Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

O caso da fotografia de Rimbaud na Abissínia – Carlos Loures

 

Há días atrás ilustrei um dos textos que aquí publiquei sobre Rimbaud com o famoso quadro de Fantin-Latour e com uma fotografia que representava seis homens e uma mulher, todos europeus, sentados sob um alpendre.

 

Era uma foto tirada entre 1880 e 1890 na entrada do Hotel do Universo, em Aden, Abissínia (actual Iémen). Um dos homens seria Rimbaud. Em Maio do ano passado vira no Le Figaro a notícia da descoberta em 2008  da fotografia por dois alfarrabistas parisienses.

 

Não vi motivos para duvidar da identificação e não sabia que a foto estava no olho do furacão de uma controvérsia. Dois amigos deram a sua ajuda na tentativa de esclarecimento - o Paulo Rato num comentário dizia que a foto não era de Rimbaud, rectificando depois e manifestando uma incerteza que parece perdurar. O Josep Vidal, nesse mesmo dia, enviou-me um link para o blogue ' L Atelier des icônes onde um excelente post de André Gunthert nos dá conta das peritagens que sobre o postal têm sido feitas e as conclusões a que chegaram.

 

 

Sabia-se que o hotel era o que Rimbaud frequentava por aquela época. Os alfarrabistas, após terem examinado o postal mostraram-no a um perito, Jean Jacques Lefrère, biógrafo do autor de Une Saison en Enfer que lhes terá confirmado o que supunham - o primeiro homem da esquerda para a direita era efectivamente Rimbaud. O postal passava a ser a única fotografia que mostra o poeta em adulto, pois  a imagem recorrente em manuais de Literatura, antologias é o famoso retrato de adolescente. Há uma ou outra tiradas com mais idade, mas sem nitidez.

 

 

 

 

 Na verdade, no postal as feições do poeta não são também muito nítidas, embora segundo Lefrère, se distingam alguns inconfundíveis traços do rosto de Rimbaud.

 

Seja ou não seja de Rimbaud o rosto da fotografia (a discussão continua), há uma lição a extrair – tudo tem de ser feito com cuidado. Incluindo a escolha de ilustrações para um artigo. Agradeço ao Paulo Rato e ao Josep Vidal o contributo dado.

 

Num próximo post, apresentarei os argumentos pró e contra na identificação de Rimbaud neste postal.

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por João Machado em 07/06/2011 às 20:29
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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Cartas da Abissínia - Jean-Arthur Rimbaud

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Boas e Más Memórias

 

Jean-Arthur Rimbaud  Cartas da Abissínia

 

(trad. de Célia Henriques e Vitor Silva Tavares)

 

 

Alexandria , Dezembro de 1878

 

Cheguei aqui após uma travessia de dez dias e, depois de andar às voltas há duas semanas, eis que só agora as coisas começam a encaminhar-se! Vou ter em breve um emprego; já trabalho bastante para viver, pobremente, é verdade. Ou me ocuparei numa grande exploração agrícola a cerca de dez léguas daqui (já lá fui, mas não vai haver nada antes de algumas semanas); — ou entrarei proximamente nas alfândegas anglo-egípcias, com um bom venci­mento; - ou penso que partirei em breve, preferencialmente para Chipre, ilha inglesa, como intérprete de um grupo de trabalhadores. Em todo o caso, prometeram-me arranjar qualquer coisa; é com um engenheiro francês -homem prestável e talentoso - que terei de tratar. Só que me pedem o seguinte: uma palavrinha tua, Mamã, reconhecida pela mairie, constando do seguinte:

 

"Eu abaixo assinada, esposa de Rimbaud, proprietária em Roche, declaro que o meu filho Arthur Rimbaud deixou de trabalhar na minha propriedade, que saiu de Roche de livre vontade, no dia 20 de Outubro de 1878, que se comportou honrosamente quer aqui quer noutros lugares e que presentemente não se encontra sob a alçada da lei militar.

 

Assinatura"

 

E o mais importante é o carimbo da mairie.

 

Sem este documento não me darão emprego fixo, embora julgue que continuarão a ocupar-me de vez em quando. Mas livrem-se de dizer que fiquei em Roche apenas alguns dias, porque me farão mais perguntas e isso nunca mais acabará; além de que o documento fará as pessoas da companhia agrícola acreditar que eu sou capaz de dirigir o trabalho.

