Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine




Capítulo LVII

Décima sexta etapa: do Porto a Vilarinho

Só esta manhã, quando os bombeiros ma devolveram, reparei... A credencial traz um mapa do Camino Portugués com dois percursos vindos de Lisboa – um dos quais passa por Tomar e Figueiró dos Vinhos. Hei-de verificar se está sinalizado e, se acaso estiver, segui-lo-ei até Coimbra. O outro também não é por onde andarilhei: passa pelas Caldas e pela Batalha. Tentarei percorrê-lo…

Volto à Sé. A primeira parte dos vinte e sete quilómetros para Vilarinho (segundo o meu roteiro, embora a Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago assinale vinte e cinco; a diferença depende de onde se convenciona que começa e acaba a etapa) parece-me agradável. A esta hora ainda a mochila está leve e o Porto é na verdade uma cidade bonita; para mais, ao sábado de manhã, quase não há carros.

Travessa da Bainharia, largo de S. Domingos, rua das Flores, rua do Ferraz, rua dos Caldeireiros, praça Carlos Alberto, rua da Cedofeita... Vou caminhando e parando, de vez em quando, para olhar ou tirar fotografias.

A manhã está cinzenta, talvez chova outra vez. A partir da rua da Cedofeita, começa uma periferia heteróclita e Gérard Rousse torna-se omisso: ando quilómetros antes de chegar a um hipermercado e a uma antena de rádio que no roteiro aparecem poucas linhas mais adiante.

Avanço por uma rua, sempre a mesma, que vai mudando de nome, se vai prolongando – e de repente sinto-me em perigo. Em Lisboa o risco decorre, quase sempre, da presença de drogados, romenos ou africanos; aqui a população parece homogénea e, no entanto, pela maneira de me fixarem, a estudar se há possibilidades de... Sei que estou em perigo. Acelero o passo. Três ruas mais adiante, o ambiente é já distinto: respiro, aliviada.

Chego ao Padrão da Légua. Tenho um tio, uma tia e duas primas que moram aqui perto. Não lhes comuniquei a minha passagem, pois haviam de estranhar a indumentária – botas, chapéu, bordão, mochila – e sobretudo: não gostariam de me ver caminhar pelas estradas da península ibérica.

- Não tem família?...

- Tenho!

Atravesso Leça do Balio. (Lembro-me do romance O Balio de Leça de Arnaldo Gama. Tenho-o na mesa de cabeceira há vários meses, hei-de lê-lo quando regressar a casa.)

Começa a chover. Paro para tirar o equipamento, visto o blusão, ponho a mochila, poiso a capa por cima. Pode ser que, como ontem, chova agora miúdo e, de tarde, a chuva cesse.

Passo por Araújo, desço uma calçada, atravesso uma ponte. De súbito, vejo: andam a lavrar o campo com uma junta de bois. Oiço por vezes, entre o ruído dos carros, as ordens do lavrador aos bois. Na minha vida só devo ter ouvido algo de semelhante na gravação do Michel Giacometti... Chove agora com força. Apesar disto, tiro uma fotografia. Uma apenas. À pressa, carrego no botão, sem enquadrar. Não tiro segunda fotografia por estar a obstruir a passagem de um automobilista que, com a característica delicadeza, apita: a ponte romana, por cima do rio Leça, não é larga e, com a mochila e a capa, ocupo de facto muito espaço.

Dou-me conta da violência dos contrastes: de um lado, prédios, do outro, prédios, por cima um viaduto, no meio uma via rápida e, à beira dela, a ponte romana e o campo a ser lavrado por uma junta de bois. A vida aqui, apesar desta lavoura tradicional, não obstante a permanência desta ponte, não tem nada de bucólico.

Reparo agora… O meu roteiro avisa, cuidado, muito cuidado, cuidado máximo – mas não há outra possibilidade. A princípio não quero acreditar. Tenho que atravessar a pé uma via rápida?! Como é possível?... Paro para reflectir. Não, não é o efeito retardado da visita às caves de Vila Nova de Gaia no cérebro do Gérard Rousse: vejo nitidamente, do outro lado, uma seta amarela. Obrigada, Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago, porém... já por aqui passaram? A pé?... Então as passagens para peões – aéreas, subterrâneas, luminosas, sejam quais forem – não chegaram a esta terra?!... Que câmara é esta?! Da Maia?...

Se calhar... razão tinha a Martine pois, num país onde os peões têm de trepar por cima dos separadores, também pode haver percevejos!

Valha-me Santiago. (Nunca me apeteceu tanto voar como neste instante.) Eu sou baixa, o separador é alto, a mochila pesada, está a chover... Não é fácil. Espero que não haja carros mas como, calçada com crocs, com esta carga e este obstáculo, sou inevitavelmente lenta, os carros aproximam-se – oiço várias buzinadelas. Consigo chegar viva ao outro lado. Foi milagre!
publicado por Carlos Loures às 10:00
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