Terça-feira, 12 de Julho de 2011

“O Após Zapatero” já começou - por Sylvia Desazars de Montgailhard

enviado por Julio Marques Mota

O movimento “de indignados”, tal como a ajuda  do Partido popular nas  eleições municipais de 22 de Maio, são os sinais anunciadores  de uma confusão dos socialistas espanhóis nas legislativas  de 2012 ?

Desde há  perto de um mês que  a imprensa internacional cobre os acontecimentos relativos  aos “Indignados”. Este movimento, nascido de maneira espontânea por ocasião de uma manifestação  de jovens   na  Puerta del Solo em Madrid,  a 15 de Maio, espalhou-se  por outros lugares, na Espanha, na Europa e, mais recentemente, na Turquia. Do que é que se queixam  “Os  Indignados”?  Do desemprego que  atinge o conjunto da Espanha e em particular a faixa etária dos jovens ainda de forma mais dura ; da corrupção da classe política, seja direita como a de esquerda; pelo facto de a democracia, tal como foi restabelecida há trinta e cinco anos sob forma de monarquia parlamentar quase federal, não corresponde às suas expectativas.

Que reclamam os Indignados? Uma mudança da lei eleitoral que permita aos partidos mais pequenos  fazer  ouvir a sua voz, e reclamam  trabalho a fim de poderem ter  uma autonomia financeira em vez permanecerem dependentes dos seus pais até para além dos  trinta  anos , ao mesmo tempo que, devido ao rompimento da bolha imobiliária, mais de um milhão de alojamentos não encontram nenhum comprador. São todos eles de esquerda? São muito de esquerda? São todos os jovens? Responder-se-á prudentemente: possivelmente  sim. Não são os todos os casos, pelo menos na sua grande maioria, nem partidários nem anti-sistema  e as diferentes tentativas de recuperação do seu movimento pelo governo ou pela oposição comunista falharam.
O movimento vai durar ? Autogerido de maneira eficaz, com as suas tendas, com o seu material de electricidade, as suas cantinas, os seus jardins-escolas, as suas bibliotecas, não deixam de  criar menos problemas de salubridade pública e de  provocar  a irritação dos comerciantes. Apesar das injunções da Junta eleitoral que proibia qualquer agrupamento durante o dia de reflexão que precede as eleições locais e regionais de 22 de Maio, os responsáveis da ordem pública tomaram a cuidadosa decisão de não tentar desalojar  “ Os indignados”. Perante a perda  progressiva de capacidade de  mobilização, tomaram na quarta-feira dia 8 de Junho a decisão de levantar o campo no Domingo 12 de Junho. Só um núcleo de irredutíveis  anunciou que permaneceria. Alguns começaram a manifestarem-se , no final da  tarde, em  frente do Congresso dos Deputados, em  Madrid.

 

O que  a maior parte de “ Os  indignados” não fez, foi  ir votar. Ora,  20 milhões de espanhóis voltaram  às urnas, a 22 de Maio, e infligiram uma derrota significativa ao PSOE, o Partido socialista operário espanhol. Estes resultados eleitorais, que representam uma dupla afronta para José-Luís  Rodriguez Zapatero, na sua qualidade de presidente do governo e secretário geral do PSOE, tiveram direito a  pequenos artigos nos meios de comunicação social fora da Espanha.

 

Estas eleições  marcam um  momento decisivo  muito importante   na vida política espanhola, onde as eleições locais têm tradicionalmente uma grande importância: as eleições municipais, por razões nomeadamente históricas, e as regionais, devido aos largos poderes atribuídos às comunidades autónomas pela Constituição de 1978 e pelos diferentes estatutos de autonomia. Assim, aquando das municipais de 12 de Abril de 1931, os republicanos tinham ganho muitas das  capitais de província, e o rei Afonso  XIII, avô de Juan Carlos, tomou  a decisão de deixar o seu país.

