Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

ROMANCE SONÁMBULO, por Federico García Lorca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Gloria Giner

y a Fernando de los Rios

 

 

   Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El  barco sobre la mar

y el caballo en la montaña.

Com la sombra en la cintura

ella sueña en su baranda,

verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Verde que te quiero verde.

Bajo la luna gitana,

las cosas la están mirando

y ella no puede mirarlas.

 

   *

 

   Verde que te quiero verde.

Grandes estrellas de escarcha

vienen com el pez de sombra

que abre el camino del alba.

La higuera frota su viento

com la lija de sus ramas,

y el monte, gato garduño,

criza sus pitas agrias.

Pero ¿quién vendrá? ¿Y por donde…?

Ella sigue en su baranda,

verde carne, pelo verde,

soñando en la mar amarga.

 

    *

 

   - Compadre, quiero cambiar

mi caballo por su casa,

mi montura por su espejo,

mi cuchillo, por su manta.

Compadre, vengo sangrando,

desde los puertos de Cabra.

- Si yo pudera, mocito,

ese trato se cerraba.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

- Compadre, quiero morir

decentemente en mi cama.

De acero, si puede ser,

con las sábanas de holanda.

¿No ves la herida que tengo

desde el pecho a la garganta?

- Trescientas rosas morenas

lleva tu pechera blanca.

Tu sangre rezuma y huele

alrededor de tu faja.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

- Dejadme subir al menos

hasta las altas barandas;

¡dejádme subir!, dejadme,

hasta las verdes barandas.

Barandales de la luna

por onde retumba el agua.

 

   *

 

   Ya suben los dos compadres

hasta las altas barandas.

Dejando un rastro de sangre.

Dejando un rastro de lágrimas.

Temblaban en los tejados

farolillos de hojalata.

Mil panderos de cristal

herían la madrugada.

 

   *

 

   Verde que te quiero verde,

verde viento, verdes ramas.

Los dos compadres subieron.

El largo viento dejaba

en la boca un raro gusto

de hiel, de menta y de albahaca.

¡Compadre! ¿Dónde está, dime,

dónde está tu niña amarga?

¡Cuántas veces te esperó!

¡Cuántas veces te esperara,

cara fresca, negro pelo,

en esta verde baranda!

 

   *

 

    Sobre el rostro del aljibe

se mecía la gitana

Verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Un carámbano de luna

la sostiene sobre el agua.

La noche se puso íntima

como una pequeña plaza.

Guardias civiles borrachos

en la puerta golpeaban.

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar.

Y el caballo en la montaña.

publicado por João Machado às 10:00
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Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010

Guerra da Cal, homem de três corações. - II

Carlos Durão

Nos anos em que Guerra da Cal residiu em Londres, por sorte para mim, pude renovar a relação epistolar com ele, que se tornou aberta amizade e troca mútua de opiniões e dados em gostosas conversas bastante frequentes no seu lar. Entre os inúmeros temas tratados, talvez interesse aqui ao leitor o da sua relação com o poeta espanhol Federico García Lorca, que foi e é objeto de especulação, por vezes mal-intencionada, para alguns intelectuais da Galiza, incluídos académicos da RAG.

É bem conhecida a estreita amizade que uniu o galego Guerra da Cal ao andaluz García Lorca, desde a sua convivência na Residencia de Estudiantes de Madri , da que foi fruto a sua colaboração nos famosos Seis poemas galegos lorquianos, também revistos posteriormente por Eduardo Blanco Amor, amigo deles .

Guerra da Cal tem afirmado publicamente que ele se limitou a fazer de dicionário vivente na génese destes poemas, mas em comunicações privadas assegurou ter-se manifestado com maior precisão sobre este tema numa espécie de depoimento literário que só depois da sua morte devia vir à luz. À espera desse testemunho, eis o que sobre este tema foi até hoje de domínio público:

Segundo Carlos Martínez-Barbeito, "(...) será preciso pensar que sus poemas sufrieron una reelaboración, más importante de lo que pudiera creerse, tal vez una verdadera traducción (...) por mano del prologuista, Eduardo Blanco Amor, o de Ernesto Pérez Güerra, cuya intervención me confesó, siendo él y yo estudiantes de Filosofía y Letras en la Universidad Central, el mismo año de la publicación" .

