Domingo, 19 de Junho de 2011

A corda do senhor Amável - por Carla Romualdo

 

 

 

 

As salas de espera oferecem-nos uma invariável colecção de revistas anódinas, a que só o tédio ou o nervosismo, ou a penosa combinação de ambos, nos faz recorrer, revistas que compilam dados inúteis sobre gente que não conhecemos, fotos de sorrisos branqueados com as mais recentes e dispendiosas técnicas de branqueamento,  mamas aumentadas com silicone, lábios insuflados, rostos inexpressivos. São publicações concebidas para adormecer qualquer inquietação, e, na sucessão tranquila das suas páginas, vamos passando, sem sobressalto, por fotos de gente que posa para a câmara enquanto  profere frases plenas de uma inofensiva banalidade, coisas como “Os filhos mudam a nossa vida”, ou “A Vanessa é a mulher dos meus sonhos”, ou “Este é o maior desafio da minha carreira”.  


E entre vestidos glamorosos, sorrisos resplandecentes e histórias de amores e famas meteóricas, pontuadas por algum episódio mais negro de um divórcio ou de uma avó falecida aos 90 anos, enfiada num lar há mais de dez anos mas de quem o artista muito gostava, folheia-se a revista e, mesmo sem conhecer um terço dos que lá estão, cai-se naquele entorpecimento que nos faz esquecer o que nos trouxe à sala de espera.


Mas talvez isto, que até há pouco era suficiente, já não chegue e seja agora necessário um pouco mais de dramatismo, umas pinceladas largas de tragédia, histórias mais folhetinescas, que belisquem o leitor e o façam sentir a alfinetada dos dramas alheios, o alívio por não ser a vítima. Só neste contexto se poderia entender a história que encontrei numa dessas revistas, numa dessas descaracterizadas e cinzentas salas de espera.


O pai de um famoso totalmente desconhecido (categoria que, como sabem, sendo inteiramente paradoxal, com frequência se encontra nestas revistas) havia-se suicidado. E a publicação, acometida de brio jornalístico, resolvera investigar esse suicídio, falando com gente mais ou menos próxima ao falecido, com vizinhos, vagos conhecidos, comerciantes do bairro onde morava. E é assim que numa das páginas surge uma foto que eu por pouco não vi, folheando a revista a toda a pressa, mas que me fez voltar atrás e deter-me nela, é assim que aparece frente a mim o senhor Amável, dono da drogaria ao pé da casa do suicida, a mesma drogaria onde o pai do famoso desconhecido comprou a corda que viria a usar para se enforcar, ali estava ele, o senhor Amável, posando, visivelmente pouco à vontade, não deve estar acostumado a que o fotografem, e muito menos para as revistas, com um pedaço de corda nas mãos, mostrando aos leitores da revista esse pedaço de corda, ainda presa ao enorme rolo de onde saiu um outro pedaço de corda, o que nunca chegámos a ver, mas que sabemos que apertou o pescoço de um homem até o matar.


Sim, terá dito o senhor Amável, foi uma corda como esta, deste mesmo rolo que aqui está, que ele comprou, e nunca me passou pela cabeça que fosse para aquilo, claro, que a gente nunca sabe o que vai na cabeça das pessoas, e a nossa função é vender e não fazer perguntas. Mas foi com esta que ele se matou, é o que dizem, não sei porque eu não o vi, claro, não estive lá. Mas é possível, porque é uma boa corda, é resistente, e embora não seja muito grossa era bem capaz de dar conta do recado e aguentar o peso de um homem. Coitado do homem, nunca me passou pela cabeça que fosse para aquilo. Mas é mesmo assim, a gente vende o que nos pedem e não pergunta para que será. 


Tudo isto terá dito o senhor Amável até o fotógrafo o mandar calar, e por isso apenas nos chegou a foto que retrata a sua incomodidade. E quando lhe disseram que se colocasse frente ao rolo, e que mostrasse aos leitores como era essa corda, tornando-se assim um nobre servidor do jornalismo, da imperiosidade de informar o público sedento de detalhes, o senhor Amável lá se colocou ao lado do rolo,  fazendo um esforço para endireitar as costas que a idade e os anos ao balcão encurvaram, e agarrou um pedaço de corda entre os dedos, a horrível corda, mas também a resistente e prestimosa corda, que cumpre aquilo que o homem lhe pede, a mesma corda que um homem colocou à volta do seu pescoço, a mesma que o suspendeu no ar, e lhe garroteou o pescoço, essa horrível, sim, mas também resistente e prestimosa  corda do senhor Amável.

publicado por CRomualdo às 21:00

editado por João Machado às 03:03
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Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Os Dez Mais - Twilight Zone

Fernando Moreira de Sá


Caros companheiros do Estrolabio, dou início às hostilidades nesta casa com um texto de ficção. Pode parecer verdadeiro mas é pura fantasia. Juro pela saúde do meu periquito.


O recente fecho do 24Horas não teve direito a muitas velas pela sua memória na blogosfera e na imprensa em geral. Para muitos não passou de uma simples nota de rodapé. Pode parecer estranho...

