Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros - por Carlos Loures

 

Nenhum dicionário, por maior que seja, pode conter a totalidade dos vocábulos que compõem um idioma – por várias razões. A primeira advém do facto de as línguas  estarem sujeitas a uma evolução permanente – os neologismos, os empréstimos de outros idiomas, os modismos, os regionalismos… O idioma é um tecido vivo e, por isso, sujeito a uma permanente evolução.

Ramón Menéndez Pidal nos seus Estudios linguísticos (Madrid,1961), chamava a atenção para a necessidade de haver um dicionário que constituísse um inventário completo da língua falada e escrita,  “independentemente dos seus eventuais condicionalismos de perdurabilidade”. Referia-se, como é óbvio, ao idioma castelhano. Porém, este tal «dicionário ideal», como o grande filólogo definia, também não existe para a língua portuguesa. Mesmo nos melhores, como é o caso do de Antônio Houaiss

ou no de José Pedro Machado,  há um filtro que nega a passagem à maioria dos modismos,  truísmos ou vulgarismos. E, no entanto, eles fazem parte da linguagem, são quotidianamente usados. Entra neste filtro o tal conceito de perdurabilidade, que não deixa passar alguns modismos, e o de moralidade, que veda a entrada a truísmos e vulgarismos, os chamados palavrões e o calão, apenas deixando entrar um ou outro que  o uso tenha consagrado e tornado pela banalização menos agressivo.

Porém, o calão, o truísmo, o vulgarismo, fazem parte da língua – Fernão Lopes, Gil Vicente, Bocage, nunca hesitaram em utilizar essa face oculta do idioma.

Os regionalismos são outro território que os pequenos dicionários são forçados a quase ignorar e mesmo os grandes não podem cobrir integralmente. São palavras usadas

pelas populações e pelos escritores. Regionalismos encontram-se em muitos escritores contemporâneos. O seu uso confere autenticidade e realismo aos textos, sobretudo aos diálogos.  Talvez Aquilino Ribeiro mais do que qualquer outro escritor tenha recorrido às palavras da sua Beira Alta. Muitas das palavras que foram objecto de entrada neste dicionário fazem parte do léxico aquiliniano.

É por isso que trabalhos como este de Vítor Fernando Barros – o Dicionário de Falares das Beiras - tendo como base uma laboriosa recolha, são de uma utilidade muito grande, constituindo um precioso contributo para esse levantamento geral e exaustivo que Menéndez Pidal desejava para o castelhano. As Beiras ficam com um dicionário extremamente útil, com um inventário de muitos dos vocábulos exclusivos da região. E aqui há a dizer o seguinte: sobre uma obra de âmbito similar - Porto Naçom de Falares, de Alfredo Mendes (Âncora Editora, Lisboa, 2010) , entre as mais de 1700 entradas, existe uma apreciável quantidade de termos que, usando-se no Porto, fazem parte do calão nacional. Aliás, já numa obra anterior sobre o argot lisboeta o Novo dicionário de calão lisboeta, de Afonso Praça. (Círculo de Leitores, Lisboa,  1998) se incorrera na mesma apropriação regional de termos que, tendo nascido aqui ou ali, se espalham por todo o País. Afinal, Portugal tem uma população inferior à de algumas metrópoles e o território também não é grande.

Não está este trabalho de Vítor Fernando Barros  totalmente  isento desse «pecado». Mas, uma ou outra apropriação de vocábulos que pertencem ao acervo nacional (aliás, justificada no prefácio do autor) não invalida a excelente recolha de termos genuinamente beirões que constitui a grande maioria do corpus da obra.

publicado por Carlos Loures às 23:00

editado por Luis Moreira às 19:32
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Dia das Beiras - Falares das Beiras (1)

Dicionário de Falares das Beiras

 

Visita ao chastre (um exemplo de um texto genuínamente beirão)

 

Estava no chastre e começava a ficar dezorro de ouvir aquele ibau a beldar. Era o resultado da xícara ou do zagrão que o fistor não dispensa com o taco.   Pouco depois chegou o Manel, que é outro gabanista e abusa do verdilhão. Foi um endego. Pensei: - Olhora!  Quem visita o chastre tem de ustir. O Manel começou a saltar, a remangar, com as suas aldraças, e disse para comigo: - Cá temos o labarinto. Vai o chastre,  pega num jamboto e dá com ele nas norsas A do Manel que desata numa grande macarena. Nunca mais visito o chastre – hás-de chari-lo!

 

Perceberam? Não?

 

Aldraças, s.f.pl. Artimanhas, astúcia (Malpica do Tejo – Castelo Branco).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Beldar, v. Intr. Tagarelar, falar despropositadamente (Pinhel).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Chastre, s.m. Alfaiate (Figueira de Castelo Rodrigo).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Dazorro, Adv. De rastos (Pampilhosa da Serra).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Endego, s.m. Embaraço (Monsanto).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Fistor, s.m. Homem que pretende saber tudo e nada sabe; fanfarrão (Trancoso).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Gabanista, adj. Gabarola (S. Pedro do Sul).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Hás-de chari-lo!, loc. interj. Usa-se em tom de escárnio, com o sentido de estás bem livre disso, nem vê-lo (Ílhavo).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Ibau, s.m. Fulano (Quadrazais – Sabugal).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Jamboto, s.m. Cacete, moca (Figueira de Castelo Rodrigo).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Labarinto, s.m. Discussão, algazarra (Castanheira de Pêra).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

 

Macarena, s.f. Lamúria, lamentação (Moimenta da Beira; Sernancelhe).

(In Dicionário de Falares das Beiras, de Vítor Fernando Barros, Âncora Editora/Edições Colibri, Lisboa, 2011).

publicado por siuljeronimo às 02:00

editado por Luis Moreira às 01:14
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