 

Peço-lhe o favor de me mandar este documento o mais rapidamente possível: a coisa é muito simples e dará bons resultados, pelo menos dá-me um bom emprego durante todo o inverno. (...)

 

*

 

Larnaca (Chipre), 15 de Fevereiro de 1879

 

(...) Amanhã, 16 de Fevereiro, faz exactamente dois meses que estou aqui empregado. Os patrões encontram-se em Larnaca, porto principal de Chipre. Sou fiscal de uma pedreira no deserto, à beira-mar: está também a ser construído um canal. Têm de se embarcar as pedras nos cinco barcos e no vapor da Companhia. Há ainda um forno de cal, fábrica de tijolos, etc. A primeira povoação fica a uma hora de marcha. Aqui existe apenas um caos de rochas, o rio e o mar. Há só uma casa. Não existe terra, nem jardins, nem uma única árvore. No verão, a temperatura atinge 80 graus. De momento, é frequente termos 50. Estamos no inverno. Chove por vezes. Alimentamo-nos de caça, de galinhas, etc... Todos os europeus estiveram doentes, excepto eu. No campo, estivemos no máximo vinte e cinco europeus. Os primeiros chegaram a 9 de Dezembro. Há três ou quatro mortos. Os trabalhadores cipriotas vêm das aldeias em redor; chegaram-se a empregar sessenta por dia. Eu dirijo-os: aponto os dias, distribuo o material, elaboro relatórios para a Companhia, faço as contas da alimentação e de todas as despesas; e distribuo os pagamentos; ontem fiz um pagamentozinho de quinhentos francos aos trabalhadores gregos.

 

Sou pago ao mês, creio que 150 francos: até agora não recebi mais do que uma vintena. Mas penso que em breve me pagarão por inteiro e creio até que vou ser despedido, porque acho que se vem instalar uma nova companhia em vez da nossa, que tomará tudo de empreitada. Foi devido a esta incerteza que demorei a escrever. Em todo o caso, custando a minha alimentação apenas 2,25 por dia e não devendo eu ao patrão grande coisa, ficarei sempre com algum para poder aguardar por outro trabalho, que para mim haverá sempre aqui em Chipre. Vão construir caminhos de ferro, fortes, casernas, hospitais, porto, canais, etc.... No dia l de Março irão ser feitas concessões de terrenos, sem outros encargos salvo o registo das escrituras. (...)

 

*

 

 

Larnaca (Chipre), 24 de Abril de 1879

 

Só hoje pude obter a procuração na chancelaria; mas suponho que não vai apanhar o barco e que terá de esperar pela partida do outro, na quinta-feira.

 

Continuo a ser chefe de estaleiro nas pedreiras da Companhia, onde carrego, faço explodir e cortar pedra.

 

O calor é muito. De fritar ovos. As pulgas são um suplício horrível, noite e dia. Além disso, os mosquitos. Temos de dormir à beira-mar, no deserto. Tive pegas com os operários e vi-me obrigado a pedir armas.

 

Gasto muito. A16 de Maio termino o meu quinto mês aqui.

 

Acho que vou regressar; mas antes disso, gostaria que me dessem notícias.

 

Escrevam-me.

 

Não vos dou o meu endereço nas pedreiras porque o correio nunca passa por aqui, mas na cidade, a seis léguas de distância. (..)

 

*

 

Mont-Troodos (Chipre), domingo, 23 de Maio de 1880

 

(...) Não encontrei nada para fazer no Egipto e parti para Chipre já lá vai um mês. Ao chegar, deparei com os meus antigos patrões na falência. No entanto, ao fim de uma semana, arranjei o emprego em que estou presentemente. Sou fiscal no palácio que estão a construir para o governador-geral, no topo do Troodos, a montanha mais alta de Chipre (2100 m).

 

Até agora estava só com o engenheiro, numa das barracas de madeira que formam o acampamento. Ontem chegaram cinquenta operários e a obra vai para a frente. Sou o único fiscal, e por enquanto só recebo duzentos francos por mês. Pagam-me há quinze dias, mas faço muitos fretes: temos de viajar sempre a cavalo; os transportes são muito difíceis, as localidades muito distantes e a comida muito cara. Além disso, enquanto nas planuras se tem muito calor, nesta altitude faz, e vai fazer ainda durante mais um mês, um frio desagradável; chove, saraiva, e a ventania é de nos deitar abaixo. Foi-me preciso comprar colchão, cobertores, casacão, botas, etc., etc.

