Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. VII PARTE - c

 enviado por Julio Marques Mota (daqui)

 

E.2.   O aumento do stress e a insatisfação ao trabalho

 

A   sobrecarga  do   trabalho  é  uma  das principais causas  para   o aparecimento   do stress no trabalho. Se a situação perdura e se, além do mais,  está  associada a  uma falta  de autonomia, representa então um dos principais factores de degradação  da saúde no trabalho.  

 

Nas entrevistas assim como nas perguntas abertas foram numerosos os assalariados  que dizem estarem sujeitos a  uma forte pressão que degrada a sua saúde. Os resultados  do  questionário  são,  a  este  título, esclarecedores   e  concordam  largamente com o     diagnóstico qualitativo.
 

Primeira  constatação,   a sobrecarga   do   trabalho tem um forte   efeito  sobre   a  satisfação  no trabalho.  Cerca de 65%   dos  assalariados que  respondem  dizem que lhes é pedido uma   quantidade  de trabalho  excessiva  e declaram-se  igualmente  insatisfeitos com a sua situação profissional tomada na sua globalidade.  

 

 Os  assalariados  que   consideram  que  a sua carga   de  trabalho  é   excessiva  são igualmente os que consideram que as suas condições de trabalho são geradoras de mal-estar .

 

Mais  ainda, a sobrecarga de trabalho pode ter um impacto evidente  no  estado  moral   dos assalariados.    Os assalariados   em sobrecarga  consideram  assim  estarem   muito mais frequentemente expostos ao stress ou a um grande cansaço que  os outros assalariados. Cerca de 53% dos trabalhadores que se sentem sobrecarregados dizem frequentemente terem muito stressados ou muito  cansados contra apenas 18% dos assalariados com um volume de trabalho menos importante.

 

A   manifestação  da      taylorização da    produção  em  France  Télécom  perturba  fortemente o estado de stress dos assalariados, nomeadamente devido à perda  de autonomia  que daí    decorre    (“Infantilizam-nos,   eles  não têm   confiança  em nós, não crêem em  nós, estamos  como crianças apanhadas em falta »  ). Se, com toda a população  considerada ,  40%    dos assalariados declaram  ter  estado fortemente stressados    ou  muito  cansados durante os 12 últimos meses, é o caso de 54% dos assalariados com  uma fraca autonomia (último quartil) e de 62% dos assalariados em situação  trabalho tenso (Job  Strain).
 

 Na   mesma  ordem  de ideias,  constata-se  que  os   assalariados  que  declaram  a quantidade de trabalho excessiva tendem  a ser afectados  mais frequentemente por fragilidade psicológica.  Se uma    relação  aparece claramente   entre  a sobrecarga  do   trabalho  e    a saúde  moral  e  psíquica ,  esta  última   também tem  consequências  nefastas  sobre  a   saúde  física.  Cerca de 49%  dos   assalariados  que consideram  que a sua   carga    de trabalho  é excessiva dizem igualmente que o seu estado de saúde se  degradou.

 

Esta degradação do estado de saúde sentida objectiva-se então    na multiplicação  das paragens de    trabalho,  quer elas   sejam  de curta  ou   de    longa  duração.  O ressentimento não aparece  assim como sendo  um vago sentimento sem fundamento, enraíza-se, pelo contrário,  na experiência diária das fraquezas e do malestar  que se traduzem, por seu lado, numa retirada da actividade produtiva mais ou menos a longo prazo.

 

E.3.    Um sentido do trabalho bem feito bem  abalado

 

As   condições  de   trabalho  que   acabam de ser  descritas  (sobrecarga  de   trabalho, pressão dos objectivos, etc.) têm igualmente uma outra  consequência que é a de  afectar o sentido  do trabalho que efectivamente faz uma parte dos assalariados. Ora o sentido do trabalho é um dos suportes  do empenhamento pelo  trabalho e é um vector da construção da identidade  dos   indivíduos.  A alteração  do   sentido  do trabalho  bem  feito  tem-se assim traduzido  geralmente por uma perda de motivação pelo trabalho, ou mesmo por formas mais ou menos fortes de apatia face ao trabalho .

 

 Além disso, um desvio importante entre os discursos da empresa e a prática dos assalariados é uma fonte de degradação do sentido do trabalho. É por exemplo o caso   dos  discursos   centrados  sobre  a   qualidade em  France  Télécom  que  são  frequentemente vividos como um discurso de  marketing que tem apenas pouca relação com o trabalho real.
Os testemunhos são numerosos neste sentido:
 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Terça-feira, 17 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal , por excelência.VI PARTE -b

 

continuacão daqui:

 

F.1-   Uma forte insatisfação em matéria de reconhecimento

 

Todo indica que existe uma insuficiência dos mecanismos do reconhecimento  no trabalho  em France  Télécom, tal é a insatisfação que os assalariados exprimem neste  domínio. Os resultados do questionário são convincentes. Esta insatisfação  em matéria de reconhecimento no trabalho não parece nova em France Télécom,  mas  esta foi  seguramente  reforçada  pela aplicação dos   diferentes planos de reestruturação da empresa.
 

Sob o ângulo das perspectivas de promoção, é uma insatisfação maciça que se exprime:  78,56%    assalariados consideram    que relativamente aos   esforços  que eles fornecem  que    as perspectivas  de promoção  que lhes   são  propostas  são  insatisfatórias,  44,41% de  entre eles escolhem a modalidade extrema “ de acordo, de modo nenhum”, o que indica um profundo mal-estar em matéria de evolução no seio  da empresa.
  Quando  nos  interessamos   pelos     mecanismos  de   reconhecimento no     trabalho   em função da classificação dos assalariados, constata-se que as insuficiências destes  estão a atingir toda a gente, inclusive os   quadros.  Numerosos  são,  no entanto,  aqueles   que aceitaram  certos desafios profissionais  implicando um volume de trabalho importante e que não obtêm,   no final, a promoção esperada.
 
“Quando o  meu   posto  de trabalho regrediu  de quadro superior , em vez de me darem uma promoção   fizeram-me sair.  O comportamento deles   é  odioso . E  no entanto  tinha  aceite  dirigir uma plataforma de avarias . Era uma plataforma   que funcionava  mesmo  ao domingo até às 23 horas e eu ia lá todos os dias. Durante um ano tive a meu   cargo a gestão de toda uma equipa de  50  técnicos,  que não estavam contentes  de estar ali,  e  fiz horários que hoje considero impossíveis.  »  
 Os resultados mostram a esse respeito que se os não quadros figuram entre os mais  insatisfeitos em matéria de perspectivas de promoção e de salário, o mal-estar dos quadros neste domínio não deve ser minimizado : 32% de  entre eles dizem não  estarem  de modo nenhum satisfeitos nem com as  suas perspectivas de promoção e 26% nem com o seu salário.
Se nós adicionamos  estes resultados com os que se dizem  “sobretudo insatisfeitos”, uma maioria de quadros manifestam uma falta de reconhecimento ao trabalho.

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. VII PARTE - VII a;



A.   Introdução

 

A organização do trabalho no grupo France  Télécom é geradora de um  mal-estar no trabalho e nos casos mais graves de um sofrimento no trabalho  para vários milhares  ou mesmo  para dezenas de milhares de assalariados.
 

Os resultados do questionário demonstraram-no. Retendo uma hipótese muito  restrita de acumulação de factores de riscos, mais de 25% dos assalariados vivem  pelo menos uma situação de  risco.

