Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Coordenação de Augusta Clara de Matos

 

  

  

  

Entre o Eden e o Inferno (II)

 

  

por Carlos Loures

 

 

  

 

  

Contemporâneo de Hieronymus  Bosch,  Sebastian Brant (1457-1521),

um jurista de Basileia, escreveu em 1494  Das Narrenschiff ou Stultifera navis, na versão em latim. Já aqui dediquei um artigo a essa Nave dos Loucos que, sem grande mérito literário, teve grande repercussão, chegando  o seu eco até aos nossos dias.

  

E acentuei que grandes artistas como Hieronymus Bosch e Albrecht Dürer se inspiraram em Brant.  A ideia central é simples – numa era de navegações, a simbologia náutica era uma constante. Assim, Brant coloca na Sultifera navis diversos tipos de loucos, 112 ao todo  Os passageiros representam todos as classes – clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e  artífices. Uma crítica à sociedade europeia daquele tempo de transição. Bosch pintou um quadro a que deu o título do livro de Brant

A Nave dos Loucos.

 

Das Narrenschyff é, sobretudo, um poema moralista  e nas suas

páginas sente-se uma  viva angústia pela trágica situação da Igreja de Roma, sobre a qual  sopravam já os ventos de divisão que resultaram na Reforma, e pela iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado naquela época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos, de Brant era, portanto, uma mística barca representando a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», filhas do Renascimento, concebidas a partir das cinzas profanas da Grécia e de Roma.

 

O nosso brabantino Hieronymus Bosch parece no Jardim das Delícias Terrenas denunciar, mais do que criticar, a devassidão que irá conduzir as sociedades europeias, guiadas por Roma, ao colapso – o mundo corre o risco de se afogar no próprio vómito.

 

Mas então como é este tríptico de que tenho estado a falar? Onde estão os tais sinais de alarme? Pois bem, como todos os trípticos, é composto por uma tábua central e por dois postigos ou asas que, articulados, se fecham sobre essa tábua. Quando fechado,  o conjunto apresenta este aspecto:

 

 

 

  

Representa-se, no verso das tábuas laterais, o terceiro dia da Criação do Mundo – não se  vêem seres humanos nem animais – apenas, dentro de um frágil globo transparente, vegetais e minerais pintados em tons de cinzento e verde – uma forma de contrastar com a intensa cor que surgirá logo que se abram os dois postigos O tríptico, quando fechado, tem uma citação transcrita do Génesis "Ele mesmo ordenou e tudo foi criado". Abrindo-se as duas asas ou postigos, deparam-se-nos as três tábuas – uma explosão de cor e de beleza - no postigo da esquerda o Paraíso  Terreno ouTerreal; ao centro a tábua principal -  o Jardim das Delícias  - e no postigo da direita o Inferno Musical.

 

 

 O Paraíso Terreal mede 220 centímetrosde alto por 97,5 cm. de largo. Ao fundo pode ver-se a Fonte da Vida e as três personagens principais - Deus, Adão e Eva.  Deus apresenta Eva recém-criada a Adão. Uma palmeira representa a árvore do bem e do mal, com a serpente que irá desencaminhar Eva já enroscada – sempre o perigo das más companhias! – e a árvore da vida, um drago – árvore que só tenho visto na ilha de Porto Santo. Neste jardim edénico, Bosch reflecte as descrições que então abundavam sobre as Índias onde, segundo as tradições medievais, se situava o Paraíso perdido.

 

Na terceira tábua, o postigo da direita, surge-nos o inferno em todo o supersticioso  esplendor das lendas medievais. Não tem chamas, mas insinua torturas, dores inomináveis, seres que configuram um bestiário de pesadelo  que dificilmente a imaginação humana conseguiria, sobretudo antes de Guernica e Auschwitz conceber. O que parece é que o inferno que nos aparece neste tríptico, inferno musical pela profusão de instrumentos que o povoam, espelha o inferno pessoal do pintor, os seus traumas sobretudo.

 

Mas vamos concentrar-nos na tábua central que, obviamente, mede o dobro dos postigos laterais, no Jardim das Delícias Terrenas, pois é aí que Bosch representa a vida dissoluta, os pecados, as tentações que obrigam a fazer a viagem do sonho ao pesadelo, do paraíso ao inferno, As personagens magistralmente criadas movem-se no meio da devassidão com grande à vontade. Houve quem atribuísse a Bosch, mercê das suas alegadas ligações ao satanismo, a defesa do amor carnal sem peias teológicas, morais ou de outra espécie, a entravá-las. Não creio. Embora a tempestade luterana se tenha desencadeado um ano após a morte de Bosch, havia já muitos sintomas de heterodoxia cismática, nos escritos de Erasmo, por exemplo, Os ventos da Reforma não sopravam, mas as nuvens da tempestade acastelavam-se sobre Roma.

