Segunda-feira, 14 de Março de 2011

Todos os dias há factos a recordar– por Carlos Loures

 

Não me canso de citar o António Maria Lisboa quando disse - «O Futuro é tão antigo como o Passado. E ao caminharmos para o Futuro é o passado que conquistamos». De onde se pode inferir que não é possível compreender o Futuro se não explicamos a nós mesmos o passado. É isso que tentarei fazer nestas pequenas crónicas – Pretérito imperfeito, porque o passado só é perfeito para quem o recorda com nostalgia. Aqui, vou procurar visitar o passado com os olhos postos no futuro - nunca com o olhar saudosista  de quem lamenta que o tempo não ande para trás.

 

Falarei de História e contarei histórias. E abro já um parêntesis – histórias e não estórias, como vejo para aí gente com responsabilidades a escrever, com o ar de quem está a inovar o idioma. Fechando o parêntesis, digo que a memória é o  melhor GPS para percorrer a estrada que à nossa frente se abre. A História não se repete, mas ensina.

  

Memórias, a pequena e a grande História vividas na primeira pessoa. Memórias não necessariamente minhas. Poderei também apresentar sob o mesmo título textos de outras pessoas que se enquadrem na visão do passado que aqui enunciei.

  

Finalmente, por coisas assim, entendo tudo o que me passar pela cabeça, mesmo que nada tenha a ver com o que atrás enumerei.. Significa este remate do título que tudo o que me apetecer escrever pode abrigar-se debaixo deste toldo.

 

Hoje atiro-me ás efemérides. E afirmo – todos os dias há factos a recordar. Hoje, 14 de Março, haveria dezenas de acontecimentos a assinalar – tantos que me darei ao luxo de apenas aproveitar uma pequena parte.

 

 

 

 

Fiquem então a saber (ou se já sabiam, façam o favor de recordar) que no dia 14  de Março de 1492 , a rainha Isabel I de Castela ordenou a seus súbditos judeus e muçulmanos que se convertessem ao cristianismo. Em 1804, nasceu Johann Strauss, compositor austríaco, neto de um judeu convertido ao catolicismo Em 1879 nasceu, também numa família judaica, Albert Einstein, físico suíço-alemão naturalizado americano. Em 1883, morreu Karl Marx, filósofo e teórico político alemão, filho de uma judia holandesa. Em 1937 O Papa Pio XI condenou o nazismo, na encíclica Mitbrennender Sorge.

  

Isabel a católica cometia um terrível erro, decapitando os seus estados ao privá-los da sabedoria judaica e muçulmana. Prisioneira da sua circunstância, perdida no seu labirinto de misticismo integrista, talvez não pudesse actuar de outra forma – Mais de quatro séculos e muitos avanços científicos depois – as mesmas razões que moveram a rainha castelhana – convicções religiosas e interesses pecuniários, (bem como o comportamento das comunidades judaicas, que sempre facilitou a tarefa a quem as quis perseguir) – conduziram ao Holocausto.

  

Em três 14 de Março, nasciam dois génios oriundos de famílias judaicas - Johann Strauss e Albert Einstein. No mesmo dia, mas de 1883, morreu Karl Marx , outro judeu cuja obra mudaria no século seguinte a face do mundo. Neste dia de 1937 O Papa Pio XI condenou o nazismo, na encíclica em que a Igreja manifestava a sua preocupação pelo tom pagão que o Terceiro Reich impunha à religião.

 

Depois as coisas iriam compor-se entre Pacelli e o nacional-socialismo, dando início a uma bela amizade. Amizade que o pormenor da supressão de seis milhões de seres humanos não perturbou.

 

Passaram-se muitas coisas noutros 14 de Março.

  

Todos os dias há factos a recordar.

 

 

 

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira às 18:54
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Sábado, 9 de Outubro de 2010

História breve da República do Chile-2 - por Raúl Iturra

Solitário, no emocional. No emocional pessoal. Porque há o costume de namorar, pololear como aí é dito. E Victoria estudava. O estudo retirava-a do conjunto de assuntos de que não queria ouvir falar. A rapariga que eu conheci, era amável, é amável; era atenciosa, é atenciosa; era divertida, e é. A rir, a festejar, a gostar de ir aos rodeios ou festas onde os homens correm a cavalo, empurram os animais novos, fazem-nos suar para, assim, perderem o pelo da pele nova, ficarem mais mansos, mais domesticados, subjugados aos homens. Assunto já não tão divertido e, no entanto, parte da festa do rodeio. Victoria via, ouvia e calava, mas festejava com os que corriam. Uma corrida masculina, que achou sempre injusta. Porque é que o masculino e o feminino não são iguais? Porque é que as mulheres têm de se subordinar aos homens?

