de dezenas de novos partidos, o nascimento de assembleias populares nas empresas, nos bairros, nas escolas, apanhou todos de surpresa. Aquela onda de paixão democrática que, como um tsunami varreu o País de Norte a Sul, surpreendeu todos, apanhando desprevenidos, não só os patrões, como também os democratas e antifascistas que tinham conspirado e lutado contra o regime ditatorial (o sujeito que ao meu lado abanava a cabeça em tom de censura, era um deles); surpreendeu até mesmo os partidos e movimentos que, criados na clandestinidade, tinham como razão da sua existência a crença na força dos trabalhadores e a esperança no advento da democracia. A ilusão da democracia, ganhando as ruas e os corações, excedeu o que a nossa capacidade de sonhar, pudera imaginar. Pensávamos que nada seria como até então. Que tudo ia mudar. Porém, lá veio o 25 de Novembro «repor a normalidade» e, como diz o José Mário Branco em «Eu vim de longe», - Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou…

Passados estes anos, estas décadas, não se imagina sequer o que eram aquelas manifestações espontâneas. O desfile mumificado que comemora o feriado de 25 de Abril, nada tem a ver com as «manifes» de 74 e 75. As «jornadas de luta» organizadas pelas centrais sindicais, obedecendo a interesses corporativos (respeitáveis, em todo o caso) não dão sequer uma pálida ideia do que aconteceu naqueles 21 meses de brasa. As pessoas já não vêm para a rua gritar a sua revolta, a sua esperança e o seu amor à Liberdade. Estão nas suas casas, em frente da televisão e ver telenovelas, concursos tontos, jogos de futebol, ou a assistir ao degradante espectáculo da «democracia real» - políticos fingindo odiar-se, denunciando-se mutuamente de felonias, corrupções… (e com razão na maior parte das vezes) A democracia com que, seguindo o conselho de Lenine, alguns de nós sonhavam, a da solidariedade, a da fraternidade, não tem a mais vaga semelhança com esta «democracia real».

O meu companheiro da varanda no Verão quente já morreu, mas ainda viveu o suficiente para ver cumprido o seu sonho – os administradores a administrar, os corruptos a enriquecer, os trabalhadores a trabalhar, os marginais a aterrorizar, os políticos a politicar… tudo arrumadinho, tal como ele sonhara. Mas agora sou eu quem diz: - e então o meu sonho? - Não foi para isto que se fez a Revolução, não foi por isto que lutei.

Vivemos na ilusão da democracia. A verdadeira (voltemos ao Zé Mário) é um sonho lindo para viver, quando toda a gente assim quiser.

publicado por Carlos Loures às 12:00
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