Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

Noctívagos, insones & afins- Mi Gabriela Mistral

Raúl Iturra


O título tem razão de ser, porque a conheci quando eu era pequeno e, desde logo, a admirei. Conhecia a sua poesia, romântica e combativa. Gabriela Mistral (1) era a leitura obrigatória da minha mãe, que gostava mais de ler que de comer. Essa devoção levou-me em curto espaço de tempo a ler a poetisa. Mal se conhecia a sua obra no Chile, apenas os Sonetos da Morte, escritos em 1914, poema com que ganhara os Jogos Florais de Santiago. Não se apresentou a receber o prémio. Tinha escrito esses versos em memória do seu grande amor, Romélio Ureta, homem fino, com quem namorou, abandonando o seu prometido Alfredo Videla, ambos maestros na escola La Cantera, da cidade de Vicuña. Gabriela Mistral era maestra de crianças e foi sobre elas que começou a escrever.

Não esqueço esse soneto que faz pensar, sentir e chorar, publicado originalmente no seu livro Ternura, de 1922, página 278, intitulado Piececitos:



PIECECITOS

Piececitos de niño,
azulosos de frío,
¡cómo os ven y no os cubren,

¡Dios mío!

¡Piececitos heridos
por los guijarros todos,
ultrajados de nieves
y lodos!

El hombre ciego ignora
que por donde pasáis,
una flor de luz viva
dejáis;

que allí donde ponéis
la plantita sangrante,
el nardo nace más
fragante.

Sed, puesto que marcháis
por los caminos rectos,
heroicos como sois
perfectos.

Piececitos de niño,
dos joyitas sufrientes,
¡cómo pasan sin veros
las gentes! (2)

Embora reclamasse não ser uma mulher política, os seus poemas demonstram, rapidamente, a sua luta contra a injustiça e a desigualdade social. Assim como o seu apoio ao Partido Radical do Chile, fundado em 1858 pelos aristocratas dedicados à melhoria de vida dos mais desprezados e pobres do Chile (3).

Como sabemos, Gabriela Mistral nasce em Vicuña, Vale do Elqui, localizado no norte do Chile, contudo, em breve, passam a morar na aldeia de Botafogo, en la villa de La Unión, onde o pai ensina. Mas, irrequieto, passados três anos, abandona a família, que regressa a Vicuña e passa a viver com a avó materna. Em 1909 morre o pai vítima de excessos alcoólicos e de falta de alimentos. Gabriela, maestra em Antofagasta, soube dessa morte somente em 1911. A sua própria mãe falece em 1929 e Lucila fica entregue à sua sorte.

Quando mais nova, corria a voz de ser retardada mental, de não saber ler nem escrever e não entender a realidade. No entanto, a sua mãe a defendia e acabou o último ano do Liceu em Vicuña acompanhada pela mãe e a sua amiga, a Directora, Dona Emelinda.

Se Lucila parecia tonta, havia um motivo de que pouco se fala, apenas Volodia, o seu biógrafo e meu amigo, refere o facto na página 22 do seu livro referido na nota 1. Lucila foi uma criança abusada, foi violada, não se sabe por quem. Da mesma forma que nunca permitia que se falasse mal do seu pai, também nunca contou esta história, excepto ao seu amigo e escritor notável, César Vallejo. Volodia encontrou, na sua pesquisa, a carta e com toda a delicadeza relata o crime tão delicado, que é preciso ler duas ou três vezes essa página 22 e saber como era a vida dos pobres e das meninas abandonadas tal como a vida rural de sítios mesquinhos como Monte Grande.

No Liceu houve um roubo, Lucila foi o bode expiatório: a escola inteira, no pátio, julgou-a e acusou-a de ladra. Anos mais tarde, já muito conhecida, perguntarem-lhe se se lembrava da Yaya, essa Directora….Com voz dura e sem um gesto, abriu a boca apenas para dizer Eu nunca esqueço nada...