 

Este resultado é uma primeira medida de risco psicossocial em France Télécom .  Ele  defende-nos   imediatamente  contra um  “diagnóstico-buldozer ”  que  deixaria entender que a organização, toda ela, teria entrado em  disfuncionamento  em matéria  de saúde ao trabalho. A esse respeito, os relatórios oficiais mostram efectivamente que alguns  sectores da empresa, os assalariados, apesar de não se sentirem  felizes no trabalho, levam uma   existência  profissional  normal sem  nenhuma exposição  especial   risco  psicossocial. Não  é porém menos  verdade que a aplicação dos planos NEXT  e ACT colocou a organização sob tensão: uma insatisfação e  um mal-estar  mais ou menos difusos são bem reais e existem  hoje na empresa zonas  de cristalização do sofrimento no trabalho. 

 

 É assim uma   precariezação institucionalizada   que se  esteve a pôr em marcha e que  atingiu mais ou menos duramente diferentes sectores da empresa:
-precariezação da relação ao trabalho  através do aumento  da carga de trabalho e  do abalo que é dado ao sentido que o trabalho bem feito confere.
-Precariezação da existência profissional por uma gestão das carreiras e das mobilidades que põem em dificuldades numerosos assalariados .

 
B.   Os assalariados em risco devido a condições de trabalho difíceis
 

A  redefinição    da organização,  os  processos  e  a instauração  de um  novo  modelo de gestão, tudo isto se  traduziu  numa degradação das condições de  trabalho para  uma maioria de assalariados.

 

Esta degradação das condições de trabalho não é necessariamente sinónima  de risco imediato para a saúde física e psíquica  dos assalariados. Em contrapartida,  este   risco será  real para 8,4%  dos efectivos   de France Télécom que acumulam    tensões  ligadas ao ambiente  de trabalho,    aos disfuncionamentos  organizacionais e às  situações de trabalho sob tensão  (Job  Strain).

 

Os   assalariados  que  estão sujeitos às  condições   de  trabalho    mais  degradados  pertencem   às seguintes actividades na empresa :   Intervenção  Clientes,  Distribuição, Serviços a  Clientes por telefone .
 
C.   Um volume de trabalho importante

 

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Domingo, 15 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. VI PARTE

continuação:  Uma pálida ideia.


.A-  Os impactos no modelo de gestão e a organização

Através  de diferentes planos, TOP, NEXT, planos organizados para reencontrar  a confiança dos accionistas, a empresa foi repensada, reorganizada e dirigida com vista a um objectivo único  que era o de restabelecer a saúde financeira do Grupo  reduzindo os custos através da  redução dos  efectivos o que se tornou de facto a primeira das prioridades .
 
Todos  os outros  objectivos têm decorrido  desta prioridade.  A situação de urgência justificava além disso uma centralização das decisões e um acompanhamento no período em que estava a ser aplicada. Um novo modelo de gestão foi assim definido, de maneira mais implícita do explícita, e uma estratégia de aplicação deste modelo permitiu difundi-lo no conjunto da empresa. A Direcção teve assim êxito em atingir os seus objectivos quanto  à redução de efectivos assim como quanto à melhoria dos resultados e quanto a gerar lucros para o accionista. O preço a pagar pelos assalariados, pelo enquadramento e, in fine,  pela empresa, foi contudo muito elevado.

 

A.1-  Um novo modelo de gestão

 

A.1.a-  As características das mudanças conduzidas em nome da sobrevivência “O termo sobrevivência” justifica muita coisa pelo facto de  “em todo caso, não se sabe se amanhã ainda lá estaremos e se depois de amanhã não é já longe” . Esta posição, embora pudesse ser credível até em 2005, devido à enorme dívida existente , teria que desaparecer ou esbater-se a partir de 2006.  Não foi nada assim e a empresa continuou sobre esta mesma linha de actuação acentuando deste modo ainda mais a fractura interna.
 
A situação de crise financeira e o primado dado à redução dos custos alteraram profundamente a maneira “de negociar” e de gerir a empresa.

 

Tratava-se , a partir de agora, do seguinte trabalho dos “managers”:

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Sábado, 14 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. V PARTE


Título  deste capítulo

 

A contrução do inferno em France Télécom feita com as modernas armas de gestão.

I.A1-   As consequências de TOP,  NEXT e de ACT

 

Com a desregulamentação  e depois da sua mudança de estatuto, a France Telecom tem sofrido sucessivamente as consequências das mudanças “das regras do jogo”.  A  antiga  administração  tinha-se  lançado numa dinâmica de  crescimento  externo  que levou a que ficasse fortemente endividada; para reduzir  este enorme volume de  dívida,   aplicou  um primeiro tratamento de redução dos custos. Mas este remédio “ killing costs” foi depois continuado  enquanto que a necessidade financeira já não era mais a necessidade do período anterior. As consequências  sobre os colaboradores foram muito importantes.

 

I.A.2-   A negação dos valores

 

Numa lógica económica e concorrencial os objectivos da Direcção foram os de   «colocar  em movimento »  o pessoal , de  o reduzir  numericamente e  de o tornar mais produtivo. As  finalidades económicas vêem assim substituir as finalidades de serviço público.

 

Perante a esta mudança de finalidades , os assalariados viram o seu estatuto e o sentido do seu trabalho alterar-se. O arbitrário  e a incerteza tomaram o lugar da segurança e da estabilidade  no sentir de muitos dos assalariados .

 

I.A.3- Um sistema de gestão transformado

 

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. IV PARTE

continuação daqui

 

Título  deste capítulo

 

Na France Télécom, na  economia financeirizada, vejamos quem paga a factura da crise.

Curta história da profunda transformação de France Télécom

 

I.A- História da mudança

 

A France Télécom sofre hoje de uma grande crise . Perante as realidades observadas no terreno, a análise e a compreensão dos processos que puderam  conduzir ao mal-estar e aos sofrimentos constatados não se pode nem se deve  ignorar o que foi a história e as evoluções recentes da empresa.

 

O estatuto, as regras do jogo, o direito, os valores, a relação social, tudo  foi transformado. Por outras palavras  as garantias de segurança desapareceram quase que na mesma altura. Uma nova governança foi posta em prática e cujo principal  objectivo, prioritário mesmo,  ligado este à enorme dívida contraída  no início dos anos 2000, era exclusivamente  económico, fazendo tábua rasa  de um passado julgado incómodo.

 

É esta história que aqui vai ser descrita aqui, descrevendo-se apenas  os elementos chave e pondo em paralelo as mudanças que se operaram nos estatutos  dos colaboradores e nos valores da empresa.

 

I.A.1- Estatuto inicial, regras, valores

 

O estatuto de funcionários dos assalariados da France Télécom era protector para os indivíduos, era garante  de equidade e de transparência: do recrutamento por concursos externos, às promoções por concursos internos ou à  antiguidade, passando mesmo   pelas mutações que obedeciam a critérios objectivos e bem conhecidos de todos. As remunerações eram igualmente sujeitas  às regras de graduação previamente estabelecidas e oficiais.

 

Alguns, por pré-concurso podiam beneficiar de formações para  concursos  de acesso ao estatuto de quadro superior (engenheiro, administrador), e constituíam os   corpos  intermédios que desempenharam  papéis essenciais na evolução da  empresa.
Sobre estas regras se fundava  uma comunidade profissional defensora das leis , igualitária  e  que incluíam um potencial de promoção profissional e social.

 

Estes  valores  eram  inseparáveis dos   valores    do serviço  público.  Os funcionários estavam conscientes e orgulhosos de encarnar e garantir o interesse geral. Consideravam que a sua tarefa era importante e que implicava naturalmente um empenho da sua parte.  Para  os assalariados  das   telecomunicações  (e    dos correios), todos estes consideravam que tinham por missão manterem  a relação social. Além disso, a sua relação  com o utilizador (utente ou assinante) era baseada  na noção do serviço prestado  e de maneira equitativa para todos. A imagem que deles lhes dava a sociedade era positiva.

