Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Informação diária de Eurointelligence - 16.06.2011

A ameaças das primeiras bombas sobre a Europa começa a levantar-se na própria Europa e já não era sem tempo. Leia as informações do dia sobre a economia e sobre  os mercados financeiros da União Europeia .

Coimbra, 16 de Junho de 2011

Júlio Mota

 

 

 

• George Papandreou dispõe-se a apresentar a sua demissão, mas as negociações para formar uma grande coligação falharam no meio de críticas mútuas

  •  O primeiro-ministro grego procura agora um voto de confiança do Parlamento, o que poderá    abrir a possibilidade para  novas eleições;
  • O  ministro das finanças oferece  algumas concessões nos aumentos dos  impostos;
  • Especula-se sobre a hipótese de que  Lucas Papademos poderá tornar-se  o próximo ministro das Finanças grego, como parte de uma reorganização mais ampla do governo;

•  A crise política grega ocorre  no dia em que dezenas de milhares de manifestantes desceram às ruas em Atenas;


•  O ministro das Finanças irlandês diz agora que deseja  acabar com os obrigações séniores segurizadas;


• Como os ministros das Finanças discutem o envolvimento do sector privado, os irlandeses parecem ter concluído que este era um bom momento para levantar a questão;


• Ontem houve também violentas manifestações contra as políticas de austeridade  em Barcelona;


• Os  rendimentos de títulos espanhóis dispararam ontem, entre sinais  de que a crise está a espalhar-se;


• A imprensa alemã sugere que a UE poderia adiar a sua decisão sobre um segundo empréstimo à Grécia para depois das férias de Verão;


• O governo  alemão ainda continua a  insistir  no envolvimento do sector privado antes da cimeira da manhã entre  Angela Merkel  e  e Nicolas Sarkozy ;

 


• Fitch diz que uma Iniciativa tipo da  Viena será considerada como "uma situação de incumprimento restrita", ou seja Restrictive default, continuando os títulos a serem notados como DDD.


• Os franceses estão preocupados com o estado das relações franco‑alemãs;


• O FEEF emitiu a sua segunda emissão de obrigações;


• O comissário responsável pelo  orçamento da UE diz  que a não aprovação  do orçamento iria ameaçar a integração europeia;


• o euro, entretanto, caiu  3 centavos no meio de todo este caos.

 

Nota:  A  classificação recentemente introduzidas de "RD" (restrictive  Default ) é descrita na classificação da agência de rating Fitch  como sendo  a notação que  esta atribui a um emitente (incluindo soberanos) nos casos em que o emitente é considerado em situação de incumprimento numa   ou mais das suas obrigações financeiras, embora continue a cumprir as restantes obrigações.

 

Este foi um grande dia para a Irlanda  atirar a sua própria bomba. Numa  entrevista à televisão irlandesa RTE, o ministro das Finanças, Michael Noonan,  disse  que a Irlanda  irá propor um  plano para impor grandes perdas nalguns  detentores de  títulos  seniores  sobre o Banco Anglo Irish Bank e sobre o Irish Nationwide Building Society. O ministro afirmou   que estava à procura de apoio dos detentores de obrigações seniores   ", porque consideramos  que o contribuinte irlandês não deve ter que pagar para resgatar o que se tornou um  investimento especulativo. Eu não acho que  estes investimentos especulativos tenham que ser  resgatados. " O ministro também deu a entender que a mudança  de Jean-Claude Trichet para Mario Draghi  no BCE pode tornar mais fácil para a Irlanda  convencer  o BCE. . Aparentemente ele não tem o apoio  do FMI. Quando se lhe  perguntou  se o FMI estava de acordo  com esta sua posição, o ministro respondeu : "Eu tenho a ideia de que eles entenderam a nossa posição completamente."