 

Este vazio do poder   provocou  a instauração da Segunda República, proclamada a 14 de Abril, que durou até aos  horrores da guerra civil (1936-1939) e extinguiu-se com a vitória do general Franco, no poder até 1975. Percebe-se pois  que os resultados das  municipais sejam  sempre acompanhados com muita atenção pela inteira e sejam  sempre analisados  minuciosamente  .

 

No dia  22 de Maio, as eleições municipais   realizaram-se em todo o  território; em contrapartida, as regionais desenrolavam-se apenas em treze das dezassete comunidades autónomas, as quatro regiões ditas  “históricas”, nomeadamente a Andaluzia, a Catalunha, a Galiza e o País Basco, que têm inclusive o seu próprio calendário eleitoral.

 

Assim, por exemplo, se um eleitor fosse  votar em Barcelona ou em Málaga, ele fazia-o para as municipais. Em contrapartida, um eleitor em Madrid ou em Valência podia ao mesmo tempo votar para  o seu conselho municipal e para  o seu Parlamento regional.

 

Os resultados não deixam margem para dúvidas relativamente ao PSOE, a dez meses apenas das legislativas  previstas o mais tardar para Março de 2012: uma diferença de 10 pontos de percentagem e mais de 2 milhões de votos  em prol do seu principal adversário, o Partido popular (PP) ; a perda de bastiões socialistas como Barcelona (em prol dos nacionalistas catalães de CiU) ou Sevilha (em prol do PP); o deslocar para a  direita de várias regiões, entre as quais  Castela -la Mancha,  ganha depois de cerrada  luta pela secretária geral “popular”, Maria Dolores de Cospedal; esmagadora derrota, com uma de maré “popular” na  Andaluzia, a pátria de Felipe Gonzalez, tradicionalmente situada  à  esquerda; a confirmação das maiorias absolutas “ populares” , em Madrid de  Esperanza Aguirre, presidente de região, e de Alberto Ruiz-Gallardon, presidente da câmara municipal; a penetração da coligação de esquerda revolucionária nacionalista abertzale Bildu, considerada como  o braço político da  ETA, no País Basco.

 

Mais do que  uma vitória do  PP, que ganhou somente  500.000 votos, trata-se de uma derrota  do PSOE, que perde mais de 1,5 milhão de votos.

 

Num país onde poucos  são os  eleitores  que passam de um grande partido para um outro grande  partido, por outras palavras do PSOE para o PP  ou vice-versa, estes votos  foram captados por partidos nacionais como UPyD (União Progreso yDemocracia, partido jacobino  de centro esquerdo ganho por Rosa Diez, socialista dissidente), e IU (Izquierda unida, coalição marxista), ou  por partidos regionais como o PNV (Partido nacionalista basco, nacionalista basco de centro direita) ou  por CiU (Convergencia I Unio, coligação catalã  de centro direita).

 

A Espanha entrou, portanto,  na era pós-Zapatero. Os movimentos em curso e as eleições fazem apenas confirmar esta realidade. Tudo isto exprime, diferentemente mas sem  equívoco possível,  a grande vaga  da sociedade espanhola provocada pela grave situação que atravessa, bem como a falta de confiança quer no que diz respeito ao conjunto da classe política, quer no que diz respeito ao governo. “ Os Indignados”  estão  muito  longe de  terem  o monopólio da indignação.

 

A  algumas semanas das eleições, os barões socialistas tinham exigido e tinham obtido de Zapatero que anunciasse  publicamente que não se candidataria a  uma terceira legislatura. Esperavam assim evitar a hemorragia dos votos  anunciada por todas as sondagens, preferindo apresentarem-se sem candidato à sucessão de Zapatero, do que se apresentarem   com ele. Em vão.