O seu refúgio foi os livros, desde os latino-americanos até Chekov, que muito a impressionara. Era austera, vestia sempre igual, teve o namoro com o jovem antes referido, Alfredo Videla Pineda, que sabia cantar, dançar e tocar piano, era o príncipe azul desta gata borralheira. Mas a sua pobreza não lhe permitia pagar os estudos na Escola Normal Superior e teve de ensinar como assistente numerária, muda de escola todos os anos, percorreu todo o Chile até ao dia em que encontrou dois professores que fizeram mudar a sua vida. Um, o grande amor da sua vida, Romélio Ureta, que se suicida e a deixa só. Foi em sua honra que escreveu Os Sonetos da Morte. Nada se sabe deste amor, não há provas dos seus amores, excepto um cartão com o nome no seu casaco. Conheceu-o nos tempos em que os dois eram docentes em La Cantera. Grande debate se gera em torno desta questão: foi ou não o grande e único amor da sua vida. Ela própria, passados anos, já graduada como professora, após assistir aos convites do Governo Mexicano, diz: essa história é parte da fantasia sobre a minha pessoa. Porquê, porém os versos, porquê esse nicho gelado, porquê estar classificado no seu livro Tala, página 82, entre os versos da dor?

Há outras explicações que uma dezena de biógrafos como Alone, Anderson ou Imbert colocam. Para estes, a realidade passa por Romélio Ureta e Verdugo ser da aristocracia chilena, sobrinho neto de José Miguel Carrera y Verdugo, Libertador do Chile da Coroa Española. Lucila era pobre. É aos seus vinte e cinco anos que fica só para sempre, dedicada unicamente aos seus livros, à sua fama e à carreira de diplomata. Porque esse segundo homem que colaborara na sua vida, foi o Presidente Radical do Chile, Pedro Aguirre Cerda. Professor Primário, estudou Direito à noite e abriu um escritório na cidade de Los Andes, Centro Norte do Chile, limítrofe com a Argentina, quando a conheceu disse-lhe: Sou Senador, em breve vou ser Presidente da República, serás, pois, a minha representante no México, em Itália, em França…E assim foi. Don Pedro faleceu antes, em 1939, Gabriela procurou refúgio na cidade Brasileira de Brasília, como consulesa. Em 1945, nosso tio direito, Higínio Gonzáles Nolle, irmão do pai da mãe das minhas filhas, recebeu um telegrama anunciando à Embaixada do Chile no Brasil, que Gabriela Mistral tinha sido honrada com o prémio Nobel de Literatura. O tio, que tinha partilhado com ela a Embaixada chilena em Lisboa, sabia as medidas da poetisa: arrotou, e disse: a quem outro se não a mim? E continuou a beber a sua mistela, água com um dedo de vinho e açúcar, um dos dois vícios a que se permitia. O outro, era fumar até 4 maços de tabaco por dia.

Recebeu o prémio, ninguém sabia nada dela no Chile. O Presidente da República Carlos Ibáñez del Campo, por cortesia convidou-a ao Chile, ela aceitou e foi adiando a sua visita até 1955. Tinha eu catorze anos. Ela não falava, eu também não. O Presidente era calado, pelo que iniciei uma conversa sobre a sua obra e confessei como chorava eu com os seus Piececitos, ela sorriu e fez-me um comentário: filho, se gostas de poesia, não é apenas ler-me, é também escrever como eu faço, mas de forma diferente, à tua maneira...E parece que assim foi.

Por ser um estudante com louvores na minha classe, escola privada de padres, voltei a sair com ela e andámos os dois sós a pé pela baixa de Valparaíso. Vimos o mar, não falámos, a sua grandeza para mim era alta como para abrir a boca. Passadas as duas horas combinadas, levei-a de volta ao Paço do Governo Local, deu-me dois beijos, apertou a minha mão e esse sorriso da imagem do texto, apareceu na sua cara.

Porém a minha Gabriela Mistral.