O 24Horas, a exemplo do Tal & Qual, praticava um jornalismo nada ao gosto dos nossos jornalistas mas com clientes certinhos no público em geral. Um misto de tablóide inglês com umas pitadas aqui e ali de algum mau gosto e sem papas na língua. Sempre me fez lembrar a história da revista Maria: nunca lhe conheci um comprador mas vende que se farta. Quando a direcção do diário da Controlinveste decidiu acabar com os classificados, estranhei. Aliás, em conversa informal com um comercial disse-lhe temer o pior, em termos financeiros, no futuro. Era uma fonte de receita perfeitamente cimentada. Pela mesma altura mudaram-lhe o formato e o aspecto gráfico. Para os leitores habituais foi um choque. No caso dos restantes foi um sopro de esperança. Aconteceu o pior: a clientela antiga fugiu a sete pés para o Correio da Manhã e a nova clientela potencial, obviamente, preferiu não passar da fase de experimentação.


O diário da Cofina agradeceu, aliás, nos últimos anos farta-se de agradecer ao somatório de tiros nos pés dos responsáveis da Controlinveste que, com denodo, tudo continuam a fazer para melhorar as audiências do…Correio da Manhã. Pode parecer estranho…


O insólito de tudo isto é a decisão, sem apelo nem agravo, de fechar o 24Horas sem, ao que julgo saber, uma simples e singela auscultação ao mercado para saber se, por mero acaso, não haveria nenhum interessado na aquisição do título. Pode parecer estranho…


…Excepto se, por outro mero acaso, a Controlinveste não tiver mudado de mãos ou não tiver sido prometida a terceiros que, a bem do negócio, pediram uma rápida cura de emagrecimento – ninguém gosta de comprar um grupo empresarial e ter de iniciar processos de despedimentos, sobretudo nesta área de negócio. Esse trabalho deve ser feito pelos anteriores mesmo que com dinheiro dos posteriores proprietários. Pode parecer estranho mas são estas as regras do jogo.
publicado por Carlos Loures às 02:00
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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

O ‘MEU’ JANEIRO - cento e quarenta e duas velas se apagam hoje


José Magalhães
No dia 1 de Dezembro de 1868, nasceu o jornal «O Primeiro de Janeiro». Deve o seu nome às manifestações da «Janeirinha». Durante os primeiros anos da sua vida, o diário foi crescendo em tiragem e em importância, até se tornar no melhor jornal de Portugal.
Era já, ao fim de pouco tempo de existência, uma referência Nacional, e assim o foi durante dezenas de anos.
Era o jornal onde melhor se escrevia em Portugal. Por lá passaram os mais ilustres intelectuais do nosso País.
Atravessou incólume períodos conturbados da vida Nacional, como a implantação da República as primeira e segunda guerras mundiais ou a transição para o actual regime, acabando por se debater com a mais grave crise da sua história, na década de 1980, quando o seu enorme património foi desbaratado.
Hoje, o jornal continua, já sem o seu emblemático edifício na Rua de Santa Catarina, e sem os grandes nomes que o ajudaram a consolidar-se a nível Nacional, mas com a mesma vontade de se afirmar e de fazer jus a um passado de glória.

«O Primeiro de Janeiro» é, sempre o foi, o «meu» jornal. Por influência de um primo por quem tinha uma amizade e admiração enormes, Emílio Loubet, grande jornalista que também coloborou no Norte Desportivo, meu pai sempre o teve em sua casa e o leu religiosamente.
Uma das muitas imagens que guardo de meu pai, é a de o ver sentado no piso de baixo do autocarro de dois andares da carreira A, à hora de almoço e a caminho de casa, lendo o Janeiro, dobrando-o cuidadosamente de modo a não incomodar ninguém (nem sempre arranjávamos lugar no mesmo banco). Com meu pai aprendi nessa altura, como dobrar o jornal para bem o ler com os solavancos dos transportes, já que era bem maior do que hoje é, talvez do dobro do tamanho.

O meu primeiro contacto com o jornal, aconteceu ainda nem ler sabia. Não teria mais de três ou quatro anos, e aos domingos de manhã, aconchegado na cama de meus pais via avidamente a banda desenhada de «O Príncipe Valente», de «O sr. Calisto» e do «Zé do Boné». E foi assim depois durante muitos anos. Era a altura da semana que melhor me sabia e em que mais eu sentia a felicidade da vida que levava. O aconchego dos meus pais e o poder partilhar a leitura do jornal. Nessas alturas, sentia-me já um homem. Quase se poderia dizer que foi com aquelas páginas que comecei a ler e que tomei o gosto pela leitura..

Ao longo da minha vida, o Janeiro foi presença diária e leitura obrigatória. Mais tarde, já homem, e numa fase anterior a esta que agora vivemos, fui leitor fervoroso dos cadernos «Das Artes Das Letras» e «Se7e», entregava aos meus filhos mais novos «O Janeirinho» de modo a que se habituassem como eu me tinha habituado, a ler o jornal, e enviava semanalmente o «Caderno das Regiões Concelho do Porto» que saía às sextas-feiras, para a minha filha mais velha que habitava na Madeira, para que não perdesse o contacto com o jornal e com a região. E que saudades que a falta desses cadernos me fazem.
Hoje, sinto-me honrado em poder ver algumas palavras minhas publicadas neste «meu» jornal.