 

Há a ameaça de risco da Irlanda  executar  um corte da sua dívida soberana  sobre os detentores de obrigações seniores


BreakingViews escreve que Michael Noonan, escolheu um momento de alto risco  para encenar um ataque  sobre os credores dos bancos. O movimento é um desafio directo ao Banco Central Europeu. Continuará igualmente a ameaçar os mercados já assustados  por se estar já falar de uma reestruturação da dívida grega. "A Irlanda anteriormente evitou  falar em reduções da dívida   sobre as obrigações   séniores  dos bancos devido à oposição do BCE, o seu principal credor. Pode ser que que o forte conflito público da Alemanha com o BCE tenha dado ao  governo irlandês a confiança necessária para tomar uma posição. Alternativamente, Dublin poderá  estar a jogar  um jogo de grandes  apostas de  poker para obter uma taxa de juro reduzida no seu  próprio resgate, enquanto preserva  o seu regime fiscal vantajoso para as grandes empresas.

 

Crise difunde-se em Espanha: violentas demonstrações em  Barcelona

 

Um aspecto da crise que já se espalhou por toda a Espanha são os protestos violentos nas ruas. A primeira página  do El Pais, desta manhã não era sobre a crise, mas sim sobre as violentas manifestações em frente ao Parlamento da Catalunha, em Barcelona, ​​onde manifestantes tentaram bloquear a entrada dos  parlamentares. O jornal afirma  que o Presidente do Parlamento regional teve que ser deslocado  por  um helicóptero. O  mesmo jornal afirma  que os protestos foram dos  mais violentos desde a restauração da democracia.
 
El Pais está preocupado com a crise que se estende por toda a Espanha, onde os spreads dos títulos da dívida subiram para 260 pontos base, ou seja, perto do ponto mais  alto  de todos os tempos. Enquanto a crise se degrada , a UE movimenta-se ao seu próprio ritmo. Todos concordam que a Grécia não deve entrar em colapso, mas ninguém realmente sabe como é que isso se consegue alcançar. O artigo cita um analista espanhol que diz  que todo o mundo está centrado na  política da crise na Alemanha e na Finlândia, mas ninguém pensou na política grega.

 

Os investidores estão a apostar num  acidente


O Financial Times escreve esta manhã que os investidores estão a apostar  contra um grande acidente, no meio de  sinais de elevadas compras especulativas a  um ano  de CDS, os credit default swaps, que seria accionado no caso de um evento de crédito  "desordenado". Isso faz-se   não porque haja  vários esquemas  em discussão pelos ministros das Finanças. Mesmo o plano Merkel / Schäuble não se qualificaria como um evento de crédito sob esta  definição. Isto significa que os investidores estão a apostar numa desordem  onde se estabeça uma situação de incumprimento em que se  diga e se faça " não posso pagar”  nós “não vamos pagar” . O artigo diz que os investidores só tinha colocado uma pequena quantidade de dinheiro nesses fundos ", mas o simples facto de que eles estão o estão a fazer ilustra  os riscos crescentes para a zona euro."

 

Os spreads sobre os títulos da dívida grega,  os portugueses e os  irlandeses subiram dramaticamente .

 

 

Previous Day Close

Yesterday’s Close

This morning

France

0.339

0.362

0.363

Italy

1.755

1.829

1.855

Spain

2.461

2.604

2.591

Portugal

8.329

8.458

8.417

Greece

14.581

15.113

15.28

Ireland

8.407

8.675

8.928

Belgium

1.125

1.185

1.174

Bund Yields

3.245

2.959

2.933

 

 

publicado por João Machado às 12:30
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Informação ou manipulação? ( A televisão é para estúpidos?), por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

 


 

Terminei a crónica anterior deixando em suspenso a questão das manipulações (políticas, económicas, culturais…) que a televisão veicula. Foi tema muito falado há pouco mais de um ano, em Maio de 2009, quando Manuela Moura Guedes entrevistou no “Jornal Nacional” da TVI o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, No seu habitual estilo truculento, o bastonário disse à pivô verdades duras como punhos, daquelas que muito raramente se escutam em televisão. Vamos recordar esse momento.

 

 

De facto, a «informação» que naquela estação (e não só) se praticava, e pratica, deixa muito a desejar, misturando-se de maneira avulsa, opiniões com factos e não se fazendo a destrinça do que é uma e outra coisa. Isto, como muito bem disse Marinho Pinto não é jornalismo; são sim «julgamentos sumários disfarçados de jornalismo».