Sempre? Teorizava como José e Jesus eram subordinados à Nossa Senhora. O mito hispânico a funcionar. Porque o mito Picunche só coloca a mulher shamã, essa que sabe mais, por cima das outras pessoas, o universo feminino é sempre inferior. O tempo de Victoria, esses anos setenta, oitenta e noventa, anos em que masculino e feminino trabalhavam igualmente, com ordenados que permitiam a independência de todos. Anos que aumentaram o trabalho da mulher. Público e doméstico Em consequência, a possibilidade de uma proximidade emotiva simples, de transferência amorosa, fraterna e leal não estava facilitada.

Aos vinte e cinco anos, já a mulher era casada ou com filhos. Ou tinha uma profissão. Nos seus vinte e cinco anos de idade, guarda o tempo para a sua profissão e trabalho. Da pequena reguila a correr pelas ruas, passa a ser a mulher noiva que todos consultam e respeitam, a quem confiam os seus pequenos, caso seja preciso, e comentam os seus assuntos que ela ouve com a sabedoria que o quotidiano lhe dá. Quinhentos anos antes, teria sido já uma mulher mãe, ao pé das outras mulheres mães do mesmo cacique ou chefe de família. Quinhentos anos depois, é a católica consultada e conhecedora das casas, das pessoas e das coisas. Com os costumes Picunche perto dela, que aceita sem perguntar e trata sem hierarquizar. No restaurante de Alexandra, onde comíamos, ela ia à cozinha para tratar da minha comida, assim como nas pesquisas em arquivos, silenciosamente, com o tempo, construiu matematicamente a genealogia que orientou a minha escrita. São assim hoje todas as mulheres Picunche - inquilinas, proprietárias ou tecedeiras? Diria que bem longe disso. A sua geração vestia o que a televisão exibia, penteava-se como os artistas, seduzia os rapazes que gostavam da brincadeira. É notável ver como no sítio de três mil habitantes dispersos, que constituem Pencahue, o passeio é ir ao largo municipal e namorar aos abraços, em público. A descendência nova, esfrega-se, beija-se, fuma e namora ao mesmo tempo, senta-se nos bancos do largo, elas no colo deles, as conversas são sobre as outras pessoas; a chegada a casa é tarde e em silêncio, ouvidos surdos ao que os pais possam dizer. É um esplendor na relva universal e público, com intimidades e abortos não permitidos por lei, como com bebés não permitidos, embora criados pelos pais. Uma alta percentagem de raparigas, acabam como empregadas domésticas na cidade de Talca, ou vão engrossar a fila de habitantes da Capital da República, Santiago. Enquanto eles, servem de motoristas, mecânicos, empregados de supermercados.

E eles e elas, de prostitutos nocturnos na vizinha cidade, nos sítios privados que pagam os ricos, para se divertirem com jovens do seu mesmo sexo, ao proprietário do local em importâncias que dava para uma família pobre viver vários meses. A população urbana do sítio de Pencahue, é consumidora de drogas, de álcool, de divertimentos que não permitem ao eu falar com um eu. Depois de falar com vários, apercebo-me que o que se procura, rapidamente, pelo meio mais curto possível, é dinheiro. Num País que ficou sem trabalho para uma larga percentagem da população oriunda de fora dos centros urbanos interessantes para os investidores, Pencahue, essa terra Picunche, com os traços Picunche feitos europeus nos hábitos e sem meios para os materializar, oferece uma indústria de madeiras, e duas em Talca: para manufacturar porcinos, e uma fundição, a da família Cruz; trabalho de jornaleiro no campo e cuidados paternos e domésticos até tarde na vida, deram origem a correntes migratórias. A maior parte da população que não vive do campo, recebe salários de empregos estatais. Pencahue é o sitio que incrementa anualmente o internacional Produto Geográfico Bruto, de 3% sustido, porque não há força de trabalho ocupada e autónoma.

Contrário à doutrina espalhada nos últimos 24 anos, a plena ocupação ou o pleno emprego é baixo, os postos de trabalho escassos e os sítios para trabalhar, longínquos. Como as indústrias de processamento de madeira de Constituição, o porto marítimo do mesmo sitio, e a transferência para os sítios de trabalho, em carros ou carrinhas partilhadas. É desta forma que o País tem incrementado as riquezas dos centros urbanos centrais, quer dizer, de Santiago e de cidades de lazer, como Viña del Mar. Pencahue é pobre, porque o país é pobre. Um ordenado de jornaleiro acaba por ser de mil pesos (moeda nacional) por dia, o equivalente a 1.50€ por dia. O salário mínimo mensal é de 40000 pesos (15.000€), sem imposições.