 

No alto da montanha há um campo para onde virão dentro de algumas semanas as tropas inglesas, logo que se faça sentir muito calor na planície e menos frio na montanha. Teremos então garantido o serviço de aprovisio­namento.

 

Por enquanto, estou ao serviço da administração inglesa: conto ser aumentado em breve e continuar no emprego até ao fim deste trabalho, que provavelmente terminará lá para Setembro. Assim, poderei obter uma boa carta de recomendação, com vista a empregar-me noutras obras que certamente irão seguir-se, e pôr de parte umas centenas de francos.

 

Sinto-me mal; tenho taquicardia que me incomoda bastante. Mas é melhor não pensar nisso. Aliás, que posso fazer? No entanto, o ar aqui é muito saudável. Na montanha só há pinheiros e fetos.

 

Estou a escrever esta carta hoje, domingo; mas tenho de a pôr no correio a dez léguas daqui, num porto chamado Limassol, e não sei quando terei oportunidade de lá ir ou de enviá-la para lá. Provavelmente nunca antes de oito dias. (...)

 

*

 

Aden, 17 de Agosto de 1880

 

Deixei Chipre com 400 francos, ao fim de quase dois meses, após altercações que tive com o caixa e com o meu engenheiro. Se tivesse ficado, teria atingido uma boa posição em poucos meses. No entanto, posso voltar para lá.

 

Procurei trabalho por todos os portos do Mar Vermelho, em Djedda, Suakim, Massauah, Hodeidah, etc. Vim para aqui depois de ter tentado encontrar qualquer coisa que fazer na Abissínia. Ao chegar, estive doente. Sou empre­gado na casa de um comerciante de café1, e ainda só ganho sete francos2. Quando tiver algumas centenas, vou para Zanzibar, onde, segundo dizem, há trabalho.

 

Dêem-me notícias.

 

*

 

Aden, 25 de Agosto de 1880

 

Parece-me que terei posto recentemente no correio uma carta para vocês a contar-vos como, por infelicidade, tive de abandonar Chipre e como aqui cheguei depois de ter andado às voltas pelo Mar Vermelho.

 

Aqui, estou no escritório de um comerciante de café. O agente da companhia é um general na reforma. Os negócios vão mais ou menos, mas havemos de fazer muito mais. Eu ganho pouco, não passa dos seis francos por dia; mas se ficar por cá, e bem necessito, porque isto está tão longe de tudo que são precisos vários meses até se ganharem umas escassas centenas de francos para, em caso de necessidade, se poder partir; se ficar, creio que me darão um cargo de confiança, talvez uma agência noutra cidade, e assim poderei ganhar algum dinheiro um pouco mais rapidamente.

 

Aden é um rochedo medonho, sem uma única pontinha de erva nem uma gota de água boa: bebe-se água do mar destilada. Aqui o calor é excessivo, sobretudo em Junho e Setembro, que são os dois meses de canícula. A temperatura constante, noite e dia, num escritório muito fresco e ventilado é de 35 graus. É tudo muito caro, e assim por diante. Mas não há nada a fazer: estou aqui como um prisioneiro e terei de cá ficar pelo menos três meses antes de me poder aguentar nas pernas ou ter um emprego melhor.

 

E aí em casa? A ceifa já acabou?

 

Dêem-me notícias.

 

*

 

Aden, 22 de Setembro de 1880

 

Recebi a vossa carta de 9 de Setembro e, como amanhã parte um correio para França, passo a responder-vos.

 

Estou tão bem quanto aqui se pode estar. A casa faz negócios de várias centenas de milhares de francos por mês. Sou o único empregado e tudo me passa pelas mãos; presentemente estou muito a par do comércio de café. O patrão deposita em mim total confiança. Todavia, sou mal pago: tenho apenas cinco francos por dia, alimentação, alojamento, roupa lavada, etc., etc., com cavalo e viatura, o que representa bem uma dúzia de francos por dia. Mas como sou o único empregado algo inteligente de Aden, no final do segundo mês aqui, isto é, em 16 de Outubro, se não me pagarem duzentos francos limpos por mês, vou-me embora. Prefiro partir a deixar-me explorar. Aliás, já tenho cerca de duzentos francos no bolso. Provavelmente irei para Zanzibar, onde há trabalho. Mas também aqui há muito para fazer. Várias sociedades comerciais vão-se estabelecer na costa da Abissínia. A casa também tem caravanas em África; e portanto é possível que eu vá para lá, obtendo maiores benefícios e aborrecendo-me menos do que em Aden, que é, toda a gente o reconhece, o sítio mais chato do mundo, todavia só depois daquele em que vocês vivem.