Actualmente luta-se, lutamos todos os que de uma forma ou de outra colaboramos com o nosso Janeiro, pela continuação da sua existência e por continuarmos a vê-lo nas bancas em lugar de destaque. Os dias que atravessamos são madrastos e sem complacência, pejados de dificuldades, sendo que as económicas estão cada vez mais com importância acrescida e numa primeira linha de influência. A competição é enorme e só os números das tiragens e das vendas de publicidade interessam.
Mas o «O Primeiro de Janeiro» apesar das múltiplas adversidades vai continuar, estou convencido disso, cada vez mais forte, a caminho de se tornar de novo, num dia que se deseja muito próximo, numa referência no panorama jornalistico e literário Português.

Ainda vamos voltar a ouvir pelas ruas do Porto o pregão: «Olhó Janeeeiiirooo».
Parabéns, Janeiro, pelos teus cento e quarenta e dois anos, e obrigado por me deixares fazer parte dos que lutam pelo teu bom nome, prestígio e projecção.


publicado por Carlos Loures às 16:30
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Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

Proust e o jornal, ou Pascal e o anúncio de sabonetes


João Machado


Alain de Botton é autor de vários livros de sucesso, entre os quais How Proust can change your life[1]  e The Consolations of Philosophy[2]. O primeiro está classificado como um best-seller internacional, o segundo, que também alcançou grande êxito de vendas, inspirou uma série de televisão, Philosophy, que julgo que nunca correu em Portugal (se souberem do contrário, digam-me por favor. Acho que em Inglaterra correu no Channel 4). Alain de Botton nasceu na Suíça, mas vive em Inglaterra. Estudou filosofia, que é o seu interesse principal na vida. É um dos responsáveis pela School for Life, empresa cultural que funciona em Londres, e que tem como objectivo ajudar as pessoas a encontrarem o seu caminho na vida através da cultura. Aliás, a sua obra inscreve-se no que se chama a filosofia do dia a dia. As opiniões sobre ele dividem-se, uns gabam-no por conseguir pôr ao alcance do público em geral matérias a que só as elites têm tido acesso, outros censuram-no por não fazer mais do divulgar de uma maneira pomposa aquilo que toda a gente já sabe. Vocês digam-me o que acham do seguinte:

No primeiro daqueles livros Alain de Botton analisa a obra e a vida de Proust, procurando evidenciar o que nos diz sobre a vida, e em especial sobre alguns dos seus aspectos mais relevantes, como encarar o êxito, ser feliz no amor, exprimir as emoções, ser um bom amigo, e outros. E procura fazer o confronto com o que se passa na sociedade em geral, fazendo comentários, muitos deles bastante adequados.

No capítulo três, Como levar o tempo necessário, é abordado um aspecto muito curioso, dos tais que à primeira vista parece que as suas implicações estão bem interiorizadas pela generalidade das pessoas, mas que vendo melhor apercebemo-nos que não é bem assim. É o da rapidez maior ou menor que pomos na observação e descrição dos acontecimentos. Alain de Botton pega na muito famosa extensão que Proust punha na descrição de um assunto, e que chegou a fazer com que um editor dissesse  que não percebia porque seriam necessárias trinta páginas para alguém descrever as voltas que dava na cama antes de adormecer, e confronta-a com a brevidade com os jornais tratam assuntos muito graves do dia a dia, comprimindo histórias que poderiam encher muitos volumes em colunas estreitas, em competição umas com as outras.

Alain de Botton apresenta o testemunho de um amigo de Proust, de que este lia os jornais de uma ponta a outra, incluindo as breves, anúncios, tudo. A seguir transformava as notícias, com a sua imaginação, em romances trágicos ou cómicos. Um dia deparou-se-lhe uma notícia breve sobre o assassinato de uma mãe pelo filho, que se suicidou de seguida. E reconheceu no assassino um seu conhecido. Proust escreveu sobre o caso um artigo de cinco páginas, inserindo-o num contexto mais vasto, e tratando-o como uma manifestação de um aspecto trágico da natureza humana, que tem estado na origem de muitas obras de arte desde o tempo dos gregos. Comparou o amigo ao Ajax da mitologia, fez referências ao rei Lear, e no fundo fazia aproximações a outras situações em que, embora de outro modo, causamos sofrimento aos idosos que nos são próximos.

Alain de Botton com o reparo de que a transmissão da experiência humana é muito susceptível à abreviação, é fácil destituí-la dos sinais mais óbvios que nos levam a atribuir importância a algo. Para ilustrar este ponto apresenta-nos três notícias breves:

  • Fim trágico para dois namorados de Verona: depois de, por engano, julgar a sua amada morta, um jovem pôs fim à própria vida. Tendo descoberto o destino do apaixonado, a mulher suicidou-se.