No dia do meu aniversário, anos volvidos, fui ao cinema para comemorar os meus 16 anos e vi a Gabriela Mistral vestida a rigor, com o fato preto do prémio, esticada e sem vida, com as suas mãos cruzadas, olhos fechados, prestes a partir, como todo o chileno distinto volta ao Chile: com os pés em frente. O mistral, esse vento do Mediterrâneo ia-nos trazer de volta a Lucila Godoy Alcayaga, com os seus 69 anos bem trabalhados. Confesso que fiz luto. Calei durante uma semana…Mas, essas poucas horas, desde ser apresentado até ao passeis, ao todo 48, viverão para sempre comigo….como a sua poesia…Tala e Chile...

___________________________
1- Gabriela Mistral, pseudónimo escolhido de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña, 7 de Abril de 1889 — Nova Iorque, 10 de Janeiro de 1957), foi poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena.


Nasce, no meio de um forte temporal, na madrugada de 7de Abril, no antigo nº 114 (casa já demolida) da rua Lopes Quintas, na Gávea, ao lado da chácara do seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais D. Peta Alcayaga e Jerónimo Godoy Vilanueva.

Se nasceu em Vicuña, foi pura casualidade. Duas semanas mais tarde os pais transferem-se para La Unión, onde viveu, na vila de Botafogo, até regressar a Vicuña, anos mais tarde, para acabar os seus estudos de Liceu e tentar realizar estudos superiores. Mas não tinha dinheiro para pagar a Escola Normal. Foi preciso ensinar como ajudante nas escolas primárias onde fosse colocada.


Em 1916 a família muda-se para a rua Voluntários da Pátria, nº 192, em Botafogo, passando a residir com o aos avós paternos, D. Maria da Conceição de Mello Moraes e Anthero Pereira da Silva Moraes.


Foi agraciada com o Nobel de Literatura de 1945. O seu pai, Jerónimo Godoy Villanueva, tinha estudado para sacerdote, mas rapidamente abandonou a vocação e se dedicou ao ensino. Essa preparação do seu pai influiu a sua poesia, bem como a dedicação de Peta Alcayaga a obras pias, cantante do coro da Igreja, doze anos mais velha que ele, como confessou ao Sacerdote que casá-los-ia, como consta na Acta de Matrimónio, citada por Volodia Teitelbom, esse meu velho amigo, que escrevera a biografia Gabriela Mistral. Pública y Secreta, 1991, Editorial Sudamericana, Santiago, Chile.
 
2- Retirado do livro Gabriela Mistral. Poesias completas, Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile.
O Partido Radical, partido chileno criado em 1863 por elementos da ala extrema do Partido Liberal, foi fundado oficialmente como partido político em 1888. Fez parte da Alianza Liberal, da Frente Popular, da Unidad Popular e, nos últimos anos, da Concertación de Partidos por la Democracia. Foi membro da Internacional Socialista. O seu fundador, em 1858, Manuel António Mattta, viu-se obrigado ao exílio por ser defensor das ideias de Gracchus Babeuf, autor do Manifesto dos Plebeus , escrito em 1795, impulsionador da Revolução Francesa e que deu aço para o de 1796 de Sylvain Marèchai e O Manifesto dos Iguais, dos quais a baronesa Joana von Westphalen, casada com Kart Heinrich Pembroke Marx, e Friedrich Engels, retiram ideias para o Manifesto Comunista de 1848, redigido todo ele, com pontos e vírgulas, pela baronesa prussiana. Em 1994 funde-se com o Partido Social Democracia de Chile, dando origem ao Partido Radical Social Demócrata, que se considera herdeiro da história e da tradição do radicalismo chileno.




3 - Fonte: Sepúlveda R., Julio. 1993. Los radicales ante la história. Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile
publicado por Carlos Loures às 03:00
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

MI GABRIELA MISTRAL - O Professor Iturra partilha connosco o seu convívio com outra grande figura da cultura chilena: Gabriela Mistral, Prémio Nobel da Literatura em 1945

Gabriela Mistral, 1954, ano em que a conheci, Valparaíso, Chile


Raúl Iturra

O título tem razão de ser, porque a conheci quando eu era pequeno e, desde logo, a admirei. Conhecia a sua poesia, romântica e combativa. Gabriela Mistral (1) era a leitura obrigatória da minha mãe, que gostava mais de ler que de comer. Essa devoção levou-me em curto espaço de tempo a ler a poetisa. Mal se conhecia a sua obra no Chile, apenas os Sonetos da Morte, escritos em 1914, poema com que ganhara os Jogos Florais de Santiago. Não se apresentou a receber o prémio. Tinha escrito esses versos em memória do seu grande amor, Romélio Ureta, homem fino, com quem namorou, abandonando o seu prometido Alfredo Videla, ambos maestros na escola La Cantera, da cidade de Vicuña. Gabriela Mistral era maestra de crianças e foi sobre elas que começou a escrever.