 

A televisão tem este poder de eliminar factos e de criar factos, de manipular a realidade e de a apresentar conforme melhor for servida a necrofagia e o sensacionalismo que parecem ter tomado conta do jornalismo em geral e os interesses, políticos, económicos, dos grupos a que o canal seja afecto.

 

Sobre o poder da televisão, dizia Karl Popper na sua obra já citada, que, nos nossos dias a, a televisão assumiu um poder colossal, potencialmente o maior de todos, «como se tivesse substituído a voz de Deus». Afirma ainda que em democracia não pode haver poderes incontrolados, pois a essência da democracia consiste precisamente em submeter o poder político a um controlo.

 

O poder da televisão constitui, pois, um grave perigo para a democracia e esse perigo agudizar-se-á se não conseguirmos pôr cobro aos abusos dos canais televisivos - «Nenhuma democracia pode sobreviver se não controlarmos esta omnipotência», dizendo ainda: «A democracia, como expliquei algures, não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura, e nada no seio da democracia proíbe as pessoas mais instruídas de comunicarem o seu saber às que o são menos. Pelo contrário, a democracia sempre procurou elevar o nível de educação; é essa a sua autêntica aspiração. As ideias deste director de uma cadeia televisiva não correspondem em nada ao espírito democrático, que sempre foi o de oferecer a todos as melhores oportunidades. Inversamente, os seus princípios conduzem a propor aos telespectadores emissões cada vez piores, que o público aceita desde que se lhes acrescente violência, sexo e sensacionalismo"."(Popper refere-se ao director de um canal de televisão que conheceu na Alemanha no decurso de uma conferência, que afirmava axiomaticamente que “Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam”).

 

Não sei se Popper tem razão quando diz que a democracia «não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura». Esta definição parece-me redutora. Mas isso seria entrar numa outra discussão. Todavia, quanto a mim, Popper tem toda a razão quando nos alerta para os perigos de um meio que, tendo o poder de substituir a informação pela manipulação, pode destruir a democracia, instaurando em seu nome a ditadura dos media, por sua vez ao serviço de interesses políticos e económicos que nada têm de democrático.

 

Os governantes, os actuais e os anteriores, só se preocupam com as manipulações quando elas os atingem, como fez Sócrates na entrevista de 21 de Abril de 2009, na RTP, concedida a José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, em que denunciou o mesmo Jornal Nacional da TVI e aquilo que naquele canal passa por ser um serviço informativo, dizendo que o que ali se faz não é jornalismo, mas sim «caça ao homem» e que se trata de um «telejornal travestido». Isto, porque foi atacado a propósito do caso Freeport. E quando, ali e noutros espaços «informativos», outras pessoas, a verdade e a Democracia são atacados? Acrescente-se que Moura Guedes contra-ataca e pôs agora uma acção ao primeiro-ministro devido aquelas declarações.

 

Todos sabemos que nenhum governo da «democracia» que temos, exercerá uma acção pedagógica, profilática e terapêutica sobre os órgãos de informação. Não estou a falar de censura política, de repressão ou de limitações impostas à liberdade de imprensa (como em resposta a Sócrates o então director da TVI, vitimizando-se, se apressou a vir denunciar o que lhe parecia subjacente às palavras do primeiro-ministro). Estou a falar do inverso: impedir que a comunicação social se transforme ela mesma num odioso instrumento de repressão. O que começa a acontecer.

 

A liberdade de imprensa exige por parte dos profissionais um grande sentido de responsabilidade, o que raramente se verifica. Estou a falar de um cotejo sistemático e permanente entre o código deontológico que rege a profissão de jornalista e a prática exercida pelos respectivos profissionais. Aquilo de que falava Marinho Pinto.