  • Na Rússia, uma jovem mãe atirou-se para debaixo de um comboio e morreu devido a problemas domésticos.

  • Uma jovem mãe tomou arsénico e morreu numa cidade francesa de província devido a problemas domésticos.

Aqui, Botton diz que o talento artístico de Shakespeare, Tolstoi e Flaubert tende a sugerir que os personagens Romeu e Julieta, Anna Karenina e Emma Bovary teriam algo de relevante que faria com que qualquer pessoa percebesse que eram dignos da grande literatura, ou de um teatro famoso, embora nada em princípio distinga estas notícias sobre eles de outras, estas reais, que ele apresentou na sua análise, para confronto. E a seguir cita Proust, quando este afirma que o valor das obras de arte não tem nada a ver com a aparente qualidade do seu tema, mas com o tratamento posterior que lhe é dado, e que tudo é potencialmente um tema fecundo para a arte, podendo-se fazer descobertas tão valiosas num anúncio de sabonete como nas Pensées de Pascal.


[1]  A tradução portuguesa foi publicada pela D. Quixote em 2009, com o título Como Proust pode mudar a sua vida.
[2] Tradução portuguesa de 2001 publicada pela D. Quixote, com o título O Consolo da Filosofia.
publicado por João Machado às 16:45
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Domingo, 1 de Agosto de 2010

Eduardo Galeano e a defesa da palavra

Carlos Loures



Eduardo Galeano nasceu em Montevideu, em 1940), é um escritor e jornalista uruguaio. Autor de mais de 40 obras traduzidas em diversos idiomas, a mais conhecida das quais é «Las venas abiertas de América Latina», 1971 («As Veias abertas da América Latina», com prefácio de Isabel Allende, edição de Paz e Terra, São Paulo, 2007).Preso em 1973, quando do golpe militar, exilou-se depois na Argentina, de onde, em 1976, com a criminosa ditadura de Videla, teve também de fugir, pois estava nas listas dos esquadrões da morte. Refugiou-se em Espanha, regressando ao Uruguai quando, em 1985, a democracia voltou. No seu livro «Crónicas 1963-1988», publicou o texto «Defensa de la palabra», no qual inspiro a presente crónica – aconselhando vivamente a leitura das obras deste lúcido escritor latino-americano). Este texto mereceria uma análise mais aprofundada, porque referindo-se à América Latina, tem um alcance universal, abordando problemas que afectam e afligem todos os que usam a palavra como arma e como ferramenta de trabalho.

Porque escrevemos? Porque usamos a palavra como utensílio de eleição? Eduardo Galeano responde: - «Escrevemos a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar o que dói e partilhar o que dá alegria. Escrevemos contra a própria solidão e contra a solidão dos outros. Supõe-se que a literatura transmite conhecimento e actua sobre a linguagem e o comportamento de quem a recebe; que nos ajuda a conhecermo-nos melhor para nos salvarmos juntos. Mas «os outros» é um termo demasiado vago; e em tempos de crise, tempos de definição, a ambiguidade pode assemelhar-se demasiado com a mentira. Na realidade, escrevemos para pessoas com cuja sorte, ou má sorte, nos sentimos identificados, os mal alimentados, os sem abrigo, os rebeldes e os humilhados desta terra, e a maioria deles não sabe ler. Entre a minoria que sabe, quantos dispõem de dinheiro para comprar livros? Galeano responde: - Resolve-se esta contradição proclamando que escrevemos para essa cómoda abstracção chamada “massas”?»

Lançado o tema eterno do abismo que se abre entre o escritor e os destinatários da sua escrita, Galeano aborda a questão da miséria na América Latina, seu tema de eleição, concluindo que os países pobres pagam para que seis por cento da população mundial possa impunemente consumir metade da riqueza que o mundo inteiro gera. Assinala o desenvolvimento de uma indústria restritiva e dependente, assente sobre velhas estruturas agrárias, agudizando as contradições sociais em vez de as atenuar. Referindo-se sempre á sua América Latina (embora, com já disse, os pressupostos que apresenta assumam uma validade universal), pergunta: «por que não reconhecer um certo mérito de sinceridade nas ditaduras que oprimem, hoje em dia, a maioria dos nossos países? A liberdade das empresas implica, em tempo de crise, a prisão das pessoas.» Refere também a desertificação que a miséria provoca no tecido cultural dos países latino-americanos, com a fuga dos cientistas em particular e dos intelectuais em geral, abandonando laboratórios e universidades sem recursos.

Eduardo Galeano passa em revista toda a contradição que resulta do contraste entre a liberdade de expressão dos escritores, que podem dizer o que queiram, e o cárcere de limitações das necessidades mais básicas em que vivem aqueles a quem as suas palavras se destinam. Defende algo que os defensores da pureza da arte, sempre condenaram – a escrita como instrumento. Para esses, o objecto da arte é a própria arte. Mas Galeano termina o seu extenso discurso em defesa da palavra, afirmando que «Lentamente vai ganhando força e forma, na América Latina, uma literatura que não ajuda os outros a dormir e que, pelo contrário, lhes rouba o sono; que não se propõe enterrar os nossos mortos, mas perpetuá-los; que se nega a varrer as cinzas e procura, em contrapartida, acender o fogo. Essa literatura continua e enriquece uma formidável tradição de palavras lutadoras.» Curiosamente, este discurso em louvor da palavra, vem reacender uma controvérsia que, sobretudo nos anos sessenta, fez correr muita tinta – a dicotomia entre a forma e o conteúdo.