Não esqueço esse soneto que faz pensar, sentir e chorar, publicado originalmente no seu livro Ternura, de 1922, página 278, intitulado Piececitos:

PIECECITOS

Piececitos de niño,
azulosos de frío,
¡cómo os ven y no os cubren,

¡Dios mío!

¡Piececitos heridos
por los guijarros todos,
ultrajados de nieves
y lodos!

El hombre ciego ignora
que por donde pasáis,
una flor de luz viva
dejáis;

que allí donde ponéis
la plantita sangrante,
el nardo nace más
fragante.

Sed, puesto que marcháis
por los caminos rectos,
heroicos como sois
perfectos.

Piececitos de niño,
dos joyitas sufrientes,
¡cómo pasan sin veros
las gentes! (2)

Embora reclamasse não ser uma mulher política, os seus poemas demonstram, rapidamente, a sua luta contra a injustiça e a desigualdade social. Assim como o seu apoio ao Partido Radical do Chile, fundado em 1858 pelos aristocratas dedicados à melhoria de vida dos mais desprezados e pobres do Chile (3).

Como sabemos, Gabriela Mistral nasce em Vicuña, Vale do Elqui, localizado no norte do Chile, contudo, em breve, passam a morar na aldeia de Botafogo, en la villa de La Unión, onde o pai ensina. Mas, irrequieto, passados três anos, abandona a família, que regressa a Vicuña e passa a viver com a avó materna. Em 1909 morre o pai vítima de excessos alcoólicos e de falta de alimentos. Gabriela, maestra em Antofagasta, soube dessa morte somente em 1911. A sua própria mãe falece em 1929 e Lucila fica entregue à sua sorte.

Quando mais nova, corria a voz de ser retardada mental, de não saber ler nem escrever e não entender a realidade. No entanto, a sua mãe a defendia e acabou o último ano do Liceu em Vicuña acompanhada pela mãe e a sua amiga, a Directora, Dona Emelinda.

Se Lucila parecia tonta, havia um motivo de que pouco se fala, apenas Volodia, o seu biógrafo e meu amigo, refere o facto na página 22 do seu livro referido na nota 1. Lucila foi uma criança abusada, foi violada, não se sabe por quem. Da mesma forma que nunca permitia que se falasse mal do seu pai, também nunca contou esta história, excepto ao seu amigo e escritor notável, César Vallejo. Volodia encontrou, na sua pesquisa, a carta e com toda a delicadeza relata o crime tão delicado, que é preciso ler duas ou três vezes essa página 22 e saber como era a vida dos pobres e das meninas abandonadas tal como a vida rural de sítios mesquinhos como Monte Grande.

No Liceu houve um roubo, Lucila foi o bode expiatório: a escola inteira, no pátio, julgou-a e acusou-a de ladra. Anos mais tarde, já muito conhecida, perguntarem-lhe se se lembrava da Yaya, essa Directora….Com voz dura e sem um gesto, abriu a boca apenas para dizer Eu nunca esqueço nada...

