Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Faz hoje 75 anos – em 16 de Fevereiro de 1936 a Frente Popular vencia as eleições em Espanha – por Carlos Loures

 

 

No jargão político português da Oposição, desde que em 1958 comecei, na campanha de Humberto Delgado, a participar em reuniões, verifiquei que o termo «frentismo» tinha uma conotação negativa. Depressa percebi porquê – pelo que ocorrera em França e em Espanha com as Frentes Populares de 1936. Em Espanha as eleições legislativas foram em 16 de Fevereiro de 1936, com a vitória da Frente Popular.  Faz hoje 75 anos. Em França as eleições foram em Maio e o Front Populaire, constituído pelo Partido Comunista Francês, pelos trotskistas da SFIO, pelo Partido Socialista Radical, que formaram governo sob a Liderança de León Blum, governo que se manteria até Junho de 1937.

 

 

Neste pequeno artigo, só me vou ocupar de Espanha, mas não posso deixar de referir que nesses meses de 1936 uma onda de optimismo e de alívio percorreu as esquerdas europeias – as ameaças totalitárias de direita que incubavam, sobretudo, na Alemanha e em Itália, pareciam esconjuradas em França e em Espanha. Sol de pouca dura: de 18 para 19 de Junho o exército de África, comandado por Franco,  invadia Espanha e desencadeava uma terrível Guerra Civil que iria terminar em 1939 com a vitória franquista, prolongando-se depois na II Guerra Mundial. Mas falemos então de Espanha e da sua Frente Popular.

 

 

Já desde os últimos meses de 1935 que se esboçava uma aliança entre os partidos de esquerda, aliança que se veio a concretizar na Frente Popular, pacto entre republicanos e socialistas com um programa reformista, mas que da óptica da direita católica e reaccionária, se afigurava revolucionário..A Frente Popular, cuja proposta partira do Partido Comunista, foi recusada pelos anarquistas que não fazendo parte da Frente, apoiaram as candidaturas frentistas. Proposta do PC espanhol reflectia as decisões do sétimo congresso do Comintern realizado em 1935, segundo as quais se renunciava ao objectivo da revolução proletária praticando-se uma política de colaboração com partidos liberais, social-democratas, republicanos, unidos em plataformas antifascistas. E foi constituída uma Frente Nacional (ou Frente de Orden) para se opor à união das esquerdas. Aqui a organização preponderante era a CEDA, liderada por Gil Robles. A Falange de Jose Antonio Primo de Rivera não aderiu, pois este não se entendeu com Gil Robles.

 

 

Mas todos os dados estavam viciados.

 

 

A direita estava disposta a, caso perdesse as eleições, a desencadear um golpe militar. Nas esquerdas, era patente a falta de unidade – estalinistas, anarquistas, trotskistas, social-democratas, todos visavam objectivos diferentes e propunham respostas diferentes à ameaça fascista. Quando a vitória eleitoral pareceu dar razão à corrente estalinista, o tecido social entrou em decomposição acelerada – os ricos, os latifundiários fugiram, abandonando as terras que começaram a ser ocupadas por camponeses. Os pequenos proprietários sentiram-se ameaçados. O clima de tensão tornou-se insuportável e começaram a eclodir pequenos focos de instabilidade – a Igreja concitava abertamente à violência armada. Posição que levava grupos a incendiar igrejas, a invadir conventos. As greves e as ocupações multiplicavam-se. Alguns dos que tinham saudado a vitória da Frente, começavam a mudar de campo e a ser favoráveis a um golpe de Estado que repusesse a ordem social. Nesses anos trinta, o estrato social a que hoje chamamos classe média, embora com uma vida difícil e com um débil poder económico, constituía um grupo considerado privilegiado e tendencialmente conservador - era gente que se sentia ameaçada pelas movimentações dos trabalhadores e, por isso, se passava para o campo dito nacionalista.

 

 

Muitos trabalhadores se organizavam para gerir as empresas, embora a autogestão e a democracia directa estivessem fora dos programas da Frente Popular. A Frente começava a ser ultrapassada pela esquerda e a perder o controlo sobre as massas. Em França, com a vitória do Front Populaire, a partir de Maio ocorreu uma enorme onda grevista e de ocupação de fábricas que serviam de exemplo e de incentivo aos espanhóis.

 

 

 Neste cenário de luta entre as diversas correntes que formavam a frente, de greves, incêndios, assassínios políticos, os militares reaccionários, comprometidos com a Falange, com a Igreja, conspiravam contra a República. Em 18 de Junho o golpe militar eclodia. Os fascistas vinham combater o caos social, provocando uma carnificina sem paralelo na História. A Frente Popular e a sua acção desarticulada, tinha fornecido o pretexto de que a direita necessitava para impor a "ordem".

 

 

"Ordem" que iria reinar por quase quarenta anos.

 

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publicado por Carlos Loures às 12:00
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