 

Em casa tenho uma temperatura de 40°: suam-se litros de água por dia. Só queria que estivessem 60° como quando eu estava em Massauah!

 

Vejo que têm aí um bom verão. Tanto melhor. É uma vingança pelo famoso inverno. (...)

 

(...)- Escrever bem o meu endereço, porque há aqui um Rimbaud agente dos trans­portes marítimos. Fizeram-me pagar 10 cêntimos de suplemento de franquia.

 

Julgo que não devem encorajar o Frédéric a ir estabelecer-se em Roche, por pouca ocupação que ele tenha noutro lado. Aborrecer-se-ia depressa, e não se poderia esperar que ficasse. Quanto à ideia de se casar, quando não se tem nem um chavo nem poder para o ganhar, não será uma ideia miserável? Pela minha parte, quem me condenasse ao casamento em tais circunstâncias, faria melhor assassinar-me imediatamente. Mas cada um com sua ideia, o que ele pensa não me diz respeito, não me toca em nada, e desejo-lhe toda a felicidade possível sobre a terra e especialmente no cantão de Attigny (Ardenas). (...)

 

 

*

 

Aden, 2 de Novembro de 1880

 

Ainda aqui vou ficar um certo tempo, embora já esteja contratado para outro sítio, onde me devo dirigir em breve. A casa fundou uma agência no Harar, uma região que localizareis no mapa, no sudeste da Abissínia. De lá exporta-se café, peles, gomas, etc., que se compram em troca de tecidos de algodão e mercadorias diversas. O país é muito saudável e fresco graças à sua altitude. Não há estradas e quase nenhumas comunicações. Vai-se de Aden a Harar: primeiro por mar, de Aden a Zeilah, porto da costa africana; daí a Harar, em vinte dias de caravana.

 

O Sr. Bardey, um dos chefes da casa, fez uma primeira viagem, estabe­leceu uma agência e levou muitas mercadorias. Deixou lá um representante3 sob as ordens do qual eu ficarei. Estou contratado a partir do dia l de Novembro, com um vencimento de 150 rupias por mês, quer dizer 350 francos, ou seja 11 francos por dia, mais alimentação, despesas de viagem e 2% sobre os lucros. No entanto, não partirei antes de um mês ou seis semanas, porque tenho de levar para lá uma soma considerável que ainda não está dis­ponível. Escusado será dizer que não se pode ir sem ser armado, e que se corre o perigo de deixar lá a pele nas mãos dosgallas - embora o perigo também não seja assim tão grave.(...)


 

*

Harar, 13 de Dezembro de 1880

Cheguei a este país depois de vinte dias a cavalo através do deserto somali. Harar é uma cidade colonizada pelos egípcios e dependente do governo deles. A guarnição é de vários milhares de homens. A nossa agência e os nossos armazéns estão aqui instalados. Os produtos comerciáveis são o café, o marfim, as peles, etc. O país é alto mas não é árido. O clima fresco e não doentio. Todas as mercadorias são importadas da Europa e transportadas por camelos. Aliás, há muito a fazer nesta terra. Não temos aqui correio regular. Somos obrigados a enviar a correspondência para Aden, e só de tempos a tempos. Por conse­guinte, só recebereis esta carta daqui a muito tempo. (...)

 

(continua)

 

________________

l Um tal Sr. Pinchará, antigo oficial atirador subalterno, colocado em Aden para o salvamento de navios encalha­dos no cabo Guardafui (o que bem poderia ser a origem da estúpida legenáa "Rimbaud, ladrão de salvados").

 

2 Vianney, Bardey & Cie, com sede em Lyon e uma agência em Aden.

O principal negócio era o comércio de mofa, que faziam vir da Abissínia, ensacavam em Aden e expediam para França.

 

3 Salário ridículo, na medida em que, segundo as memórias de Alfred Bardey, o trabalho de Rimbaud consistia,

à data, em receber fardos de café, triá-los e embalá-los.

 

(in Jean-Arthur Rimbaud, Cartas da Abissínia seguido de Philippe Soupault, Mar Vermelho, & etc)

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 14:00
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