O seu refúgio foi os livros, desde os latino-americanos até Chekov, que muito a impressionara. Era austera, vestia sempre igual, teve o namoro com o jovem antes referido, Alfredo Videla Pineda, que sabia cantar, dançar e tocar piano, era o príncipe azul desta gata borralheira. Mas a sua pobreza não lhe permitia pagar os estudos na Escola Normal Superior e teve de ensinar como assistente numerária, muda de escola todos os anos, percorreu todo o Chile até ao dia em que encontrou dois professores que fizeram mudar a sua vida. Um, o grande amor da sua vida, Romélio Ureta, que se suicida e a deixa só. Foi em sua honra que escreveu Os Sonetos da Morte. Nada se sabe deste amor, não há provas dos seus amores, excepto um cartão com o nome no seu casaco. Conheceu-o nos tempos em que os dois eram docentes em La Cantera. Grande debate se gera em torno desta questão: foi ou não o grande e único amor da sua vida. Ela própria, passados anos, já graduada como professora, após assistir aos convites do Governo Mexicano, diz: essa história é parte da fantasia sobre a minha pessoa. Porquê, porém os versos, porquê esse nicho gelado, porquê estar classificado no seu livro Tala, página 82, entre os versos da dor?

Há outras explicações que uma dezena de biógrafos como Alone, Anderson ou Imbert colocam. Para estes, a realidade passa por Romélio Ureta e Verdugo ser da aristocracia chilena, sobrinho neto de José Miguel Carrera y Verdugo, Libertador do Chile da Coroa Española. Lucila era pobre. É aos seus vinte e cinco anos que fica só para sempre, dedicada unicamente aos seus livros, à sua fama e à carreira de diplomata. Porque esse segundo homem que colaborara na sua vida, foi o Presidente Radical do Chile, Pedro Aguirre Cerda. Professor Primário, estudou Direito à noite e abriu um escritório na cidade de Los Andes, Centro Norte do Chile, limítrofe com a Argentina, quando a conheceu disse-lhe: Sou Senador, em breve vou ser Presidente da República, serás, pois, a minha representante no México, em Itália, em França…E assim foi. Don Pedro faleceu antes, em 1939, Gabriela procurou refúgio na cidade Brasileira de Brasília, como consulesa. Em 1945, nosso tio direito, Higínio Gonzáles Nolle, irmão do pai da mãe das minhas filhas, recebeu um telegrama anunciando à Embaixada do Chile no Brasil, que Gabriela Mistral tinha sido honrada com o prémio Nobel de Literatura. O tio, que tinha partilhado com ela a Embaixada chilena em Lisboa, sabia as medidas da poetisa: arrotou, e disse: a quem outro se não a mim? E continuou a beber a sua mistela, água com um dedo de vinho e açúcar, um dos dois vícios a que se permitia. O outro, era fumar até 4 maços de tabaco por dia.

Recebeu o prémio, ninguém sabia nada dela no Chile. O Presidente da República Carlos Ibáñez del Campo, por cortesia convidou-a ao Chile, ela aceitou e foi adiando a sua visita até 1955. Tinha eu catorze anos. Ela não falava, eu também não. O Presidente era calado, pelo que iniciei uma conversa sobre a sua obra e confessei como chorava eu com os seus Piececitos, ela sorriu e fez-me um comentário: filho, se gostas de poesia, não é apenas ler-me, é também escrever como eu faço, mas de forma diferente, à tua maneira...E parece que assim foi.

Por ser um estudante com louvores na minha classe, escola privada de padres, voltei a sair com ela e andámos os dois sós a pé pela baixa de Valparaíso. Vimos o mar, não falámos, a sua grandeza para mim era alta como para abrir a boca. Passadas as duas horas combinadas, levei-a de volta ao Paço do Governo Local, deu-me dois beijos, apertou a minha mão e esse sorriso da imagem do texto, apareceu na sua cara.

Porém a minha Gabriela Mistral.

No dia do meu aniversário, anos volvidos, fui ao cinema para comemorar os meus 16 anos e vi a Gabriela Mistral vestida a rigor, com o fato preto do prémio, esticada e sem vida, com as suas mãos cruzadas, olhos fechados, prestes a partir, como todo o chileno distinto volta ao Chile: com os pés em frente. O mistral, esse vento do Mediterrâneo ia-nos trazer de volta a Lucila Godoy Alcayaga, com os seus 69 anos bem trabalhados. Confesso que fiz luto. Calei durante uma semana…Mas, essas poucas horas, desde ser apresentado até ao passeis, ao todo 48, viverão para sempre comigo….como a sua poesia…Tala e Chile...