Mas Blanco Amor diz: "Os Seis Poemas Galegos tiveron un primeiro reaxuste entre Federico e Ernesto Guerra Dacal, o máis íntimo amigo de Lorca (...). El foi quen tivo o primeiro contacto co manuscrito dos Seis Poemas Galegos (...) A miña intervención é puramente ortográfica, nalgúns casos métrica (...)" . E também: "Mi complicidad se reduce a un leve paso por las ajetreadas cuartillas, con probidad pendolista y ortográfica" .

Posteriormente Guerra da Cal disse que os Seis Poemas Galegos "foram o resultado duma colaboração linguístico-literária entre Lorca (...) e quem isto escreve (...). Quatro desses originais, completos, e as duas primeiras estrofes de outro, são do meu punho e letra (...)" .

E de Eduardo Blanco Amor diz "repetidamente ter-se atribuído uma participação implícita que nunca neles teve. Teve, isso sim, uma intervenção, 'a posteriori', deturpadora dos textos originais" . Por exemplo, a mudança do título autógrafo galego de Guerra da Cal "Vella Cantiga" para o castrapo "Canción de cuna pra Rosalía de Castro, morta" .

(...) "não é este o único poema maltratado pela leviana ingerência de Blanco Amor (...) Tem-se repetidamente falado dos meus "silêncios" em relação à parte que me coube na origem e criação dos Seis poemas galegos (...) A recente descoberta dos meus autógrafos no espólio [de E.B.A.] -depositado no Arquivo e Biblioteca da Deputação Provincial de Ourense- e a sua publicação em fac-símile por José Landeira Yrago fazem com que a natural reserva por mim até hoje guardada neste assunto já não se justifique. É óbvio que o esclarecimento circunstanciado e pormenorizado, agora imperativo, da minha parte nos Seis poemas galegos, não teria cabimento nesta nota. Essa é coisa que fica para ser feita, como é devido, num futuro próximo" .

Esse “futuro próximo” ficou “imemorial”, por citar o título dum poemário seu . Mas ainda não chegamos ao remate da história dos famosos “Seis poemas galegos” de Lorca: pouco tempo depois de mudar a sua residência, mais uma vez, para Nova Iorque, escrevia-me dali:

“(...) e sobre a nova especulação, com esse motivo, em relação à verdadeira autoria do [sic] POEMAS GALEGOS, de Lorca, repito-te o que já me ouviste dizer mais de uma vez em Londres. Isto é, que se eu relatasse com veracidade como nasceu a ideia dessas composições e como elas foram elaboradas, seria inevitável -e mais sendo eu poeta, como sou pelos meus pecados- que houvesse pessoas que pensassem que eu estava a fazer pavoneio com plumas alheias, de alta ornitologia. Eu tenho um livro completo, até com capa pronta, ilustrado com abundantes fotografias inéditas de grande interesse histórico, que se publicará quando eu deixar o mundo dos vivos. Entretanto, deixa os especuladores especular! (...)”

Seja como for, o certo é que houve nesses poemas uma bela colaboração entre dous poetas, de dous povos da Hispania, o que é a melhor prova de que podemos caminhar juntos se (nos) queremos... Quanto à verdadeira autoria dos poemas lorquianos, era cousa que Guerra da Cal não revelou diretamente; mas ele era homem que tinha a delicadeza e a elegância de sugerir, ensinar, influir dum segundo plano, e deixar que “plumas e alta ornitologia” (como ele dizia) assinassem os poemas. Que eu saiba, não se publicou o livro a que ele se referia. Temos que supor que a sua viúva terá disposto ao respeito. O meu derradeiro contato com ela (com quem naturalmente falava em Londres quando eu ia visitar o Ernesto) foi quando se depositaram as cinzas de Ernesto no Jardim das Cinzas do Cemitério Alto de S. João, de Lisboa.

A minha impressão -mas nunca lho perguntei diretamente, só pelo "discurso"- é que o nosso Ernesto foi "coautor", em todo o caso iniciador, impulsor, mas deixou que a pluma do seu amigo assinasse e, a meu ver, fez bem.
_________

Guerra da Cal conservou com veneração desenhos e outros originais de Lorca a ele dedicados (Federico chamava-lhe "Ernesto del Sil") e fotos de ambos naquele Madri efervescente da pré-guerra civil. Parte deste material foi reproduzido em publicações das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal (Revista Nós, Cadernos do Povo e outras); na revista espanhola Punto y Coma; no livro Rosalia de Castro... (vid. n. 24); no poemário dacaliano Coisas e loisas (Papeles del Alabrén, IV, Málaga, 1992); etc.