Um texto lúcido e escrito numa linguagem límpida e que merece ser lido e estudado com atenção, demonstrando que a palavra não pode estar dissociada da vida.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 11 de Julho de 2010

Apresentando Marcos Cruz

Temos o prazer de vos vir apresentar um novo colaborador – Marcos Cruz. Com ele, somos agora 24, ou seja o Estrolabio, enquanto não entrar mais ninguém, passa a ser a “Casa dos Vinte e Quatro”. Vamos lá apresentar este nosso amigo:


Marcos Gomes Coelho Pinho da Cruz, nasceu em 7 de Outubro de 1972, no Porto. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo da Universidade do Porto. O seu trabalho final versou sobre o tema“A secção de Cultura na perspectiva dos editores – Jornais portugueses de informação geral”, aprovada com 15 valores É jornalista profissional. Até Abril de 2009, exerceu funções de crítico de Música e Cinema na redacção do Porto do Diário de Notícias, colaborando também no suplemento DN Gente. Os seus serviços foram dispensados, num processo de despedimento colectivo que envolveu mais de 120 profissionais,

Participou em júris de festivais de cinema (Fantasporto, Cinanima, Curtas Vila do Conde, Luso-Brasileiro da Feira e Ovar Vídeo) e em júris de selecção de projectos musicais (Serralves em Festa), de argumentos para filme (Novos Talentos FNAC).

Fundador e colaborador de diversas revistas culturais - Op, Camaleão, Hei, Plastic. Tem participado em debates, conferências e outros eventos de natureza cultural e artística.
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Sábado, 10 de Julho de 2010

Memórias de Adriano*

Carlos Loures

O título, embora igual não se inspira no do célebre romance de Marguerite Yourcenar. O Adriano a que aqui me refiro não é o imperador romano, mas sim o Adriano de Carvalho, um jornalista, um grande jornalista e um grande amigo. Ao longo da nossa amizade que, com altos e baixos, se manteve durante quase quatro décadas, muitas são as histórias que poderia contar sobre ele. Hoje vou contar o episódio da sua primeira morte.

Adriano de Carvalho foi, sobretudo nos anos 60, um brilhante jornalista português. O abuso continuado do álcool, o feitio difícil e, talvez, uma incómoda coerência, impediram-no de ter a carreira que merecia ter tido. Quando a maioria dos jornalistas se exprime num português que deve mais às telenovelas do que leitura de clássicos, o Adriano merecia e deveria ter ocupado um lugar entre os melhores da sua profissão. O que não aconteceu

Em Janeiro de 2000, um telefonema do David de Carvalho, um dos filhos do Adriano de Carvalho, informou-me do falecimento do pai. Foi uma notícia triste, mas não uma surpresa. Todos, incluindo o Adriano, sabíamos que a doença era terminal. Visitara-o dias antes - o humor cáustico, a inteligência aguda, estavam intactos. Foram duas agradáveis horas, a recordar episódios e combates, como que a fazer o balanço a uma amizade de quase quarenta anos. Diz o David de Carvalho, a propósito deste encontro e comentando um texto meu sobre seu pai:

«Aqui há uns anos, trabalhava perto do escritório do Carlos. Proporcionou-se estarmos juntos duas ou três vezes, creio, e almoçarmos no velho Hotel Rex.» (…) «Pouco tempo depois o Adriano era internado numa clinica em Lisboa e informei o Carlos por telefone. Fomos juntos visitá-lo. A Maria da Paz tinha-se cruzado poucos dias antes com o João César Monteiro, sentado num banco do Jardim do Príncipe Real, frente à clínica, com a cabeça entre as mãos chorando antecipadamente a morte do amigo. Esperava um encontro de contornos compreensivelmente dramáticos e foi nessa expectativa que entrámos no quarto do Adriano, numa qualquer manhã de Dezembro. O Loures coxeava e arrastava com ele uma bengala que o ajudava a recuperar de um acidente. O Adriano comentou que aquilo lhe dava um ar aristocrático. O Carlos tinha sobrevivido a um grave acidente, donde escapara com vida quase por milagre.» (…) «O Carlos relatou de forma resumida como escapara, ainda que o carro tivesse ficado completamente destruído. “E os carros estão caríssimos” retorquiu o outro. O Loures impassível, concordava com um aceno de cabeça e a expressão de quem reflectia sobre o preço dos automóveis.» (…) «a cumplicidade entre eles, naquelas circunstâncias» (…)«sentia-se no ar e enchia o pequeno quarto onde estávamos, não deixando espaço para mais nada. Senti como se estivesse numa reunião de direcção de um clube ao qual não pertencia. O tom da conversa manteve-se sem alterações até ao final do encontro e as despedidas foram efectuadas na forma e no tom de um “até amanhã”. Todos sabíamos, talvez mais eles do que eu, que seria a ultima vez que se encontrariam».