 

Imediatamente depois das eleições, alguns tenores socialistas, como  Patxi Lopez, lehendakari, presidente  do governo basco procedente de uma coligação  atípica a nível regional do PSOE e do PP, aceleraram  o processo de nomeação de um candidato socialista às eleições. A escolha levou-os  ao  Vice-Presidente do governo e ministro do interior, Alfredo Pérez Rubalcaba, em desfavor  da  jovem ministro da defesa, Carme Chacon, que fez “ uma grande caixa ” em toda a imprensa internacional quando passou as tropas  em revista, grávida  de sete meses, aquando da sua entrada ao governo.

 

Ambos  apareciam desde há alguns meses como os  possíveis herdeiros. É provável que a grande experiência de um homem especialista em questões  do terrorismo pesou na balança, no momento em que Bildu efectua um avanço espectacular e se torna   a segunda força política no País Basco, atrás do PNV, com 25% dos votos. As fugas de WikiLeaks, abundantemente retransmitidas pelo diário El Pais, mostram  a que   ponto os Americanos consideram Pérez Rubalcaba como um formidável animal político. Um simulacro de primárias abriu-se 1 Junho e encerrar-se-á a 15 de Junho.

 

Excepto qualquer surpresa improvável, Rubalcaba será por conseguinte o candidato socialista às próximas eleições legislativas. A questão que se levanta   é a de saber  se Zapatero, que continua ser o primeiro ministro e a ser o  secretário geral do PSOE, poderá  permanecer   no comando,  do seu governo e do seu partido, ou se dever convocar um congresso extraordinário do PSOE e/ou  convocar  eleições parlamentares antecipadas.        

 

A Espanha, economicamente KO, está a ser  dirigida por um homem politicamente KO. Pode a Espanha  permitir que assim seja?

 

Se a probabilidade de evitar uma vitória do PP  nas  eleições gerais parece agora  ténue, o PSOE vai  procurar  diminuir a distância que separa  os dois partidos maioritários nas últimas eleições  e que aumentou, de acordo com as  últimas sondagens, de 13 para 15 pontos em percentagem. A questão  não é pois  tanto saber se o PP vai  ganhar as eleições, mas se obterá ou não a maioria absoluta. Ora “o Partido Popular”  é  caracterizado por uma ausência de programa.

 

A sua campanha eleitoral e, de maneira mais geral, a sua estratégia política assentam  sobre a crítica das medidas governamentais. Espera-se sempre da parte dele  propostas precisas. Duvida-se  que venham a impor  medidas de austeridade à maneira de  James Cameron, mas sem outra precisão. Este silêncio, que lhes serviu até agora , poderá voltar-se contra eles. Ouvem-se já  vozes no partido contra o  mutismo de  Mariano Rajoy, o seu presidente. Os mais  pragmáticos  assinalam que a margem é tão estreita para uma Espanha encosta de tal modo à parede  como ela  está  que o governo, qualquer que seja a sua cor  política, poderá apenas aplicar as medidas que lhe forem  ditadas pelo Fundo Monetário  Internacional (FMI), pela  Comissão Europeia e pelo  Banco Central Europeu (BCE). Neste caso, para quê  então  tanta discussão!

 

Uma outra notícia passou despercebida na imprensa internacional: o rei Juan Carlos não navegará este verão, como era seu  hábito  fazê-lo nas suas férias de Verão, para Palma de Maiorca . Não terá mais a seu cargo a direcção do leme dos eu barco . Às perguntas que lhe  faziam  os  jornalistas sobre a sua saúde, respondeu com garra : “ estou  muito mal. Vocês gostariam de me ver morto  e dão-me diariamente um murro no  estômago  na imprensa. »

 

A Espanha estará ela  a perder o seu timoneiro , o monarca que soube restaurar a democracia no seu país e é o chefe de Estado muito pouco contestado desde o dia 22 de Novembro de 1975? Deve a Espanha preparar-se para o após Juan Carlos?