 

I.A.2-   Uma excepcional capacidade a enfrentar os desafios

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. III PARTE

 continuação daqui e daqui

 

Ao  saír do  hall  de entrada,um  segundo cartaz, uma assinatura, a da empresa de  auditoria, Technologia.  Ei-lo.

France  Télécom  tem o passado de uma administração empreendedora e inovadora que foi capaz de enfrentar grandes  desafios : “ o telefone para todos”, o minitel, a Internet, o telemóvel,etc. Os assalariados estava orgulhosos  da sua missão de serviço público, e estavam ligados ao seu estatuto de funcionários.

 

Este estatuto era protector para os assalariados de France Télécom. Este estatuto  garantia-lhes equidade e transparência: do recrutamento por concursos  externos  às promoções por concurso internos  ou pela antiguidade, tudo obedecia a critérios objectivos e conhecidos por todos, as retribuições eram igualmente submetidas a regras de graduação oficiais.

 

A desregulação  dos mercados das Télécomunicações e a mudança de estatuto de France Télécom, modificaram profundamente as  regras do jogo internas da empresas e os seus  assalariados   perderam  muitas das suas referências. No plano jurídico a situação de França Télécom apresenta  a particularidade  de um mix de registos de direito privado e público que concorrem para esta perda  de referências  e de haver  diferenças de tratamento dos assalariados ( dois sistemas de medicina, ou de trabalho, dois sistemas de contencioso).

 

Estas transformações foram fortemente acentuadas. na sequência do rebentamento da “bolha internet” pela sucessão de planos de recuperação e das reorganizações de France Télécom (TOP, NEXT, ACT) no momento em que a empresa estava numa estratégia de crescimento externo de envergadura. Nesta época France Télécom teve um nível de endividamento recorde e aparentemente esteve perto da falência.

 

Estes planos traduziram-se  por um colocar sob tensão da organização e expuseram fortemente os assalariados a múltiplos factores de riscos psicossociais. Uma nova organização do trabalho foi posta em marcha, com as reorganizações e os encerramentos de locais  a sucederem-se a um ritmo bastante rápido e a redução dos efectivos a ser drástica.  

 

A neo-taylorização de FT

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Terça-feira, 10 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. II PARTE

continuação daqui

 

 

 

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. II PARTE

Título específico do capítulo  ou seja desta segunda parte

 

Nesta  viagem,  agora a saír do  hall  de entrada,um  primeiro cartaz bem visível para os visitantes de estrolábio, uma assinatura, a de  Remy L.  Ei-lo.
 
Remy L: estou farto, é demais

Mathieu Magnaudeix

 

Rémy L., empregado de  France- Télécom-Orange  de 57 anos de idade  que se suicidou  na terça-feira de manhã em  frente do seu antigo lugar de trabalho em Mérignac (Gironde), deixou um vestígio do seu calvário . Em Setembro de 2009, enquanto que a empresa era um grande tema nos  meios de comunicação social por  causa de uma série de suicídios, este quadro técnico, de France -Télécom,  pai de quatro crianças, tinha enviado uma carta de  seis páginas assinadas  à direcção do grupo France-Télécom-Orange.  Mediapart obteve  este documento, colocado, disponível  desde quarta-feira no  nosso sítio Frenchleaks verificou-se  a sua  autenticidade.

 

Nesta  “carta aberta” ao  seu “empregador e ao seu accionista principal” (o Estado), Rémy L. elabora uma longa acusação contra a situação criada  às pessoas como ele, os funcionários de mais de 50, anos mal-amados  pelas reestruturações contínuas  e pelas “mobilidade(S) impostas”.  Na altura,  na qualidade de quadro em missão, mas sem afectação precisa, Rémy L. encadeia  as missões de que vê nenhuma  utilidade  “Estava então num estado de desespero total, confirma um colega. As missões que lhe confiavam  não tinham nada a ver com as suas competências e com o que gostava de fazer, a prevenção em matéria de segurança e de condições de trabalho.” O seu sindicato, o CFDT, tinha intervindo várias vezes para assinalar o seu caso à direcção. Sem resultado.

 

Solicitada esta quarta-feira por Mediapart, a direcção do grupo confirma que recebeu esta carta pelos correios a 18 de Setembro de 2009. Alguns dias antes , uma jovem empregada de France  Télécom tinha-se suicidado atirando-se da janela do seu escritório em Paris“ A carta  era dirigido ao presidente do Comité Nacional de Higiene e Segurança, o director das relações sociais Laurent Zylberberg”, confirma um porta-voz. De acordo com a France- Telecom-Orange, a carta foi transmitida seguidamente a Brigitte Dumont, na Direcção de Recursos Humanos, então encarregada de  seguir os casos mais delicados, cujo nome escrito à mão  consta com efeito da carta. “Um  sinal de alarme se acendeu  e Brigitte Dumont transmitiu esta carta a vários  responsáveis locais”, afirma o porta-voz. Depois,  Rémy L. permaneceu, no entanto, sem missão definida durante um ano.

 

Foi apenas em  Outubro de 2010 que a nova direcção (Stéphane Richard, nomeada  em Março de 2010) confiou a  Rémy L. um posto que lhe convinha: “de prevenção”, responsável pelas condições de trabalho; o sucessor de Didier Lombard tinha decidido reforçar o enquadramento em recursos humanos sobre o terreno.

 

“Mas desde o início do ano, que se sentia cada vez mais  desiludido neste  posto”, conta um colega. “Tinha escrito um email no  mês de Fevereiro a respeito de uma situação pessoal, e tinha incluído este email como garante  das condições de trabalho na  France Telecom, onde havia coisas que se passavam que deveriam  ter  sido  abolidas desde o novo contrato social, explicava esta quarta-feira sobre BFMTV a responsável regional do CFDT, Françoise Borde . Este mail foi enviado à direcção no mês de Fevereiro e não houve resposta.”

 

O CHSCT vai abrir na quinta-feira um inquérito sobre o suicídio de Rémy L. A carta de Setembro de 2009 será uma das peças “importantes”, confirma a direcção da França Telecom, que já iniciou investigações internas. Foi igualmente aberto um inquérito judicial.

 

O tom deste correio, redigido num período sombrio, é imediatamente premonitório. “Continuam todos, empregador, Estado accionista e instância de decisão, sindicatos, assalariados, a ignorar as verdadeiras causas profundas: daqui a dez anos estaremos ainda a   tratar  deste mesmo assunto…. enfim  não… uma certa categoria do pessoal terá desaparecido por ter partido para a  reforma ou por se ter  suicidado: e o problema será assim resolvido, finalmente!”

 

“Esta situação é endémica devido ao facto de nada ser feeito  para lhe fazer face: o suicídio permanece como a SOLUÇÃO!”, escreve ainda em maiúsculas ao fim do seu correio.

 

Na terça-feira, logo que conhecido  o seu falecimento , responsáveis de vários sindicatos tinham muito rapidamente estabelecido uma relação entre este acto desesperado e espectacular  e as condições de trabalho de  Rémy L. Com esta carta, compreende-se melhor porquê. A sua carta, escrita de um tom vivo, esclarece e com a força de exemplos detalhados  os disfuncionamentos internos da empresa e o clima social que nela existe  e tenta explicar porque é que os assalariados de  France Télécom Orange se suicidam. A carta pode sem encarada como querendo ser um verdadeiro e desesperado  sinal de alarme.