Seis poemas galegos, de Federico García Lorca, Editorial Nós, Vol. LXXIII, Santiago, 1935 (prólogo de Eduardo Blanco Amor; há inúmeras edições posteriores). Antes fora publicado o seu Madrigal á cibdá de Santiago (depois incorporado aos Seis poemas galegos), 11 de dezembro de 1932, no jornal El Sol, Madri (reproduzido na revista Yunque, no. 6, Lugo, 1932, e na Resol, no. 6, Santiago, dezembro de 1932); vid. "Cronología gallega de Federico García Lorca y datos sincrónicos", José Luis Franco Grande e José Landeira Yrago, revista Grial, no. 45, julho-agosto-setembro, 1974. Não é preciso dizer que os Seis poemas galegos lorquianos tornaram-se famosos pela sua autoria, e mais nos anos do após-guerra, particularmente precários e dramáticos para a literatura e a nacionalidade da submetida Galiza. Eduardo Blanco Amor foi, anos depois, destacado romancista em galego (A esmorga, Gente ao longe), e jornalista em castelhano na América do Sul.


"García Lorca, poeta gallego. Un viaje a Galicia del cantor de Andalucía", no semanário El Español, Madri, 24 de março de 1945 (reproduzido em Grial, no. 43, janeiro-fevereiro-março, 1974). Acrescentemos aqui que Pérez Güerra eram os apelidos do nosso Ernesto no sistema espanhol, no que o apelido do pai vai diante do da mãe: o pai chamava-se Román Pérez da Cal e a mãe Laura Guerra Taboada. Este Guerra era pronunciado Güerra, por ser ela filha do engenheiro italiano Carlo Guerra, que dirigira a construção do caminho de ferro na Galiza. Anos depois, Ernesto mudou os seus apelidos para o sistema do mundo lusófono, vindo a ser o nosso conhecido Ernesto Guerra da Cal. Tal é, pois, o seu nome legal, e assim foi consignado no Registo de Nascimentos de Ferrol, a sua cidade natal. Portanto está errada a afirmação relativamente frequente nas quatro províncias galegas de que este nome seja um suposto “pseudónimo literário”, e até “heterónimo”! (vid., p. ex., a Gran Enciclopedia Gallega, Silverio Cañada editor, Santiago-Gijón, 1974; o Dicionario de Escritores en Lingua Galega, de Francisco Fernández del Riego, Galaxia, Vigo, 1990; O Correo [sic] Galego, 25 de abril de 1994, e passim; “Adeus a Guerra da Cal”, por Xavier Alcalá, revista Eco, novembro, 1994; etc.).


Vid. Carlos Casares, "Leria con EBA", Grial, no. 41, julho-agosto-setembro, 1973.


Do prólogo de Seis poemas galegos, op. cit.


Vid. a nota sobre "Vella cantiga" em Rosalia de Castro, Antologia poética, Cancioneiro rosaliano, E. Guerra da Cal, Guimarães Editores, Lisboa, Colecção Poesia e Verdade, 1985. (Repare-se, por exemplo, na grafia "nubens" nesse poema, que foi corrigida noutras edições para "nubes", caso repetido com as "nubens" do poema "Danza da lúa en Santiago"; tb a palavra “adolescente” foi mudada para “adoescente” no poema “Noiturnio do adolescente morto”; podem ver-se as grafias originais nos autógrafos de Guerra da Cal, vid. n. 27).


Id.


“Castrapo” é a mistura de espanhol com galego, ou galego macarrónico, sintoma da colonização linguística do nosso país.


No jornal La Voz de Galicia, Corunha, 6 de junho de 1985, e em Grial, no. 88, 1985. Com os “silêncios” alude Guerra da Cal ao académico da RAG Xesús Alonso Montero, quem muitas vezes se tem perguntado em público por que Ernesto não falava mais pormenorizadamente do tema.


Vid. n. 24, e tb Punto y Coma, inverno, 1988-89, Madri ("Federico García Lorca en el recuerdo"), com documentação gráfica de fotos e desenhos dedicados por Federico ao seu amigo Ernesto.


Vid. n. 7


Carta de 1 de junho de 1993.
publicado por Carlos Loures às 09:00
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