___________________________
1- Gabriela Mistral, pseudónimo escolhido de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña, 7 de Abril de 1889 — Nova Iorque, 10 de Janeiro de 1957), foi poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena.


Nasce, no meio de um forte temporal, na madrugada de 7de Abril, no antigo nº 114 (casa já demolida) da rua Lopes Quintas, na Gávea, ao lado da chácara do seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais D. Peta Alcayaga e Jerónimo Godoy Vilanueva.

Se nasceu em Vicuña, foi pura casualidade. Duas semanas mais tarde os pais transferem-se para La Unión, onde viveu, na vila de Botafogo, até regressar a Vicuña, anos mais tarde, para acabar os seus estudos de Liceu e tentar realizar estudos superiores. Mas não tinha dinheiro para pagar a Escola Normal. Foi preciso ensinar como ajudante nas escolas primárias onde fosse colocada.


Em 1916 a família muda-se para a rua Voluntários da Pátria, nº 192, em Botafogo, passando a residir com o aos avós paternos, D. Maria da Conceição de Mello Moraes e Anthero Pereira da Silva Moraes.


Foi agraciada com o Nobel de Literatura de 1945. O seu pai, Jerónimo Godoy Villanueva, tinha estudado para sacerdote, mas rapidamente abandonou a vocação e se dedicou ao ensino. Essa preparação do seu pai influiu a sua poesia, bem como a dedicação de Peta Alcayaga a obras pias, cantante do coro da Igreja, doze anos mais velha que ele, como confessou ao Sacerdote que casá-los-ia, como consta na Acta de Matrimónio, citada por Volodia Teitelbom, esse meu velho amigo, que escrevera a biografia Gabriela Mistral. Pública y Secreta, 1991, Editorial Sudamericana, Santiago, Chile.
 
2- Retirado do livro Gabriela Mistral. Poesias completas, Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile.
O Partido Radical, partido chileno criado em 1863 por elementos da ala extrema do Partido Liberal, foi fundado oficialmente como partido político em 1888. Fez parte da Alianza Liberal, da Frente Popular, da Unidad Popular e, nos últimos anos, da Concertación de Partidos por la Democracia. Foi membro da Internacional Socialista. O seu fundador, em 1858, Manuel António Mattta, viu-se obrigado ao exílio por ser defensor das ideias de Gracchus Babeuf, autor do Manifesto dos Plebeus , escrito em 1795, impulsionador da Revolução Francesa e que deu aço para o de 1796 de Sylvain Marèchai e O Manifesto dos Iguais, dos quais a baronesa Joana von Westphalen, casada com Kart Heinrich Pembroke Marx, e Friedrich Engels, retiram ideias para o Manifesto Comunista de 1848, redigido todo ele, com pontos e vírgulas, pela baronesa prussiana. Em 1994 funde-se com o Partido Social Democracia de Chile, dando origem ao Partido Radical Social Demócrata, que se considera herdeiro da história e da tradição do radicalismo chileno.




3 - Fonte: Sepúlveda R., Julio. 1993. Los radicales ante la história. Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile
publicado por Carlos Loures às 15:00
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

AS MINHAS RECORDAÇÕES DE PABLO NERUDA - O Professor Raúl Iturra dá um valioso contibuto para o nosso debate centrado na poesia - recordações do seu convívio com Pablo Neruda, o grande poeta chileno, Prémio Nobel da Literatura em 1971

Raúl Iturra


Foi um acaso, o que se diz normalmente, uma casualidade. Tinha eu quinze anos, el deve ter tido uma idade indefinida, mas eram já os tempos da sua idade indefinida.(1) Os poetas não têm idade vivem a vida a dar saltos entre a realidade transformada em realidade en verso. Éramos vizinhos de uma das sua três casas, a de Valparaíso o La Sebastiana. Conhecemos, na nossa lua-de-mel, a minha noiva, agora esposa, a primeira que fez no Chile: Isla Negra. Não era, de facto uma ilha, era uma quinta que ficava ao pé da casa dos nossos amores, em Algarrobo, praia balnear perto de Valparaiso. Neruda não conseguia viver sem ver o amor. Entrar na Sebastiana com a minha mãe, foi uma delícia: via-se, como era da nossa vizinha casa, toda a Baia do porto e, com essa fantasia contagiante, além-mar. Sua única habitação na cidade, era La Chascona, feita para o agrado da mulher que amava, Matilde Urrutia e os seus encontros clandestinos. La Chascona, por causa do telhado de totora (2). Nem pensar que, por ser poeta, falasse em verso, falava como todo ser humano nascido no centro Sul do Chile, engolindo as consonantes e um cantar típico que compassava as suas frases.