“Colocado no lixo”

 

Este correio confirma primeiro que tudo o sofrimento que Rémy L. tinha tido nestes últimos anos em France-Télécom . Antigo “agente das linhas” tornado quadro, Rémy L. afirma ter sido vítima de “perseguição sofrida”  desde há uma dezena de anos (trabalhava então na região de Dordogne), depois “de ter estado no lixo”. «Tinha sido fragilizado por uma década de sofrimento, nomeadamente, os quatro ou cinco últimos anos tinham sido muito difíceis”, testemunha um assalariado de Bordéus..

 

Rémy L. é  um destes funcionários de mais de 50 anos a  quem “as mobilidades” foram impostas: estes funcionários eram  o alvo principal das reestruturações efectuadas sob a direcção de Didier Lombard, Presidente até em Março de 2010. Em conformidade com os objectivos da direcção, a hierarquia convidava-o regularmente a deixar  a empresa ou a querer a sua reclassificação noutros serviços .

 

 É “a população atingida  pelos suicídios”, analisa  Rémy L. “aí eu encontro muita frustração neste contexto:  quadros privados do seu poder: não são mais nada! Mas os que são abandonados e obrigados a  fazer face ao malogro diário, esses  estão muito mal! Estão preocupados com a qualidade da sua prestação, tornada impossível, sem via de saída!”“Estou aí, neste segmento ”, analisa Remy L, lúcido. “Rátio de gestão da situação nacional:  estou farto, é demais.” Quando escreve esta carta, Rémy L. não tem posto de trabalho  definido. “Pois é, estou em missão: esta  qual é?

 

Ninguém mo  diz, quais são as regras?”

 

Conta as suas tentativas de repartir, de recomeçar,   noutro lugar,  no grupo ou na função pública territorial, a ausência de resposta, o absurdo das situações: “solicito,, encontro, só há apenas dois, … o recrutamento é anulado por uma célula de pilotagem territorial do emprego! Porque não: mas tenho esta informação porque a  procurei  com insistência e não há  explicações dadas! (...) Abrem-se as portas e descobrem-se  toneladas de não ditos : o duche é duro! Ao lado de tudo isto solicita ir  para a função pública territorial: (...) uma avaliação das competências afirma que somos  super! (...) Solicitei  várias vezes sem nenhuma consequência  favorável  e descubro fortuitamente aquando de uma confrontação com as instâncias de decisão do Conselho geral que a minha candidatura no entanto  até aí vista como muito interessante, não foi transmitida por decisão de FT.”

 

Uma situação kafkaquiana  que um grande número de empregados do grupo tem  vivido.

 

Mas nesta carta, Rémy L. (alguém “muito simpa”, “não suportava a injustiça”, de acordo com o dizer dos  seus  colegas) não fala apenas de si próprio . Tenta pelo contrário analisar muito analiticamente  as causas da crise social e o que empurra alguns dos seus colegas para o suicídio.

 

Elimina  as explicações que são demasiado simplistas do  seu ponto de vista  como “a gestão pelo terror”. Em contrapartida, com a ajuda de exemplos regionais (Périgueux, Agen, Bordéus, etc.) ou de situações que viveu, explica que “a gestão nunca não foi tida em conta como factor de sucesso”.“A base (...) nunca é escutada , não é reconhecida! não é apoiada!”, diz. “Forma-se à pressa, a todo a pressão, e  de maneira inadaptada: ninguém se incomoda. Depois, enviam-nos para o trabalho,  sem avaliação  quente, sem acompanhamento e sem avaliação a frio. Assim, isto ou vai ou racha (cela marche ou celá casse) : não há nenjhuma  protecção, não há nenhum apoio: é uma máquina a  fabricar desequilibrados, e, depois, basta agitar ligeiramente.”

 

Depois, critica duramente “os grandes diplomados que (...) (têm) esquecida a gestão de recursos humanos: não correm o risco de pensar porque isso é   terra desconhecida para eles próprios!”.

 

Tendo exercido  alguns anos antes  funções ligadas à prevenção, Rémy L. insiste  com precisão sobre o mal-estar dos técnicos entrados há já  várias décadas  nos PTT, entregues a eles-mesmos  no grande lago  das reestruturações, sobretudo no último período, sob a presidência de Didier Lombard: “A população que se sente mal é principalmente a que saiu da técnica, analisa. (...) Encontra-se posta em comparação com outros cujos cursos não sofreram nenhuma  ruptura tão recentemente. A sua culpabilidade é evidente e ela não tem nada a dizer: esta sai da  formação… apropriada,  de eficácia medida… não, ela  é simplesmente culpada de querer a mudança! (...) Tendo realizando campanhas de dupla escuta sobre plataformas  de acolhimento cliente, a minha constatação é a de que existe pessoas em situação de  forte risco: elas vêem que não estão  à altura dos colegas colocados em comparação, elas não esperam mais nenhum apoio, não esperam mais nada. Têm consciência que nenhuma posição de apoio dos  seus responsáveis é possível. são entregues como pasto  aos clientes.”

 

Finalmente, Rémy L. elabora estabelece   um veredicto  implacável:

 

“Em conclusão e como causa profunda (dos suicídios, nota da redacção de Mediapart):

 

Indigência na gestão dos recursos humanos desde que se trata de decidir sobre o que é humano, por falta de compreensão e de respeito humano, por medo das acções a lançar   ou das responsabilidades a tomar! Os quadros superiores  (...)  compreenderam  que mais vale viver o dia a dia, comer do bolo enquanto houver prato à frente! Os restantes, são uns pobre diabos que só servem para lhes atrapalhar a carreira. Vive-se, recebe-se as remunerações  e esquece-se a cobardia havida na gestão dos recursos humanos! Cobardia, indigência, ausência de responsabilidade na gestão.»

 

Um ano e meio depois de ter escrito estas linhas em forma de alerta , Rémy L. pôs fim aos seus dias diante do local onde há três anos ainda aí trabalhava . Na quarta-feira, os seus colegas fortemente comovidos  renderam-lhe uma homenagem em  Mérignac e em Bordéus.

 

Mathieu Magnaudeix, Rémy L., le suicidé de France Télécom: «Je suis de trop», Mediapart, 27 de Abril de 2011.

 

Comentário de Luis Moreira

 

Antes de gerir empresas também passei por funções de executante. Corria o ano de 1975, as empresas de celulose nacionais foram nacionalizadas e, eu era então, adjunto do director financeiro de uma empresa participada.Na reestruturação então levada a cabo foram despedidos muitos trabalhadores. Na altura propuseram-me ficar na empresa a ganhar o vencimento mas não me asseguravam a função.

 

A tentação, naqueles tempos turbulentos era grande para aceitar, mas tive o bom senso de ir pedir opinião, ao Dr Vitor Wengourvios de quem ouvira falar por andar, como eu, à volta do MES. Deu-me um dos melhores conselhos que alguma vez recebi. Disse-me, ele, "olhe, você recebe o vencimento mas por pouco tempo, porque logo que possível, eles põem-lhe uma vassoura nas mãos e mandam-no limpar a casa de banho, você não aceita e vai para a rua por recusa íligitima de ordem porque não tem função, tem que fazer o que lhe mandam. Mesmo que vá para tribunal, só daqui a dez anos é que tem a decisão. Receba e indemnização e venha-se embora". Lembro-me bem dele me dizer: "dinheiro na mão, e então assine, antes não!"

 

Como se vê já há 35 anos era assim, como é descrito no texto, que se tratavam os trabalhadores.