 

Sylvia Desazars de Montgailhard

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Os Indignados e os Resignados Nesta Europa em Crise - Branko Milanovic.

enviado por Julio Marques Mota ( ver)

Primeira parte

 

Iniciamos com este artigo de Branko Milanovic colocado no blog de Mário Nuti  sobre  Os Indignados uma série de pequenos textos dedicados ao tema da juventude nesta Europa em crise.

 

No caso presente,  o texto de Branko Milanovic merece uma leitura muito atenta pela importância do seu autor, pelo tema e pela qualidade do texto. Pessoalmente   fiquei com algumas interrogações  sobre a mensagem que Branko Milanovic nos quer passar. Escrevi-lhe.  A carta será publicada posteriormente. 

 

BRANKO MILANOVIC: CURRICULUM VITAE

 

Economista Chefe do Departamento de Investigação do  Banco Mundial , na área de investigação sobre a desigualdade e a pobreza.  Especialista Associado do  Caranegie  Endowment for International Peace, de Washington. Trabalha actualmente sobre as questões da globalização, da distribuição do rendimento e da  democracia. Anteriormente, trabalhou como economista  do Banco Mundial sobre  a Polónia (1988-1991) e foi investigador  do Instituto de Ciências Económicas, em Belgrado, Jugoslávia (1980-83 e 1986-88). Desde 1996, é professor adjunto na área das Economias em Transição na School for Advanced International Studies Johns Hopkins University

 

Branko Milanovic, que contribuiu com um post recente  sobre a desigualdade no meu artigo sobre a Desigualdade e a Crise Global, passou o último mês em Madrid, vivendo intensamente a situação  de La Puerta del Sol. Ele contribuiu a meu pedido com este texto sobre a revolta actual de Os  Indignados. Isso é para começar a iniciar o debate, e certamente que  outros desejarão  contribuir. Por todos os meios comente,  via e-mail se o tem, mas é mesmo preferível comentar directamente no post.


Várias semanas antes, o jornal espanhol "El Pais", um dos principais jornais diários do mundo, realizou uma festa para comemorar o 35 º aniversário da sua fundação. "El Pais" nasceu  nos  dias da "transição" espanhola da ditadura de Franco para a democracia, e tem ao longo da sua existência permanecido de forma  consistente pró-democrático  e de centro-esquerda. O jornal  é talvez o que  melhor reflecte o período da notável transformação da sociedade espanhola da ditadura para uma das democracias mais tolerantes do mundo, de país de emigrantes para o país em que os estrangeiros, vindos de toda parte, literalmente, representam agora cerca de  12 por cento da população ; a partir de um país de rendimento  médio e mesmo em alguns aspectos, sendo de partida  um país subdesenvolvido dá-se a transição para um país rico com comboios e auto-estradas  de primeira qualidade. Numa  demonstração de empenho  com a democracia e com a tolerância, a festa de  "El Pais" teve a participação de todos os primeiros-ministros espanhóis  desde a transição, sejam de esquerda ou de  direita. O tom dos discursos foi de comemoração e talvez com um pouco de  presunção. Elogios para a democracia e para a  transformação em Espanha não foram  excessivos, considerando o que foi alcançado nas  três décadas anteriores, mas talvez um pouco “ensurdecedores”, lembrando uma ou mais  das declarações formais sobre a importância da democracia que pode ser ouvida nos Estados Unidos em todos os  dias  4 de Julho. Eu pensei que, com excepção da Polónia, República Checa e, talvez, os estados bálticos, seria difícil imaginar tais palavras  optimistas em ocasiões semelhantes na Europa Oriental.  A razão é simples:  a democracia é uma coisa boa e há razão para a celebrar , mas só se e só se esta for acompanha e em simultâneo  com o desenvolvimento económico e com rendimentos mais elevados. E é nisto que a Espanha foi realmente muito bem sucedida , de tal modo que  a geração que realizou este feito histórico tinha muitos bons motivos para comemorar este mesmo feito histórico. Ou assim parecia.

 

publicado por Augusta Clara às 13:00
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