 

 

E tal como Brant na sua Nave dos Loucos avisava os homens de que a não moderarem a sua

loucura, aportariam a um mundo sem nexo ou sentido, Bosch, numa atitude de temor, avisa que do Jardim dos deleites carnais há ligação de alta velocidade para o inferno – as delícias gozadas aqui serão pagas lá, na estação terminus. Porque o Jardim é o lugar onde os homens jogam o seu destino, a sua vida eterna. Vida que se joga entre o Paraíso e o Inferno, entre Deus e o Diabo – e, pela exuberância de situações descritas no painel central, Bosch parece declarar que, entre o bem e o mal, é o pecado que está a levar a melhor. Dito de outro modo, a pintura parece defender a tese teológica de Roma, embora também reflicta as preocupações que conduziram à Reforma.

 

 

Pelas razões que me levaram a tecer considerações sobre a arrogância de que a ignorância é

mãe, não vou fazer juízos fora de contexto. Como poderia acusar Bosch do crime de ser, como todos somos,   refém da sua circunstância, do labirinto temporal em que todos nos perdemos?

 

Digo apenas que a grande arte, como a de Bosch, é sempre premonitória. Bosch prevendo os

horrores que as guerra religiosas iriam acarretar para toda a Europa, se assemelha a Picasso. Pois

na denúncia do crime de Guernica, destruída pelos aviões da Legião Condor, não se adivinha já o horror do Holocausto e do inferno nuclear em Hiroxima e Nagasáqui?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 14:00
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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

 

 

Entre o Eden e o Inferno (I)

Carlos Loures

 

 

 

 

Como num bizarro parque temático, entre o Paraíso e o Inferno, fica o Jardim das Delícias Terrenas. No entanto, o título do famoso tríptico de Hieronymus Bosch, que podemos apreciar no Museu do Prado, em Madrid, não foi por ele atribuído à obra. Ter-lhe-á talvez chamado “Uma pintura sobre a variedade do mundo". A seguir, foi designado pelo monge José de Sigüenza como o "Cuadro de las fresas" – Quadro dos morangos -  alusão aos frutos que enxameiam a tábua central – mais do que agora, os frutos sugeriam imagens libidinosas. «Comer fruta» na linguagem medieval, além da acepção mais imediata e inocente, tinha um sentido de comércio carnal. Só em 1912 um catalogador lhe dá um nome próximo do actual – tríptico dos “Deleites Carnais”. Daí sai a sua denominação actual de "Jardim das delícias" ou "Das delícias terrenas".

Durante a Guerra Civil foi transferido para o Museu do Prado em 1936, ficando depois da vitória franquista integrado no espólio do museu sob a actual designação - Jardim das Delícias Terrenas. É uma obra maravilhosa e fascinante. Quando vou ao Prado, fico em frente deste prodígio da arte e descubro sempre pormenores novos.

 

Diga-se que  o termo “delícias” ou “deleites” deve aqui ser assumido num registo irónico, condenatório talvez – por “delícias” o religioso e o funcionário do museu que crismaram a obra deviam entender os pecados e as tentações que permitem viajar do paraíso, representado no postigo da esquerda, onde reina a inocência, para um inferno que, no postigo da direita, Bosch pintou com imagens que parecem ter sido arrancadas a horríveis pesadelos, mas que nas caves do Santo Ofício em breve se tornariam realidade. Antes de vos falar no quadro, gostava de vos alertar para uma constante da condição humana – a de que a ignorância é quase sempre arrogante.

Quando nos rimos dos trajes arrebicados da aristocracia europeia do século XVIII ou dos saltinhos que as personagens dos filmes de há cem anos pareciam dar (porque só em 1929 se passou dos 16 fotogramas por segundo para os 24 que permitem reproduzir com mais rigor os movimentos), estamos a dar largas a essa arrogante ignorância. Não nos ocorre que daqui por umas décadas tudo o que fazemos e usamos provocará gargalhadas aos vindouros – telemóveis, computadores, DVDs, as roupas, os comportamentos, tudo isso fará rir os arrogantes estúpidos, bisnetos ou trinetos, dos actuais pobres de espírito. Na verdade, a natureza humana é imutável e a «evolução das mentalidades» é uma falácia introduzida por sociólogos respeitáveis (mas que nem por isso não deixa de ser uma falácia).  As mentalidades não evoluem, adaptam-se. Evolução significaria pessoas mais inteligentes de geração para geração. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» - Neste simples verso, Camões descreveu melhor essa mudança comportamental do que os sábios sociólogos.

publicado por Carlos Loures às 14:00

editado por Luis Moreira em 12/01/2011 às 22:56
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