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

A France Télécom, exemplo do modelo social ainda hoje de referência, exemplo do modelo neo-liberal, por excelência. I PARTE por Julio Marques Mota

Nesta viagem ao mundo infernal do trabalho: o hall de entrada

 

Introdução

 

Numa certa contestação das teses dominantes, numa crítica às concepções do Director da Faculdade de Economia e da Universidade Nova de Lisboa e do Magnífico reitor do ISCTE, coloquei a hipótese de levar e acompanhar os visitantes de Estrolábio ao inferno do mundo da trabalho da economia financeirizada e tomávamos dois pilares como âncora, como referência, a Foxconn na China e a France Télécom em França. Como se disse no texto anterior a realidade com a sua força bruta ultrapassou agora e da forma mais gritante tudo o que sobre o tema pensávamos.

Tínhamos concebido como esquema um conjunto de textos a apresentar o problema, depois um relatório de síntese da Inspecção do Trabalho enviado ao Ministro do Trabalho do governo Francês e a descrição das situações ambientais que precederam o suicídio de alguns trabalhadores da France Télécom, a que se seguiria um texto longo sobre as condições de trabalho na Foxconn. Ter-se-ia assim uma panorâmica da problemática em análise.                                                                                                                                                                                                

 

Porém a morte de René L. e sobretudo a sua carta, escrita há cerca de um ano e meio, sobretudo a análise que faz das condições de trabalho na France Télécom mostravam que seria um bom caminho dar uma visão mais pormenorizada das condições de trabalho no quarto operador mundial das telecomunicações e ir portanto para além do relatório de síntese apresentado pelo relator do Ministério do Trabalho. Desta forma fazemos nossa a sugestão do médico xxxxx em não estar a evidenciar a questão do suicídio, desta forma, daremos ênfase à ideia que justificou este trabalho para o estrolábio: mostrar que estamos perante uma sociedade que eleva a precariedade ao seu expoente máximo e que por essa razão as faixas mais atingidas serão as mais fragilizadas, a dos jovens e da geração dos quase seniores.                                                                           

 

Naturalmente assim, à mesma agressão, a precariedade para todos, cada um resiste como pode e inegavelmente a capacidade de resposta ou ainda os efeitos dessa agressão estarão dependentes de múltiplos factores específicos, muitos deles específicos a cada sujeito, muitos específicos a faixas etárias, outros, específicos a questões de género, etc. Não é por caso que France Télécom com esta serie de suicídios pode ela ser vista como o microcosmos da economia global, da economia financeirizada.

 

Por aqui passam as privatizações, os investimentos por efeito de alavancagem, os incumprimentos, a reestruturação da dívida, as fusões, as inovações e os impactos sobre a mão-de-obra, as deslocalizações, a precariedade interna e externa, a pressão externa à redução das remunerações internas, enfim a massa salarial como variável de ajustamento último para as dificuldades de France Télecom, enfim, por aqui passam então todos os tipos de problemas dos países europeus que hoje vemos diariamente nos grandes títulos dos jornais e das televisões. Agora, talvez mais ainda com o quadro recessivo que se instalou e de que com os múltiplos planos de austeridade já implantados ou ainda sucessivamente a implantar, irá derivar um conjunto de planos paralelos com esse universo concentracionário que por esta via já igualmente se desenhou e que o recente documento pelo Governo português assinado com a Troika alguns sinais já bem nos mostrou.  

Algumas noções de base

 

Por aqui passa a financeirização da economia:

 

“Os Planos NEXT e ACT correspondem a uma nova era marcada por um processo de internacionalização afirmado, e por brutal empenho na criação de valor para o accionista e numa lógica de curto termo”. (…) Numa empresa tornada sociedade anónima a partir de agora julgada no mercado, a relação ao interlocutor externo é radicalmente diferente. Já não é o utilizador ou mesmo o cliente que é necessário satisfazer, mas sim o accionista”.

 

Por aqui passa a modernização da estrutura produtora de serviços através da neo-taylorização de France Télécom  :

 

“A Direcção parece ter decidido redefinir de forma coerente uma organização, os processos e um modelo de gestão para se assegurar que alcançaria os objectivos pretendidos entre os quais a redução dos seus efectivos. É assim que toda a organização de trabalho em France Télécom foi repensada em profundidade e em que a taylorização se tornou o modelo de organização e de gestão”

 

Por aqui passa a regra do custo mínimo independentemente da forma como é alcançado, por aqui passa o efeito de alavancagem:

 

“O programa Total Operational Performance (TOP) tem como objectivo libertar entre 2003 e 2005 cerca de 15 mil milhões de euros de economias que deveriam ser afectas à redução da dívida. O plano TOP consistirá a procurar todas as reduções de custos gerais que tenha sido possível efectuar. É a fase do “cost kiling” “

Por aqui passa a arma hoje absoluta da precariezação do trabalhador:

 

“Há assim uma precariezação institucional que é posta em prática e que se desenvolve em duas direcções:  

 

A precariezação da relação no trabalho pelo aumento da carga de trabalho e pela perda do sentido de trabalho bem feito.

 

A precariezação da existência profissional por uma gestão das carreiras e das mobilidades.”

 

Por aqui passa uma característica do capitalismo financeirizado: este não toma conta do corpo do trabalhador, como em Marx, mas do corpo e da alma, da vida do sujeito, do trabalhador sob contrato:

 

“ se chego tarde a casa, encontro as minhas filhas à porta, a chorarem. Elas têm medo que me aconteça alguma coisa. (…) Com a pressão no emprego, à noite, já nem sequer suporto os meus filhos”. (…) O apagamento das fronteiras entre tempo de vida privado e tempo de vida profissional conta seguramente entre as causas particularmente nefastas em matéria de saúde no trabalho”

 

Por aqui também passa a ausência de perspectivas de futuro:

 

“É absolutamente necessário que se melhorem as condições de trabalho senão os dramas vão continuar. Já não e mais possível trabalhar em tais condições. A empresa faz tudo para forçar as pessoas a demitirem-se. Sinto necessidade de perspectivas de evolução, numa outra actividade, com um aumento de salário, com melhores condições de trabalho que pura e simplesmente são trabalhar na calma, com honestidade e com respeito”.

Por aqui também passa a ausência de colectivo de trabalho:  

 

Durante esta fase numerosos assalariados mudaram de actividade e entraram no jogo da mobilidade. Esta fase marca o primeiro movimento importante da fragmentação do colectivo de trabalho, com um processo permanente de decomposição – recomposição dos colectivos de trabalho que passaram a ter como âncora novas lógicas económicas, mudar de actividade, etc.

Por aqui passa a falta de respeito a mais absoluta pela condição humana:

 

“Traíram-nos. Tratam-nos como sejamos menos que nada. (…) Falta de respeito pelas pessoas. Atentado à integridade. Houve ruptura de um pacto, sem pré-aviso. Investimos tudo na vida profissional, as horas deixaram de contar. Nenhuma realização enquanto que indivíduo. Quando se perde o seu trabalho, perde-se tudo. O ser humano deve ser tratado como cidadão, de maneira legal e equitativa. (…) O homem não trabalha só pelo dinheiro, o homem é um ser social. Não é uma questão de reparar. É necessário repartir sobre bases racionais. É necessário reformular. Um projecto simples e coerente.”.

Por aqui passa a longa distância que pode separar o em – si do para – si de uma classe de trabalhadores, o mesmo a dizer da sua situação de classe à sua consciência política enquanto classe:

 

“É necessário pararem de nos estarem sempre a encurralar. Quando nos encurralam, sem alternativa, resta-nos apenas a morte violenta”
 

“Continuam todos, empregador, Estado accionista e instância de decisão, sindicatos, assalariados, a ignorar as verdadeiras causas profundas: daqui a dez anos estaremos ainda a tratar deste mesmo assunto… Enfim não… uma certa categoria do pessoal terá desaparecido por ter partido para a reforma ou por se ter suicidado: e o problema será assim resolvido, finalmente”

 

Por aqui, na France Télécom, não se pode olhar para o céu azul:

 

“Quando olhava pela janela do primeiro andar não era o céu azul que eu via. Compreendo muito bem todos aqueles que passaram aos actos.”

