Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010

Os valores de todas as coisas (II)

(Conclusão)
George Monbiot

Esta viragem foi reforçada pela publicidade e pela comunicação social. O fascínio da comunicação social pelos políticos no poder, as suas listas de ricos, os seus catálogos das 100 pessoas mais poderosas, influentes, inteligentes ou bonitas, a promoção obsessiva que faz da celebridade, da moda, dos carros velozes, das férias caras: tudo isto incute valores extrínsecos. Ao gerar sentimentos de insegurança e de inadequação – o que equivale a reduzir o sentimento de estar bem consigo próprio – também afasta os objectivos intrínsecos.


Os publicitários, que empregam muitos psicólogos, estão perfeitamente conscientes disto. Crompton cita Guy Murphy, director do planeamento global da companhia de marketing JWT. Os técnicos de marketing, diz Murphy, “deviam ver-se a si próprios como agentes de manipulação da cultura; como sendo engenheiros sociais, não como gestores de marcas; a manipularem forças culturais, e não a impor marcas”(4) . Quanto mais promovem valores extrínsecos, mais fácil se torna venderem os seus produtos.

Os políticos de direita também perceberam, instintivamente, a importância dos valores para mudar o mapa político. Ficou famosa a afirmação de Margaret Thatcher de que “a economia é o método; o objectivo é mudar o coração e a alma” (5). Os conservadores nos Estados Unidos costumam evitar debater factos e contas. Em vez disso procuram caminhos que levem a apelar e a reforçar os valores extrínsecos. De ano para ano, através de mecanismos difíceis de ver à vista desarmada e raras vezes discutidos, o espaço onde as ideias progressistas podem florescer encolhe mais um pouco. A resposta progressista a esta tendência tem sido desastrosa.

Em vez de enfrentarmos a viragem no campo dos valores, procurámos adaptar-nos a ela. Partidos políticos que em tempos foram progressistas tentaram aclamar atitudes do público em vias de alteração: lembrem-se de todos aqueles apelos do New Labour (6) à Inglaterra Média, que muitas não eram mais do que normas de defesa dos interesses pessoais. Ao procederem assim assumem e legitimam valores extrínsecos. Muitos promotores da defesa da natureza e da justiça social também tentaram chegar às pessoas apelando ao interesse pessoal: por exemplo quando afirmam que combater a pobreza nos países em desenvolvimento vai criar mercados para os produtos britânicos, ou quando sugerem que o comprador de um carro híbrido impressiona favoravelmente os amigos e eleva o seu estatuto social. Esta táctica também fortalece os valores extrínsecos, reduzindo ainda mais as possibilidades de sucesso de campanhas futuras. O consumismo verde foi um erro catastrófico.

Common Cause propõe um remédio simples: que deixemos de esconder os nossos valores e passemos a explicá-los e promovê-los. Sugere que os activistas progressistas ajudem a promover uma compreensão da psicologia que imbui a mudança política e a mostrar como foi manipulada. Também deveriam unir-se para enfrentar as forças – em particular a indústria da publicidade – que nos tornam inseguros e egoístas.

Ed Milliband dá a ideia de ter compreendido esta necessidade. Disse no congresso dos trabalhistas que “quer mudar a nossa sociedade de modo a valorizar a comunidade e a família, não apenas o trabalho” e que “quer mudar a nossa política estrangeira de modo a que seja baseada em valores, não apenas em alianças… Temos de mudar o velho pensamento e apoiar os que acreditam em que a vida não se resume ao nível de sobrevivência.” Mas há aqui um paradoxo, o que quer dizer que não podemos confiar nos políticos para impulsionar estas mudanças. Os que triunfam na política são, por definição, pessoas que dão prioridade aos valores extrínsecos. A ambição fá-los pôr em segundo plano a paz de espírito, a vida familiar, a amizade – até o amor fraternal.

Assim nós próprios vamos ter de conduzir esta viragem. As pessoas com valores intrínsecos fortes têm de os assumir abertamente. Temos de argumentar pelas políticas que queremos não numa base de oportunismo mas na base da empatia e da benevolência; e contra outras porque são egoístas e cruéis. Ao fazermos valer os nossos valores tornamo-nos na mudança a que queremos assistir.

_____________

(4)Guy Murphy, 2005. Influenciando o tamanho do seu mercado. Instituto dos Profissionais de Publicidade. Citado por Tom Crompton (ver nota 2).



(5)Margaret Thatcher, 3 de Maio de 1981. Entrevista ao Sunday Times. Citada por Tom Crompton (ver nota 2).


(6)O New Labour apareceu como uma reorientação política do partido trabalhista britânico, sob Tony Blair, aproximando-o do centro e da chamada terceira via. Julgo que pode ser classificado como uma tendência política dentro do partido (Nota do tradutor).


http://www.guardian.co.uk/politics/2010/sep/28/ed-milliband-labour-conference-speech.

(Tradução de João Machado)

publicado por Carlos Loures às 19:30
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Domingo, 9 de Maio de 2010

A Comunicação Social e a Democracia

João Machado

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.
publicado por Carlos Loures às 07:48
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