 

Nunca esquecendo que, a maior parte das vezes, muito bons jornalistas, submetidos a direcções ligadas a grupos político-económicos e não só, são obrigados a escolher entre a honestidade e o emprego, entre o pão e a verdade. Para se extirpar este tumor que não cessa de aumentar, tem de se ir bem fundo na incisão e não ficar pela solução fácil de punir ou diabolizar jornalistas corruptos, por certo ao serviço de interesses obscuros, mas que apesar da sua desonestidade mais não são do que as pontas visíveis e emergentes de gigantescos icebergues submersos.

publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures às 10:31
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Medo do FMI porquê ? por Luis Moreira

O que realmente desgasta a credibilidade do estado é este pântano em que ninguem acredita em ninguem. Como já aqui trouxe, o governo não diz tudo e, pior, mente; apesar dos sucessivos PECs ( o déficite de 2010 é superior a 8% em vez dos apregoados 7%)os juros não descem e o governo foi mesmo obrigado a apresentar em Bruxelas mais um conjunto de medidas sem o conhecimento dos parceiros políticos e sociais.

 

Hoje, no "Negócios", Camilo Lourenço, lá vem a confirmar o que eu próprio já aqui escrevi sobre a mentira básica do resultado orçamental de Fevereiro, empurrando para os meses seguintes despesa que cabe por inteiro em Fevereiro; são despesas adiadas que têm que ser pagas, ou seja, no fim do ano têm que lá estar todas, joga-se despudoradamente com a diferença entre contabilidade pública e contabilidade nacional. Mas se o ministério das Finanças engana o cidadão comum não consegue enganar os técnicos de Bruxelas, nem os investidores nem os assessores da senhora Merkel.

 

Camilo Lourenço, pergunta: como é que um país que luta para reduzir o défice para 4,6% pode ter um supéravite (excesso da receita sobre a despesa? resposta: Não pode! É mais uma "chico espertice".

 

São as milhares de "chico espertices" escondidas que o governo não quer que os técnicos do FMI ponham em cima da mesa - "é o temor da análise e revelação do estado real da economia portuguesa, em geral, mas sobretudo no âmbito dos compromissos públicos constantes das parcerias público-privadas e concessões e em todos os compromissos ímplicitos e não publicitados propriciados pela reinante promiscuidade entre os sectores público e privado" - in negócios - Avelino de Jesus.

 

" O episódio, relatado pela imprensa alemã do "Financial Times" das "diferenças" encontradas pelas equipas do BCE e da Comissão Europeia que recentemente visitaram o nosso país é bem ilustrativo dos problemas em causa" - in negócios por Avelino de Jesus.

 

Não são pois, nem razões ideológicas nem de irracionalidade que levam o governo a agitar o "papão ajuda externa", pelo contrário, são as prevísiveis consequências da revelação que o FMI pode encontrar ao analisar a opacidade da informação que cabe ao estado prestar aos contribuintes clara e sem falhas e, dos processos políticos que levaram à tomada de decisão política em muitos casos absolutamente incompreensíveis.

 

Hoje, sabemos que a Grécia andou a enganar os seus cidadãos e os seus parceiros europeus pela mão de uma instituição financeira a "Goldman Saches" como será publicado em  dois textos do nosso Prof Júlio Marques Mota. Era bom que a opacidade da informação do governo que mina a credibilidade do estado português seja de uma vez interrompida e que a verdade volte à luz. Até lá vamos andar a brincar aos PECs...

 

 

PS: leiam a 27 e a 30 de Março às 20 horas dois textos sobre a responsabilidade da Goldman Sachs na situação da Grécia...

publicado por Luis Moreira às 13:00
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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Mundo fantasma

Marcos Cruz

Quando eu era pequeno, diziam-me para não acreditar em fantasmas, que eles não existiam. Hoje dizem-me o contrário: há-os por todo o lado. Os últimos de que ouvi falar, devido ao novo filme de Polanski, em estreia nas salas portuguesas, foram os escritores-fantasmas, gente que escreve por encomenda e vende a própria autoria, ou seja, permite que o cliente assine o trabalho, como se fosse seu. Eu acho que isto merece uma reflexãozinha, convocando a sociedade em todas as suas frentes. É que talvez estejamos a abusar da paciência de Platão e a esticar demasiado a corda que ele nos deixou para podermos aceder ao nosso estado puro. A metáfora de sermos sombras de nós próprios é isso mesmo, uma metáfora. Serve para desenvolvermos as virtudes que temos e perseguir a utopia de nos tornarmos iguais ao nosso melhor. Não serve, ou não devia servir, para comprarmos sombras que façam de nós sombras de sombras, para desenvolvermos os defeitos que temos e fincar pé na distopia de nos tornarmos parecidos com o nosso melhor. A verdade é que, assim, a mentira alastra.