 

Não, aqui não se pode ver o Céu azul porque se pensa rapidamente em morrer e ir para o Céu. Aqui, no mundo France Télécom, quarto operador mundial em telecomunicações, aqui sente-se por isso mesmo, sentimo-lo, nós e todos os que estes textos lêem, afinal, como Carlo Levi talvez o sentisse, que o Cristo de todas as nossas culturas, de todas as nossas religiões, Esse, aqui ainda não chegou, Esse por aqui ainda não passou, talvez porque em Eboli estará ainda aterrado, talvez porque em Eboli bloqueado terá ficado. Um outro Carlo Levi que esta nova história escreva, que esta nova paragem depois nos descreva.

 

A linha de equivalência, e não de fractura, com o sistema social actual

 

Na sua carta, René L, diz-nos que France Télécom se transformou numa máquina de criar desequilibrados mentais, dados os múltiplos mecanismos de pressão a incidir sobre os trabalhadores, ao longo do tempo, sobretudo sobre os trabalhadores na casa dos 50 anos, velhos para trabalhar dadas as rupturas de tecnologias eventualmente introduzidas e novos para se reformarem, a pesarem nos resultados financeiros. Impunha-se-nos, para esse objectivo, uma leitura de alguns dos principais relatórios de auditoria que foram feitos por Technologia à France Télécom e para nosso espanto, o universo concentracionário de France Télécom é emblemático, como exemplo in vitro, do modelo neoliberal que está a ser aplicado nas sociedades sujeitas à financeirização da economia e muitas das situações aí descritas podem ser vistas no Portugal “modernizado” pela mão de socialista chamados como José Sócrates, na França de Sarkozy, na Itália de Sílvio Berlusconi ou em qualquer outro país de economias ultraliberais apelidadas.

 

Uma viagem ao mundo do inferno de France Télécom será também uma viagem ao mundo brutal do trabalho que a União Europeia nos está a organizar (ou a desorganizar) quando interface esta é dos mercados financeiros, dos Blankfein, da Goldman Sachs, muito preocupados a realizar a tarefa de Deus como o chegou a afirmar, dos Jamie Dimon, de J. P. Morgan, dos John Paulson (nada a ver com Henry Paulson), que já foi o empresário do ano, minto, o especulador do ano, dos Dick Fuld de Lehman Brothers, dos Andy Hall, que como trader num só ano a especular para o CitiGroup sobre o petróleo, que nós pagámos, ganhou 100 muilhões de dólares de bónus, dos Warren Buffet, dos Macgraw-Hill, todos eles afinal e na companhia de muitos mais, bem entretidos andam a controlar, via União Europeia, as deslocações da mão invisível, a famosa regulação dos mercados, mas invisível agora não porque não exista, não, invisível agora, como diz um senador americano, porque anda para estes senhores e pelos nossos bolsos a roubar. Neste mundo infernal, a União Europeia aparece como o polícia a  garantir que essa missão será bem executada.

 

Estranha visão da Democracia que assim nos é dada.

 

Se assim é, então será para todos nós claro que a primeira linha dos obstáculos a abater é exactamente o modelo que serve de referência para os mercados de trabalho actuais, se é que de mercado ainda se pode falar, que dos Bancos aos Seguros, da Função Pública às Universidades, está a ser aplicado e que por essa via a todos nós tem condicionado, modelo este em que os nossos Durão Barroso e colegas de serviço, como se exemplifica agora com o documento do acordo assinado pelo Governo português e pela Troika, se têm bem empenhado em levar até ao extremo possível e em que, para tal, nos diversos governos nacionais se têm bem apoiado.

 

Esta é a razão pela qual paralelamente à viagem ao mundo do trabalho que vos temos estado a propor, colocaremos textos adicionais num outro horário, sobre a crise na Europa.

 

Abertas portanto as portas do mundo infernal de France Télécom, resta-nos entrarmos, para assim melhor compreendermos o que é o mundo do trabalho no capitalismo moderno, na economia financeirizada, na economia globalizada, mas com os olhos e os ouvidos atentos no exterior, pois como o presente texto nos indica as relações ou as equivalências com o que se passa algures em  Lisboa, em Madrid, em Roma ou em um outro canto qualquer desta nossa Europa talvez não seja muito diferente disto, como o que iremos presenciar depois de se entrar.

 

Já que estamos à entrada, entremos pois... e pela porta que que Réné L. com a sua carta nos abriu.

 

Comentário de Luis Moreira

 

Sou gestor de empresas, por trinta anos exerci aquela profissão, sou licenciado em Organização e Gestão de Empresas e em Contabilidade e Gestão de Empresas.

Trabalhei em cerca de 8 empresas como gestor, na área financeira e a seguir na área global. Fui também gestor do Programa de Construção e Equipamento de 12 novos hospitais.

E isto vem a propósito de quê?

Porque reestruturar uma empresa ou fechá-la, assim mandando trabalhadores para o desemprego é um acto de gestão como qualquer outro e quem exerce aquelas funções não pode furtar-se a fazê-lo. Custa muito, tira-nos noites de sono, mas muitas vezes não há alternativa. Se a empresa não é viável e se a minha tesouraria( as empresas começam todas a fechar pela tesouraria)  me disser que não há dinheiro para os salários que faço eu?

Experimentam-se todos os truques, anda-se às vezes anos a fazer contorcionismo técnico-financeiro, prolonga-se o prazo de pagamentos, encurta-se o prazo de recebimentos, reestruturam-se dívidas bancárias, aumentam-se os capitais próprios mas há um dia em que a realidade está, inexoravelmente, ali à nossa porta. Terminou!

Bem diferente é se a empresa é viável, está bem de saúde, mas o accionista quer mais. Fazem-se investimentos de equipamentos de substituição que  libertam trabalhadores, mudam-se produtos, procuram-se outros mercados deslocando para países longínquos processos produtivos onde a mão de obra é muito mais barata e os impostos mais baixos.Isto já é a procura de mais lucro, é a ganância a mandar e quem sofre são os trabalhadores que são lançados no desemprego.

Duas realidades bem diferentes, ambas dolorosas, mas a segunda é imoral e a primeira é necessária.

No caso que vimos tratando, a France Télécom, o que está em jogo é o principio que tudo subverte. Ganhar sempres mais, como se as "árvores chegassem ao céu". Começaram por um erro de gestão, aliás, habitual e bem conhecido, crescer sem que para isso se reunam as condições necessárias.São os gestores que deveriam ir para a rua e não os trabalhadores.

Crescer sempre a qualquer preço com o intuito de dar mais dinheiro ao accionista nem que para isso se tenha, implacavelmente, de destruir os postos de trabalho de muita gente. A privatização foi o primeiro passo, a partir dali foi sempre a tirar "

 

Iremos, ao longo dos dias comentar os diversos textos que o Prof. Júlio Mota publicar. Assim seja capaz. O leitor está convidado para a discussão deste tema tão apaixonante.

         
publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito

A France Télécom não deixa margem para sonhar -

Temos vindo, nas últimas semanas a apresentar textos ( da autoria ou encaminhados pelo Prof. Júlio Marques Mota) sobre o que se passa na France Télécom, onde a reestruturação da empresa tem levado à mobilidade , ao despedimento e, até mesmo, ao suicídio de trabalhadores.(35 trabalhadores suicídaram-se entre 2008 e 2009 )

 

A partir de amanhã, vamos estabelecer a relação entre a gestão dos recursos humanos daquele gigante das telecomunicações e as medidas que a Troika deixou como trabalho de casa em contrapartida do empréstimo de 78 mil milhões.