A memória do David ajudou a minha – não me lembrava de termos comentado o meu acidente – como ele diz, velhos amigos são como um clube. Estivemos muitos anos de relações cortadas, porque, quando percebeu que eu nunca iria para o partido dele (o MRPP), atacava-me por tudo e por nada nas reuniões. Passados anos, numa manifestação no Camões, veio cumprimentar-me de forma cerimoniosa, com receio de que eu quisesse persistir na zanga. Abraçámo-nos e, embora não nos víssemos muito – ele às vezes ia pela Parede ou almoçava comigo perto do escritório – não deixámos mais de nos dar. Voltando à tal reunião na clínica, quando nos despedimos, quando o abracei e lhe disse «até à próxima», ambos sabíamos, de facto, que, muito provavelmente, não haveria próxima. Uma das histórias que recordámos durante a nossa última conversa foi justamente a da sua primeira «morte». A tal que hoje vou narrar.

Estávamos no Verão de 1965, preso em Caxias desde o princípio do ano, eu fora recentemente liberto. Morava em Tomar e recebi uma carta de um conhecido comum que me dizia, mais ou menos o seguinte: «Como deves já saber, o nosso amigo Adriano de Carvalho faleceu ontem, atropelado por uma motocicleta na Av. da Índia. Estive hoje em contacto com a família, a qual me pede que envies os livros e papéis que o Adriano deixou em tua casa durante a sua última visita.» Angustiado, fui logo rever com atenção os jornais do dia seguinte ao do anunciado «acidente».

Nem uma palavra. O Século, onde o Adriano publicava admiráveis artigos e reportagens, noticiava em grandes parangonas a morte do Porfírio Rubirosa, um playboy internacional, mas sobre o Adriano não vinha qualquer notícia, nem mesmo nas páginas interiores. Com amigos de Tomar, comentámos: «Morre um chulo e tem direito a notícia de primeira página, morre um dos melhores colaboradores do jornal e não dizem nada.» Mas aquele silêncio todo, numa época em que o Adriano era uma pessoa bastante conhecida, começou parecia-nos estranho. Nessa noite, liguei para a France-Press, onde ele também colaborava, e, sem dizer o nome, pedi para o chamarem, já preparado para que a telefonista me dissesse que ele tinha falecido. Mas não, segundos depois, a inconfundível voz do Adriano estava do outro lado da linha. Insultei-o, chamando-lhe tudo o que de ofensivo me ocorreu; do outro lado do fio, ouvia as suas casquinadas.

Desliguei, pois estava mesmo zangado. Passados dias, recebi a carta que transcrevo e reproduzo em fac-símile a primeira e a última página por serem graficamente, interessantes:

Hanói, 8 de Julho de 1965


Compañero Carlos «Che» Loures


Na minha qualidade de chefe da delegação vietnamita ao funeral do seu chorado amigo, recebi o doloroso encargo de lhe relatar, embora sucintamente, as significativas manifestações de pesar e ardor afro-asiático que rodearam a descida à terra do nosso insubstituível companheiro.


Efectuou-se o funeral para a praia de Santo Amaro de Oeiras, a fim de lhe garantir a conveniente afluência de público. Num armão do exército albanês seguia o féretro, com a forma de um garrafão, sendo a viatura puxada por sete mulas. Seguiam-se deputações, respectivamente, da Tanzânia, República Árabe Unida, Congo-Brazzaville, R.D. Vietname, Albânia, China e Luxemburgo (Devo confessar que a presença desta última pareceu estranha a alguns companheiros que partilham o pessimismo dos reformistas modernos quanto às virtualidades das classes trabalhadoras da Europa ocidental), assim como representantes da Junta Nacional dos Vinhos, da Adega Cooperativa do Cartaxo, dos mineiros da Bolívia e dos guerrilheiros malaios.


No momento em que o cortejo fúnebre chegava à praia, um destacamento de constitucionalistas da República Dominicana disparou uma salva de vinte e quatro cocktails Molotov, enquanto uma companhia do Vietcong, em traje de combate (alpergatas, calções e camisinha leve), procedia a uma demonstração de afundamento de barcaças de desembarque americanas. A 7ª Esquadra, que pairava ao largo, tivera o cuidado de se ocultar por detrás da Torre do Bugio e não interveio, fingindo não dar por mais este rude golpe no prestígio dos imperialistas. Só alguns «F-104» se atreveram a efectuar um voo de reconhecimento armado sobre a praia antes de entrarem em acção as baterias de DCA apreendidas aos renegados de Saigão no domingo passado. Foi um funeral muito bonito.


O corpo do nosso amigo, envolto na bandeira da Mongólia Exterior, foi lançado ao mar cerca das 17 horas, no meio de grande algazarra dos delegados da Tanzânia, cujos hábitos nem sempre se caracterizam, como se sabe, pela moderação. A delegação dos estudantes de Bogotá aproveitou a ocasião para se manifestar pela demissão do respectivo reitor, no que foram entusiasticamente secundados pelos amigos kurdos e pelos trotskistas de Ceilão.