As famílias precisam habitar sob o mesmo teto para compartir o que ganha, porque a política de preços é alta. Um quilo de pão, três ou quatro unidades, é de quase 500 pesos. É por isso que a população vive de chá e pão, ou sopa de abóbora, a penca que dá nome a Pencahue. Um lugar de trabalhadores manuais, obrigatoriamente formados na escola e no secundário até à idade de 15 anos. Escolas dependentes das municipalidades, que podem conceder bolsas, caso o Ministério da Educação assim o estimar conveniente.

O alegar de que nós é que amamos, é uma ironia minha, retirada da realidade de um País que dava emprego no exército à maior parte da população, e à que não dava, expulsava-a, obrigando-a a sair do país, fazendo-a desaparecer, no limite matava culpando vizinhos inocentes. O que antigamente foi a saída para muitos homens, o exército, é hoje obrigatório para homens e mulheres. Muitos dos quais têm feito parte da guarda pessoal de famílias determinadas, como essa que se apropriara do vale de Pencahue, da antiga Hacienda Quepo e Los Almendros e Lo Figueroa. Terras todas entregues, ao longo de 18 anos, a familiares do ex-proprietário do Chile, o Ditador que era dessa zona. O exército conta com 300.000 mil efectivos, dentro de uma população de 12 milhões de habitantes no País, com 60% de menores de 18 anos.

Uma população nova, sem futuro. Muitos dos efectivos, habitam na área de Talca, Regimento de triste memória por ter servido de prisão a um grande número de pessoas. Regimento que bem conheço por dentro. O amor é resultado da política económica. Ainda que em Antropologia exista um debate sobre o assunto, e se pense que não há relação entre economia e afectividade, Dalton (1971), Polanyi (1957), e, mais recentemente, Humphrey e Hugh-Jones (1992), que recorrem à etnografia de sítios nativos, como se nesses sítios não houvesse também um capital que manda. Como é demonstrado pelas guerras africanas de hoje como na Guiné-Bissau, Zaire, Ruanda ou Sudão, por exemplo, ou no Peru, na Indonésia, no Iraque, entre outros paises. Ainda que quem é hoje, guarda os valores da memória social dos ancestrais, como tenho debatido, mas tem novos elementos que lhe permite transformar essas memórias que, embora guardadas, ficam para um momento de melhor estabilidade.

Não vi em Pencahue lar nenhum que fosse calmo no seu interior. Excepto o das pessoas das áreas rurais. A concorrência nas grandes cidades é grande, é ilegítima, é à Henry de Montchretienne (1616), que no século XVII, já advertia no seu Traitée d’ Economie Politique, ser o capital para lutas entre pessoas (irmãos que matam irmãos, amigos que matam amigos). É verdade que tenho escolhido Victoria como elo, porque na sua família há zangas e mágoas provenientes não só de problemas emotivos. Clodomiro o pai, chegava a casa bêbado e sem dinheiro, motivo que levou a mãe à separação. A economia acabava por assentar nela e em Rebeca, a irmã mais velha, que também expulsou o seu homem, por causa do dinheiro compartido com outra. E é entre mulheres que a casa anda. E é entre mulheres que os afectos andam. Para um País em transição, onde nunca se sabe se haverá mais perturbações.

Sim, nós é que amamos, mas assim. Sim, é o que eu sou, mas assim. Eis que Victoria escolhe o seu caminho, deixa o lar, estuda, trabalha, mora fora da casa doméstica. Como a maior parte do povo faz. Como vi, trinta e três anos antes, em sítios de bairros de lata. Como não me deixaram ver, no dia que fui oficialmente convidado a voltar ao Chile, levando-me pela estrada de circunvalação da capital, a pobreza da cidade. Período em que sempre, estrategicamente, alguém tomou conta das minhas conferências, para que eu não falasse do que pudesse ser pouco conveniente ao sistema. Ou que eu não quis ouvir. Como não oiço agora que escrevo o que sou, e persisto em escrever o que sou. A passagem pelo campo de concentração, que Victoria nunca viu e do qual eu nunca falei. Como o tempo na Galiza antiga e que deixou marcas que sararam. Como as do Chile, que um dia talvez, venham a melhorar. Como aos poucos, melhoram.

Com as Victorias que sabem comportar-se, porque viveram um sistema durante estes vinte e cinco anos. Uma Victoria que, como tantos outros, prefere ignorar para viver em paz. Porque o que eles são, são dignos de saber ignorar, de não ouvir, de não ver, de calar. De ver, ouvir e calar. Como na Galiza necessariamente já não é. Foi. Mas foi esquecido. No Chile, é ignorado. Entre os Picunche, é outro tipo de assuntos, mais pessoais, que os envolve, e nos quais se deixam envolver localmente para se afastarem da sociedade global, que ainda não mudou como se quer e se luta para mudar como mudara, tão rapidamente, a Galiza que é, hoje em dia, a Holanda da Península Ibérica. Orientada pela sociedade global. Ideias que debaterei noutro poste
publicado por Carlos Loures às 23:55
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