 

“uma análise das  relações técnicas e sociais de France Télécom  como paradigma do que o neoliberalismo em toda a parte quer vir a implantar.  As condições laborais agora a impor pela Troika são já disso um exemplo”.

 

Todos os dias às 20 h.

 

publicado por Luis Moreira às 01:00
link | favorito
Sábado, 7 de Maio de 2011

O trabalho e o trabalhador na economia financeirizada: uma viagem ao inferno organizado no mundo do trabalho em France Télécom 2ª Parte

 continuação daqui

 

 

A actividade profissional como descriminante

 

A diferença no ressentimento no trabalho é muito variável segundo o tipo de actividade exercida. É a variável mais significativa para o trabalho sob tensão.

 

As condições de trabalho difíceis atingem as categorias   não-quadros  e as de controlo nas lojas de distribuição e de serviço a clientes ( centros de chamadas)  e não-quadros na intervenção a clientes e nas unidades de gestão a clientes.

 

O desajustamento profissional (inadequação ao posto de trabalho e impacto negativo da mobilidade atinge  sobretudo as categorias controlo e não quadros, em particular os funcionários  para a gestão cliente, o serviço cliente para o telefone e as funções de apoio.

 

As relações sociais degradadas atingem sobretudo os funcionários não quadros para as intervenções cliente, não quadros e controlo para a distribuição e serviços clientes para o telefone.  

 

Resulta da análise feita por Technologia deste questionário que as populações fragilizadas são em particular aquelas que tendo sido sujeitas a mobilidades, afectadas pelos empregos orientados ao serviço cliente. Relembremos que é o plano  ACT que está na origem destas  mobilidades.

Em conclusão desta análise  dos questionários, Technologia indica as linhas sobre as quais   se deve trabalhar:
- a exigência de trabalho ligada à complexidade dos produtos  
-o ambiente de trabalho e de  instrumentos que lhe estão associados.
-as modalidades de acompanhamento da mobilidade funcional.
-a atenção a dar à mobilidade geográfica.
-o sistema de gestão de recursos humanos  de que se ressentem até os próprios    gestores de recursos humanos .
-o ambiente de trabalho que é tenso, por vezes violento, mesmo.

 

C) A analise de documentos

 

Os 45 relatórios de peritagem CHSCT ventilam-se em três grandes temáticas: a supressão de postos e  as mobilidades, as mudanças de horário, as mudanças de actividades. De tudo isto, 96% dos relatórios  têm  sobretudo a ver com projectos relacionados com os tipos de actividades, 62% deles colocam em evidência problemáticas importantes de saúde no trabalho (stress, depressão) e a existência de riscos psicossociais. Todos os tipos de estabelecimentos  têm a ver com as problemáticas de saúde.
a saúde no trabalho em France Télécom através dos relatórios dos peritos

 

Depois de se proceder a uma análise de cada um dos relatórios dos peritos,  Technologia estabeleceu uma síntese dos problemas de saúde no trabalho evidenciados nestes relatórios, e em especial, os seguintes:
-aparecimento de sofrimentos  no trabalho recorrentes e importantes ligados à degradação das condições de trabalho.  
-construções cognitivas novas e pesadas a colocar  em prática  devidas a evoluções  de   restritivas  muito rápidas e mal preparadas para novas actividades.
-sofrimento dos trabalhadores ligado à perda de identidade devidas às mobilidades profissionais e à mudança permanente do colectivo de trabalho.
-uma desestabilização  dos trabalhadores que face às mudanças repetidas e não controláveis têm o sentimento de não poderem efectuar  um serviço de qualidade.
-uma fragilização dos trabalhadores mais velhos que face aos projectos impostos e não antecipados duvidam da sua capacidade a investirem numa nova actividade.
-uma perda de referência que afecta a identidade dos trabalhadores e os coloca em situação de sofrimento pelo facto de se negar a cultura anterior.
-uma perda de confiança na empresa pelo facto da ausência de uma visão a médio termo nas reorganizações.

Relativamente ao acompanhamento destas peritagens, o estudo sublinha em especial que um terço delas foi contestado  no tribunal de grande instância. Esta quantidade não negligenciável de contestações testemunha a vontade de France Télécom  de não querer abrir o debate sobre a questão dos riscos psicossociais no seio dos CHSCT.

 

O estudo  concluiu-se sobre o facto  de que estes numerosos relatórios de peritagem constituem em si tantos alertas e as suas recomendações eram uma oportunidade para melhorar as condições de trabalho e de saúde dos seus assalariados. O estudo acrescenta que estas peritagens produzem efeitos locais muito limitados  e não contribuem para um verdadeiro reforço do diálogo social nem à aplicação de uma política de prevenção eficiente.

 

Em conclusão do estado das coisas  o relatório Technologia indica ter identificado uma “ não conduta” de mudança ligada a uma organização dos recursos humana desfasada o que contribuiu fortemente para o falhanço do sistema de prevenção.

 

Uma gestão de recursos degradada

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

O trabalho e o trabalhador na economia financeirizada: uma viagem ao inferno organizado no mundo do trabalho em France Télécom 1ª Parte


 

Um pouco de história sobre France Télécom

 

A lei de 10 de Julho de 1990, relativa à organização do serviço público dos correios e das telecomunicações, transformou o serviço público das telecomunicações em exploração pública, pessoa moral de direito privado, denominada France Télécom. Na data da promulgação da lei, esta entidade empregava funcionários e dos contratados em regime de direito público. O emprego de contratados de direito privado só era possível em casos muito limitados.

 

A lei de 2 de Julho de 1996 modificou a lei citada transformando France Télécom em pessoa moral de direito privado, na ocorrência, em empresa nacional, exploradora de serviço público, constituída em sociedade anónima. Esta empresa nacional viu reconhecido o direito empregar agentes, contratados de acordo com o direito privado.

 

A lei de 2003 retirou a qualificação de explorador de serviço público e de empresa nacional e submeteu France Télécom à legislação aplicável, às sociedades anónimas.

 

A privatização de France Télécom foi acompanhada do seu desenvolvimento à escala internacional. Esta adquiriu numerosas filiais. Em particular, em 2000 adquiriu o operador de telemóveis britânico Orange, que se tornará a marca de France Télécom. Ela internalizou igualmente um certo número de actividades das suas filiais.

 

Esta sociedade que emprega ainda 65% de funcionários, está sujeita ao código do trabalho e, em particular, ao conjunto das disposições relativas às instituições representativas do pessoal. As primeiras eleições tiveram lugar em 2004, os funcionários participam nas eleições e podem ser eleitos. Os funcionários são, pois representados por instâncias de direito privado. Todavia permanecem regidos por regras estatutárias que lhes são aplicáveis e que lhes são mantidas. Assim, as comissões administrativas paritárias, são mantidas e os funcionários continuam a ser regidos pelo estatuto de função pública.

 

Entre 1998 e 2002 France Télécom tornou-se o quarto operador mundial pela sua dimensão. France Télécom endividou-se, aquando das suas aquisições, em particular com as realizadas no período mais alto, o da bolha internet.

 

De 2002 a 2005 France Télécom tinha anualmente que pagar entre 5 e 15 milhares de milhões de euros. O ano de 2002 foi marcado por um prejuízo de 20 mil milhões de euros. Esta situação levou o estado a recapitalizar a empresa France Télécom e o reembolso da sua dívida foi reescalonado. Face a esta situação France Télécom reduziu os seus encargos e em particular os da massa salarial.