Quando os presentes se retiravam, apostrofando o presidente Johnson e exigindo com grande gritaria a libertação de Ben Bella, explodiu uma carga de plástico de 210 quilos que atirou pelos ares a barraca do banheiro e elevada percentagem dos banhistas, entre os quais muitos fuzileiros navais americanos em gozo de férias. Destes últimos, desapareceram 327 e morreram 2, tendo sido ainda encontradas as orelhas de um terceiro e um calcanhar de um coronel da aviação de nacionalidade desconhecida.


Único incidente digno de nota: quando o corpo foi lançado à água, alguns gendarmes catangueses espalharam pela praia panfletos nos quais se afirmava que o morto fora visto na véspera à noite no «English Bar», no Cais do Sodré, a ditar a um amigo a participação do seu próprio falecimento. Simples calúnia, claro, como bem o entenderam os estudantes de Veterinária da Universidade de Caracas, que responderam à provocação raptando minutos depois alguns funcionários da Embaixada Americana, entre os quais o adido militar adjunto. Foi, pois, uma grande jornada de solidariedade afro-asiática.

Cordiais saudações de
N’Guyen Tran Pinga
Licenciado em Agronomia pela Universidade de Hanói
Agente Secreto 00-Vat 69 (Com ordem para beber).

Esta carta, que li perante os amigos, no Café Paraíso, no dia em que a recebi, pôs-nos a todos a rir às gargalhadas e terminou com a zanga. A zanga seguinte, como já vos contei, foi em 1973, numa das reuniões clandestinas que os oposicionistas de esquerda, inconformados com a política meramente eleitoralista que prevalecia no MDP/CDE, realizavam paralelamente. Durou alguns anos, mas a amizade acabou por prevalecer. A morte de Adriano de Carvalho, a segunda e infelizmente verdadeira, deixou naqueles que o estimavam e admiravam um profundo sentimento de perda.

E deu-me para partilhar convosco a história da sua primeira morte, aquela em que ressuscitou ao telefone, com casquinadas que iam acompanhando os adjectivos com que o ia qualificando. Ainda conservo a memória dessas gargalhadas. Tenciono contar-vos outros episódios.

 A minhas memórias de Adriano são muitas.

________________


*À Maria da Paz, à Sara, ao Adriano e ao David de Carvalho. O vosso pai merece ser recordado.






publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 20 de Junho de 2010

Reinaldo Ferreira, o Repórter X

Carlos Loures



Em Agosto de 1914, na redacção de «A Capital», foi admitido um rapazinho com 17 anos. Garibaldi Falcão, jornalista veterano, fora encarregado de o guiar no começo da profissão, mas estava preocupado com o que chegava sobre a Grande Guerra que deflagrara dias antes, em 28 de Julho. Vendo o jovem inactivo, perguntou-lhe: «Ouça lá, o menino já fez fogos?» Pensando que o estavam a tomar por um pirómano, Reinaldo Ferreira, indignado, respondeu: «Não senhor!». Desfeito o equívoco, após uma gargalhada geral dos redactores, lá foi fazer a sua primeira reportagem, a cobertura de um fogo posto, na Rua D. Estefânia. Chamava-se Reinaldo Ferreira e nasceu em Lisboa em 10 de Agosto de 1897. Foi repórter, novelista, dramaturgo e até realizador de cinema. Começou a escrever nos jornais com doze anos. Aos vinte, era considerado o maior repórter português.

Como, a princípio, só lhe davam incêndios, furtos, casos insignificantes… - começou a inventar reportagens sensacionais. Em 1917, horrorizou os leitores com um crime na Rua Saraiva de Carvalho, que metia um cadáver, criminosos encapuçados, pormenores misteriosos e macabros e um sinistro «homem dos olhos tortos» – a história ia saindo n”O Século sob a forma de cartas assinadas por um tal Gil Góis e atingiu tal impacto entre os leitores que o jornal achou melhor revelar que tudo não passava de ficção. Mesmo assim, a história prosseguiu e o interesse dos leitores manteve-se até ao desfecho, à semelhança do que acontecera cinquenta anos antes com o folhetim de Eça e de Ramalho - «O Mistério da Estrada de Sintra».

Data de 1917 a sua célebre (e fictícia) entrevista a Mata Hari. «Entrevistou» a famosa espia e o «pai» de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, sem nunca os ter contactado. Enviou para o jornal reportagens empolgantes do que ia acontecendo na Rússia, mas há quem diga que as escreveu sem lá ter ido.

Em Março de 1918, em «A Manhã», publicou «um inquérito à mendicidade». Fez-se fotografar andrajoso e mal barbeado e toda a gente acreditou que ele tinha andado a pedir esmola, mergulhado no submundo. Ainda em 1918, fez a reportagem de um assassínio de uma estrangeira numa pensão de Lisboa. O criminoso teria sido o marido. Ajudado pelo grande Stuart de Carvalhais, na pensão em causa, virou um quarto do avesso, espalhando sangue de galinha por toda a parte e fotografando depois a «cena do crime».