Era de Parral e foi, como digo em nota de rodapé, criado pelo seu avô paterno. O nome Neftalí da sua partida de nascimento de 12 de Julho de 1904, era o da sua mãe. O padre José del Carmen, no perdoava a causa da morte da sua mulher por causa do nascimento de Pablo. Foi-se embora e foi criado pelo seu avô paterno nas suas terras de Parral. Como Neftalí Reyes, era neto e filho terra tenente, esse de prosápia mas sem dinheiro…. As suas ideias socialistas nasceram de ver como eram mal tratados os trabalhadores, obrigados a trabalhar desde a manhã cedo, até a tarde noite.

Lia, gostava ler, especialmente poesia. A casa do avô paterno, José Angel Gomes Hermosilla uma mansão rural, tinha uma Biblioteca, onde livro nenhum era perdoado de não estar ai. O pelo menos, era o que ele dizia. Quem toma conta dele é a sua avó das segundas núpcias do seu Avô Dona Encarnación Parada, quem procura entre os inquilinos a melhor mulher para amamentar ao seu neto adoptivo – a sua mãe era fruto do primeiro matrimónio do Avô com Tomasa Opazo, a avó consanguínea de Pablo Neruda, morta como a sua filha, ao dar a luz a Rosa Basoalto, a mãe de Neruda

Chegada a hora dos estudos, apesar do Avô querer e poder preparar a sua instrução. A criança não quis e teimo em assistir a escola pública de Parral. Grande sorte. Ensinava ai Lucila Godoy Alcayaga, que mudou o seu nome para Gabriela Mistral após ganhar os Jogos Florais de Santiago, em 1914, com seus poemas Sonetos de la Muerte. Foi o encontro feliz da vida de Neruda: ela lia poemas, ele começava a escrever. Dizem que um dia o pequeno Pablo foi a casa da sua maestra (3) Ela lia, ele ouvia ensinou-lhe, como se for um menino atrasado nos estudos, como escrever. Anos volvidos, tornaram-se a encontrar na Itália, ela como consulesa. Aliás, a maestra era amiga de Rosa Nefatlí, quem ensinara à mãe como fazer do pequeno, um poeta. Entre a mãe e a sua colega amiga, começaram por Virgílio e outros textos, até o enredo de relações acabar: morre a mãe, Gabriela é transferida a altos cargo e o pai, todo arrependido pela sua atitude prévia, casado outra vez, leva ao pequeno desde Parral para Temuco.

El padre se casa en segundas nupcias con doña Trinidad Candia Marverde. Era diligente y dulce, tenía sentido del humor campesino, una bondad activa e infatigable. No puede nombrarla madrastra. Ella es su "Mamadre": "Mi boca tiembla para definirte/ porque apenas/ abrí el entendimiento/ vi la bondad vestida de pobre trapo oscuro". También ahora pertenecen a este nuevo hogar sus hermanos Laurita y Rodolfo. Atrás quedó Parral como recuerdo vago, blanco y polvoriento. Es Temuco, su geografía: lluvias, bosques, madera, pájaros, insectos cogidos por los ojos hacia el arca de su curiosidad desmedida. Y son de Temuco las tiendas identificadas con objetos inmensos: zapatos, serruchos, caballos, llaves, olletas para los que no saben leer. Ciudad de incendios, las casas de madera no están preparadas para el verano. Allí entra al Liceo, sus compañeros de apellidos extranjeros "iguales entre los Aracenas y los Ramírez y los Reyes, brillaban con luz oscura los apellidos araucanos olorosos a madera y agua: Melivilus, Catrileos."