 

Assim, durante o período 2001 a 2005, os efectivos de France Télécom passaram de 148.900 a 121.000. Estas saídas maciças são essencialmente devidas às saídas para a reforma, para a pré-reforma e numa menor medida em deslocações para a função pública.

 

Aliás, em Junho de 2003 um acordo de gestão previsional das competências foi assinado com 4 organizações sindicais. A direcção desejava de facto graças a este acordo organizar a fluidez do emprego e reorientar os seus colaboradores para os empregos prioritários, a fim de acrescer a produtividade e a qualidade dos seus serviços. Este acordo organiza a mobilidade no interior do grupo e para a função pública. Esteve em vigor, de Junho de 2003 a Março de 2006.

 

Em Junho de 2005 Didier Lombard PDG de France Télécom apresenta o plano NEXT (Nova Experiência das Telecomunicações).

 

Aquando duma conferência de imprensa na associação dos quadros superiores e dirigentes de France Télécom, Louis Pierre Wenes, director-geral adjunto de France Télécom, indicava que era conveniente aumentar a produtividade de 15% entre 2006 e 2008, ou seja de 5 % ao ano. Didier Lombard nessa mesma reunião lembra as escolhas feitas para aumentar a produtividade de France Télécom e de dinamizar a política comercial. Dois eixos essenciais são escolhidos: suprimir 22.000 empregos em 3 anos e reforçar os empregos dedicados ao serviço cliente assim como às novas tecnologias. Pierre Louis Wenes acrescenta que é necessário fazer depressa, fazer depressa, fazer depressa”.

 

Do programa NEXT ao programa ACT: a organização sistemática do inferno

 

No centro do debate da France Télécom estão os planos de modernização, de reestruturação dos seus serviços assim como a consequente redução dos efectivos pretendida, no fundo, o que está no centro do debate é o plano de modernização NEXT (Nouvelles Experiences des Telecomunications)

 

Na convenção anteriormente citada, aquando da conferência realizada para os quadros nesta mesma empresa Didier Lombard e Louis Pierre Wenes afirmaram que se tratava de reduzir os efectivos durante os próximos três anos em 22.000 postos de trabalho, de fazer mudar 10.000 pessoas de profissão e de recrutar 5.000 pessoas.

 

Nesta reunião Didier Lombard confirmou: “em 2007, eu farei com que as pessoas saiam da empresa, de uma maneira ou de outra, e a casa não sobreviverá se os funcionários não quiserem ir enfrentar o cliente. Trata-se de uma transformação profunda.

 

Olivier Barberot, director-executivo do grupo em recursos humanos lembra a lógica que devia presidir a esta reorganização maciça implicando 22.000 empregos: “o que conta são os clientes … e conseguir um crescimento rentável. Parte-se dos clientes, procuram-se os sítios economicamente rentáveis.

 

Depois, encontram-se as pessoas e tudo se complica porque deixam de ser os números que passam a estar em jogo. Entra-se nas linhas da consideração humana. Mas é a lógica de negócio que sempre comanda.

 

O plano NEXT foi financeiramente um sucesso, o grupo desendividou-se: os dividendos pagos aos accionistas aumentaram, o volume de negócios cresceu e os custos diminuíram.

 

Em termos de efectivos os objectivos foram alcançados: 22.450 partidas definitivas, 14.000 pessoas foram mobilizadas das quais 7.500 foram mobilidades para os sectores considerados prioritários, 5110 recrutamentos externos.

 

A supressão de empregos e as mobilidades profissionais

 

Quando uma empresa suprime 22.000 postos de trabalho e faz mudar 10.000 de actividade, ela inscreve-se normalmente no quadro regulamentar previsto para o efeito, ou seja, a aplicação de um plano de salvaguarda do emprego e ou de um acordo de gestão previsional dos empregos e das competências. Ora nem uma via nem a outra foram postas em prática.

 

Estes dispositivos, porque são objecto de consultas entre instâncias representativas do pessoal e as negociações oferecem garantias em termos de transparência e de respeito dos direitos dos trabalhadores. Vários procedimentos estão previstos afim de que os assalariados possam exprimir a sua escolha, se esta não foi livremente consentida ou esclarecida, entre uma mudança de profissão, e entre uma mudança de local de trabalho ou de um despedimento.

 

Elas garantem que um assalariado não será mudado de um lugar para outro sem o seu acordo. O poder de gestão e de decisão do empregador é assim temperado e regulado por dispositivos negociados com os representantes do pessoal. São geralmente criadas comissões de composição paritária que permitem aos representantes do pessoal de vigiarem pela boa aplicação das medidas e tratar dos casos difíceis. Se estes dispositivos não permitem evitar o impacto sobre a saúde das pessoas implicando mudança de profissão ou uma mobilidade funcional, eles permitem pela regulação posta em prática limitar os seus efeitos.

 

A direcção de France Télécom fez a sua escolha de não inscrever as 22.000 supressões de emprego no quadro de um plano de salvaguarda do emprego.

.

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito
Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

Suícidios na France Telecom

Luis Moreira

Desde o início do ano, 23 colaboradores da France Télécom decidiram pôr fim à própria vida.As mortes ocorreram em diferentes regiões, entre trabalhadores com funções diferentes e sem que, aparentemente, tenham relação entre si.

Afectada por uma grande onda de suicídios, o que lhe valeu críticas até do governo francês, a France Télécom comprometeu-se a substituir a direcção geral.

A mudança resultou na chegada ao grupo de Stéphane Richard, que anunciou um plano para melhorar as condições laborais dos trabalhadores.

No entanto, os sindicatos entendem que as alterações realizadas pelo novo director não foram suficientes e denunciaram, em particular, que o anterior diretor, Didier Lombard, se mantém na presidência do grupo.

Os representantes dos trabalhadores consideraram que os suicídios estão ligados às condições laborais do grupo e sobretudo à obrigatoriedade de mudar de local de trabalho ou de região a que os trabalhadores estavam submetidos, no âmbito de uma reestruturação impulsionada por Lombard.

Eu creio que a mudança de local de trabalho possa ser uma chatice, ou até uma preocupação, ou mesmo um drama, mas não creio que seja um drama tão grande que a única saída seja o suicídio. Será para pessoas em crise existencial, conjugal, familiar ou padecendo de doenças que fragilizam a pessoa, mas não creio que uma pessoa normal, gostando do que faz e gostando da sua vida em pleno, reaja desta forma última, a uma simples mudança de local de trabalho.

A ser assim, normal, até onde irá um trabalhador que caia no desemprego? ou um desempregado de longa duração? e se lhe juntarmos o facto de ter pessoas a seu cargo? Há pessoas que acham normal aos trinta e tal anos terem um emprego para toda a vida, nunca mais sairem da sua terra natal, progredirem na carreira, uma vida sem sobressaltos e sem dúvidas. Temos que lhes dizer que não há, não é essa a vida que o futuro lhes reserva.

A dimensão de ambições pouco sensatas e não alcançadas são capazes de explicar melhor aqueles actos últimos. Na verdade, desde os objectivos cada vez mais ambiciosos das empresas,no que se refere à produtividade, aos objectivos e metas impostos aos trabalhadores, as remunerações cada vez maiores para o capital investido, o acenar com vencimentos elevados e mordomias, são uma máquina "trituradora" que afunda os mais fracos.

As árvores tambem crescem mas não chegam ao céu...

PS: a partir de uma notícia enviada pela Ethel.
publicado por Luis Moreira às 13:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links