O presidente Sidónio Pais quando, na estação do Rossio, tomava o comboio para uma viagem oficial ao Porto foi morto a tiro. Pois, Reinaldo Ferreira (que, segundo parece, não estava lá) fez para o »Diário de Notícias» a reportagem mais lida – antes de expirar, o presidente teria dito: «Morro bem! Salvem a Pátria!». Frase heróica que entrou em livros e em crónicas, mas que Sidónio nunca proferiu, pois caíra fulminantemente morto abatido pelos tiros do tresloucado José Júlio da Costa.

Em 1919 foi para Paris, onde trabalhou no «Le Soir», no «Matin» e dirigiu a Agência Americana, cujos serviços chefiou em Madrid, Barcelona e Bruxelas, onde vivia em 1920. Note-se que tinha apenas 23 anos. Na capital belga ficou até 1922, colaborando no jornal «Neptune». Em 1923 nasceu o Repórter X. De regresso de Paris, estava em Barcelona quando, em 13 de Setembro, Miguel Primo de Rivera, capitão-general da Catalunha acabava de tomar o poder. Reinaldo Ferreira não resistiu à tentação de enviar para o jornal uma crónica atacando o ditador e denunciando as suas prepotências. Segundo uma das versões, não assinou – pôs apenas «repórter» e a seguir um rabisco ilegível. O tipógrafo ao compor o texto, tomou o rabisco por um x. Repórter X. Reinaldo Ferreira adoptou o pseudónimo nascido de uma casualidade.

Explorando a popularidade que o nome rapidamente assumiu e capitalizando o seu enorme carisma, criou o «Jornal do Repórter X». Seguiram-se o «Repórter X» e o simplesmente «X». Multiplicando-se, correndo de um sítio para outro, iniciou-se em Espanha na cinematografia, realizando uma série de filmes policiais e de comédias. Acrescente-se que também escreveu para o teatro – peças que foram representadas no »Ginásio» e no «S.Luiz». Uma delas, «1808», foi interpretada pela grande Palmira Bastos.

Em 1925, trabalhando no «ABC» foi enviado à União Soviética para fazer a cobertura dos incidentes e da luta pelo poder entre Estaline e Trotsky após a morte de Lenine. Encalhando em Paris (onde terá caído nas garras da cocaína), foi mandando telegramas para a redacção - não estava a conseguir obter o visto. Mas, enquanto explorava o bas-fonds parisiense, foi mandando trabalhos – tudo inventado. Esgotadas as desculpas, terá chegado a Moscovo de onde enviou reportagens e entrevistas – desde o porteiro do Kremlin ao embalsamador de Lenine. Há a suposição, talvez infundada, de que Reinaldo Ferreira continuou em Paris e foi lendo as crónicas diárias de Henri Bérau, correspondente de «Le Journal» em Moscovo. Há quem defenda que ele esteve, de facto, em Moscovo e que as entrevistas são genuínas. Hoje, é impossível saber a verdade. Mas as crónicas eram formidáveis.

Ainda em 1925, fez admiráveis reportagens sobre o caso da burla cometida por Alves dos Reis, no caso do Angola e Metrópole. Em Março de 1926, deu-se o assassínio da corista Maria Alves, estrangulada num táxi e arremessada para o passeio. Escrevendo para o «ABC» e baseando-se em crime semelhantes, foi elaborando deduções que conduziram a um criminoso para o qual a polícia não apontava – Augusto Gomes, o amante da actriz. Veio a provar-se que foi ele, de facto, o autor do crime. O assassino ficou com a convicção de que Reinaldo o seguira e assistira a tudo, de tal modo a sua ficção se ajustava ao que aconteceu. O que teria sido impossível, pois as crónicas eram enviadas de Haia onde o jornalista estava à época do crime a cobrir o julgamento de Karel Marang, relacionado com o caso Alves dos Reis.

A sua imaginação era ilimitada. Às vezes abusava, como quando tentou convencer os leitores de que no subsolo de Lisboa existia uma cidade misteriosa, construída a seguir ao terramoto de 1755, onde desde então, habitando numerosa galerias, como toupeiras, as gerações se sucediam. Como peça jornalística era inverosímil, como novela era potencialmente brilhante. Reinaldo Ferreira constituiu na sua época um modelo de repórter. Hoje, com o endeusamento do jornalismo de investigação, os seus métodos seriam condenados. É que ele praticou um jornalismo de imaginação ou «criativo».

Morreu com 38 anos, devastado pelo consumo de cocaína, morfina, tabaco, álcool... Casou duas vezes, tendo dois filhos do primeiro casamento e um do segundo. Um deles, Reinaldo Ferreira como o pai (1922-1959) foi um notável poeta. Ganhou fortunas, morreu quase na miséria e, apesar da sua celebridade em vida, foi rapidamente esquecido.

 Hoje, quase ninguém sabe quem foi o Repórter X.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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