Reencontra à maestra, essa amiga da sua mãe, já no cargo de Directora do Liceo de Niñas de Temuco, leva-lhe, confiante, o seu primeiro poema. A directora, com esse carácter mal-humorado que todos sabiam, perguntou-lhe: de onde o copiaste?.... Após este (des)encontro, Neruda apenas a encontra na Itália, onde ela era consulesa e Neruda, fugido da perseguição chilena aos comunistas, não tem outra alternativa que acudir a ela. Mistral, envergonhada do passado, faz os possíveis, para o proteger. O resultado foi um sucesso (4) .

A minha lembrança mais clara de Neruda, era a sua forma de rir e de levar a vida alegremente, especialmente na Sebastiana. Onde nem os seus piores poemas eram maus para ele. Aliás, com a excepção de, Veinte poemas de amor y una canción desesperada. Santiago, Nascimento, 1924, Canto general. México, Talleres Gráficos de la Nación, 1950 e outros.

O que dele não se conhecia, mas foi tornado público, eram os poemas escritos enquanto era estudante do Liceo de Homens de Temuco (5). Em quanto caia a chuva, ele escrevia o que hoje conhecemos por Cuadernos de Temuco, manuscrito perdido ao longo do tempo e de um tipo de poesia que não seriam o seu orgulho mais tarde.

Um poema diz:

Cansancio I

Dejar fecundamente clavado el corazón.
Para qué rebeldías? Para qué sufrimientos?
Elevemos más grande nuestra eterna canción
en el molde callado de los propios momentos.
Los pájaros ignaros sigue el rumbo eterno
y nosotros humildes, seguiremos también,
nos blanqueará el cabellos la nieve del invierno,
la racha más helada nos herirá la sien.
Para qué sufrimientos. Para qué rebeldías?
Tendrá que helar huesos la racha del dolor,
fatalmente tendremos que sentir que no ardía
eterna, eternamente nuestro primer ardor.

Essa alegria de viver acabou a 23 de Setembro, aos 69 anos, onze dias depois de morte do seu melhor amigo, Salvador Allende, Presidente Constitucional do Chile. Acabou a 10 o seu livro, Confieso que he vivido. (Memorias), Barcelona, Seix Barral, 1974. (autobiografia) sua segunda obra em prosa, após a peça de Teatro, em verso e prosa: Fulgor y muerte de Joaquín Murieta. Bandido chileno injusticiado en California el 23 de julio de 1853. Santiago, Zig-Zag, 1967. (Obra teatral)

Allende defendeu ao Chile com a sua vida: Pablo Neruda, com as suas letras.

Haveria mais para dizer, mas o espaço…
_____________________

1 - Pablo Neruda nasceu em Parral, em 12 de Julho de 1904, como Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. Era filho de José del Carmen Reyes Morales, um operário ferroviário, e de Rosa Basoalto Opazo, professora primária, morta quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adoptou o pseudônimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após acção de modificação do nome civil. Retirado da Biografia Pablo Neruda, escrita pelo meu amigo que falecera em 2005, com 101 anos, livro escrito em 1984 na União Soviética e publicado no Chile pela Editorial Sudamericana Chilena em 1996



2 - totora .(Del quechua tutura). - 1. f. Am. Mer. Planta perenne, común en esteros y pantanos, cuyo tallo erguido mide entre uno y tres metros, según las especies. Tiene uso en la construcción de techos y paredes para cobertizos y ranchos.






3 - No Chile as professoras primárias recebem esse nome, enquanto entre nós todas e todos são professores, excepto os docentes do jardim da infância: Educadores da Infância. O encontro foi feliz.


4 - Contado a mim por um nosso parente do Corpo Diplomático e por Volódia Teitelbom que, por recato, não o escreve no seu livro Neruda
 
5 - , Neruda Pablo, poemas entre os anos1919-1920, 1997: Cuadernos de Temico, Seix Barral, 1997

publicado por Carlos Loures às 11:00

editado por Luis Moreira em 19/04/2011 às 18:00
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