Os mistérios (como, aliás, os ministérios, ou não se falasse há muito de governos-sombras e coisas do género) tornam-se cada vez mais densos. As sociedades, em lugar de se desnudarem, ganham camadas. A floresta, que não a verde, escurece. E todos nós sentimos razões para voltar a ser crianças com medo do escuro. O que é, neste cenário, a informação? Vejamos, sem qualquer tomada de partido, ou seja, apenas a título de exemplo, o caso dos prisioneiros políticos de Cuba. Não poderão ser eles homens pagos para dizer o que dizem, mártires-fantasmas? Que certificados temos? E, se os houver, não poderão ser certificados-fantasmas? E assim sucessivamente, até um infinito lodoso, até esgotos nunca dantes navegados?

Eu não me comprazo na profecia da conspiração, não contem comigo para gastar energias na espiral da desgraça, mas preocupa-me a falta de visão global com que estes actos-sombra, alegadamente inocentes na sua estrita dimensão profissional, são cometidos. Um escritor-fantasma deve ter noção de que, ao escrever a autobiografia de alguém que, podendo ser analfabeto, vai mentir ao seu público, se torna também um mentiroso-fantasma. Ou seja, não pode ficar só com a parte boa e dizer que o que fez foi por trabalho. O dinheiro que ganha na escrita-fantasma é pelo menos equivalente à credibilidade que perde na mentira-fantasma. Devia ser assim. Mas não é. Estamos numa fase do mundo em que, para o bem, todos nos dizemos contribuintes, mesmo que seja precisa alguma benevolência, ou a alusão ao efeito-borboleta, para atribuir uma quota-parte de responsabilidade nesse bem à actividade que exercemos.

Para o mal, nenhum de nós ajudou, nenhum de nós sequer viu, de tão comprometido que estava com o com o seu labor inóquo, no seu departamentozinho estanque. Isto, esta forma de pensar, contemplando o benefício próprio apenas dentro da sua dimensão mais mesquinha, mais pequena, mais egocêntrica, e desprezando a evidência da globalidade do ser, do cordão umbilical que nos une a todos, está a levar a sociedade para um patamar de irresponsabilidade assustador. A própria ciência, no seu afã evolutivo, parece às vezes caminhar sozinha, obcecada consigo mesma, esquecendo a complexidade do mundo em que vive e o facto de as descobertas só se poderem considerar benéficas após a avaliação do seu aproveitamento. Aliás, os próprios cientistas, na sua qualidade de homens como os outros, estão à mercê de convites para se converterem em cientistas-fantasmas, em cientistas-sombras.

Temos ouvido falar, com insistência, do neuronegócio, e isso, evocando Huxley, prefigura um arrepiante mundo novo. Não se infira daqui que eu me oponho ao desenvolvimento científico. Bem pelo contrário, toda a observação me parece imprescindível, essencial. Mas, tanto em termos de princípio como de método e objectivo, ela não deve descartar, como pano de fundo, a conexão entre sujeito, objecto, domínio específico e contexto global. Se os cientistas idóneos, responsáveis e dignos, que serão muitos, estou convicto, não o fizerem, cedendo a uma pressão crescente de interesses também eles cada vez mais sombras, tornar-se-ão responsáveis, tanto como quem os suborna, e ainda que queiram, em prol da ciência, varrer para debaixo do tapete a consciencialização desse suborno, pelas consequências nefastas que o planeta venha a sofrer. O problema que se põe aqui, no fundo, é o da consagração de uma coisa foneticamente próxima da meritocracia: uma mentirocracia. Um mundo-fantasma, com homens-fantasmas (assinale-se, a propósito, o visionarismo de Sérgio Godinho), leis-fantasmas, governos-fantasmas, empresas-fantasmas, dinheiro-fantasma, instituições-fantasmas e valores-fantasmas, onde a luta já não é por um lugar ao sol, mas por um lugar à sombra.
publicado por Carlos Loures às 11:00
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